segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Do que eu vou me lembrar de 2012



Daqui a algumas horas 2012 terá ficado para trás. Foi um ano bastante marcante e intenso e que passou muito depressa. Esta é uma boa oportunidade – se não for a única, pois sei que este dia passará voando – para reflexão, sobre o que foi feito ou deixado de lado, sobre os acertos e os erros em mais um ano que vai existir apenas em lembranças.
Eu mal vi o início de 2012, e digo isso literalmente. Eu havia feito cirurgia para correção de miopia e ainda estava em fase de recuperação. Embora tenha sido uma das melhores coisas que podiam ter me acontecido na vida e que me daria uma visão quase idêntica a que eu tinha com óculos, foi algo que custou-me caro – e digo isso não me referindo a dinheiro. Passei as férias de janeiro corrigindo qualificações e relatórios, coisas que deveriam ter sido feitas em dezembro, mas que não puderam ser feitas por eu estar em fase de recuperação da cirurgia. Quando retornei das férias, passei mal devido ao estresse e à falta de descanso.
A melhor lembrança que guardarei do início do ano será, sem dúvida, a viagem a Quirinópolis-GO. Após oito anos, voltei com meus pais à cidade onde passei os seis primeiros anos de minha vida. Revi pessoas que fizeram parte de minha infância, algumas delas já bem velhas. Foi muito especial, principalmente porque Débora e Miguel desta vez foram juntos. Levar meu filho ao lugar onde eu vivi com a idade dele foi uma emoção muito forte e que deixou marcas muito fortes.
No final de fevereiro vivenciei a primeira internação do Miguel devido a uma meningite. Ficamos todos assustados, pois nem uma simples gripe ele havia pegado até então. Talvez eu tenha vivido alguns dos dias mais horríveis de minha vida até então, não apenas pela doença em si, mas por ter tido que conciliá-la com o trabalho e com a preparação da documentação para um concurso que prestei na UNESP em Araraquara, em julho. Tive que preparar projeto e toda a documentação em menos de uma semana, pois fiquei sabendo do concurso na última hora. Eu tinha grandes chances, era um dos candidatos mais experientes, mas Deus não quis que fosse desta vez.
A melhor lembrança que me vem agora do mês de abril foi a partida de futebol entre professores e alunos do laboratório. Após mais de um ano frequentando a academia para fortalecer o joelho, consegui retornar aos campos, mesmo tendo que usar duas proteções para o joelho. A experiência foi muito boa, porém fez-me perceber que eu precisava definitivamente fazer uma cirurgia para o joelho. E eu a fiz em julho. Tomei coragem e fui ao Instituto de Medicina do Além para que o Dr. Alonso pudesse operar meus joelhos e minha coluna. Fiquei encantado com o trabalho desenvolvido pelo grupo, e surpreso com os resultados da cirurgia espiritual: minhas dores na coluna se foram e o joelho parou de doer – até eu tentar voltar a jogar futebol novamente, no mês de outubro...
Este foi também o ano em que mudei minha alimentação. Reduzi arroz e feijão e as carnes na alimentação e intensifiquei o consumo de alface, cenoura, beterraba, mamão, manga e laranja. Esta mudança, aliada a algumas corridas na esteira, ajudou-me a perder quase sete quilos, peso que ainda mantenho. Desde 2006 eu não me via tão leve.
Em termos de trabalho, este foi um ano muito aquém das expectativas. Não cheguei onde eu queria, porém fiquei mais ou menos na média em relação aos demais colegas do setor. 2013 será um ano decisivo, em que muitas coisas precisarão dar certo paras minhas futuras pretensões. Por falar em numerologia, acredito que será um ano excelente, pois sua soma é múltiplo de 3.
Sonhos para 2013? Ser pai novamente. Conseguir aprovação em um concurso público. Conseguir a renovação de minha bolsa de produtividade. Conseguir aprovação de outro projeto de pesquisa. Conseguir bolsas para todos os meus alunos de iniciação científica e de pós-graduação. Publicar 10 artigos. Construir uma casa. E chegar vivo e com saúde ao final de 2013 com todos os meus entes queridos vivos e com muita saúde. Posso talvez não conseguir nada do que eu quero, mas Deus poderia dar-me a bênção de ter pelo menos este último...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Eu te seguirei. Você me seguirá?


Sexta-feira, 28 de maio de 2010. 18h50min. O portão da garagem se levanta e seu carro estaciona. O portão se abaixa, o freio de mão é puxado e a porta se abre. Ele pega sua mochila com carteira, celular e notebook, fecha a porta do carro e começa a vencer os vãos de escada. Enfia a mão no bolso, à procura do molho de chave. Há várias delas. Passa uma, duas, três, quatro... Encontra a chave na nona tentativa. Já impaciente, gira a chave na fechadura e ganha a varanda. A porta da cozinha está fechada. Ele a abre. A casa está vazia.
19h30min. Após o banho e a sopa quente, ele segue para a sala. Abre uma das gavetas da estante e escolhe um dos DVDs de sua coleção. Ele liga a televisão e o aparelho de DVD, acomoda-se no chão da sala ao lado da bandeja, repleta de pedaços de melancia, e inicia sua viagem.
22h. O filme termina. Ele abre a gaveta do aparelho de DVD, retira o disco, coloca-o novamente na capa e o guarda de volta na gaveta da estante. Por uns instantes, ele fica parado, sentado no tapete da sala, olhando para o chão. “E agora?”, pensa ele. Ele está sozinho, pode fazer o que quiser. Mas o que significa liberdade quando se está sozinho? Ele se levanta. Calça os chinelos e começa a andar pela casa. Ele pode ouvir o eco dos próprios passos. Ele segue em direção ao quarto. Na cama, a colcha amarrotada conta que ela passou um tempo por ali. Ele pega o travesseiro. Fecha os olhos, respira fundo. O seu cheiro lhe preenche os pulmões. “Que falta você me faz...” No banheiro, as maquiagens, o espelho, os pincéis. No boxe, a toalha ainda molhada. Seu perfume ainda toma conta do banheiro.
22h10min. Ele segue para a sala. No sofá, as almofadas ainda estão como ela as deixou. Ele fecha os olhos e a vê deitada, acomodada entre as almofadas. “Que lindinha...”, diz ele, com um sorriso no rosto. Então ele segue para a cozinha. Lá ele encontra o prato de sopa que ela deixou no fundo da pia. Ele o pega, abre a torneira e o lava. Enfim, ele segue para o escritório. Além do trabalho, não há nada para fazer. Ele liga o computador e acessa a internet, à procura de algum vídeo. Por alguma razão, ele cai em um vídeo da música “Follow you, follow me”. Curioso, ele busca a sua tradução. “Eu te seguirei. Você me seguirá?”, diz o refrão. Com um nó na garganta, ele deixa as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Está cada dia mais difícil passar as noites longe dela. Ele sente muito a sua falta. Estão casados há quase dois anos. “Eu posso dizer: a noite é longa, mas você está aqui ao alcance de minhas mãos...”, diz a música. Sim, ela está em todos os lugares daquela casa, mas suas mãos não podem alcançá-la.
22h45min. De repente, ele ouve um barulho. Quase que adormecido, ele se coloca de pé, assustado. Subitamente, um outro estrondo vindo da garagem. Ele corre para a porta e a abre. A porta do carro se abre e ela vem ao seu encontro. Os dois se abraçam. Seus rostos se encostam; seus lábios também “Que saudade”, dizem um para o outro. “... mas eu prefiro o sorriso que você me dá. E eu posso dizer que enquanto eu viver, eu te seguire. E você, me seguirá?”, diz a música, que ainda toca no computador do escritório. Ele a abraça forte. “O que foi, meu amor?”, pergunta ela. “Não foi nada”, responde ele, com os olhos em lágrimas. “Deixe-me apenas senti-la”. “...e teremos apenas uma lágrima solitária a cada passar de ano”.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uma hora de academia


