quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vendo a vida com outros olhos


Terça-feira, 6 de dezembro. 16h12min. Estou vestindo uma túnica verde e uma toca vermelha. Estou aguardando o colírio analgésico fazer efeito. Papai está sentado na sala ao lado, apreensivo. Olho para cima, para não deixar que o colírio escorra face abaixo. Subitamente, sou tomado por um monte de pensamentos aleatórios, porém todos associados a situações que me fizeram estar aqui neste momento. Faz mais de 20 anos que sou míope. Passei mais de 15 usando óculos de lentes grossas e armações pesadas. Um peso a mais para os ombros de um jovem tímido e que todos tachavam de “nerd”. Com o tempo as situações constrangedoras foram se acumulando. Foram inúmeros cumprimentos a pessoas que eu não conseguia identificar. Foram inúmeros lances em partidas de futebol em que eu errava a posição da bola. “Foi gol?”, perguntava para alguém que não tivesse o mesmo grau de miopia que eu. |Ainda assim, relutei por vezes a cirurgia. Ora, como viverei sem minha visão? Esse foi o meu pensamento durante anos. Mas um sonho me fez mudar de idéia. Neste sonho eu estava em um lugar deserto e corria de um lado para o outro sem identificar o que lá havia, até que eu chegasse bem perto. Na verdade, foi um verdadeiro pesadelo!
O momento chegou. Os médicos me chamam para uma sala. Lá estão cinco pessoas – três médicos e duas enfermeiras. A situação me parece tensa. “Pra que tanta gente se a cirurgia é tão simples?”, eu me pergunto. Um dos médicos pede pra que eu me deite e permita que a enfermeira me prepare. Ela tenta lacrar um dos meus olhos, já anestesiados, com uma espécie de fita crepe. O médico se posiciona e faz aproximar-se de mim um equipamento cheio de luzes, que mais se parece um disco voador. Ele pede pra que eu foque minha visão na luz verde. Ele coloca algo em meu olho pra me impedir de piscar. Sinto então uma espécie de bisturi se aproximando e raspando meu olho. É como se ele arrancasse uma parte do meu olho. “Estou preparando seu olho para o laser. Neste momento, estou raspando o epitélio do seu olho”, segue ele com sua narrativa. Quando ele termina a tal raspagem, minha visão fica totalmente desfocada. Eis que a luz vermelha do “disco voador” se posiciona sobre meus olhos e nele incide o laser. Um forte cheiro de queimado toma conta da sala. Após pouco mais de 20 segundos, o laser se afasta e o médico inicia um processo de higienização do meu olho “queimado”. Ele despeja um líquido desconhecido várias vezes, como se quisesse lavar meu olho. Ele disse que a cirurgia neste olho terminou, mas eu ainda não vejo praticamente nada. Após a limpeza, ele posiciona uma lente, que segundo ele é para proteger o olho. E como se fosse um milagre, tudo o que vejo ganha contornos bem definidos. Satisfeito e tentando segurar a empolgação, eu tenho a certeza de que poderei , enfim, ver a vida com outros olhos.

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