sábado, 26 de novembro de 2011

O menino de rua do Natal

Quando eu era criança, esperava ansiosamente pelo Natal. Na verdade, eu sequer sabia que o Natal era comemorado em 25 de dezembro. Sabia apenas que era uma época de fim de ano, em que eu estava de férias e em que eu ganhava muitos presentes de meus pais, de meus avós e da tia Ângela. Mas havia alguns indícios de que o Natal estava chegando. A cidade se iluminava e o povo ficava passeando pelas lojas, que permaneciam abertas até à noite. Outro indício era quando o papai voltava para casa. Sendo ele caminhoneiro, chegava a passar até 70 dias longe da gente. Eu percebia que o Natal ia se aproximando quando ele voltava para casa e ficava mais de uma semana. Era bom tê-lo em casa, mesmo sabendo que na maioria das vezes ele ficava triste por não ter ganhado o que precisava durante o ano, e que nos próximos dois meses a gente teria que economizar ao máximo por causa da falta de trabalho. Daquela época, eu guardo uma cena – não sei se de um filme ou de uma propaganda – em que uma família enorme, feliz e com a mesa farta, ceia às vésperas do Natal, enquanto um menino de rua permanece do lado de fora, olhando, encantado, as luzes da árvore, a comida da mesa farta e a família reunida. Era uma imagem que me deixava muito triste.
Os anos foram se passando. Não ganho mais presentes – pelo contrário, hoje sou eu quem os dou. Minha esposa e meu filho é que me aguardam chegar do trabalho ao fim do dia. E ao contrário do que ocorria na casa dos meus pais, temos aqui em casa a tradição de montar uma árvore de Natal e enfeitá-la. Além disso, procuramos reunir nossos pais e alguns parentes mais próximos para a ceia e para o almoço de Natal. É uma forma de celebrar e de respeitar este momento tão especial. Passo o ano inteiro ansioso por esta época, que vai ganhando um significado cada vez mais importante a cada ano. Mas o clima natalino é sempre entrecortado ou interrompido por pequenas discussões, desentendimentos ou mal-entendidos na família, fazendo com que haja sempre um mal-estar entre os poucos que reunimos aqui em casa. Nem todos os presentes parecem estar felizes, deixando de lado, por mais católicos que sejam, o perdão, a tolerância, a aceitação, o amor e o respeito que caracterizam o verdadeiro espírito natalino. Sem querer, estas pessoas tão queridas fazem com que eu me sinta um eterno menino de rua, como aquele que de minha infância. Obviamente, não por causa da mesa farta ou da árvore de Natal...

2 comentários:

Sandra Portugal disse...

Natal traz lembranças de infância...
Traz união familiar e alegrias...
Mas traz as marcas das desigualdades sociais, da falta de solidariedade, da falta de afeto, especialmente para aqueles que não sabem valorizar o que tem , o que conquistaram e em especial os privilegiados em ter a preservação da família unida!
Excelente texto, excelente blog!
obrigada pela visita e comentário.
Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com//

Graziela disse...

Antonio que texto lindo, muito bem escrito, como sempre e com tantas verdades.
Sabe que por muitos anos, na minha casa, o clima era o mesmo, ate que um dia, eu criei coragem e pedi para todos darem as maos e fazermos uma oracao juntos, antes de "atacarmos a comida".
Nao sei te dizer se foi o poder da oracao, minha atitude ou o que, mas lembro bem, que aquele foi nosso melhor Natal. Nao trocamos nenhuma farpa ate tarde da madrugada e no dia seguinte continuou tudo tranquilo.
Desde entao sempre lembro daquela noite, pq o importante e' vivermos alguns momentos juntos nessa noite e varios durante todo o ano. Ninguem disse que seria facil, mas e' possivel.
Abracos e otima semana para voces.
Gra
*muito obrigada pela visita e pelo comentario la no blog, sua presenca e' sempre importante para mim. Saiba que mesmo sem comentar muito, sempre leio seus textos. Vou tentar melhorar, vou sim.