sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011


2011 foi um ano muito especial. Profissionalmente, foi um ano muito intenso. Embora não tenha sido tão produtivo quanto 2010, consegui fazer de tudo um pouco e sobreviver às exigências diárias de uma instituição de ensino privada. Dei mais alguns pequenos passos em minha carreira acadêmica, mas que podem ser considerados como muito importantes. Há, obviamente, muitas coisas que eu gostaria de ter feito e algumas pessoas com as quais ainda me sinto em débito. No entanto, o sentimento de ter falhado no momento não chega a incomodar ou preocupar, principalmente porque dediquei a mim o tempo que em outras épocas eu dedicaria a realizar estas tarefas. Há 10 meses iniciei minha jornada para me fortalecer fisicamente, principalmente por causa da coluna e do joelho, e venho colhendo ótimos resultados. É óbvio que ir à academia toma-me mais de uma hora diária, que eu poderia dedicar ao trabalho, porém neste sentido, estou orgulhoso de mim mesmo por ter me mantido firme na meta que estabeleci de cuidar mais de minha saúde. De fato, as dores no joelho direito (cujos ligamentos foram rompidos em janeiro) e na coluna estão cada vez mais raras. Tenho me sentido menos cansado, e por que não dizer, mais feliz. Fiz também cirurgia para correção de miopia no início dezembro (agora você sabe, caro leitor, o motivo pelo qual nenhuma postagem nova foi escrita neste período...), e apesar das semanas sem decifrar letras pequenas, estou satisfeito com o resultado até agora.

No entanto, qualquer coisa que eu escrever sobre 2011 não terá nenhum significado se comparado com o nascimento do Miguel. Meu filho, tão aguardado e sempre querido, veio ao mundo em 10 de maio, às 12h8min, fazendo transbordar de alegria o coração deste pai “babão” e de boa parte da família (não direi todos, pois alguns ainda não o conhecem e outros preferem olhar para outro lado). Concordo com o que os mais experientes dizem: tudo em nossa vida muda após a paternidade. Não apenas a rotina, mas principalmente o sentido da vida. Em resumo, posso dizer que 2011 foi o melhor ano de minha vida.

A você, caro leitor, que acessa periodicamente este blog, ou que chegou até ele por acaso através de alguma palavra-chave digitada no Google, gostaria de agradecer pelo interesse em ler as histórias que aqui escrevo, e desejar a você e aos seus muita saúde, amor, paz, alegrias e realizações em 2012. E não se esqueça: na virada do ano, não se esqueça de agradecer pelo ano que passou.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pesadelos em série

Estou no fundo da casa da vovó Lourdes, próximo ao tanque onde ela lavava roupas. Ao meu lado estão mais duas pessoas que eu não consigo identificar. “O que estamos fazendo aqui? A vovó Lourdes não está mais entre nós”, digo a elas. Elas, no entanto, lançam-me um olhar de indignação. “Você não sabe o que está dizendo, diz uma delas”. De repente, sinto uma luz forte, talvez de algum veículo, incidir em nossas costas e projetar nossas sombras na parede do muro. Para minha surpresa, quatro sombras aparecem projetas. Um frio me percorre a coluna. “Eu não te disse? Ela ainda está entre nós”,  diz uma das pessoas. Amedrontado, eu corro em direção ao portão, mas acabo escorregando na calçada avermelhada. Na queda eu bato o pulso esquerdo no chão e arranco parte da pele. Eu me levanto, meio cambaleando, e ouço a voz da vovó Lourdes. “Não adianta você fugir. Você vai morrer em um acidente de carro na estrada que vai para Franca”. Recordo-me então de não ter passado o cartão de ponto ontem à noite, e de precisar ir hoje até o trabalho para justificar minha ausência. “Acho melhor deixar pra fazer isso um outro dia. Que se dane a minha falta!”