16 h. Ele estaciona o carro em frente à academia. “Que ridículo! Se quero manter a boa forma, por que não venho caminhando?”, pensa ele ao lembrar que a academia fica a apenas 500 m de casa. Pega as luvas, o tocador de mp3 com os fones e as chaves e sigo em direção à entrada. Como sempre, as luzes estão apagadas. Questão de economia. Talvez nem seja consciência, e sim por corte de gastos. Então ele sobe as escadas e segue em direção à prancha de abdominal. A prancha, aliás, está sempre vazia. Ninguém costa de fazer abdominais...
16h15min. Entra na sala de aparelhos um rapaz que ele não via há tempos. Ele puxa a conversa:
- E aí, tranquilo?
- Beleza! Você afinou, hein?, responde o camarada.
- É... eu perdi 7 quilos – responde ele, meio constrangido.
- Perdeu porque quis?
- Sim. E você? Parece que conseguiu uns quilos, hein? - diz ele, olhando para o abdômen arredondado do camarada.
- É... Eu consegui 15 quilos de massa!
- Então agora você tá satisfeito?
- Não, ainda não. Tô tentando ganhar mais uns 5 quilos.
- Pô, vai firme!
Então ele segue para a prancha de abdominal, para uma sequência de sofridos exercícios abdominais. Após 50 repetições, ele pára para um descanso. De relance, ele vê um rapaz em frente ao espelho, que estufa o peito, virao de lado, contrai os bíceps e os fica admirando. Seria cômica, se não fosse narcisista.
16h30min. Ele sobe na esteira para alguns minutos de caminhada e de corrida. Enquanto caminha, percorra a academia com os olhos. Na entrada, um rapaz “bombado” conversa com o dono, que pega um pote de suplemento para ele, que certamente sobrecarregarão seu rim e seu fígado terão nos próximos meses. 
Mais adiante, um outro rapaz, que três semanas atrás era raquítico, começa a preencher os vazios da camiseta. À sua frente um outro rapaz alto, com uma proteção abdominal, que parece não conseguir fechar os braços, talvez pelo volume de suas costas ou, ainda, por ter depilado as axilas. Por fim, ele nota que praticamente não há mulheres naquele ambiente. Encostada a um pilar, a professora permanece estática, olhando para o chão. Talvez esteja em busca de uma resposta para o fato de os peitorais dos outros alunos importar mais para os que ali estão que o volume dos seus. 
16h50min. No aparelho de mp3 começa a tocar “Going to distance”, tema do filme Rocky II – a revanche. Ele acelera o passo e atinge 14 km/h. Suas passadas se alargam. Alguns rapazes o olham. Devem estar pensando: “Que mané! Desse jeito ele vai perder massa muscular.” Sem problemas. Cada um segue em busca de seu objetivo. E mesmo que os objetivos sejam diferentes, todos convivem bem. E assim a vida na academia segue: cada um na sua. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Natal é todo dia!

24 de dezembro. 19h. Estou com o Miguel no colo, olhando as estrelas pelo céu da janela da varanda. “Lá teté!”, diz ele apontando para a lua. No canto da parede atrás de mim, a alguns metros, está a árvore de Natal repleta de luzes, todas apagadas. A varanda está escura. A guirlanda continua na porta da sala, que está fechada. O tapete vermelho e branco com um desenho de papai Noel contendo os dizeres “Feliz Natal”, que se encontra no hall de entrada, não foi tocado por nenhum outro pé que não fosse o meu, o da Débora ou do pequeno Miguel. Na mesa onde foi feita a ceia do ano passado não há sequer toalha.
20 h. Estaciono o carro em frente à casa de meus pais. Desço e abro a porta para retirar o Miguel. O portão se abre. É minha irmã. Ela vem em direção ao Miguel. Débora desce pela porta do outro lado. As duas se encontram e se cumprimentam. Eu não via esta cena desde o último aniversário do Miguel. Entramos todos, eu, a Débora e minha irmã com o Miguel nos braços, pelo corredor. Próximo à varanda está o papai, parado. Está com um olhar iluminado e um sorriso prestes a tomar conta de seu rosto. Ele olha pra minha mãe e diz algo do tipo “Eles vieram”.
21h. Estamos à mesa. Antes de iniciarmos a comilança, damos as mãos e rezamos a Deus pela saúde e por estarmos todos aqui reunidos.
22 h. Tia Ângela, vovó Maria e vovô Mila chegaram. Agora não falta mais ninguém. Após distribuírem os presentes, vovô Mila, mamãe e Clarinha sentam-se e observam o Miguel brincando. Ele está jogando os pequenos bois que vieram no caminhão de boiadeiro que o vovô Mila lhe deu. “Ele está colocando os bois para pastara”, brinca minha mãe. O papai ri. “Como ele é lindo!”, diz tia Ângela. “Dá vontade de morder!”, solta minha irmã. Débora e eu estamos orgulhosos e felizes.
23 h. Estou novamente na varanda de casa. Miguel já está dormindo em seu quarto. Acendo as luzes da árvore de Natal e ligo a televisão. Débora e eu sentamo-nos no sofá e. Passo o braço por cima de seu ombro. Entreolhamo-nos. “Feliz Natal, meu amor”, dizemos um ao outro quase que ao mesmo tempo. Após alguns minutos de papo, ela não contém a curiosidade e pergunta se estou triste por termos passado a noite de Natal na casa dos meus pais e não aqui em casa. “De modo algum” – respondo – “No ano passado nós esperamos que a noite de Natal fosse como as propagandas que passam na televisão: família unida, todos alegres compartilhando de um sentimento mágico que não existe. Já hoje nós estivemos reunidos como em um dia qualquer, sem cerimônia ou expectativas. E você pode ter certeza de que Deus estava entre nós.” Paro por um minuto, olhando pelo céu estrelado da janela. “Hoje nós proporcionamos a felicidade ao invés de esperarmos que ela viesse até a nossa casa. Foi uma das noites de Natal mais felizes dos últimos anos.”
Qual é, afinal, o sentido do Natal? Celebrar uma união que não existe entre pessoas que mal se vêem ou se falam durante o ano? Não! A ideia é celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Para isso, é preciso apenas ter Deus e bondade no coração. E se você conseguiu sentir a chama de Jesus brotando em seu coração neste Natal, tenha a certeza de que todos os seus dias daqui pra frente serão Natal. Na verdade, deveria ser Natal todos os dias.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 (parte final)


Esse ano passou muito rápido, não é mesmo? Pode ter certeza de que este foi um dos melhores anos de sua infância ou , pelo menos, um dos que você mais se lembrará. Mas o próximo ano será muito melhor, pode acreditar. Aliás, é assim que você deve pensar sempre. A cada ano que terminar, agradeça por tudo e mentalize que o ano seguinte vai ser ainda melhor.
Bom, eu acho que essa carta está maior do que eu imaginava quando comecei a escrevê-la. Porém, antes de finalizá-la, gostaria de pedir que você faça algo para mim: ame sua família com todo o seu coração. Ame seus avós e dê a eles a máxima atenção que puder. Eu sei que você gosta mais do vovô Mila e da vovó Maria, pois eles te dão mais atenção, mas você não deve deixar de visitar o vovô Crotti e a vovó Lourdes. Você tem que entender que eles têm muitos netos e, por isso, você não pode ter o amor deles só pra você. Ame também sua tia Ângela. Faça isso de todo o seu coração. Ela é e continuará sendo por uns bons anos uma segunda mãe pra você, e você deve ser tão bom para ela quanto um filho seria. Ame também sua irmã. Não se envergonhe quando ela vier falar com você durante os recreios na escola. Você não percebe, mas ela sente orgulho de você. Eu sei que você sente ciúmes dos seus pais com relação a ela, pois acha que eles gostam mais dela que de você. Não, Eduardo, não é verdade. Eles apenas dividem o amor deles entre vocês dois. Não seja egoísta!
Por fim, quero que ame imensamente seu pai e sua mãe. Sua mãe será sua eterna companheira. Ela sempre se preocupará com você e sempre estará ao seu lado quando você precisar, até o dia em que você se tornar um homem independente. E quando isso acontecer, a dor que ela sentirá por não mais poder ajudá-lo não será maior que o orgulho que dela tomará conta. Quanto a seu pai, respeite-o. Eu sei que você fica revoltado quando ele pede pra você lavar o caminhão dele quando volta das semanas fora de casa. Sei também que você fica extremamente irritado quando ele te faz lavar a lona no meio da rua ou passar as férias o ajudando a pintar as chapas e para-barros do caminhão. É claro que você não acredita quando ele diz que ele faz isso pra você virar um homem, e que um dia você irá agradecê-lo. Pois bem. Você terá por ele uma gratidão maior que essas palavras podem expressar. Você sempre se lembrará dele como o seu grande herói, embora muitas vezes ele lhe parecerá o seu patrão. Não, Eduardo, ele é o seu pai.
Você deve estar se perguntando quem sou pra saber tudo isso sobre você. Não se amedronte, meu caro. Não sou Deus, não sou papai Noel nem algum cartomante que faz previsões. Na verdade, Eduardo, eu sou você daqui a 24 anos. Acredite ou não, escrevo esta carta para você com a mesma idade que o seu pai tem hoje: 36 anos. Hoje eu (ou melhor, você...) também tem um filho, e ele se parece com você (melhor dizendo, comigo...). Por mais que ao longo da vida eu tenha desejado que muitas coisas tenham sido diferentes, consigo entender hoje que elas deveriam ter sido como foram. E seu eu tivesse o poder de voltar ao passado, a única coisa que eu realmente mudaria seria a intensidade com que em vivi cada momento, agradecendo a Deus por cada um deles. Bom, eu não posso mais fazer isso. Mas você ainda pode. É por isso, Eduardo, que eu te escrevi esta carta tão longa: para que você possa olhar ao seu redor e sentir-se um menino mais feliz. Há tantas coisas boas em sua vida... Não reclame do que te falta, pois você conseguirá tudo isso algum dia e sentirá falta desses dias que você está vivendo.
Aproveito pra te desejar um feliz Natal. A propósito, não se prenda tanto aos presentes que você irá ganhar. Ao invés disso, abrace seus avós, seus pais e a tia Ângela bem forte e agradeça-lhes pelo amor que eles têm por você, pois esse amor vale mais do que qualquer presente do mundo, inclusive os soldadinhos dos Comandos em Ação que você vai ganhar. Ooops...
De seu melhor amigo,
Eduardo, 23 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um presente para um velho amigo


