quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Super-Bonder cola tudo

2003. Estou sentado à mesa da cozinha da casa da vovó Maria, minha avó materna. A mesa de aço branco, de formato redondo, encontra-se entre a porta que dá acesso ao jardim de inverno e o acesso à sala de jantar. À minha frente estão o balcão de mármore e portas marrons, que parecem fundir-se ao piso marrom. Vovó está preparando o almoço. Aos poucos os espaços vazios da pia vão sendo preenchidos pelos utensílios de alumínio que ela acabou de usar. Sempre de vestido e avental, ela segue sua rotina caseira em um ritmo frenético. Achando-se magra, ela reclama do pouco peso. “Duardo, eu queria tanto engordar um pouco...”, lamenta ela, alheia aos problemas que alguns quilos poderiam lhe trazer. Aos poucos seus movimentos rápidos vão fazendo com que gotas de suor surjam por todo o seu rosto, conferindo brilho à sua pele quando irradiadas pela luz que penetra pela porta do jardim de inverno. Vez ou outra ela pára, abre a torneira da pia, molha as mãos e as passa pelo rosto. “Fio do céu, que calor!”, diz ela, abanando-se com o avental. Em seguida, ela abre a geladeira, em cuja porta estão pregados inúmeros adesivos e ímãs, cada um deles com uma história pra contar. Ela se posiciona cuidadosamente do lado da geladeira, para não tomar “friagem”, e levando as mãos ao seu interior, pega um dos vários potes de margarina Qualy onde ela guarda os “restinhos” de “mistura” que sobrou de outras refeições. É um costume de quem já sofreu com a falta de comida ao longo das sete décadas de vida. Enquanto isso, o “Louro”, seu papagaio verde de mais de 50 anos, começa a gritar de seu poleiro na varanda. “Ô, Antoim! Cadê o Louro?”, grita ele com uma voz rouca, muito parecida com a da vovó, chamando pelo vovô. “Quieta, louro!”, grita ela, continuando os preparativos para o almoço.
Mesmo estando concentrada nos preparativos para o almoço, a vovó segue prestando atenção nas minhas histórias da semana em Ribeirão Preto. Ela adora que eu venha aqui visitá-la, assim como eu fazia quando era adolescente. Sempre cuidadosa e prestativa, tê-la como avó é um privilégio e tanto. “Vovó, se procurar no dicionário a palavra vovó, eu vou encontrar a foto da senhora lá”, digo a ela quase todas as vezes em que venho aqui. De repente, noto que a vovó está picando almeirão enquanto conversa comigo. Eu me levanto, preocupado. “Vovó, toma cuidado com essa faca, pelo amor de Deus! Ela tá bem afiada!” Ela ri. “Non, fio, eu estou acostumada”, diz ela cheia de confiança. Agora próximo a ela, encostado ao balcão da pia, continuo a contar minhas histórias. Eis que, após uns dois minutos, sou interrompido por um grito da vovó. “Puta merda!”, grita ela, chacoalhando a mão esquerda com o dedo cheio de sangue. “Vovó, a senhora machucou?”, pergunto, afoito, tentando socorrê-la. “Não foi nada, fio. Eu só cortei um ‘tampo’ do dedo”. Quando olho o corte, reparo que o estrago fora tão grande que a ponta de seu dedo está quase reta. “Não tá doendo, mas precisa parar de sangrar”, diz ela, tranqüila e forte como uma pedra, enquanto eu me sento, já enfraquecido diante de tanto sangue. Ela então retira um pote de açúcar do armário da pia e enfia o dedo dentro do açúcar. Da cadeira eu avisto o branco do açúcar aos poucos ganhar tonalidade avermelhada. “É, não tá dando certo...”, diz ela. Ainda com a mão esquerda dentro do pote de açúcar, ela se abaixa e pega, com a mão direita, um pote de café. “Agora vai parar”, diz ela, confiante, enquanto tira o dedo do pote de açúcar e o transfere para o pote com café. O resultado, no entanto, não parece ser o que ela esperava. Ela então me pede ajuda. “Duardo, procura pra mim aí no meio do almeirão a ponta do meu dedo.” Surpreso, eu fico sem saber o que fazer. Então ela mesma, mais que depressa, começa a vasculhar o almeirão em busca da ponta do dedo cortada. “Achei!”, diz ela, levantando com a mão direita, como se fosse um troféu, a ponta do dedo que há pouco foi cortada. “Mas pra que a senhora quer esse pedaço de pele, vovó?”, pergunto-lhe, sem entender o que está acontecendo. “Então... – diz ela, séria, olhando para a ponta do dedo cortada que está em sua mão direita, como se o estivesse analisando – será que se a gente colar com Super-Bonder meu dedo não pára de sangrar?”. Sem saber o que fazer, e emocionado diante de tamanha ingenuidade, sorrio-lhe timidamente dou-lhe um abraço apertado. “Ô, vovó... Como a senhora consegue ser tão fofa?”

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