terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Meus cumprimentos a um vencedor

15h. Estou caminhando em direção à tesouraria. Estou acompanhado por três colegas professores, dois deles de outras instituições, que compuseram a banca examinadora de defesa de doutorado de um de nossos alunos. Não era um simples aluno; era o Omar.
Enquanto caminho, avisto uma fila enorme. São alunos que estão fazendo suas inscrições. A maioria deles ingressará em dos cursos superiores aqui da universidade neste ano. Será um ano marcante na vida deles. Um ano de muitas mudanças. Todos aguardam sentados, embora alguns pareçam incomodados com a espera.
É curioso olhar para isso e lembrar que já passei pela mesma situação que eles há 17 anos. Na época, bastante contrariado, lembro de ter vindo fazer minha inscrição para o vestibular em Química com o Flavinho, que se inscreveu para concorrer a uma das vagas em Química da Computação. Eu queria cursar Engenharia Elétrica na USP de São Carlos. Na verdade, em 1993 eu tinha prestado vestibular pra engenharia, mas queria mesmo era fazer Licenciatura em Ciências Exatas em na UFSCAR. Ora, imagine a minha situação: pobre, estudando na melhor escola da cidade com bolsa de estudos e querendo ser professor? Desde aquela época a profissão de professor não era valorizada. A direção da escola deu a entender que eu devia prestar vestibular pra seguir uma carreira “mais promissora”, ou seja, um curso difícil de ingressar, pra que eles pudessem anunciar, caso eu fosse aprovado, que quem estudasse na escola era aprovado em vestibulares.
Após um ano de cursinho, entre idas e vindas (que eu contarei em outra oportunidade), e após muita insistência do papai, vim fazer minha inscrição. Fui aprovado em 2º. lugar dentre 2500 candidatos. Mesmo assim não recebi um centavo de desconto. O FIES não oferecia as facilidades de hoje e o PROUNI não existia nem no papel. Por isso, tive que trabalhar para pagar a mensalidade. Foram dois anos e meio conciliando o curso de graduação com as funções de almoxarife na Usina Alta Mogiana. Foi uma época difícil, mas que me deixou muitas recordações boas.
Mas voltemos ao Omar. Ele graduou-se em Química um ano antes de mim e ingressou como técnico do laboratório de alunos. Hoje ele também é, assim como eu, professor do curso de Química, além de ser o técnico responsável por todo o laboratório de pesquisa. Sua jornada de trabalho estende-se pelos três períodos do dia. Não deve ter sido fácil conciliar tanto trabalho com o doutorado. Aliás, não deve ter sido nada simples estudar e trabalhar tendo dois filhos adolescentes em idade pré-vestibular para educar. Pois bem. Ele conseguiu. E mais do que conseguir, ele deu um grande exemplo para seus filhos. No final de sua apresentação, quando foi agradecer, lembrou de Deus, de seus pais e de sua esposa. Quando foi agradecer aos filhos, mesmo não estando presentes, ele olhou para cima, com os olhos já vermelhos, e engoliu seco, tentando inutilmente disfarçar a emoção. “Esses meninos...” E fez uma pausa. “...são o meu combustível”, desabafou. Sim, caro leitor, todos nós temos uma história pra contar. Hoje o meu amigo Omar escreveu mais um belo e vitorioso capítulo da dele. Seus filhos devem estar orgulhosos por sua conquista. E com toda razão.

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