Quarta-feira, 19 de dezembro. 5h45min. Ouço o toque de um despertador tocando bem longe. O toque vai se tornando cada vez mais intenso, até eu me dar conta de que ele está ao meu lado, insistindo pra que eu me levante. Sonolento, eu o pego nas mãos e procuro algum botão que o faça despertar daqui a cinco minutos. “Mais cinco minutos, por favor...” O cansaço toma conta de mim. Dormi apenas uma hora na noite anterior.
Após uma briga inútil com o despertador, dou-me conta de que preciso levantar-me. De pé, procuro o chinelo que devo ter chutado para debaixo da cama em um daqueles momentos irritados. Desisto. Sigo descalço para o banheiro. Abro o chuveiro. Em poucos minutos tudo estará bem.
6h50min. Coloco as coisas no carro. Repasso o meu roteiro e confiro novamente se ali está tudo o que preciso. O presente. Minha bolsa com o notebook. Os CDs a serem gravados. Estou pronto para a viagem. Espere: preciso conferir o nível da água no reservatório. Abro o capô e a verifico. Está baixa. Tento desenrolar a mangueira do suporte onde a Luciene a amarrou. Após duas ou três tentativas, perco a paciência e a puxo com força, quase arrancando o suporte da parede. “Merda!”. Ligo a mangueira, desenrosco a tampa do reservatório e o encho. Desligo a mangueira e a enrolo novamente. Quando vou fechar o capô, vejo que a água do reservatório do limpador do para-brisa também está abaixo do nível. “Puta que pariu! É hoje!” E lá vamos nós de novo encarar a mangueira enrolada...
7h35min. Estou em uma estrada de terra batida, seguindo para o sítio onde coleto as plantas para o meu projeto. Pelo caminho há pés de cafés por todos os lados. Na estrada há de tudo: curvas, buracos e alguns pequenos morros, daqueles que nos dão um frio na barriga quando se passa por eles em alta velocidade. “Você quer com ou sem emoção?”, perguntava o papai quando passávamos por esses morros. Resolvo arriscar-me. O carro voa sobre o barranco e meus órgãos internos sentem um vazio até voltarem ao lugar. Olhando por este ângulo não parece algo tão divertido, e sim irresponsável. Por que certas coisas não são tão legais como antes? Curiosamente, é o que a Cherr está contando na música que toca no rádio do carro: “If I could turn back time... If I could find a way...”
7h45min. Estaciono o carro e saio em procura do seu Gilson. Quando grito seu nome, percebo que ele está procurando por mim, mas pelo outro lado da casa. Eis que ele surge, já suado de tanto trabalhar. O dia para ele parece ter começado cheio. De luvas, ele passa os punhos pela testa para remover o excesso de suor. Ao fazer isso, ele remove também parte dos cabelos brancos que lhe caíam pela testa. “O sítio está limpo, seu Gilson. O senhor deve ter trabalhando muito ontem, hein?” Ele ri e começa a caminhar. Eu o sigo. Eis que ele inicia, como de praxe, mais um passeio pelo sítio. “Aqui eu passei o rastelo”, diz ele a certa altura. “Tudo isso eu rocei com a roçadeira costal”, conta ele ao chegarmos em outro lugar. “Veja essas mudas. São de mirra”, explica ele, apontando para pequenas mudas que encontram-se encostadas na parede. Eu coloco a mão sobre seu ombro. “Venha até aqui, seu Gilson. Eu tenho uma coisa para o senhor”. Ele sorri. Já sabe o que é. “Ah, mas não precisava...” Abro a porta do carro e lhe entrego um embrulho. Sem ter à mão algo cortante, ele usa os dentes pra tentar cortar o laço de durex que envolve o presente. “Peraí, seu Gilson. Deixe-me ajudá-lo”. Em menos de dez segundos o embrulho desaparece, dando espaço para uma caixa preta. Ele a abre e pega uma das botinas do par e a prova. “Nossa, essa botina é muito macia. Dá até dó de colocar pra trabalhar.”, diz ele. Enquanto isso, abro o notebook e o coloco em cima da mesa de metal onde, em ocasiões anteriores, ele mostrou-me seus livros. “Seu Gilson, eu vou gravar essas músicas dos anos 70 para o senhor”. “Uai, se você puder, eu fico agradecido”, responde ele, colocando de volta as botinas na caixa.
Assim que a gravação termina, eu coloco o CD de mp3 no carro e mostro a ele as músicas que foram gravadas. “Isso aí é ABBA, não é?” Eu balanço a cabeça em sinal afirmativo. “Eita! Essas músicas aí são do tempo em que eu namorava agarradinho...” Então ele inicia uma narrativa sobre seus feitos e conquistas. De certa forma, é realmente esse o efeito que essas músicas parecem ter.
A gravação do segundo CD termina. Nele foram gravadas músicas românticas dos anos 80. Ele se senta no banco do passageiro do meu carro, e com o controle na mão começa a passar as músicas, fazendo comentários que eu já não consigo mais ouvir por causa do som da música. De qualquer forma, é uma grande satisfação poder demonstrar certa gratidão pela amizade que com ele criei. Tenho imensa gratidão por ele ter sempre permitido que coletássemos as plantas ali cultivadas para que pudéssemos desenvolver nosso projeto sobre óleos essenciais. Na verdade, não foi esse o elo que nos tornou amigos. Ele é espírita. Foi ele quem me convenceu a fazer a cirurgia espiritual da coluna e dos joelhos. Na semana passada, ao perceber que eu estava triste, ele dispôs-se a dar-me um passe e livrar-me da tristeza. Funcionou.
“Vou passar o Natal ouvindo essas músicas e fazendo os brincos de bambu pra sua esposa”, explica ele, mostrando que gostou dos presentes. E como se quisesse mostrar que está agradecido, ele insiste pra que eu leve algumas mangas. Em seguida, dá-me um forte abraço. “Obrigado, Miller. Que Deus lhe abençoe”. Não, seu Gilson. Que Deus abençoe a nossa amizade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Obrigado, volte sempre

          Quando tive a ideia de criar este blog, a intenção era deixar registrada a minha vida, dia-a-dia - daí o nome "Narrativas do cotidiano". Eu queria que as pessoas que lessem cada postagem sentissem como se ela mesmo estivesse vivendo aquilo. Obviamente, pensei nos meus filhos. Quando eu ficar velho, certamente terei me esquecido de tantas histórias, então nada mais justo que deixá-las registradas pra me lembrar quando estiver mais velho. Com relação ao formato do blog, eu me inspirei um pouco no blog do Eudes. Sempre gostei das histórias que ele conta e da linguagem que ele usa. Isso já faz sete anos.
         Durante esse período houve momentos em que eu praticamente abandonei o blog. Em 2010, por exemplo, eu não cheguei a postar nem uma mensagem por mês. O motivo não foi a falta de inspiração nem a falta de tempo. Foi simplesmente a maldita sensação de estar escrevendo para ninguém ler. Era desanimador dispensar um bom tempo - às vezes quase uma hora do seu dia - pra escrever algo que ninguém vai ler. Vários outros blogs, alguns construídos na mesma época que este, vieram a sucumbir pelo mesmo motivo.
Eis então que o blogger instalou a ferramenta de contagem de visitas. Pude então ver que uma média de 30 pessoas visita este blog por dia. Sei que não são as mesmas pessoas, pois consta aí na barra lateral que apenas 11 pessoas seguem este blog. Fiquei então um pouco mais animado e comecei a atualizá-lo com mais frequência.
          Pois bem. Outro dia tive a curiosidade de digitar o nome do blog no Google pra ver no que ia dar. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um trabalho de conclusão de curso da Universidade Federal do Rio Grande do Norte que usou um dos posts deste blog e uma apostila de Português de uma escola técnica estadual utilizando uma das nossas narrativas como exemplo ao longo do texto. Aliás, que apostila bem feita! Tempos atrás encontrei uma indicação de uma coordenadora de ensino, chamando este blog de "diário de bordo". Quanta gentileza! O mais interessante nisso é que as pessoas fizeram a devida citação ao blog. Não tendo eu formação alguma na área de Português ou Linguística, confesso que fiquei muito lisonjeado.
         Minha intenção nunca foi ganhar dinheiro com este blog, e certamente nunca será. Procuro, na medida do possível, escrever textos agradáveis - embora às vezes longos - para que os visitantes tenham algo para ler e possam conhecer-me através de minhas palavras, da mesma forma que meus filhos farão em um futuro próximo. Em se tratando de textos pessoais, é compreensível que muitos visitantes não comentem por educação. Além disso, eu entendo que às vezes é melhor ler uma piada a textos recheados de nostalgia. Por essa razão, eu gostaria de agradecê-lo, caro visitante/leitor, pela sua visita. Se você tiver paciência, dê uma vasculhada no blog. Há algumas histórias bem engraçadas por aqui e há outras que vão te fazer chorar. Basta ter paciência para procurar. Muito obrigado a todos pela visita! Continuarei escrevendo pra que vocês possam sempre voltar. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 (parte 2)


