terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Meus cumprimentos a um vencedor

15h. Estou caminhando em direção à tesouraria. Estou acompanhado por três colegas professores, dois deles de outras instituições, que compuseram a banca examinadora de defesa de doutorado de um de nossos alunos. Não era um simples aluno; era o Omar.
Enquanto caminho, avisto uma fila enorme. São alunos que estão fazendo suas inscrições. A maioria deles ingressará em dos cursos superiores aqui da universidade neste ano. Será um ano marcante na vida deles. Um ano de muitas mudanças. Todos aguardam sentados, embora alguns pareçam incomodados com a espera.
É curioso olhar para isso e lembrar que já passei pela mesma situação que eles há 17 anos. Na época, bastante contrariado, lembro de ter vindo fazer minha inscrição para o vestibular em Química com o Flavinho, que se inscreveu para concorrer a uma das vagas em Química da Computação. Eu queria cursar Engenharia Elétrica na USP de São Carlos. Na verdade, em 1993 eu tinha prestado vestibular pra engenharia, mas queria mesmo era fazer Licenciatura em Ciências Exatas em na UFSCAR. Ora, imagine a minha situação: pobre, estudando na melhor escola da cidade com bolsa de estudos e querendo ser professor? Desde aquela época a profissão de professor não era valorizada. A direção da escola deu a entender que eu devia prestar vestibular pra seguir uma carreira “mais promissora”, ou seja, um curso difícil de ingressar, pra que eles pudessem anunciar, caso eu fosse aprovado, que quem estudasse na escola era aprovado em vestibulares.
Após um ano de cursinho, entre idas e vindas (que eu contarei em outra oportunidade), e após muita insistência do papai, vim fazer minha inscrição. Fui aprovado em 2º. lugar dentre 2500 candidatos. Mesmo assim não recebi um centavo de desconto. O FIES não oferecia as facilidades de hoje e o PROUNI não existia nem no papel. Por isso, tive que trabalhar para pagar a mensalidade. Foram dois anos e meio conciliando o curso de graduação com as funções de almoxarife na Usina Alta Mogiana. Foi uma época difícil, mas que me deixou muitas recordações boas.
Mas voltemos ao Omar. Ele graduou-se em Química um ano antes de mim e ingressou como técnico do laboratório de alunos. Hoje ele também é, assim como eu, professor do curso de Química, além de ser o técnico responsável por todo o laboratório de pesquisa. Sua jornada de trabalho estende-se pelos três períodos do dia. Não deve ter sido fácil conciliar tanto trabalho com o doutorado. Aliás, não deve ter sido nada simples estudar e trabalhar tendo dois filhos adolescentes em idade pré-vestibular para educar. Pois bem. Ele conseguiu. E mais do que conseguir, ele deu um grande exemplo para seus filhos. No final de sua apresentação, quando foi agradecer, lembrou de Deus, de seus pais e de sua esposa. Quando foi agradecer aos filhos, mesmo não estando presentes, ele olhou para cima, com os olhos já vermelhos, e engoliu seco, tentando inutilmente disfarçar a emoção. “Esses meninos...” E fez uma pausa. “...são o meu combustível”, desabafou. Sim, caro leitor, todos nós temos uma história pra contar. Hoje o meu amigo Omar escreveu mais um belo e vitorioso capítulo da dele. Seus filhos devem estar orgulhosos por sua conquista. E com toda razão.

sábado, 28 de janeiro de 2012

2012: uma amostra grátis

 

