quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Oi, meu nome é Julie


1989. Era uma tarde de quinta-feira. A mamãe tinha saído para fazer compras no centro da cidade e levara minha irmã. O papai, como sempre, estava pelas estradas do Brasil afora tentando ganhar dinheiro pra pagar as contas. Eu estava sozinho em casa. Sozinho. Eu não tinha vídeo game pra me distrair. Na verdade, com exceção do velho CCE que meu primo Frederico me doaria no final da década de 90 após ganhar o na época moderno SuperNintendo, eu nunca tive vídeo game. Mal sabíamos o que era um vídeo cassete. Na televisão à tarde o programa mais interessante de que me lembro era o da Mara Maravilha. Eu já tinha feito tarefa, brincado de carrinho atrás da casa... Além disso, a mamãe tinha me dito pra não sair enquanto ela não chegasse. Em outras palavras eu estava sem absolutamente nada de interessante pra fazer. Eu estava entediado. E sozinho.

“Cabeça vazia, oficina do diabo”. Foi então que me veio à memória que o papai sempre chegava de viagem com uma revista na mão. O que mais me chamava atenção é que ele nunca deixava a revista em cima da mesa. Ele chegava com ela e ia direto para o quarto, onde as guardava em algum canto do guarda-roupas. Um dia consegui ler o nome da revista: Playboy. Eu já estava na 7ª série e já conseguia entender que se tratava de uma palavra em inglês. Eu só não sabia que raios significava aquilo, nem tampouco por que razão o papai comprava aquela revista. Será que ele estudava inglês durante a espera nas longas filas para carregar seu caminhão? Será que o papai sabia falar inglês e nunca quis me contar? Eis que naquele momento fui assaltado por uma curiosidade absurda de saber o que havia nas páginas daquela revista. Meu coração acelerou-se. “Se o papai descobrir que mexi nas coisas dele, ele me mata. Mas eu acho que ele vai gostar de saber que eu aprendi a falar inglês”. De súbito, a curiosidade tornou-se maior que o medo. Segui então em direção ao quarto dos meus pais, acendi a luz, abri o guarda-roupas e iniciei minha busca. Na parte de cima, do lado esquerdo, avistei, sob um coxinilho amarelo, uma pilha de revistas. “Devem ser estar”, concluí. Mais que rapidamente, peguei o banco da penteadeira da mamãe, apoie-me nele, retirei a pilha de revistas e as coloquei sobre a cama. De repente, comecei a suar às bicas. Com o coração quase saindo pela boca, com medo da mamãe voltar, peguei uma das revistas. Em todas havia estampada na capa a palavra “Playboy”, mas em cada uma delas havia uma foto de mulher diferente, todas elas muito bonitas. “Quem sabe se eu aprender inglês, talvez um dia eu namore uma dessas mulheres!”, pensei. Sentado na cama, com a revista sobre meus joelhos, com a mão trêmula, respirei fundo e abri uma das revistas. Ao invés de textos em inglês, eu avistei a foto de uma moça loira envolta em uma toalha branca. “Meu Deus, é um anjo!” Era como se quisesse dizer "Oi, meu nome é  Julie McCoulough". Tímido, sem saber o que dizer, fazer ou pensar, eu fiquei ali, boquiaberto, durante uns 10min olhando para aquela moça, cujos lindos olhos verdes pareciam olhar para mim. Era a moça mais linda que eu tinha visto até aqueles meus 13 anos de vida.

Nos quatro anos seguintes de minha adolescência, aquela experiência se mostraria particularmente traumática para mim. Eu passaria boa parte do meu tempo à procura daquela loira ou de alguma outra que com ela se parecesse. Sempre em vão.  Eu até chegaria a nutrir uma ou outra paixão por moças loiras, porém platônica como o meu sentimento em relação àquela moça que eu via esporadicamente naquela página de revista.  “É, Julie, somos apenas eu e você”, eu pensava, encantado com aquele olhar.

Com o passar dos anos e com minhas frustradas investidas em loiras, as quais eu até então idolatrava por causa daquela foto, minhas visitas à Julie no guarda-roupas de meus pais foram se tornando cada vez mais raras. Eu fui me dando conta do quão ridícula era aquela minha adoração por aquela foto. Não, a vida não era um conto de fadas e aquela moça certamente não existia. Aos poucos minha preferência por loiras foi dando lugar à aversão por elas. Tudo por causa da Julie...

Os anos se passaram. Tornei-me homem e encontrei em uma bela morena o anjo que eu tanto procurava para preencher meu coração e meu espírito, mas cujos olhos jamais foram ou serão estampados na capa de alguma revista masculina. Hoje, casado e feliz, já não tenho aversão por loiras ou morenas, pois toda paixão ou raiva que senti algum dia por alguma mulher deram lugar ao amor pleno que sinto pela Débora.

Eis que após 22 anos, em uma de minhas buscas de vídeos pelo YouTube, encontro uma velha conhecida. Julie McCoulough, hoje com 43 anos, ainda é uma bela mulher. Contudo, seu encanto parece ter sido levado pelo tempo, ou talvez o meu encanto por ela é que tenha sido levado por ele. Julie tornou-se uma comediante stand up comum, e o que ela faz ou deixa de fazer hoje pouco me importa. O fato é que por mais que ela tente fazer os outros sorrirem, jamais irá conseguir reparar os efeitos desastrosos que aquela sua foto teve sobre minha adolescência. De tudo isso, restam duas certezas: 1) o papai não sabe falar inglês coisa nenhuma e certamente não comprava aquelas revistas para estudar; 2) se eu tivesse encontrado o que eu fui procurar nas páginas daquela revista há 22 anos, eu não precisaria frequentar aulas de inglês até hoje e certamente teria conseguido entender que diabos ela está dizendo na maldita entrevista...

Um comentário:

Rodrigo C. S. V. disse...

É Miller...o legal na Playboy são as "figuras". Não precisa saber inglês mesmo...