Quero que preste bastante atenção nas palavras que você vai ler agora: aproveite cada momento de sua vida, principalmente desses anos que estão por vir. Mas veja bem: aproveitar não significa que você deva abrir mão de quem você é. E eu sei bem quem você é. Sei, por exemplo, que o fato de ainda não ter uma namoradinha, como boa parte de seus amigos, te incomoda bastante. Infelizmente seu pai não te deu uma boa resposta quando você lhe perguntou a razão disso. De fato, falar que você não tinha namorada porque era feio não é a melhor coisa que um pai pode dizer a uma criança de 12 anos. Muito pelo contrário: isso fez com que você perdesse sua auto-estima. Ora, e como não acreditar no seu pai, que você tanto ama? Como poderia o seu grande herói dizer algo tão duro ou, então, contar-te uma mentira? Na verdade, Eduardo, é preciso que você entenda que seu pai lhe disse isso em tom de brincadeira. Lembra-se de que ele riu depois de ter dito que você é feio? Acredite: daqui a umas décadas você fará o mesmo tipo de brincadeira com ele. Ele te dirá coisas bem mais duras e você achará graça do que ele disser, pois vai reconhecer que ele está brincando. Por isso, não leve o que ele disse tão a sério. Você é muito mais bonito do que você pode imaginar. De qualquer forma, não quero, não posso nem devo convencê-lo do contrário, porque há certas coisas que não devem sair do rumo.
Eu não sei como te dizer isso de outra forma, por isso tentarei ser direto: você reconhecerá daqui a alguns anos que até o fato de seu pai ter dito que você é feio terá sido bom pra você. E sabe por quê? Porque isso te manterá afastado das mulheres. As palavras de seu pai fazem e continuarão fazendo por muitos anos com que você se sinta inseguro, com medo de ser rejeitado pelas moças que você considera bonitas. E isto será uma das melhores coisas que ele terá feito por você. Explico: sem ter uma namorada, você passará os próximos anos assistindo seus colegas menos tímidos e mais abastados financeiramente saindo, beijando e namorando as meninas que você tanto admira. Isso despertara em você um doce sentimento de revolta, que o fará entregar-se aos estudos na esperança de que isso mude algum dia. E acredite: você não apenas conseguirá como também chegará mais longe do que você possa imaginar...
Eu sei que você é apaixonado por loiras. Essa sua paixão se intensificará nos próximos anos e te fará sentir-se inspirado a escrever lindos versos. No entanto, você gostará de suas musas inspiradoras em silêncio. Seus versos lhes parecerão lindos, porém elas não conseguirão entender. Seja paciente com elas; embora sejam belas, são curtas em intelecto. De qualquer forma, seu sofrimento, suas lágrimas, seus poemas e o seu romantismo, que serão por vezes considerados “fora de moda”, bem como sua dedicação aos estudos, farão de você um homem de características únicas e muito peculiares. Surgirá então uma mulher em sua vida, muito mais linda que as loiras com rostinho de anjo que você começou a ver nas páginas das revistas Playboy. Você a conhecerá de uma forma bastante inusitada. Ela encontrará em você todas as qualidades que nem mesmo você acredita possuir, como, por exemplo, bom-humor e alegria, que tem estado desaparecidos desde aquela surra que seu pai te deu lá em Quirinópolis-GO, por ocasião da venda do trator. Essa mulher, sim, apreciará os poemas que você escreverá e suspirará com as rosas que você as der de presente. Portanto, não ache que as paixões platônicas que tanto te fazem chorar hoje são o fim do mundo. Mas, por favor, não fique esperando por essa mulher. Se você o fizer, ela certamente não virá. Você precisa seguir o seu caminho de sofrimento para estar preparado quando encontrá-la. Como te disse, aproveite cada momento de sua adolescência. Chore pelas moças que tiver que chorar, escreva os poemas que tiver que escrever, sofra o que você tiver que sofrer. Enfim, seja quem você é, e não se ache o rapaz mais feio do mundo. Afinal, a mais linda das morenas espera por você no futuro. Ooops... Desculpe-me. Acho que já estou contando detalhes demais.
Diante de tudo isso, você deve estar se perguntando: quem está te escrevendo essas palavras? Não, Eduardo, eu não sou Deus.
(to be continued...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 - Parte 1


Querido Eduardo,
Mais um Natal está se aproximando. Você foi um bom menino durante este ano. Por isso, quero que veja esta carta como o meu presente para você. Eu sei que, por ter 12 anos, você ficaria mais feliz em ganhar algum soldadinho ou algum brinquedo da coleção dos Comandos em Ação. Não se preocupe. Eles serão os presentes de seu vovô Miller e de sua tia Ângela neste ano. Bem, desculpe-me se estraguei a surpresa. De qualquer forma, você verá daqui a alguns anos que esta carta lhe será bem mais valiosa que toda a sua coleção de Comandos em Ação.
Eu sei que você tem sofrido muito desde que sua família mudou-se de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP. Já se passaram seis anos e você ainda não conseguiu adaptar-se totalmente e sente muita saudade da vida que levava na roça. Além disso, na escola você tem poucos amigos. Quanto a isso, Eduardo, eu tenho duas notícias ruins. A primeira delas é que você continuará sentindo saudades de sua infância em Quirinópolis pelo resto de sua vida. Para aumentar seu sofrimento, você verá a maioria das pessoas que você conheceu naquela época partirem uma a uma desta vida. Sim, Eduardo, elas morrerão. Pior que isso: a casa onde você morou será destruída e nada restará do lugar onde você viveu. Ele existirá apenas em suas lembranças ou nos sonhos que você terá de vez em quando. Lamento dizer que a segunda notícia também não é muito boa. Se você se queixa de ter poucos amigos, é bom avisá-lo que ao longo de sua vida você não fará muitas novas amizades. Conhecerá, sim, pessoas maravilhosas, e com elas dividirá momentos muito alegres. Mas essas pessoas estarão de passagem e muitas delas você não voltará a ver ou, se tiver sorte, irão encontrar-se raramente. Serão ótimos colegas, pode acreditar.
Calma, não jogue esta carta fora sem antes lê-la até o final. Meu objetivo ao enviá-la é apenas preveni-lo do sofrimento que está por vir, mesmo que para isso você tenha que sofrer agora, ao ler estas duras palavras. Não pense que neste momento encontro-me com uma bola de cristal prevendo o seu futuro. Não, não, muito pelo contrário. Mas voltemos ao que interessa.
Eu sei que você está sofrendo com as dores nas costas, e que para tratá-las, sua mãe tem te levado três vezes por semana na fisioterapia e na natação. Quanto a isso, eu tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que você vai aprender a nadar. A ruim é que as dores nas costas vão acompanhá-lo pelo resto da vida. Não pare de nadar como você está pretendendo. Eu sei que você pediu para o seu pai comprar o título do clube da Baixada pra você jogar futebol, e não para nadar. Por favor, não faça isso.
Você tem esforçado muito sua visão pra enxergar do fundo da sala de aula as coisas que as professores escrevem na lousa, não é mesmo? Pois bem. Esse é o primeiro sinal de que você tem problemas na visão e de que terá que usar óculos. Sim, Eduardo, você está se tornando míope. Por muitos anos você usará grossos óculos de grau, suas sobrancelhas serão grossas – tão grossas que parecerão ser uma única – e seus dentes frontais tornar-se-ão ainda mais separados. Por favor, não chore. Acalme-se. Acredite: isso não é o fim do mundo. Todos esses problemas serão resolvidos daqui a umas duas décadas, mas você terá que ter paciência. Há também outro problema que continuará te incomodando pelo resto da vida: seus cabelos. Eu sei que você passa muito tempo em frente ao espelho tentando encontrar um penteado mais bacana. Preste atenção no que eu vou te dizer: seu cabelo é ma-ra-vi-lho-so! Você não faz idéia da falta que você irá sentir deles daqui a umas duas décadas. Vai aqui um conselho: deixe seu cabelo em paz, por favor!
Sei que sei corpo está mudando, que sua barba está engrossando e que seus pêlos estão se espalhando pelos ombros e pelas costas. Vá se acostumando, pois você se tornará mais peludo que o seu pai. Isso te tornará alvo de gozação por parte dos colegas e fará com que muitas moças de sua idade afastem-se de você. Você será algo de chacota dos colegas por causa disso, pode acreditar. O mais curioso é que ao contar para o seu pai, ele dirá “É sinal de que você é macho!”. De fato, hormônios não te faltarão. Vontade de arrancar todos os seus pêlos também não. Você fará isso, mais cedo ou mais tarde, mesmo a contragosto de seu pai.
Sei que você está impressionado por eu saber tantas coisas sobre você. Por isso, você deve estar se perguntando se eu sou o pai Noel. Não seja inocente: pai Noel não existe.