23 de janeiro. 6h. Acordo com o despertador do celular. Após muito esforço, coloco-me sentado ao lado da cama. Olho para o chão, pensativo. “Você tem que ser forte!”. Respiro fundo, levanto-me e sigo em direção ao banheiro, onde escovo os dentes, penteio o cabelo e passo uma água pelo rosto para acordar. Visto meus tênis e sigo em direção à academia.
7h40min. Estou terminando minha corrida na esteira. Aqui estou há 20min. Já foram quase 4 km percorridos. Estou exausto! Pelo visto, terei que dormir antes de ir trabalhar, caso contrário cochilarei o dia todo em frente ao computador.
8h20min. Estou pronto para o trabalho. Ao contrário do que geralmente ocorre, ainda tenho uns 30min antes de sair. Deito-me então no chão da sala, com os pés para cima e tiro uma soneca.
9h55min. Chego à escola de inglês. Confesso que estou um pouco desanimado com as aulas. Não pelo professor, que é excelente, mas com o meu desempenho. Eu deveria dedicar-me mais, melhorar meu vocabulário pra ganhar confiança. Mas... e o tempo?
11h30min. Estou me aproximando do bloco onde fica o laboratório. Na entrada os colegas já estão reunidos para o almoço. Peço pra que me esperem. Será uma boa oportunidade pra colocar a conversa em dia.
12h30min. Enfim sento-me para iniciar um novo ano de trabalho. Há dois relatórios de alunos de mestrado e um relatório de aluno de iniciação científica pra serem corrigidos em menos de uma semana. Há também dois capítulos de livros para serem finalizados. Isso tudo até o próximo dia 31. Ah, eu ia me esquecendo: há ainda uma tese de doutorado para ler...
15h. Minha cabeça parece que vai explodir! Mal consigo olhar para a tela do notebook. Meus olhos parecem que querem saltar pelas têmporas! De repente, começo a abrir a boca repetidamente. O cansaço começa a tomar conta de mim. E a cabeça continua latejando... Será que é stress? Mas já?
17h10min. Estou voltando para casa. São bocejos e mais bocejos. Acho que vou ter que parar pra tirar um cochilo...
17h50min. Acho que desmaiei! Onde estou? Quem sou eu?
18h20min. Estou em casa, deitado no chão da sala. Aqui estou há um bom tempo e a cabeça ainda dói. Meu estômago começa a dar voltas. “Que estranho, eu não comi nada!” Estou enjoado. Sinto que vou vomitar.
18h35min. A cabeça ainda dói, ainda sinto o mal-estar no estômago. De repente, meu braço começa a formigar. “Meu Deus, acho que estou começando a ter um infarto!”
E assim se foi meu retorno ao trabalho. 2012 recepcionou-me de braços abertos, dando uma amostra grátis do que me espera nos próximos 12 meses. Que Deus me ajude!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A triste saga de um celular Nokia N08 - parte final