Estou agora em uma esquina que fica a uns 150 m aqui de casa. É aqui que eles escolheram para rodar algumas cenas do novo filme do Superman, que estreará no ano que vem. Eles estão fazendo a seleção para escolher quem interpretará o personagem de Clark Kent nestas cenas. “Action!”, diz o diretor, em inglês. Eu entro na casa velha com um vaso de flores nas mãos e o coloco sobre uma mesa. Ao meu lado esquerdo, avisto dois velhinhos interpretando Martha e Jonathan Kent, meus pais adotivos. Eu sigo em direção a eles, porém não me lembro do roteiro. Olho então para o diretor, formulo mentalmente a minha pergunta e a faço: “What am I supposed to say now?” O diretor parece nervoso. “Oh, crap! Cut, cut! Where a hell do you find this asshole?”, pergunta ele aos seus assistentes, indignado com a minha interpretação. "Listen to me, guy: there is no screenplay. You have to improvise. Come on! You are an actor, are not you?” Visivelmente intimidado, eu procure repetir a cena, mas o resultado não é muito diferente do anterior e o diretor, irritado, pede novamente pra cortar a cena. Aproximo-me então dos dois velhinhos e peço algumas dicas sobre a minha interpretação, mas eles não são muito receptivos. “OK, guys, let’s take a break”, diz o diretor. No entanto, ao invés de uma parada para o café, eles começam a desmontar o cenário e vão embora. Agora a minha timidez deu lugar ao nervosismo. Colo então os dois cotovelos junto ao corpo, com os anbraços projetados para frente, mordo os próprios dentes e sinto meu sangue ferver. “Eu vou provar a eles que eu posso ser o Superman”. De repente, dou um salto em direção ao céu e paro a uns quarenta metros do chão. Avisto vários homens vndo em minha direção trajando uniformes do Superman. Certamente são outros candidatos ao papel principal. Solto então um grito de raiva altíssimo e parto em direção a eles. Com socos e empurrões, eu os derroto graças à minha recém-adquirida super-força.

A cena é interrompida pelo grito do Miguel, que acabara de acordar. Só então dou-me conta de que eu  não tenho superpoderes e de que eu jamais serei, para alívio de todos, o Superman nas telonas. Eu me contentarei em ser apenas um super-pai para o Miguel. Isso, obviamente, se a profecia da vovó Lourdes em meu pesadelo jamais se concretizar.

E lá se foi mais um Natal...

Hoje, 28 de dezembro, abri um dos e-mails que recebi uma semana atrás desejando um feliz Natal. A sensação foi estranha, pois bateu certa tristeza. Na varanda, a árvore iluminada e o papai Noel pendurado na parede são vestígios de uma data que já passou. As lojas da cidade já não estão mais abertas e as ruas estão praticamente desertas em relação à semana passada. O Natal já passou. Ficou para trás, levando com ele algumas velhas expectativas que alimentei durante o ano. Pensando bem, a sensação de agora é a mesma de exatamente um ano atrás: a de que eu não vou mais nutrir expectativas em relação a esta data. Assim como no ano passado, o pensamento que tenho agora é o de que não haverá mais ceia aqui em casa. Há, no entanto, uma razão um pouco diferente e mais forte para eu tomar esta decisão: os familiares a quem convido sentem sono e dormem cedo. Mal chegam às 23h e já estão sonolentos, encostados pelo sofá da sala ou abrindo a boca de sono, aguardando o momento de ir embora. E a maioria, de fato, vai  embora antes da meia noite. Eu não os culpo. Na verdade, a maioria dos familiares ainda está trabalhando nesta época do ano. Não estão de férias como eu e a Débora. Há também outra parte que prefere rezar ao invés de comer. Estes talvez estejam mais próximos do sentido verdadeiro do Natal: o de celebrar o nascimento do menino Jesus.