(to be continued...) 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Por que guardamos coisas velhas?



Sábado, 24 de novembro. São 17h. Estamos, eu e Miguel, na casa de meus avós maternos. Vovó Maria, vovô “Mila” e tia Ângela estão fazendo faxina. Pela varanda encontram-se, dispostos em vários pequenos “montes”, diversos utensílios de cozinha. Suada, tia Ângela explica o que está acontecendo. “Ai, Eduardo, eu fiquei com dó da sua avó e vou comprar um armário novo pra ela colocar as coisas dela”. E passando a mão pela testa, chama-me para ver como está ficando o serviço. Enquanto isso, vovó e vovô estão com o Miguel no galinheiro. Miguel enche as mãozinhas de grãos de milho e os joga para as galinhas comerem. “Ta!”, diz ele ao fazer o movimento. Em seguida, um “Mai, mai!” mostra que ele gostou e quer repetir a façanha.
Tia Ângela mostra-me como ficou a dispensa. “Nossa, filho, mas tinha taaaaaanta coisa velha aqui... Olha aqui essa prateleira... Forrei com papel. Arrumamos esse baú também. Tinha taaaaaaanta roupa velha aí... Algumas estavam com traças. Nós queimamos. Agora veja esse monte aqui.” E trazendo-me de volta para fora da dispensa, aponta para um grande monte de coisas que vai se formando ao lado da parede externa. “Ai, Eduardo, é difícil, viu? A sua avó não quer que joga essas coisas fora. Olha só esse saleiro!” Ela mostra-me um saleiro branco, já surrado e sem tampa. “Tia, isso é típico de quem passou dificuldade na vida. A vovó deve achar que vai precisar desse saleiro algum dia. Mas hoje esses saleiros não custam nem R$2,00... É bem mais fácil de comprar hoje que antigamente. Pode ser também que esse saleiro faça a vovó lembrar-se de alguma coisa do passado. A gente não sabe o que as pessoas mais velhas sentem...” Meu discurso, embora genérico, é feito a partir de observações próprias que parecem convencer a tia. “É, pode ser, né? Ah, deixa eu te mostrar uma chaleira que ela guardou.” Seguimos então para o quarto de hóspedes.

Sentado em uma poltrona de sofá diante de uma televisão de tubo, lembro-me das vezes em que eu alugava fitas VHS para assistir no vídeo cassete da vovó. Lá em casa nós não tínhamos vídeo cassete... Dois filmes que assisti aqui marcaram-me bastante: “Demolidor, o homem sem medo” e “A casa dos espíritos”. Esse último fez-me chorar barbaridade... Tia Ângela surge então com uma chaleira de porcelana branca, com flores estampadas na parte externa. Na chaleira há uma tomada de dois pinos “grudada” diretamente na porcelana. O estranho é que não há fios. Se conectada à tomada, essa chaleira provavelmente deveria ficar praticamente colada à parede. Tia Ângela segue exibindo a chaleira e falando alguma coisa que não me atrai muito a atenção. “Nossa, tem tanta coisa dentro dessa chaleira...” Ela inicia então uma “faxina” dentro da chaleira. De lá saem uma tomada, alguns botões e mais um sem fim de coisas velhas. “A vovó deve guardar essas coisas porque deve significar algo pra ela”, digo pra mim mesmo, reforçando minha teoria. Eis que de repente ela tira da chaleira algo que me parece familiar. “Olha aqui, filho! Você lembra disso?” São dois ratinhos feitos de cartolina. Estão amarelados por causa o tempo. Ambos seguram nas mãos o que parede ser uma vassoura com um pom-pom na ponta, o que lembra ser uma vassoura. “Eu já vi esses ratinhos antes...”, penso comigo. A resposta me vem como uma faca transpassando-me o peito. Preso ao rabinho feito de fio encontra-se um pequeno pedaço de papel, já amarelado pelo tempo, com os dizeres: “Antônio Eduardo, 16/06/1979”. Em estado de choque, tomo os dois ratinhos nas mãos e sigo para a sala de estar. Sento-me e fico a observar aqueles dois bichinhos, que foram enfeites da mesa de aniversário de meu terceiro ano de vida. A vovó guardou aqueles ratinhos durante 33 anos....



Minha respiração fica presa, um nó se forma na garganta. Os olhos ficam mergulhados em lágrimas. Imediatamente eu coloco os óculos escuros. Não quero que me vejam chorando. Coloco então os dois ratinhos sobre a mesa e fico-os observando enquanto viajo de volta ao passado. Lembro então que a festa de meu aniversário de três anos foi realizada aqui na casa da vovó, há 33 anos... Aquela festa deve ter tido um significado especial pra a vovó. Levanto-me e sigo até a porta da varanda, de onde avisto a vovó e o vovô ainda brincando com o Miguel. Ele tem quase a idade que eu tinha quando aqueles ratinhos foram feitos... De repente, como se o Miguel entendesse o que eu estou sentindo, ele bate palmas e dá um beijo no rosto da vovó e do vovô. É um sinal de agradecimento pela doçura com que os dois o tratam. É um sinal de reconhecimento pelo amor que sempre me dedicaram. No fundo, eu sei que o Miguel os leva de volta ao passado, fazendo-os lembrar daquela criança fofa que eu fui e que eles, por causa da distância, não tiveram chance de curtir. Da mesa da sala de jantar, os dois ratinhos de cartolina parecem olhar-me. Parecem querer ensinar-me que pequenas coisas possuem grandes significados pra gente, e que às vezes precisam ser guardadas pra fazer-nos lembrar de certos momentos mágicos que o tempo insiste em apagar as marcas. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Crônica 13: Quem muito quer acaba ficando sem nada