 
22 de dezembro. 17h. Estou estacionando em frente ao lavador. Estou prestes a pegar de volta o meu celular Nokia 08. Não sei o que aconteceu. Confesso que estou curioso.
Quando avisto o proprietário do lavador e o chamo pelo nome, ele imediatamente desliga o motor que impulsiona a água com pressão para a lavagem dos carros, enxuga as mãos e pede que eu o siga. Caminho poucos metros até uma sala pouco iluminada, no final do balcão onde os carros são lavados. Ele me mostra uma sacola de supermercado. “Dê uma olhada. Deve ser esse aí”. Pego a sacola nas mãos. Dentro dela, embrulhado em uma folha de sulfite contendo o nome do proprietário do carro, está o celular Nokia 08. “É esse aí?”, pergunta ele. Respondo “sim...” enquanto procuro as fotos que tiramos das últimas pesagens do Miguel na pediatra e tantas outras no berço e no banho. Todas foram apagadas. “... é esse mesmo”, termino a frase com um ar de tristeza.
Sem encontrar no celular o que eu tanto procurava, direciono meu olhar para o proprietário e pergunto-lhe o que aconteceu.
“Bom, a história é meio longa...”, começa ele. “Eu tinha certeza de ter colocado o celular no porta-luvas do seu carro. Quando você me disse que ele não estava lá, mas que você não sabia se poderia estar na sua casa, eu não me preocupei. Fiquei torcendo pra que você o encontrasse lá. Quando na segunda-feira um dos meninos que trabalham pra mim não veio trabalhar, eu comecei a ficar preocupado. Liguei pra ele e perguntei se ele não sabia do celular. Ele disse que não tinha visto. Na terça-feira ele também não veio. Aí eu fiquei preocupado. Eu conheço o outro rapaz, conheço a família dele, o pai dele... Ele eu sabia que não tinha sido. Mas esse aí que estou te falando...”. Ele fez uma pausa. Olhou para o chão. Tenho a impressão de que as próximas palavras serão difíceis de serem ditas. “Sim... O que há com ele?”. Ele enche os pulmões de ar e reinicia a história. “Bom, eu não o conheço. Sei que ele estava abrigado na Fundação Casa. A mãe dele está presa por porte e venda de drogas. Uma amiga minha passou a visitá-lo na Fundação e, muito boa de coração, ficou tocada com a situação dele e tornou-se tutora dele na justiça. Ela havia me pedido pra dar uma oportunidade de trabalho a ele, então eu decidi ajudar. Aí acontece isso...” Aquelas palavras me deixam chocado. “Então foi ele?”. Ele confirma: “Sim. Mas ele havia negado que foi ele. Quando eu falei com ela sobre o sumiço do seu celular, ela conversou com ele com muito jeito e ele confessou que havia pego o celular.”
Sem saber o que dizer, coloco o celular no bolso e peço desculpas por aquela situação tão constrangedora. “Imagina. Eu é que lhe devo desculpas”. Diante da honestidade daquele homem, agendo para amanhã a lavagem do meu carro. “Ta combinado!”, diz ele, aparentemente aliviado por não ter perdido o cliente. Despeço-me, dou partida e sigo em direção à minha casa. Enquanto dirijo, sou abatido por uma grande tristeza. Não pelas fotos ou vídeos do meu filho que foram apagadas, mas pela situação daquele jovem. Está separado da família sabe-se lá há quanto tempo. Deve ter tido uma vida difícil, sem muitos bons exemplos a seguir ou pessoas que se preocupassem de verdade com ele. Segundo a educação que recebi, o roubo é não apenas um crime, mas um pecado. Para aquele jovem, no entanto, apossar-se do celular deve ter significado uma oportunidade de ter algo que ele dificilmente teria condições de comprar. Ver aquele celular caro, novinho em folha, no porta-luvas do carro deve ter sido uma tentação enorme. Imediatamente me vem à mente a imagem de um menino pobre passando em frente a uma loja de brinquedos sonhando com um dos itens da vitrine que seus pais não têm condições de comprar-lhe. Não, eu não tenho por ele qualquer sentimento de raiva por ter deletado o que havia no celular. Na verdade, eu sinto pena, muita pena. E no fundo, eu me sinto muito mal, pois é horrível sentir pena de alguém. Deus sabe que venho de uma família de origem humilde, que sofri para estudar e que ao longo da vida tive que lidar com pouco dinheiro. Mas nada, absolutamente nada do que eu tenha vivido se aproxima da situação desse jovem. Por mais estranho que pareça, a sensação que eu tenho é a de que fui eu quem roubou algo daquele jovem.
Eu espero, de todo o meu coração, que a tutora daquele jovem consiga tirar desta situação um aprendizado para ele. Quanto a mim, os dias em que fiquei longe do meu celular Nokia 08 trouxeram-me duas lições, que aqui compartilho: 1) Cuidado com as fotos que você tira com a câmera do seu celular; ele pode cair nas mãos de outras pessoas quando você menos esperar; 2) Jamais deixe de usar algo novo que você comprou para continuar usando o velho; se você fizer isso, é porque realmente não precisava ter comprado nada novo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Meu querido filho - parte 3

Meu querido filho,

No último fim de semana nós viajamos até Quirinópolis, cidade ao Sul do Estado de Goiás. Foi lá que eu, seu papai, vivi meus seis primeiros anos de vida. Viajamos eu, você e a mamãe em nosso carro, e o vovô Altair, vovó Carminha, sua madrinha Hérica e a Clarinha, sua única prima primeira, em outro carro. Como sempre, você se comportou maravilhosamente bem. Sua mamãe viajou no banco de trás, ao seu lado, brincando e cuidando de você o tempo todo. Nas paradas, todos vinham querendo pegá-lo no colo. Quando chegamos ao nosso destino, você passou por vários braços até então desconhecidos, sem ter estranhado ninguém. Isso deixou sua mamãe e eu muito orgulhosos, pois dizem que quando eu tinha a sua idade, eu chorava quando via alguém que eu não conhecia.

