quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Meu querido filho - parte 3

Meu querido filho,

No último fim de semana nós viajamos até Quirinópolis, cidade ao Sul do Estado de Goiás. Foi lá que eu, seu papai, vivi meus seis primeiros anos de vida. Viajamos eu, você e a mamãe em nosso carro, e o vovô Altair, vovó Carminha, sua madrinha Hérica e a Clarinha, sua única prima primeira, em outro carro. Como sempre, você se comportou maravilhosamente bem. Sua mamãe viajou no banco de trás, ao seu lado, brincando e cuidando de você o tempo todo. Nas paradas, todos vinham querendo pegá-lo no colo. Quando chegamos ao nosso destino, você passou por vários braços até então desconhecidos, sem ter estranhado ninguém. Isso deixou sua mamãe e eu muito orgulhosos, pois dizem que quando eu tinha a sua idade, eu chorava quando via alguém que eu não conhecia.

Sabe aquelas histórias que eu deixei escritas pra você sobre a minha infância lá na fazenda em Quirinópolis? Pois é, meu querido filho. Eu até tentei leva-lo até lá, mas não encontrei nada que pudesse te interessar. Pra ser sincero, eu quase não consegui reconhecer o lugar. Já não existe mais o enorme coqueiro próximo à porteira de entrada – aliás, nem entrada existe mais! Todas as árvores, com exceção do pé de jenipapo, foram arrancadas. Até as enormes mangueiras, cujas sombras abrigaram por tantos anos o trator, a colhedeira, a grade e o arado do seu vovô Altair, foram arrancadas. No lugar onde vivi os seis primeiros anos de minha vida hoje só existe cana-de-açúcar.

Eu queria muito que você visse um pouco do que restou do lugar onde vivi alguns de meus dias mais felizes, mas já se passaram 35 anos e não há sequer traços das imagens que guardo comigo. Do lugar onde um dia a dona Deolinda morou com o seu Dudu restaram apenas as enormes mangueiras. O mesmo vale para o lugar onde seu Antônio ‘baiano” e a dona Belinha moravam com sua família, e onde o seu João “Grande” e a dona “Dora” tinham sua venda. A pequena escola onde eu achei que fosse estudar um dia também foi demolida. Mal dá pra saber onde viveram a dona Sebastiana e o seu Januário, a dona Nicolata ou o Dito e a Maria. Tudo foi destruído, meu filho. Tudo! Restaram apenas algumas lembranças, às quais eu sempre recorro pra que não se percam.

Dona Deolinda, seu Dudu, seu João “Grande”,dona Sebastiana, seu Januário e dona Nicolata não resistiram aos 35 anos que se passaram desde então. Eu lamento não ter guardado uma foto deles pra te mostrar. Espero que você entenda que naquela época o vovô e a vovó não tinham dinheiro pra tirar fotos com frequência, e que as poucas fotos que eles tiraram foi com uma câmera emprestada da tia Ângela. Ah, sabe aquele campo em que eu te contei que os peões do tio Antônio jogavam futebol todas as tardes de domingo? Bom, como posso te dizer isso? O tio Antônio faleceu e não há mais necessidade de tantos peões. Hoje a tia Palmira vive com nosso primo Vicente e o peão Tonho, o único deles que restou, naquela que foi um dia a maior e mais linda sede de fazenda que eu conheci. Adivinhe o que há no lugar daquele campo? Isso mesmo: pés e mais pés de cana-de-açúcar.

Nos últimos 35 anos houve um êxodo rural enorme naquela região. A maioria das pessoas que ainda estão vivas deixaram seus lares nas fazendas pra se mudarem para a cidade. A dona Dica, após a morte do seu“Fi” Vieira, mudou-se de lá com seus netos Alvim e a Gisele (ah, desses dois últimos nós temos uma foto, pois eles estiveram presentes no casamento do papai e da mamãe). Dona Rosa, após a morte do seu Mané Pifani, também mudou-se para a cidade. O Gênio e a Luiza mudaram-se para o Norte do Mato Grosso, enquanto o Divino e sua família moram para Gouvelânda-GO. Seu “Nani” também mudou-se para a cidade. Apenas Tibúrcio e a Maria do Carmo, e Denivaldo e Lucinha ainda moram por lá.

Do sítio que foi de nossa família, em que o vovô Altair ia diariamente para buscar leite com o Massey Ferguson 50F (a gente o chamava de “cinquentinha”), e onde moraram a Dalva, o Luzimar e o Tiago moravam, só restaram as árvores e a casa onde a sua bisavó Lourdes ficava quando estava por lá. De qualquer forma, podemos dizer que tudo se acabou, pois tanto a casa como as árvores serão demolidas para a construção de uma ferrovia.O restante? Só cana-de-açúcar.
É difícil te explicar por que razão eu te escrevo estas palavras. Pode ser que eu esteja perdendo meu tempo, pois corro o risco de você não se interessar por elas quando for adolescente ou mesmo um adulto, assim como eu me interessei durante toda a minha vida pela história de seu avô, o que seria para mim uma grande tristeza. No fundo, acho que escrevo sobre o passado com medo do futuro. Não tenho medo do que será de mim, mas sim do que será de você. Temo falhar na sua educação e na moldagem de seu caráter nos próximos 15 ou 20 anos, e que você se torne uma pessoa rebelde, mal educada e preguiçosa. Se isso acontecer, talvez essas palavras podem salvá-lo e fazê-lo entender que você sempre foi muito amado. De qualquer forma, estou lhe deixando a minha história como herança, na esperança de que ela não se perca com os anos. É o legado mais valioso que tenho para você neste momento.

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