Valdir era o que se podia chamar de bom exemplo. De família pobre, sempre foi muito estudioso. O sentimento que as moças nutriam por ele era o mesmo que a maioria nutre por homens pobres, tímidos e pouco abençoados em beleza: indiferença. Valdir encantava-se com a beleza das mulheres. Gastava boa parte do dinheiro de seu salário como office boy com rosas, sempre acompanhadas de poemas que ele mesmo escrevia. Em tempos em que o romantismo era coisa do passado, a maioria das moças achava aquilo ridículo. Ele ficava inconformado. Demorou pra entender que lhe faltava algo que o tornaria um homem mais interessante. Não bastava ser atencioso ou inteligente. O fato de beber e não fumar, na verdade, pesavam contra ele. Era preciso ter dinheiro.
Valdir então concentrou-se nos estudos. Ano após ano ele se destacava como o melhor aluno de suas turmas. Mas as mulheres nunca o notavam. Pelo contrário: elas pareciam gostar daqueles que menos estudavam. Interiormente, uma revolta enorme ia tomando conta de Valdir. “Elas não perdem por esperar”, dizia ele para si mesmo.
Os anos foram se passando. Valdir acabou tornando-se uma pessoa muito religiosa. Passou a freqüentar a igreja duas vezes por semana. Quando se ajoelhava, sempre pedia forças para vencer na vida. Eis que em uma missa de domingo que ele conheceu Tatiane, uma moça tímida, bem educada e estudiosa. Enfim, era a versão feminina de Valdir. Tatiane não era uma moça de parar o trânsito, mas tinha um lindo sorriso e era extremamente simpática. Os dois começaram a namorar. “Vamos ver no que vai dar”, pensavam.
Após cinco anos de namoro, Valdir e Tatiane se casaram. Tinham construído sua casa própria, possuíam bens e bons empregos. Valdir tornara-se gerente de uma grande empresa; Tatiane tornara-se uma decoradora de renome. Mas Valdir sentia que as coisas com Tatiane eram “mornas”. Ao invés de lingerie, ela vestia enormes calcinhas bege. Na noite de núpcias, ambos descobriram que eram virgens. Ao invés de ficar feliz, como faziam os homens de outros tempos, Valdir lamentava que Tatiane tivesse se casado virgem. Queria uma mulher mais experiente, do tipo daquelas que ele desejou durante sua adolescência.
Certo dia, após alguns anos de casamento, os colegas de gerência da empresa onde Valdir trabalhava convidaram-no para ir a uma casa de “diversão”. Todos eram casados, então Valdir não viu por que não ir. “Não deve ter problema”, pensou consigo mesmo. Quando chegaram na tal “casa”, Valdir foi logo abordado por uma mulher morena, que trajava apenas uma lingerie e um chapeuzinho. Seu coração veio à boca. Vendo-o paralisado, a mulher arrebatou-lhe um beijo “arrasta-quarteirões”, quase deixando-o sem pernas. Após isso, pegou nas mãos dele e colocou-as sobre seus seios. “Você gosta deles? Eles podem ser seus, se você quiser”.
Foi a primeira noite em que Valdir chegou de madrugada em casa. Tatiane o aguardava com a longa camisola de sempre. “Meu amor, onde você esteve? Eu estava preocupada! Ta tudo bem?” Valdir seguiu em direção ao quarto sem dizer uma palavra sequer.
Na noite seguinte, Valdir retornou ao local em busca da morena com quem ficara na noite anterior. Ao vê-lo, ela seguiu em direção a ele e agarrou-o pela gravata. “Que bom que você veio. Eu estava esperando por você...”
Após quinze “consultas” consecutivas com a tal morena, as coisas começaram a ficar tensas entre Valdir e Tatiane. Ela começou a desconfiar do esposo quando ligou no escritório e ninguém atendeu. A mentira de que estava trabalhando até tarde já não mais colava. Por outro lado, Valdir encontrava-se “de quatro” pela tal morena. Pensava nela o dia inteiro, contando os minutos para poder vê-la à noite. Descontrolado, ele passou a visitar a tal morena da “casa de diversão” inclusive durante o dia. Ele estava... apaixonado.
Já se passavam dois meses de visitas diurnas quando Valdir, em uma dessas visitas, encontrou a morena aos “amassos” com outro cliente. Ele descontrolou-se. Partiu para cima do homem, um senhor com mais de 60 anos, e o expulsou dali. Tatiane estava enfurecida. “Quem você pensa que é? Você acha que é meu dono só porque transamos algumas vezes?” Valdir estava descontrolado. “Eu preciso te tirar daqui. Quero você só pra mim!” Aquele discurso despertou risos na morena. “Coitado! Você acha que pode me sustentar? Quanto você acha que eu ganho aqui, hein? Você ja-ma-is conseguiria sustentar-me e manter o nível de vida que levo trabalhando aqui!”. Valdir retrucou: “Pois a partir de hoje você é minha mulher. Pegue suas coisas. Vou alugar um apartamento para você.” E pegando a mulher pelos braços, colocou-a no carro da empresa e seguiu para uma imobiliária. Lá alugou um apartamento de luxo para a morena. Em seguida, rumou em direção a uma butique e comprou as roupas mais caras para ela. Estranhamente, era algo que ele nunca havia feito para Tatiane, a mulher que estava ao seu lado há anos. Quando voltaram ao apartamento que alugaram, Valdir e a morena permaneceram no quarto durante quatro horas. A morena, envolta em jóias, despediu-se de Valdir, que precisava retornar ao trabalho.
Quando a porta do elevador do andar onde Valdir trabalhava, ele avistou sua mulher e seu chefe. Tatiane colocara um detetive para investigar o marido. Seu chefe estava possesso, pois ele havia permanecido o dia todo longe do trabalho, tendo usado o carro da empresa para fins particulares. “Valdir, há um bilhete sobre sua mesa. É sua carta de demissão. Quero você e suas coisas fora desta empresa ainda hoje”, disse seu chefe, tentando conter-se. Tatiane completou: “Na verdade, há dois envelopes. O outro é o meu pedido de divórcio.” Com semblante fechado e extremamente irritado, Valdir foi amontoando suas coisas e amaldiçoando os dois. “Vão para os quintos dos infernos vocês dois!”
Quando retornou ao apartamento que havia alugado para a morena, Valdir tentou fingir que estava tudo bem. Ajeitou a gravata e tentou colocar um sorriso no rosto. Quando abriu a porta, haviam dois homens “engalfinhados” a ela. Valdir desfez o sorriso, sem reação. Fechou a porta e seguiu para o corredor. Mil coisas lhe passavam pela cabeça, mas nenhuma conseguia explicar suas atitudes nos últimos meses. Ele acabara de jogar sua vida pelo ralo. Perdera seu emprego, perdera a esposa, perdera seus bens. E ao deparar-se com aquela cena, percebeu que tinha perdido o respeito por si mesmo. Com que tipo de mulher ele fora envolver-se?
Enquanto Tatiane seguia arrasada em direção ao advogado para acertar os detalhes do divórcio, ouviu um barulho intenso e uma multidão correndo. Esparramado sobre a calçada estava o corpo de Valdir. Ou o que restou dele.
Moral da história: quem muito quer, acaba ficando sem nada. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Carta para ler daqui a 30 anos


Meu querido filho,
Enquanto escrevo esta carta você está aqui ao meu lado, de pé. Você tem pouco mais que 80 cm e, por isso, não consegue enxergar meus dedos tocando nas teclas do notebook. Daqui a 30 anos, quando você realmente entender o que eu sinto neste momento, será difícil você acreditar que um dia foi tão pequeno, e que um dia existiu um notebook. Você provavelmente entenderá o sentido dessas palavras bem mais cedo – pelo menos é o que eu desejo... – porém você só virá a entender algumas coisas que aqui escreverei quando você for pai.
Se você quiser ler essa carta antes, tudo bem. Se o fizer, infelizmente você não entenderá o sentimento embutido nessas palavras, principalmente se você for adolescente. Neste caso, pode ser que você sinta vergonha por eu ter montado este blog pra você e seu irmão (ou irmã), que, espero eu, você venha a ter. “Que ideia ridícula é essa que o senhor teve de deixar essas coisas registradas em um blog?” A maioria dos adolescentes é assim mesmo. Sente vergonha dos pais e da família. Colegas são tudo o que importa, por mais idiotas e ridículos que eles sejam. Mas não se preocupe, filho. Há muito tempo atrás eu já fui um adolescente, e embora não tenha sido rebelde, não ter respondido para os meus pais e não ter sentido vergonha deles em nenhum momento, havia coisas que o seu vovô Altair me dizia que me deixavam nervoso. Coisas do tipo “Você não tem amigos; seu único amigo sou eu”; “Primeiro vem a obrigação; depois, a diversão”; “Um homem não pode ter preguiça pra nada nessa vida”; “Faça bem feito e fará uma vez só”. Eu não gostava de ajudá-lo a lavar o caminhão ou a lona. Eu queria apenas brincar e ficar com meus colegas. Naquela época, essas palavras pareciam-me sem sentido, mas se eu as disse a você, é porque entendi o que seu vovô queria dizer com as frases “É para o seu próprio bem” e “Você ainda vai me agradecer”.
Se você já for adulto, meu filho, eu desejo que a esta altura da vida esteja feliz. Não posso idealizar a sua vida; apenas desejo que esteja feliz. Somos de gerações diferentes, e o modelo de felicidade que escolhi – trabalho e família – pode não ter sido adotado por você. De qualquer forma, se você a esta altura casou-se e já for pai, você vai entender as palavras a seguir.
Hoje você tem um ano, seis meses e alguns dias. O tempo tem voado desde que você nasceu. Parece que ontem mesmo eu estava andando pela cada de madrugada com você nos braços, embrulhado em sua manta, chacoalhando-o pra que você pegasse no sono. No início eu e sua mamãe, pais de primeira viagem, demoramos pra entender que você sentia muito frio. Nos primeiros meses não deixamos você no berço, pois tínhamos medo de que algo acontecesse. Até compramos uma babá eletrônica, mas ela não funcionou... Preferimos coloca-lo no carrinho, ao lado da nossa cama. Sua mamãe acordava a qualquer mexida sua no carrinho. Eu dormia feito uma pedra.

O tempo foi passando e nós nos sentimos seguros pra deixa-lo no berço. Nesse período, sua mamãe era quem dormia pesado. Ao primeiro chorinho eu acordava correndo e ia colocar a chupeta. Você sempre foi um bebê bonzinho, nem refluxo teve.
Aos quatro meses de idade nós o batizamos. No dia do seu batismo o padre atrasou-se mais de uma hora, pois tivera que sair para dar uma extrema unção... Foi uma cerimônia muito emocionante. Fizemos um almoço para comemorar. O dia do seu batismo foi o último dia em que conseguimos reunir todos os seus tios e tias maternos. Da família do papai vieram seus bisavós Maria e Antônio, tia Ângela, tia Nice e tio Válter, sua madrinha Hérica, seu padrinho Alexandre e sua priminha Clara, a quem você chamava de “Tata”. Seu vovô Altair fez um churrasco para comemorar.

Meses depois veio o Natal. Foi a primeira vez que montei a árvore com você conosco. Você estava ainda no carrinho enquanto eu decorava a árvore. Colocamos o aparelho de som na varanda pra ouvirmos música. Era uma noite quente. Eu e sua mamãe estávamos muito felizes por tê-lo conosco. Lembramos que no ano anterior você estava ainda na barriga da mamãe...

Na metade de janeiro de 2012, quando você já tinha oito meses, nós decidimos fazer uma viagem em família para Quirinópolis-GO, onde seus avós, eu e sua madrinha Hérica moramos durante seis anos. Foi muito emocionante vê-lo passando pelos mesmos lugares que eu passei quando eu tinha a sua idade. Muitas vezes eu me flagrei com os olhos cheios de lágrimas de tanta emoção. Todos diziam que você era muito parecido comigo quando tinha a sua idade. Quanto a você, não havia alguém que você estranhasse. Sempre receptivo, você ia nos braços de quem te convidasse. Você andou à cavalo com sua priminha Tata. Eu senti tanto orgulho de você...