Sabe aquelas histórias que eu deixei escritas pra você sobre a minha infância lá na fazenda em Quirinópolis? Pois é, meu querido filho. Eu até tentei leva-lo até lá, mas não encontrei nada que pudesse te interessar. Pra ser sincero, eu quase não consegui reconhecer o lugar. Já não existe mais o enorme coqueiro próximo à porteira de entrada – aliás, nem entrada existe mais! Todas as árvores, com exceção do pé de jenipapo, foram arrancadas. Até as enormes mangueiras, cujas sombras abrigaram por tantos anos o trator, a colhedeira, a grade e o arado do seu vovô Altair, foram arrancadas. No lugar onde vivi os seis primeiros anos de minha vida hoje só existe cana-de-açúcar.

Eu queria muito que você visse um pouco do que restou do lugar onde vivi alguns de meus dias mais felizes, mas já se passaram 35 anos e não há sequer traços das imagens que guardo comigo. Do lugar onde um dia a dona Deolinda morou com o seu Dudu restaram apenas as enormes mangueiras. O mesmo vale para o lugar onde seu Antônio ‘baiano” e a dona Belinha moravam com sua família, e onde o seu João “Grande” e a dona “Dora” tinham sua venda. A pequena escola onde eu achei que fosse estudar um dia também foi demolida. Mal dá pra saber onde viveram a dona Sebastiana e o seu Januário, a dona Nicolata ou o Dito e a Maria. Tudo foi destruído, meu filho. Tudo! Restaram apenas algumas lembranças, às quais eu sempre recorro pra que não se percam.

Dona Deolinda, seu Dudu, seu João “Grande”,dona Sebastiana, seu Januário e dona Nicolata não resistiram aos 35 anos que se passaram desde então. Eu lamento não ter guardado uma foto deles pra te mostrar. Espero que você entenda que naquela época o vovô e a vovó não tinham dinheiro pra tirar fotos com frequência, e que as poucas fotos que eles tiraram foi com uma câmera emprestada da tia Ângela. Ah, sabe aquele campo em que eu te contei que os peões do tio Antônio jogavam futebol todas as tardes de domingo? Bom, como posso te dizer isso? O tio Antônio faleceu e não há mais necessidade de tantos peões. Hoje a tia Palmira vive com nosso primo Vicente e o peão Tonho, o único deles que restou, naquela que foi um dia a maior e mais linda sede de fazenda que eu conheci. Adivinhe o que há no lugar daquele campo? Isso mesmo: pés e mais pés de cana-de-açúcar.

Nos últimos 35 anos houve um êxodo rural enorme naquela região. A maioria das pessoas que ainda estão vivas deixaram seus lares nas fazendas pra se mudarem para a cidade. A dona Dica, após a morte do seu“Fi” Vieira, mudou-se de lá com seus netos Alvim e a Gisele (ah, desses dois últimos nós temos uma foto, pois eles estiveram presentes no casamento do papai e da mamãe). Dona Rosa, após a morte do seu Mané Pifani, também mudou-se para a cidade. O Gênio e a Luiza mudaram-se para o Norte do Mato Grosso, enquanto o Divino e sua família moram para Gouvelânda-GO. Seu “Nani” também mudou-se para a cidade. Apenas Tibúrcio e a Maria do Carmo, e Denivaldo e Lucinha ainda moram por lá.

Do sítio que foi de nossa família, em que o vovô Altair ia diariamente para buscar leite com o Massey Ferguson 50F (a gente o chamava de “cinquentinha”), e onde moraram a Dalva, o Luzimar e o Tiago moravam, só restaram as árvores e a casa onde a sua bisavó Lourdes ficava quando estava por lá. De qualquer forma, podemos dizer que tudo se acabou, pois tanto a casa como as árvores serão demolidas para a construção de uma ferrovia.O restante? Só cana-de-açúcar.
É difícil te explicar por que razão eu te escrevo estas palavras. Pode ser que eu esteja perdendo meu tempo, pois corro o risco de você não se interessar por elas quando for adolescente ou mesmo um adulto, assim como eu me interessei durante toda a minha vida pela história de seu avô, o que seria para mim uma grande tristeza. No fundo, acho que escrevo sobre o passado com medo do futuro. Não tenho medo do que será de mim, mas sim do que será de você. Temo falhar na sua educação e na moldagem de seu caráter nos próximos 15 ou 20 anos, e que você se torne uma pessoa rebelde, mal educada e preguiçosa. Se isso acontecer, talvez essas palavras podem salvá-lo e fazê-lo entender que você sempre foi muito amado. De qualquer forma, estou lhe deixando a minha história como herança, na esperança de que ela não se perca com os anos. É o legado mais valioso que tenho para você neste momento.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Oi, meu nome é Julie


