domingo, 4 de dezembro de 2011

Minha última carta ao papai Noel

Querido papai Noel,

Estou escrevendo esta carta na esperança de que o senhor a leia algum dia. Dizem que o senhor não existe, mas mesmo após 35 anos de existência, eu espero que todos estejam enganados, caso contrário o senhor não terá o desprazer de ler estas poucas linhas.

Pois bem. Durante toda a minha vida procurei ser um “bom menino”. Nunca, em toda a minha existência, eu fiz algo com a intenção de prejudicar alguém. Da mesma forma, eu nunca desejei o mal a qualquer pessoa que fosse, por pior que tivessem sido suas atitudes para comigo. Jamais faltei com a educação com meus pais, avós, tios ou colegas. Enfim, tenho tido um bom comportamento durante todos os meus 35 anos de vida, condição que o senhor exige para nos presentear no Natal. Mesmo assim, papai Noel, eu nunca vi o senhor se manifestar. E não me refiro a não tê-lo visto descendo pela chaminé – não apenas por não termos uma aqui em casa, como também porque tal cena seria um tanto grotesca, dado o diâmetro de seu abdômen. Eu estou me referindo ao espírito natalino que o senhor diz derramar ao passar voando na noite de Natal sobre nossas casas, trazendo paz e harmonia às nossas famílias.

Em todas as cartas que escrevi para o senhor, eu jamais pedi presentes materiais. Embora eu nunca tenha sido um menino de família rica, jamais me revoltei com a falta de brinquedos ou roupas. O que eu mais pedi em minhas cartas – que, pelo visto, não chegaram até o senhor – foi que trouxesse paz à minha família. Foram anos e anos pedindo – em alguns, eu cheguei a implorar... – e nada do senhor me atender. Às vezes eu pensei ter sido atendido, mas à medida que os anos foram passando, eu fui percebendo no rosto das pessoas por mim tão queridas que se reuniam na noite de Natal que o senhor sempre falhou com o seu “espírito natalino”. Com isso, papai Noel, o número de pessoas à mesa na noite de Natal está cada vez menor a cada ano e com feições cada vez mais insatisfeitas, embora a mesa esteja cada vez mais farta – se o senhor falhou, Deus não!

Por isso, papai Noel, estou lhe escrevendo esta que será minha última carta para comunicar-lhe que de mim o senhor não receberá mais nenhum pedido. Também não espere que eu fique olhando para o céu aguardando o senhor passar com suas renas derramando espírito natalino sobre nossos lares como se fosse um pó mágico. A esta altura da vida, essa imagem me parece um tanto fantasiosa. Peço-lhe, inclusive, que não fique aparecendo em propagandas na televisão, tentando induzir todo mundo a acreditar no tal espírito natalino. A única coisa que o senhor consegue com isso é tornar-nos cada vez mais infelizes, por nos fazer acreditar em algo que não existe. É, papai Noel... Apesar da minha teimosia em escrever esta carta, eu estou chegando à conclusão de que o senhor realmente não existe nem nunca existiu. E não adianta pedir para alguns cidadãos acima do peso vestirem seus uniformes vermelho e branco e passarem de casa em casa distribuindo balas na casa que a prefeitura manda montar na praça central aqui da cidade. Eles não me convencem.

Por isso, neste Natal eu não vou pedir que o senhor apareça. Também não vou pedir a Deus que traga para a ceia de Natal as pessoas em cujo coração o senhor tem falhado em tocar com o espírito natalino, porque neste sentido até Ele parece não querer me ouvir. Pra ser sincero, eu estou cansado de depositar minha felicidade em pessoas que se importam mais em não aceitar as diferenças do que com a minha felicidade. Na verdade, com exceção de minha esposa e de meu pequeno filho (este pelo menos por enquanto...), parece que ninguém está nem aí para o que eu sinto. E se me permite dar-lhe uma sugestão, papai Noel, proponho que para os próximos natais o senhor mude essa estória de exigir que todos sejam “bons meninos” pra ganharem seus presentes de Natal. Caso contrário, o senhor estará definitivamente fracassado. E eu lhe digo por quê: ninguém se importa com os “bons meninos” - nem mesmo o senhor! - porque eles não dão trabalho. São seres translúcidos que ninguém percebe, pois não chamam a atenção. Muitas vezes os "bons meninos" como eu sofrem em silêncio pela vida toda, sem ninguém perceber que também precisam de amor e de atenção. Ainda bem que Deus nos atende de vez em quando.  Não fosse por Ele, eu juro que teria me tornado um menino mau. Aí sim o senhor teria uma boa desculpa pra não atender aos meus pedidos, não é mesmo?

Apesar de minha revolta, tentarei lhe dar um último voto de confiança. Comprei uma miniatura sua e coloquei no alto da parede aqui de casa, para que meu filho, ainda bebê, o veja. Quando ele olhar para a árvore de Natal iluminada que montamos na varanda e para o boneco vermelho e de barbas brancas subindo a  parede em direção ao telhado, ele acreditará que o senhor existe, como eu acreditei um dia. Mas vou lhe avisando: se o senhor decepcionar o meu filho como me decepcionou com relação ao espírito natalino, o senhor terá que acertar as contas comigo. Isto, é claro, se a gente se encontrar algum dia.

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