No final de fevereiro você nos passou um susto. Durante mais de uma semana uma febre terrível abateu-se sobre você. À noite você acordava, chorando, queimando em febre. Nós te pegávamos no colo e você urrava de tanta dor. No domingo, levamos você a um plantonista. Ele mal examinou você e disse que era a garganta, receitando então um antibiótico. Não surgiu muito efeito, pois você jogava fora todo o remédio que colocávamos em sua boca. Mas a febre continuava. Na segunda-feira procuramos uma médica. Ela receitou cinco injeções e disse que você estava com infecção. A febre insistia, mesmo após a terceira injeção. Procuramos então o doutor Estevão, o pediatra que cuidou de mim quando criança. Ele o examinou com cuidado e diagnosticou meningite. Quando ele foi fazer a punção para confirmar, você sentiu tanta dor que chegou a fazer coco... Sua mamãe e eu choramos bastante. Tia Ângela quase desmaiou de tanto chorar. Você então ficou internado durante quase 10 dias. Foi um período difícil, porque o papai não podia ficar junto. Além disso, naquela época surgiu uma oportunidade de concurso para o papai, e eu não podia desperdiçar. Mesmo doentinho, você se mantinha alegre. O doutor dizia que você nem parecia que estava doente...

Passado o susto, você saiu do hospital e voltou para casa curado, graças a Deus. Em poucos dias você começou a arrastar-se pelo chão. Era a sua forma de gatinhar. A cada dia que se passava você ficava mais lindo...
Em maio fizemos uma linda festa para comemorar o seu primeiro aniversário. Pedi para reformar o tratorzinho que era meu quando criança, pra que você pudesse andar nele durante a festa. Você e eu vestimos camisas idênticas, feitas pela sua vovó Carminha. Nós dois usamos botinas. Foi uma festa linda! Quando fomos cantar parabéns, eu não conseguia parar de te olhar e agradecer a Deus por ter você em nossas vidas...


No mês de junho fomos à nossa primeira festa junina. Foi em Orlândia-SP, promovida pela escola em que a sua mamãe leciona. Você ficou lindo de chapeuzinho de palha!

Em julho nós fizemos nossa primeira viagem sozinhos. Eu, você e a sua mamãe fomos para Poços de Caldas-MG. Lá você deu um show à parte. Todas as senhoras que estavam no hotel vinham até a nossa mesa pra admirar você. Você acenava pra todas elas e ria o tempo todo. Durante as refeições a gente se sentava em frente ao músico. Todas as vezes você acenava para ele e começava a balançar as mãos. No último dia de estadia no hotel ele veio até a nossa mesa pra te conhecer pessoalmente. Também brincamos um pouco na areia do parque. No início você ficou meio tímido, mas você acabou gostando e deu o maior trabalho pra ir embora...

Em agosto comemorei o meu segundo dia dos pais. Almoçamos na casa da bisavó Maria. Vovô Sebastião também foi. Tiramos uma foto do "clube do Bolinha" pra deixar registrado este dia tão especial.

Nos meses que se seguiram você se desenvolveu de maneira extraordinária. Começou a falar “Papai” e “mamãe”, fazer sons de gato (“miau”), cachorro (“au”), pombinha (“tu-tu-tu”) e galinho (“clu-clu”). Passou a mandar beijos, a levantar a camisa e a mostrar o “barrigão”. Em todos os lugares que íamos as pessoas te chamavam pelo nome. Você era muito sociável e amigável. Mandava beijos e acenava pra todo mundo. Seus avós Carminha e Altair morriam de orgulho de você. Eles foram os primeiros a leva-lo ao supermercado. Vovô Altair insistia: “Esse aí é macho! Esse é dos meus!”, inflamava ele, todo orgulhoso de você. Seu bisavô Antônio comprou uma fardinha do São Paulo pra você. Ele quis que você fosse são-paulino como eu.
Uma das coisas que você mais gostava de fazer nessa idade era andar de bicicleta. Eu comprei uma cadeirinha e adaptei-a à bicicleta pra podermos passear pela cidade. Comprei também uma bicicleta para passearmos com a mamãe nos domingos de manhã. Era o nosso programa em família.

Enquanto termino essas palavras você está dormindo em nossa cama, ao lado da mamãe. Até 18 de novembro de 2012 você foi uma criança muito educada, simpática, alegre e, acima de tudo, muito carinhosa. O que mais chama a atenção é, de fato, o seu carinho. Você tem manifestações espontâneas de beijar-nos. Quando estou com você, você diz “papai” e me dá um beijo no rosto. Parece uma forma de agradecimento. Você já anda para todos os lados, já não é mais possível segurá-lo conosco. No entanto, você não é um menino mal-educado. É curioso, porém não mexe em nada. É obediente, principalmente com relação a mim. O que eu posso te dizer, meu filho, é que a vida hoje não teria muito sentido sem você. E se você for um adulto quando ler essas palavras, saiba que eu ainda o amo. Mas não se chateie quando eu disser “Eu amava tanto você...”. Porque as crianças são adoravelmente inocentes e ingênuas. Nós, ao longo da vida, vamos perdendo a ingenuidade e a inocência, talvez por uma questão de sobrevivência. Seu avô me dizia isso; eu agora te digo isso. E você, se as coisas tiverem seguido o rumo natural, certamente estará dizendo isso ao seu filho ou à sua filha.
Termino essa carta por aqui, meu filho. Preciso agora ir dormir. Antes, porém, darei um beijo na sua bochecha rosada e sentirei o cheirinho da sua nuca. Devo aproveitar meus dias o máximo com você. Porque em breve, se Deus quiser, e sem que eu perceba, você será um homem adulto. Então aquela criança que agora dorme conosco e o homem jovem que agora te escreve não mais existirão. Restará apenas um velho homem, aguardando por um abraço do filho que ele tanto amou desde os primeiros dias.
Eu te amo, meu filho. Eu sempre te amarei.

domingo, 11 de novembro de 2012

Crônica 12: Mulher tem que ser gostosa! Ou bonita?