1989. Era uma tarde de quinta-feira. A mamãe tinha saído para fazer compras no centro da cidade e levara minha irmã. O papai, como sempre, estava pelas estradas do Brasil afora tentando ganhar dinheiro pra pagar as contas. Eu estava sozinho em casa. Sozinho. Eu não tinha vídeo game pra me distrair. Na verdade, com exceção do velho CCE que meu primo Frederico me doaria no final da década de 90 após ganhar o na época moderno SuperNintendo, eu nunca tive vídeo game. Mal sabíamos o que era um vídeo cassete. Na televisão à tarde o programa mais interessante de que me lembro era o da Mara Maravilha. Eu já tinha feito tarefa, brincado de carrinho atrás da casa... Além disso, a mamãe tinha me dito pra não sair enquanto ela não chegasse. Em outras palavras eu estava sem absolutamente nada de interessante pra fazer. Eu estava entediado. E sozinho.

“Cabeça vazia, oficina do diabo”. Foi então que me veio à memória que o papai sempre chegava de viagem com uma revista na mão. O que mais me chamava atenção é que ele nunca deixava a revista em cima da mesa. Ele chegava com ela e ia direto para o quarto, onde as guardava em algum canto do guarda-roupas. Um dia consegui ler o nome da revista: Playboy. Eu já estava na 7ª série e já conseguia entender que se tratava de uma palavra em inglês. Eu só não sabia que raios significava aquilo, nem tampouco por que razão o papai comprava aquela revista. Será que ele estudava inglês durante a espera nas longas filas para carregar seu caminhão? Será que o papai sabia falar inglês e nunca quis me contar? Eis que naquele momento fui assaltado por uma curiosidade absurda de saber o que havia nas páginas daquela revista. Meu coração acelerou-se. “Se o papai descobrir que mexi nas coisas dele, ele me mata. Mas eu acho que ele vai gostar de saber que eu aprendi a falar inglês”. De súbito, a curiosidade tornou-se maior que o medo. Segui então em direção ao quarto dos meus pais, acendi a luz, abri o guarda-roupas e iniciei minha busca. Na parte de cima, do lado esquerdo, avistei, sob um coxinilho amarelo, uma pilha de revistas. “Devem ser estar”, concluí. Mais que rapidamente, peguei o banco da penteadeira da mamãe, apoie-me nele, retirei a pilha de revistas e as coloquei sobre a cama. De repente, comecei a suar às bicas. Com o coração quase saindo pela boca, com medo da mamãe voltar, peguei uma das revistas. Em todas havia estampada na capa a palavra “Playboy”, mas em cada uma delas havia uma foto de mulher diferente, todas elas muito bonitas. “Quem sabe se eu aprender inglês, talvez um dia eu namore uma dessas mulheres!”, pensei. Sentado na cama, com a revista sobre meus joelhos, com a mão trêmula, respirei fundo e abri uma das revistas. Ao invés de textos em inglês, eu avistei a foto de uma moça loira envolta em uma toalha branca. “Meu Deus, é um anjo!” Era como se quisesse dizer "Oi, meu nome é  Julie McCoulough". Tímido, sem saber o que dizer, fazer ou pensar, eu fiquei ali, boquiaberto, durante uns 10min olhando para aquela moça, cujos lindos olhos verdes pareciam olhar para mim. Era a moça mais linda que eu tinha visto até aqueles meus 13 anos de vida.

Nos quatro anos seguintes de minha adolescência, aquela experiência se mostraria particularmente traumática para mim. Eu passaria boa parte do meu tempo à procura daquela loira ou de alguma outra que com ela se parecesse. Sempre em vão.  Eu até chegaria a nutrir uma ou outra paixão por moças loiras, porém platônica como o meu sentimento em relação àquela moça que eu via esporadicamente naquela página de revista.  “É, Julie, somos apenas eu e você”, eu pensava, encantado com aquele olhar.