A passagem do Natal deveria trazer uma mensagem de paz e de amor aos nossos corações. Afinal, esta data significa o nascimento da esperança. Todos os anos eu peço, em silêncio, que Deus possa nascer em meu coração e que eu possa ser uma pessoa melhor. Este pedido é, de certa forma, uma metáfora. Deus não habita em nossos corações, e sim em nosso cérebro. Sempre que nos concentramos em algo bom ou ouvimos nossa “voz interior”, estamos falando com Ele. Deus, portanto, nunca nos abandonará, pois está o tempo todo conosco. Às vezes, no entanto, deixamos outras vozes do mundo falarem mais alto que Ele. A conclusão a que chego é que, apesar dos meus pedidos de Natal, a voz de Deus parece estar abafada em mim. Não tenho reservado o devido tempo para ouvi-Lo. Eu sei que Ele está comigo o tempo todo, mas não conversar com Ele traz-me uma sensação de fraqueza, vazio e solidão indescritível. Minha alma precisa de silêncio para que eu ouça uma única voz. Eu preciso reencontrar-me com Deus. Talvez assim, com Deus vivo em meu coração durante os 365 dias do ano, o Natal deixe de ser uma data tão esperada e, por que não dizer, frustrante.  Talvez assim eu não me sinta como um menino que pediu um presente ao papai Noel e não ganhou.

A triste saga de um celular Nokia N8 - parte 1

Junho de 2011. Estou em uma das filiais da Claro, operadora que escolhi há 7 anos. Estou aguardando há quase uma hora... A maioria dos clientes que estão sendo atendidos se queixa da qualidade do serviço prestado, principalmente o de internet móvel. Por isso o atendimento é demorado. Eu quero apenas trocar o meu celular por um outro que tenha uma boa câmera, pra que eu possa tirar boas foto se filmar o Miguel. Eis que um dos clientes termina de ser atendido e eu sou chamado. O funcionário me atende com muita atenção, e ao ouvir o tipo de celular que eu quero, sugere-me o Nokia N8. O modelo não me é estranho, pois o Rodrigo tem um desses. Quando pergunto o preço, descubro que tenho que desembolsar mais de R$300,00 para adquiri-lo. Mas o rapaz, muito atencioso, me dá uma dica interessante: “Liga na Claro e pede pra dobrarem seus pontos do Clube Claro. Se você fizer isso, o celular sai de graça pra você. Eu agradeço e sigo as instruções. Dentro de cinco minutos estou novamente na fila, e em pouco menos de meia hora estou sendo atendido. Uma hora depois saio da loja com o tão desejado aparelho.
Julho de 2011. O tal Nokia N8 é realmente um arraso Tiria boas fotos e ainda filma em uma definição incrível - isso, claro, em se tratando de um celular. Estamos usando o aparelho aqui em casa como uma câmera fotográfica. Nem chip eu coloquei nele. Débora está gostando bastante de usá-lo para tirar fotos do Miguel e filmá-lo. Será ótimo para acompanharmos o seu crescimento.
17 de dezembro. 6h20min. Acordei cedo para levar o carro para lavar. Dou uma olhada rápida nos pertences que estão pelo chão, retiro os que eu consigo ver e sigo para o lavador.
10h55min. Paro com o meu carro em frente ao lavador. Desço e procuro o proprietário. "Ele deu uma saidinha mas volta logo. O senhor não quer esperar?", diz um de seus funcionários. "Amor, será que eu posso levar o carro?" pergunta Débora, preocupada com seu horário no cabeleireiro. Sigo então em direção ao carro da Débora já limpo, fecho as portas, dou partida, manobro-o e o estaciono, entregando-lhe as chaves logo em seguida. Ela procura no porta-luvas pelos seus óculos, que lá estão. Ela acena e sai. Eu arranco uma nota de R$50,00 e entrego a um dos funcionários, ambos jovens com idade entre 18 e 20 anos, e espero o troco de R$5,00. Um deles sai para trocar o dinheiro, enquanto fico conversando com o outro, um ex-aluno. Pego então o troco e saio, pedindo para que agradeçam ao proprietário em meu nome. 
19 de dezembro. 21h. Estou descarregando as fotos para o computador. Estou quase terminando. Faltam apenas as fotos do Nokia N8 para serem trasnferidas. "Amor, onde está o celular?", pergunto.  "Então... Faz um tempão que eu não o vejo", diz ela. Sem me desesperarr, continuo as cópias de segurança que estou fazendo. "Ah, não esquenta, não. Qualquer hora ele aparece.'
20 de dezembro. 19h30min. Estamos passeando de carro pela cidade. Débora, Clara, Miguel e eu. Débora coloca a mão no porta-luvas do carro para guardar o óculos e faz um comentário preocupante. "Nossa! Agora que eu percebi! Eu tinha deixado o celular aqui no porta-luvas. Você verificou se o celular estava aqui antes de levar o carro para lavar?" Um frio me percorre a espinha. De fato, eu não tinha olhado no porta-luvas pra ver se lá havia algo de valor antes de levar o carro para lavar. Desesperado, mudo o percurso e dirijo-me para casa. Em poucos minutos estou revirando as gavetas aqui de casa e procurando pelo celular em todos os cantos possíveis. E nada!
21 de dezembro. "O senhor por acaso não viu um celular no porta luvas do...?" Antes de terminar minha pergunta, o proprietário do lavador responde, sorrindo. "Sim, eu vi, sim! Eu coloquei ele no porta-luvas! Eu o vi enquanto soprava o carpete do carro, caído sobre o assoalho. Eu sempre dou uma faxina antes de lavar por fora e passar para os meninos. Pode olhar, que está lá!",  "Pois é... Acho que algo de errado aconteceu... porque no porta-luvas ele não está."
(continua...)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A árvore da vida