Leonardo e Flávio eram amigos de infância. Estudaram nas mesmas classes durante o colégio e ensino médio, prestaram juntos o serviço militar e viajaram lado a lado no ônibus durante os quatro anos de faculdade. Apesar de tanta cumplicidade, os dois tinham personalidades bem diferentes e opiniões diferentes, principalmente no que diz respeito às mulheres. Flávio era um típico “nerd”. Era chamado de “bitolado” nos tempos de colégio. Filho de pais pobres e conservadores, sempre viu nos estudos uma oportunidade de vencer na vida. Era magro, tímido, usava óculos de grau. Discreto, era fácil para ele entrar e sair de um ambiente. Já Leonardo era o “boa pinta”. Filho de uma família tradicional, alto e com corpo mais atlético, ele era capitão do time de handebol da escola. Sempre foi um rapaz muito popular, benquisto por todos e muito brincalhão. Todos o queriam por perto.
Os dois amigos de longa data estavam naquela noite em busca de uma companhia feminina. Flávio saíra de um relacionamento curto e estava um pouco desapontado com as mulheres. Não se julgava um cara e sorte e achava que nunca encontraria sua outra metade. Já Leonardo havia tido várias metades. Não se prendia facilmente a uma única mulher. Sempre saía acompanhado de um bar, e no outro dia sempre tinha novas aventuras para contar sobre a noite anterior.
Após algumas horas lembrando fatos da infância, Leonardo avistou duas moças.
- Meu, olha aquela maravilha ali próxima àquele pilar! – exclamou Leonardo.
Flávio ajeitou os olhos e, discretamente, olhou para a direção indicada por Leonardo. Permaneceu quieto por alguns segundos.
- Meu, cê tá vendo o que eu tô vendo, cara?
Flávio permanecia quieto. Não conseguia dizer uma palavra. Parecia hipnotizado. Após a insistência do velho amigo, resolveu manifestar-se.
- Léo, você tem razão: que morena linda!
O amigo ficou inconformado.
- Cê tá louco, Flavim? Eu tô falando daquela loiraça popozuda, não da magrinha que está ao lado dela. Meu, olha o tamanho da bunda aquela mina! E aqueles peitos? Que mina gostosa!
- Eu tô pirado, sim, Léo, mas é naquela morena. Olha que rosto perfeito!
- Cê tá de sacanagem, né, Flavim? Quem quer saber de rosto, cara? A mulher tem que ter é peitos grandes, pernas grossas e uma bunda gigante. Na hora “H” é isso que importa! Rosto não atrapalha; você coloca um travesseiro ou apaga a luz, e tá tudo certo! E dando uma risada, colocou a mão sobre o ombro do amigo.
Flávio riu da reação do amigo.
- Você não tem jeito mesmo, seu maluco! Cara, essa loira aí nem é loira! Dá pra ver que o cabelo dela foi descolorido. Olha as raízes escuras! E esses peitos... Certeza que isso aí é silicone! E te falo mais: esse cabelo liso aí é chapinha.
- Porra, Flavim! Às vezes cê me deixa preocupado, mermão! Homem que é homem não fica reparando nessas coisas, não. Mulher que é mulher tem que ser é gostosa, e ponto final! Essa aí mesmo, entre quatro paredes, deve ser um espetáculo!
- O que eu tô querendo te dizer é que uma mulher bonita tem que ter o rosto bonito. O corpo cai com o tempo, cara. As "gostosonas" de hoje serão as obesas do futuro. É por isso que eu te falo: aquela morena ao lado da loira tá me deixando “caidaço”...
Os gostos daqueles dois amigos por mulheres sempre foram distintos. Talvez por isso fossem amigos há tantos anos. De repente, Leonardo teve uma idéia.
- Flavim, escuta só, cara: que que cê acha da gente chamar essas duas pra se sentarem aqui com a gente? A gente paga umas bebidas pra elas, troca umas idéias e se dá bem no fim da noite. Topa?
Flávio balançou a cabeça, como se não tivesse outra opção.
Muito descolado, Leonardo pegou um copo de cerveja, levantou-se e o esvaziou em poucos goles pra tomar coragem. Seguiu então em direção às duas moças, e com poucas palavras, convenceram-nas a irem se sentar à mesa com eles.
Nos minutos que se passaram, Leonardo iniciou uma conversa direta com a loira, chamada Tiffany. Elogiou seu cabelo, perguntou se ela era modelo. A loira ficou toda inchada. Flávio iniciou uma conversa leve com Juliana, a amiga morena de Tiffany. Era uma moça simpática. De perto era ainda mais encantadora.
Após pouco mais de 20 minutos de conversa, Léo levantou-se de mãos dadas com Tiffany, abriu a carteira, deixou uma nota de R$100,00 sobre a mesa e despediu-se do amigo, que já arrancava sorrisos de Juliana.
No dia seguinte, Leonardo ligou para Flávio.
- E aí, Flavim, beleza?
- Beleza, Léo! E aí, tudo jóia?
- Aqui tá tudo firmeza. Contaí: como foi a sua noite com a Juliana?
- Pô, minha noite terminou por volta das duas horas, quando deixei-a em casa.
- E aí, cê comeu ela?
Flávio riu da falta de jeito do amigo.
- A gente ficou. Demos uns amassos apenas. A gente tá namorando.
Léo ficou inconformado.
- Cara, só você mesmo... Você deve ser o único cara no mundo que ainda respeita as mulheres. Ainda vão achar que você é viado!
- E você, como foi com a Tiffany?
- Bom, se você quer saber, a noite foi maravilhosa!
- Vocês estão namorando também?
- Namorando? Cê tá é doido!
- Mas por quê? Você não tá me dizendo que a noite foi maravilhosa?
- Quando disse que a noite foi maravilhosa, tô querendo dizer que a gente transou muito.
- Tá, beleza. Mas, tipo, que horas você a levou em casa?
- Em casa? Léo, vou te contar, cara... Eu apaguei! Quando acordei no outro dia e olhei para o lado, levei um susto: a mulher estava com um tamanho de cabelo... A maquiagem dela tinha ido pros vinagres. Que mulher horrível! Tipo, ela até que é simpática, mas não dá nem pra olhar direito no rosto dela de tão feia...
- Ora, você não disse que mulher não tem que ser bonita, tem que ser gostosa?
- Mas ela é bonita. Só que só de corpo.
- Vocês vão ser ver de novo? Vai ligar pra ela?
- Cara, se eu topar com ela de novo na balada, pode até ser que role. Mas andar de mãos dadas com ela de dia não dá, não...
Flávio conteve o riso.
- Mas e a bunda dela? E os peitos?
- Cumpadi, eu sei onde você quer chegar: você quer que eu concorde com você, que um rosto bonito é fundamental em uma mulher, né?
- Não, Léo. O que estou querendo dizer é que um rosto bonito vai despertá-lo como um homem, e que um corpo bonito vai apenas despertar o animal que existe em você.
- Putz, lá vem você de novo com essas teorias baratas. Mulher tem que ser é gostosa e safada, cara!
Flávio riu.
- E por que é que na manhã seguinte você não olhou nos olhos da Tiffany e disse pra ela o quanto ela era gostosa?
Um silêncio se fez ao telefone. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O dia de finados e a maldição dos cunhados


8h30min. Paro o carro em frente à entrada lateral do cemitério. Débora, seus pais e o Miguel descem. Saio em procura de um lugar para estacionar o carro. O cemitério está lotado.
8h45min. Estamos à sombra da árvore do túmulo do Edvaldo, irmão da Débora. Enquanto ela e seus pais rezam e acendem as velas, eu tento tomar conta do Miguel. Ele vê as velas sendo acesas e começa a assoprar de longe. Quer apaga-las a qualquer custo. Ele quer subir nos túmulos. “Não pode, filho. Aí é a casinha de uma pessoa que foi para o céu”. Ele me olha com uma carinha de quem parece ter entendido, traz o pé de volta para o chão e começa a acenar para o túmulo, como se estivesse dizendo “tchau” para alguém.
9h10min. Débora, agora com o Miguel nos braços, segue em direção a mais um túmulo de sua família. Sua mãe segue na frente, acompanhada logo atrás pelo meu sogro. Aviso que ficarei para trás, para passar no túmulo de meus bisavós. Eu nunca gostei de vir ao cemitério. O túmulo de meus bisavós é o único que sei onde fica. Apóio-me sobre o calcanhar esquerdo e, agachado, olho para os quatro túmulos à minha frente. No da esquerda está enterrado meu tio Agenor Crotti. Há apenas um vaso, com flores vermelhas miúdas. Não há dele uma foto sequer. Tio Agenor não deixou filhos. O túmulo dele transparece descuidado. No túmulo à direita dele  foram velados meus bisavós José Crotti, Maria Borella Crotti e a tia Célia, filha deles. Na cabeceira do túmulo há uma planta rasteira aromática que me é familiar. Chamam-na de boldo. Seu nome científico é Plectranthus neochilus, uma espécie da família das Lamiáceas que produz óleo essencial. Eu me recordo como se fosse hoje da minha surpresa quando reconheci que aquela planta era a primeira que investiguei durante o meu projeto de pesquisa. Coincidência ou não, o óleo essencial daquela espécie deu bons resultados em todos os ensaios que fizemos. No interior da capela, à sua cabeceira, há apenas uma foto da tia Célia. No terceiro túmulo estão enterrados a tia Alice, o tio Joaquim e o “finado” Celsim, como eles costumavam chama-lo. Lá dentro avisto uma foto da querida tia Alice. Quanta saudade...
O túmulo mais à direita não está identificado. É um túmulo de azulejos e de mármore preto, que contrasta com os outros três, revestidos de pequenos pisos verdes rajados, muito usados nas décadas de 70 e 80. Neste túmulo foi enterrado meu tio Eduardo Borella. O vovô Válter Crotti, antes de falecer, disse que queria ser enterrado neste túmulo, e a vovó Lourdes, pelo que me lembro, disse que queria ser enterrada com o vovô Crotti. Aqui jazem os três, em um túmulo agora sem identificação. Sobre ele repousam alguns vasos, provavelmente deixados pelos seus filhos. Meu pai e cada um de meus tios jamais se esqueceram de meus avós, mas nunca mais se sentaram à mesma mesa para se lembrar deles juntos. Assim como ocorre com qualquer outra família, a morte dos pais representou o fim do elo que mantinha os filhos unidos.
Coloco-me então de pé e tento encontrar respostas para uma difícil questão: por que os filhos tendem a se distanciar após a morte dos pais? Parece-me que com a morte dos pais, os filhos passam a ver seus respectivos maridos ou esposas, e seus filhos, obviamente, como os entes mais importantes de suas vidas. O amor fraterno fica em segundo plano. Com isso, sem a postura conciliadora dos pais, a relação entre os irmãos passa a ser “envenenada” pela postura separatista dos cunhados e cunhadas. O amor entre os irmãos jamais deixará de existir, mas ele dificilmente voltará a se manifestar por influência dos cunhados e cunhadas. Muitas vezes o problema nem é entre os irmãos, mas entre os seus respectivos companheiros, que eventualmente se odeiam e acabam tornando-os inimigos mortais.
É triste pensar que algumas pessoas maldosas celebram o fato de estarem livres da família do companheiro(a) – no caso, dos pais falecidos e de seus cunhados, agora seus inimigos mortais durante ou após a disputa pela herança deixada por seus sogros. Em outras palavras, o dia de finados é o dia do fim nos mais diversos sentidos que a palavra pode ser usada. É um dia de tristeza e de perdas. Não há mesmo nada a ser celebrado.