domingo, 20 de novembro de 2011

Presente, passado ou futuro?

Quando encosto a mão na maçaneta do portão verde de entrada da casa da vovó Lourdes, percebo que ainda é preciso empurrá-lo com força para abri-lo. Como sempre, a maçaneta parece gelada. Ao abri-lo, avisto o chão pintado com gravite vermelho. À direita, o jardim que a vovó tanto estima. Nele estão plantadas as roseiras que tantos lindos botões já produziram, muitos dos quais eu roubei durante minha adolescência – com a permissão da vovó, é claro. No pequeno alpendre, à esquerda da porta de entrada, um pequeno altar onde repousa uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como sempre, não entro pela porta de entrada. Sigo pela estreita calçada lateral, cujo piso vermelho parece ter sido encerado. À minha direita, sobre as pedras que recobrem o chão, está o caminhão do vovô Crotti, com o qual ele trabalhou o ano todo. Esta é a época do ano em que ambos precisam descansar e curtir sua família. À frente do caminhão, protegido pela sombra da garagem de madeira, encontra-se o carro do vovô, um Gol de cor vinho, fabricado no final dos anos 80. Dentro dele, ouvindo música no rádio toca-fitas, estão meus primos Danilo e Gustavo.

Chego ao final da calçada lateral, que se separa da parte cimentada do quintal por meio de um pequeno portão de madeira. Fico ali por uma fração de segundos, parado, apenas observando. Tio Tim e meu primo Fernando estão de pé, com uma tesoura nas mãos, colhendo uvas da velha parreira para a vovó Lourdes preparar a salada de frutas, como ela sempre faz todos os fins de ano. No banco, encostado à pequena parede que separa a área cimentada da área coberta por pedras, próximos aos vasos de samambaia tão estimados pela vovó, minha irmã, meu primo Frederico e minha prima Mariana estão conversando e rindo. Na varanda, logo na primeira cadeira, tio Agenor conversa com o vovô Crotti, provavelmente sobre alguma das viagens que fizeram ou sobre algum baile a que foram juntos. Sentado de lado na cadeira de uma das extremidades da enorme mesa, papai ouve o tio Buchudo contar sobre seu novo caminhão. Com um dos pés apoiados sobre a pequena mureta lateral da pia e com o cotovelo sobre o joelho direito, tio Natal presta atenção à conversa deles. Minhas tias Ângela e Flávia preparam a mesa de madeira dos "12 apóstolos" para o almoço. Na pia, mamãe enxagua a poeira de alguns talheres e pratos que há tempos não são usados, com minha afilhada Clara abraçada à sua perna. Ao fogão, tia Vânia e tia Nilce ajudam a vovó Lourdes com a comida. São parte do cardápio o delicioso macarrão furado e a maionese que só a vovó Lourdes sabe fazer. Todos os filhos da vovó e do vovô estão reunidos e parecem felizes por estarem ali, em paz, para celebrar o início de um novo ano.

Quando o pequeno pinscher, até então no colo do vovô Crotti, me avista em frente ao pequeno portão de madeira, ele pula e corre em direção a mim, encosta suas patas dianteiras e, de pé, começa latir. É o aviso de que eu cheguei. Todos então param por um segundo o que estão fazendo e se viram para ver quem está ali. Ao avistar Débora, Miguel e eu, todos sorriem e dizem a mesma coisa: “Olha, o Miguel chegou!”

Sinto, então, a mão da Débora tocando meu ombro. “Amor, o Miguel acordou”. Quando abro os olhos, dou-me conta de que estou em minha casa, em outra época de minha vida. Jogo as pernas para fora da cama, calço os chinelos e corro até o quarto do Miguel. Quando olho para dentro do berço e seus olhos me identificam, ele sorri e começa a bater os pés de alegria. Tomo-o então nos braços e olho para ele com ternura. Um nó enorme se faz em minha garganta e meus olhos se enchem de lágrimas. Percebo então que o sonho do qual eu acabara de acordar foi uma combinação idealizada de algumas boas lembranças isoladas dos finais de ano na casa de meus avós paternos, mas que aquela situação do sonho jamais aconteceu nem nunca acontecerá, principalmente porque o tio Agenor e meus avós já faleceram e a casa deles foi vendida e demolida. Sem condições de reconstruir o passado, enxugo então minhas lágrimas e encaro minha grande responsabilidade: oferecer ao Miguel, no presente, momentos felizes e marcantes para que ele não precise, no futuro, ter que sonhar com situações que nunca existiram.
Se você tiver que escolher entre as lembranças do passado e seus planos para o futuro, escolha viver o presente. Mas não se esqueça que você só será  feliz se tiver os três em sua vida.

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