Com o passar dos anos e com minhas frustradas investidas em loiras, as quais eu até então idolatrava por causa daquela foto, minhas visitas à Julie no guarda-roupas de meus pais foram se tornando cada vez mais raras. Eu fui me dando conta do quão ridícula era aquela minha adoração por aquela foto. Não, a vida não era um conto de fadas e aquela moça certamente não existia. Aos poucos minha preferência por loiras foi dando lugar à aversão por elas. Tudo por causa da Julie...

Os anos se passaram. Tornei-me homem e encontrei em uma bela morena o anjo que eu tanto procurava para preencher meu coração e meu espírito, mas cujos olhos jamais foram ou serão estampados na capa de alguma revista masculina. Hoje, casado e feliz, já não tenho aversão por loiras ou morenas, pois toda paixão ou raiva que senti algum dia por alguma mulher deram lugar ao amor pleno que sinto pela Débora.

Eis que após 22 anos, em uma de minhas buscas de vídeos pelo YouTube, encontro uma velha conhecida. Julie McCoulough, hoje com 43 anos, ainda é uma bela mulher. Contudo, seu encanto parece ter sido levado pelo tempo, ou talvez o meu encanto por ela é que tenha sido levado por ele. Julie tornou-se uma comediante stand up comum, e o que ela faz ou deixa de fazer hoje pouco me importa. O fato é que por mais que ela tente fazer os outros sorrirem, jamais irá conseguir reparar os efeitos desastrosos que aquela sua foto teve sobre minha adolescência. De tudo isso, restam duas certezas: 1) o papai não sabe falar inglês coisa nenhuma e certamente não comprava aquelas revistas para estudar; 2) se eu tivesse encontrado o que eu fui procurar nas páginas daquela revista há 22 anos, eu não precisaria frequentar aulas de inglês até hoje e certamente teria conseguido entender que diabos ela está dizendo na maldita entrevista...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Meu querido filho - parte 2


          Meu querido filho,
Faz tempo que não te escrevo. Eu deveria escrever-lhe com uma frequência maior, mas como eu sei que você só lerá e entenderá essas palavras daqui a uns 15 anos, eu as tenho guardado para mim mesmo. O fato, meu filho, é que o tempo está passando voando e você está se desenvolvendo tão rapidamente que, sem eu me dar conta, esses anos terão se passado e eu não terei registrado a magia de tê-lo conosco.

Desde os primeiros dias de vida você foi um bom menino. Muito saudável, esperto e bonzinho. É claro que se tratando você de nosso primogênito, eu e sua mamãe tivemos que fazer algumas mudanças em nossa rotina para adaptar-nos à sua presença aqui em casa. Nos primeiros meses você dormiu em seu carrinho, ao lado da nossa cama. Nós morríamos de medo de você se sufocar. Coisa de pais cautelosos. Neste período, nós te envolvíamos em uma coberta para que você não sentisse frio. Sua mamãe dizia que eu fazia aquilo melhor que ela, e que você parecia estar enrolado em um turbante de muçulmano. Com isso você ficava em uma posição parecida com a que nós te vimos no berçário, sem poder mexer com os braços e pernas. Mas aos poucos você foi ficando mais forte e foi conseguindo liberar o movimento de seus pezinhos e mãozinhas. E adivinha o que acontecia quando você mexia suas mãozinhas? Você as batia na chupeta, e sem ela você começava a chorar...

Após os três primeiros meses você começou a dormir em seu berço. Para não deixar que sua mamãe se cansasse muito, já que ela já se submetia ao esgotante (e prazeroso, segundo ela) trabalho de amamenta-lo, era eu quem acordava e o trazia para nossa cama, para mamar. Após devorar volumes cada vez maiores de leite, eu o pegava no colo e ficava com você até ouvir você arrotar duas vezes. Só então eu o colocava na cama pra dormir. Quantas e quantas vezes eu e sua mamãe ficamos te admirando, dormindo entre nós, sentindo o seu cheirinho, encantados com o seu desenvolvimento, apaixonados pela sua doçura. “Amor, é o nosso filho!”, dizíamos um para o outro, emocionados, muitas vezes com os olhos rasos em lágrimas. Nesses momentos a gente se lembrava do quanto a gente esperou por você e amou você desde sempre...

