quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pesadelos em série

Estou no fundo da casa da vovó Lourdes, próximo ao tanque onde ela lavava roupas. Ao meu lado estão mais duas pessoas que eu não consigo identificar. “O que estamos fazendo aqui? A vovó Lourdes não está mais entre nós”, digo a elas. Elas, no entanto, lançam-me um olhar de indignação. “Você não sabe o que está dizendo, diz uma delas”. De repente, sinto uma luz forte, talvez de algum veículo, incidir em nossas costas e projetar nossas sombras na parede do muro. Para minha surpresa, quatro sombras aparecem projetas. Um frio me percorre a coluna. “Eu não te disse? Ela ainda está entre nós”,  diz uma das pessoas. Amedrontado, eu corro em direção ao portão, mas acabo escorregando na calçada avermelhada. Na queda eu bato o pulso esquerdo no chão e arranco parte da pele. Eu me levanto, meio cambaleando, e ouço a voz da vovó Lourdes. “Não adianta você fugir. Você vai morrer em um acidente de carro na estrada que vai para Franca”. Recordo-me então de não ter passado o cartão de ponto ontem à noite, e de precisar ir hoje até o trabalho para justificar minha ausência. “Acho melhor deixar pra fazer isso um outro dia. Que se dane a minha falta!”

Estou agora em uma esquina que fica a uns 150 m aqui de casa. É aqui que eles escolheram para rodar algumas cenas do novo filme do Superman, que estreará no ano que vem. Eles estão fazendo a seleção para escolher quem interpretará o personagem de Clark Kent nestas cenas. “Action!”, diz o diretor, em inglês. Eu entro na casa velha com um vaso de flores nas mãos e o coloco sobre uma mesa. Ao meu lado esquerdo, avisto dois velhinhos interpretando Martha e Jonathan Kent, meus pais adotivos. Eu sigo em direção a eles, porém não me lembro do roteiro. Olho então para o diretor, formulo mentalmente a minha pergunta e a faço: “What am I supposed to say now?” O diretor parece nervoso. “Oh, crap! Cut, cut! Where a hell do you find this asshole?”, pergunta ele aos seus assistentes, indignado com a minha interpretação. "Listen to me, guy: there is no screenplay. You have to improvise. Come on! You are an actor, are not you?” Visivelmente intimidado, eu procure repetir a cena, mas o resultado não é muito diferente do anterior e o diretor, irritado, pede novamente pra cortar a cena. Aproximo-me então dos dois velhinhos e peço algumas dicas sobre a minha interpretação, mas eles não são muito receptivos. “OK, guys, let’s take a break”, diz o diretor. No entanto, ao invés de uma parada para o café, eles começam a desmontar o cenário e vão embora. Agora a minha timidez deu lugar ao nervosismo. Colo então os dois cotovelos junto ao corpo, com os anbraços projetados para frente, mordo os próprios dentes e sinto meu sangue ferver. “Eu vou provar a eles que eu posso ser o Superman”. De repente, dou um salto em direção ao céu e paro a uns quarenta metros do chão. Avisto vários homens vndo em minha direção trajando uniformes do Superman. Certamente são outros candidatos ao papel principal. Solto então um grito de raiva altíssimo e parto em direção a eles. Com socos e empurrões, eu os derroto graças à minha recém-adquirida super-força.

A cena é interrompida pelo grito do Miguel, que acabara de acordar. Só então dou-me conta de que eu  não tenho superpoderes e de que eu jamais serei, para alívio de todos, o Superman nas telonas. Eu me contentarei em ser apenas um super-pai para o Miguel. Isso, obviamente, se a profecia da vovó Lourdes em meu pesadelo jamais se concretizar.

Um comentário:

Graziela disse...

Antonio Feliz Ano Novo feliz para voce e sua familia!
Que bom saber que voce esta se cuidando, com certeza os frutos ja estao sendo colhidos.
E mais uma vez parabens pelo nascimento do Miguel, presente maior voces nao poderiam ter.
Obrigada por manter o blog vivo, sabe que mesmo sem comentar muito, sempre estarei por aqui.
Abracos nosso
Gra e familia