Eu não sei a data exata em que assisti ao trailer do filme “A árvore da vida”, do diretor Terrence Malick. Sei que o encontrei no site do Omelete, e fiquei desde o início interessado em assistir ao filme nos cinemas. Para minha surpresa, o filme foi exibido em um número reduzido de salas pelo país afora, excluindo as cidades de Ribeirão Preto e Franca, as mais próximas de onde moro. Parti então para a tentativa desesperada de baixa-lo da internet. Encontrei as versões em russo e italiano, mas não em inglês. Quando enfim consegui encontrar a versão em inglês, faltava a legenda. Resumindo: foi uma jornada desanimadora e frustrante.

No dia 12 de dezembro, às 18h16min, o DVD enfim chegou a minhas mãos Assisti ao filme já sabendo um pouco do enredo e tendo lido várias críticas negativas na internet. O fato é que o filme, como um todo, é um pouco confuso para os meus padrões intelectuais. Não sou muito crítico, gosto de cinema como entretenimento. Há um tom filosófico e metafórico no filme que às vezes confunde um expectador relativamente leigo como eu. Por exemplo: o pai, interpretado por Brad Pitt, é comparado a Deus em sua relação com seus filhos: quer o bem dos mesmos, mas às vezes é severo demais com eles, particularmente com o mais velho. De qualquer forma, há cenas marcantes que fazem valer muito a pena assistir. As imagens são simplesmente maravilhosas. A mãe, interpretada  por Jessica Chastain, com  um de seus filhos nos braços, ainda bebê, aponta para o céu e diz: “È lá que Deus mora”. Em seu sermão na igreja em que a família frequenta, o padre diz: “Deus às vezes envia moscas às nossas feridas ao invés de curá-las”. O pai tenta ensinar aos seus filhos: “Não sejam íntegros demais, caso contrário serão facilmente passados para trás”. O menino, ao rezar, questiona Deus após a morte por afogamento de um de seus amiguinhos: “Como o Senhor pode exigir que eu seja bom, se o Senhor mesmo não o é?”

Há uma cena do filme em que o pai pega o filho mais velho e vai mostrar as falhas no serviço que ele fez no jardim. Neste momento eu me recordei do papai me levando para mostrar as “rebarbas” que eu deixava quando lavava o caminhão dele.  Obviamente eu nunca desejei que o papai morresse ou disse a ele pra me expulsar de casa, como fez o tal filho no filme. Mas identifiquei muitos aspectos em que a relação entre o pai e o filho mais velho assemelha-se à minha relação com o meu pai.