Decidimos batiza-lo quando você tinha quatro meses. Seus padrinhos foram a tia Hérica e o tio Alexandre. Tia Vina e tio Marcos foram seus padrinhos de consagração. Nós os escolhemos por razões muito especiais. Tia Vina ajudou sua mamãe a cuidar de você nas primeiras semanas. Ela chegou a dar banho de chá de picão em você para que seus olhos, então amarelados, se tornassem brancos. Tia Hérica, por sua vez, demonstrou-se apaixonada por você desde o momento em que soube que seria titia. O dia de seu batizado foi bastante especial. Apesar do atraso, o padre Mauro realizou uma das cerimônias de batismo mais lindas que eu já vi. Foi de emocionar. Durante a cerimônia, aconteceu algo bastante inusitado. Quando o padre Mauro levantou-o para mostrar para a igreja, você avistou um dos dedos dele e quis morde-lo, arrancando risos de toda a igreja. Aliás, meu filho, rir e arrancar risos têm sido uma de suas maiores especialidades. Você parece feliz por estar vivo, e assim acaba contagiando todos os que estão em sua volta. Estou certo de que você lerá essas palavras na adolescência, período muito difícil da vida de um homem. Espero que até lá você não tenha perdido esta alegria de viver.

Após a cerimônia de batismo, reunimos os convidados lá na nossa casa. O vovô Altair fez um churrasco delicioso e todos comeram bastante. Sua mamãe fez uma bela decoração. Penduramos bexigas no teto da varanda, forramos as mesas... Compramos até um bolo pra você. Cantamos parabéns, com direito a “Derrama, Senhor, sobre ele o seu amor”. Durante a festa, todos queriam pegá-lo no colo. Ao contrário de mim, que quando era criança chorava nos braços de quem eu não estava acostumado, você sorriu pra todo mundo, como se os agradecesse pela sua presença.

Alguns amigos do papai e da mamãe vieram visita-lo. O tio Carlos, o “Gordo”, colega de infância do papai, foi um dos primeiros a vir vê-lo. Vieram também o tio Vladimir e sua família, o tio Rodrigo “Tião” – que se emocionou ao pegá-lo nos braços – e o tio Carlos, que aproveitou e te trouxe um convite para o aniversário do Luís Otávio, que certamente será seu amiguinho, assim como eu e o pai dele somos. Da parte da mamãe vieram a tia Glenda, a tia Natália, a tia Marlene, a tia Janaína e a tia Sandra. Eu e sua mamãe ficamos muito felizes com a consideração que eles tiveram em visita-lo. Esperamos que eles possam comparecer também ao seu aniversário.

Há várias coisas outras que eu quero escrever-lhe, meu filho, mas por enquanto vou parar por aqui, pois você está aqui ao lado, brincando em seu cercadinho, pedindo algo que no momento é mais valioso que estas palavras: a minha atenção.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A triste saga de um celular Nokia N8 - parte 2