Após assistir “Árvore da vida”, passei a olhar para o meu filho de outra forma. Certamente eu serei duro com ele, mas também precisarei demonstrar muito amor. Assim como o personagem de Brad Pitt, eu quero que meu filho seja um homem íntegro e independente, esforçado, leal e humilde e que saiba tratar todo mundo com muito respeito. Meu sonho é que daqui a 20 ou 30 anos eu possa ler este post e chegar à conclusão de que a semente que eu plantei tornou-se uma árvore realmente cheia de vida. Que meus filhos - se eu tiver outro, além do Miguel - sejam a árvore da minha vida.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vendo a vida com outros olhos


Terça-feira, 6 de dezembro. 16h12min. Estou vestindo uma túnica verde e uma toca vermelha. Estou aguardando o colírio analgésico fazer efeito. Papai está sentado na sala ao lado, apreensivo. Olho para cima, para não deixar que o colírio escorra face abaixo. Subitamente, sou tomado por um monte de pensamentos aleatórios, porém todos associados a situações que me fizeram estar aqui neste momento. Faz mais de 20 anos que sou míope. Passei mais de 15 usando óculos de lentes grossas e armações pesadas. Um peso a mais para os ombros de um jovem tímido e que todos tachavam de “nerd”. Com o tempo as situações constrangedoras foram se acumulando. Foram inúmeros cumprimentos a pessoas que eu não conseguia identificar. Foram inúmeros lances em partidas de futebol em que eu errava a posição da bola. “Foi gol?”, perguntava para alguém que não tivesse o mesmo grau de miopia que eu. |Ainda assim, relutei por vezes a cirurgia. Ora, como viverei sem minha visão? Esse foi o meu pensamento durante anos. Mas um sonho me fez mudar de idéia. Neste sonho eu estava em um lugar deserto e corria de um lado para o outro sem identificar o que lá havia, até que eu chegasse bem perto. Na verdade, foi um verdadeiro pesadelo!
O momento chegou. Os médicos me chamam para uma sala. Lá estão cinco pessoas – três médicos e duas enfermeiras. A situação me parece tensa. “Pra que tanta gente se a cirurgia é tão simples?”, eu me pergunto. Um dos médicos pede pra que eu me deite e permita que a enfermeira me prepare. Ela tenta lacrar um dos meus olhos, já anestesiados, com uma espécie de fita crepe. O médico se posiciona e faz aproximar-se de mim um equipamento cheio de luzes, que mais se parece um disco voador. Ele pede pra que eu foque minha visão na luz verde. Ele coloca algo em meu olho pra me impedir de piscar. Sinto então uma espécie de bisturi se aproximando e raspando meu olho. É como se ele arrancasse uma parte do meu olho. “Estou preparando seu olho para o laser. Neste momento, estou raspando o epitélio do seu olho”, segue ele com sua narrativa. Quando ele termina a tal raspagem, minha visão fica totalmente desfocada. Eis que a luz vermelha do “disco voador” se posiciona sobre meus olhos e nele incide o laser. Um forte cheiro de queimado toma conta da sala. Após pouco mais de 20 segundos, o laser se afasta e o médico inicia um processo de higienização do meu olho “queimado”. Ele despeja um líquido desconhecido várias vezes, como se quisesse lavar meu olho. Ele disse que a cirurgia neste olho terminou, mas eu ainda não vejo praticamente nada. Após a limpeza, ele posiciona uma lente, que segundo ele é para proteger o olho. E como se fosse um milagre, tudo o que vejo ganha contornos bem definidos. Satisfeito e tentando segurar a empolgação, eu tenho a certeza de que poderei , enfim, ver a vida com outros olhos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Minha última carta ao papai Noel

Querido papai Noel,

Estou escrevendo esta carta na esperança de que o senhor a leia algum dia. Dizem que o senhor não existe, mas mesmo após 35 anos de existência, eu espero que todos estejam enganados, caso contrário o senhor não terá o desprazer de ler estas poucas linhas.

Pois bem. Durante toda a minha vida procurei ser um “bom menino”. Nunca, em toda a minha existência, eu fiz algo com a intenção de prejudicar alguém. Da mesma forma, eu nunca desejei o mal a qualquer pessoa que fosse, por pior que tivessem sido suas atitudes para comigo. Jamais faltei com a educação com meus pais, avós, tios ou colegas. Enfim, tenho tido um bom comportamento durante todos os meus 35 anos de vida, condição que o senhor exige para nos presentear no Natal. Mesmo assim, papai Noel, eu nunca vi o senhor se manifestar. E não me refiro a não tê-lo visto descendo pela chaminé – não apenas por não termos uma aqui em casa, como também porque tal cena seria um tanto grotesca, dado o diâmetro de seu abdômen. Eu estou me referindo ao espírito natalino que o senhor diz derramar ao passar voando na noite de Natal sobre nossas casas, trazendo paz e harmonia às nossas famílias.

Em todas as cartas que escrevi para o senhor, eu jamais pedi presentes materiais. Embora eu nunca tenha sido um menino de família rica, jamais me revoltei com a falta de brinquedos ou roupas. O que eu mais pedi em minhas cartas – que, pelo visto, não chegaram até o senhor – foi que trouxesse paz à minha família. Foram anos e anos pedindo – em alguns, eu cheguei a implorar... – e nada do senhor me atender. Às vezes eu pensei ter sido atendido, mas à medida que os anos foram passando, eu fui percebendo no rosto das pessoas por mim tão queridas que se reuniam na noite de Natal que o senhor sempre falhou com o seu “espírito natalino”. Com isso, papai Noel, o número de pessoas à mesa na noite de Natal está cada vez menor a cada ano e com feições cada vez mais insatisfeitas, embora a mesa esteja cada vez mais farta – se o senhor falhou, Deus não!

Por isso, papai Noel, estou lhe escrevendo esta que será minha última carta para comunicar-lhe que de mim o senhor não receberá mais nenhum pedido. Também não espere que eu fique olhando para o céu aguardando o senhor passar com suas renas derramando espírito natalino sobre nossos lares como se fosse um pó mágico. A esta altura da vida, essa imagem me parece um tanto fantasiosa. Peço-lhe, inclusive, que não fique aparecendo em propagandas na televisão, tentando induzir todo mundo a acreditar no tal espírito natalino. A única coisa que o senhor consegue com isso é tornar-nos cada vez mais infelizes, por nos fazer acreditar em algo que não existe. É, papai Noel... Apesar da minha teimosia em escrever esta carta, eu estou chegando à conclusão de que o senhor realmente não existe nem nunca existiu. E não adianta pedir para alguns cidadãos acima do peso vestirem seus uniformes vermelho e branco e passarem de casa em casa distribuindo balas na casa que a prefeitura manda montar na praça central aqui da cidade. Eles não me convencem.

Por isso, neste Natal eu não vou pedir que o senhor apareça. Também não vou pedir a Deus que traga para a ceia de Natal as pessoas em cujo coração o senhor tem falhado em tocar com o espírito natalino, porque neste sentido até Ele parece não querer me ouvir. Pra ser sincero, eu estou cansado de depositar minha felicidade em pessoas que se importam mais em não aceitar as diferenças do que com a minha felicidade. Na verdade, com exceção de minha esposa e de meu pequeno filho (este pelo menos por enquanto...), parece que ninguém está nem aí para o que eu sinto. E se me permite dar-lhe uma sugestão, papai Noel, proponho que para os próximos natais o senhor mude essa estória de exigir que todos sejam “bons meninos” pra ganharem seus presentes de Natal. Caso contrário, o senhor estará definitivamente fracassado. E eu lhe digo por quê: ninguém se importa com os “bons meninos” - nem mesmo o senhor! - porque eles não dão trabalho. São seres translúcidos que ninguém percebe, pois não chamam a atenção. Muitas vezes os "bons meninos" como eu sofrem em silêncio pela vida toda, sem ninguém perceber que também precisam de amor e de atenção. Ainda bem que Deus nos atende de vez em quando.  Não fosse por Ele, eu juro que teria me tornado um menino mau. Aí sim o senhor teria uma boa desculpa pra não atender aos meus pedidos, não é mesmo?

Apesar de minha revolta, tentarei lhe dar um último voto de confiança. Comprei uma miniatura sua e coloquei no alto da parede aqui de casa, para que meu filho, ainda bebê, o veja. Quando ele olhar para a árvore de Natal iluminada que montamos na varanda e para o boneco vermelho e de barbas brancas subindo a  parede em direção ao telhado, ele acreditará que o senhor existe, como eu acreditei um dia. Mas vou lhe avisando: se o senhor decepcionar o meu filho como me decepcionou com relação ao espírito natalino, o senhor terá que acertar as contas comigo. Isto, é claro, se a gente se encontrar algum dia.