Quando o proprietário do lavador ouve que o celular que ele mesmo colocou no porta-luvas do carro não estava lá, uma de suas sobrancelhas se arqueia. É claro que algo estranho deve ter acontecido. A situação, no entanto, é pra lá de constrangedora. De fato, eu pensei umas dez mil vezes antes de vir perguntar-lhe sobre o agora maldito Nokia N8. Arrependido, eu tento aliviar a situação. “Bom, vamos fazer o seguinte: o senhor dá uma olhada aí pra tentar descobrir o que aconteceu, enquanto eu olho lá em casa e tento ver se o encontro por lá. Pode ser que minha esposa o tenha tirado do porta-luvas e ele esteja perdido em algum canto. Depois eu passo aqui pra gente conversar.” Ele balança a cabeça para cima e para baixo, mostrando estar de acordo com a idéia. “Combinado!” Sigo então para casa e me empenho em uma nova busca por todos os possíveis cantos onde o celular poderia estar, mas fracasso novamente. Quando passo em frente ao lavador, vejo o proprietário conversando com seus três jovens funcionários, aparentemente nervoso. A cena faz-me concluir que não é um bom momento para parar. Dou então algumas voltas pela cidade e retorno uns 15min depois. “Fizemos uma busca pelo celular lá em casa e infelizmente não o encontramos...”. Ele ouve, e meio constrangido, começa a desabafar. “Olha, se eu não tivesse visto este celular, a situação poderia ser diferente. Mas eu o vi, eu mesmo o coloquei no porta-luvas do seu carro. Perguntei para os meninos aqui e eles disseram que não foram eles. Então eu dispensei os três. Se a culpa não é de um deles, então a culpa é de todo mundo. Pode ver quanto custa o aparelho que eu vou te dar outro.” Assustado com a atitude radical, típica de um homem honesto ferido e envergonhado, eu fico reticente com relação ao que dizer. A única coisa que me ocorre neste momento é que inocentes irão pagar por algo que não fizeram. E se por acaso o N8 estiver perdido lá em casa? E se o proprietário dispensar os três funcionários, pagar um aparelho novo para mim e eu, depois de algum tempo, encontrar o antigo aparelho? Conseguirei viver sabendo que fui responsável pela dispensa injusta de três jovens e pelo reembolso de um aparelho que na verdade sempre este aqui? Angustiado, eu novamente opto por ser cauteloso. “Por favor, não dispense os meninos. Vamos aguardar um tempo. Talvez o celular esteja lá em casa mesmo e a gente não tenha conseguido encontra-lo. Vou conversar novamente com minha esposa pra confirmar se ela tem mesmo certeza de não ter retirado o aparelho do porta-luvas . Vamos fazer o seguinte: eu volto a ligar para o senhor. Mas por enquanto, não dispense os meninos.” Muito educado, ele concorda. “Vamos torcer pra que você ache o celular lá na sua casa. Acho que seria melhor pra todo mundo”, finaliza ele, demonstrando sua vontade de que as coisas se resolvam o mais rápido possível.


21 de dezembro. Já é quase meia noite e eu não consigo dormir. Não consigo aceitar que o meu N8 se foi sem que eu o tivesse utilizado. O aparelho era novinho! Nem a película protetora eu havia retirado... A esta altura um sentimento de inconformismo e revolta toma conta de mim. Eu já procurei o aparelho por todos os cantos de casa umas cinco ou seis vezes. De repente, a possibilidade de que o N8 realmente não esteja aqui em casa começa a ganhar peso. “Imagina, Eduardo! Você leva o carro pra lavar neste lavador há tantos anos. É improvável que uma coisa desse tipo tenha acontecido”, diz a Débora antes de pegar no sono. Subitamente, jogo a coberta para o lado e sigo em direção ao computador. Entro no site da Nokia e vejo o modelo que está me tirando o sono. O preço: R$899,00, que podem ser parcelados em 12 vezes. “Que se dane! Vou comprar outro aparelho!” Quando estou quase terminando de efetuar a compra, Débora aparece e me convence a aguardar mais um pouco.

22 de dezembro. São 15h. Sem vontade de ir novamente ao lavador, eu procuro pelo telefone do proprietário e efetuo a ligação. Já não sei mais o que dizer a ele, pois estou extremamente chateado e constrangido com isso tudo. O que posso dizer é que fui o grande culpado por isso tudo. Se eu tivesse retirado o celular do carro, nada disso teria acontecido. Sem saber mais o que fazer e com medo de que os funcionários do lavador sejam punidos por um erro que certamente não cometeram, disco os números e aguardo. Quando identifico a voz do proprietário, identifico-me. “Ô, doutor, o senhor está bem? Eu estava aguardando a sua ligação.” Um frio me percorre a espinha. “Por acaso o senhor tem alguma novidade sobre o aparelho de celular que estava no porta-luvas?” A resposta me surpreende e me alivia. “Sim, tenho sim! Ele está aqui comigo. Passe aqui pra pegá-lo. Aí eu aproveito e te conto o que aconteceu.” Débora, ao ouvir minha conversa, sente-se aliviada. “Graças a Deus”. Mas o que terá acontecido? Onde estava este celular? Por que ele foi aparecer só agora?
(continua...)