segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A triste saga de um celular Nokia N08 - parte final

 
22 de dezembro. 17h. Estou estacionando em frente ao lavador. Estou prestes a pegar de volta o meu celular Nokia 08. Não sei o que aconteceu. Confesso que estou curioso.
Quando avisto o proprietário do lavador e o chamo pelo nome, ele imediatamente desliga o motor que impulsiona a água com pressão para a lavagem dos carros, enxuga as mãos e pede que eu o siga. Caminho poucos metros até uma sala pouco iluminada, no final do balcão onde os carros são lavados. Ele me mostra uma sacola de supermercado. “Dê uma olhada. Deve ser esse aí”. Pego a sacola nas mãos. Dentro dela, embrulhado em uma folha de sulfite contendo o nome do proprietário do carro, está o celular Nokia 08. “É esse aí?”, pergunta ele. Respondo “sim...” enquanto procuro as fotos que tiramos das últimas pesagens do Miguel na pediatra e tantas outras no berço e no banho. Todas foram apagadas. “... é esse mesmo”, termino a frase com um ar de tristeza.
Sem encontrar no celular o que eu tanto procurava, direciono meu olhar para o proprietário e pergunto-lhe o que aconteceu.
“Bom, a história é meio longa...”, começa ele. “Eu tinha certeza de ter colocado o celular no porta-luvas do seu carro. Quando você me disse que ele não estava lá, mas que você não sabia se poderia estar na sua casa, eu não me preocupei. Fiquei torcendo pra que você o encontrasse lá. Quando na segunda-feira um dos meninos que trabalham pra mim não veio trabalhar, eu comecei a ficar preocupado. Liguei pra ele e perguntei se ele não sabia do celular. Ele disse que não tinha visto. Na terça-feira ele também não veio. Aí eu fiquei preocupado. Eu conheço o outro rapaz, conheço a família dele, o pai dele... Ele eu sabia que não tinha sido. Mas esse aí que estou te falando...”. Ele fez uma pausa. Olhou para o chão. Tenho a impressão de que as próximas palavras serão difíceis de serem ditas. “Sim... O que há com ele?”. Ele enche os pulmões de ar e reinicia a história. “Bom, eu não o conheço. Sei que ele estava abrigado na Fundação Casa. A mãe dele está presa por porte e venda de drogas. Uma amiga minha passou a visitá-lo na Fundação e, muito boa de coração, ficou tocada com a situação dele e tornou-se tutora dele na justiça. Ela havia me pedido pra dar uma oportunidade de trabalho a ele, então eu decidi ajudar. Aí acontece isso...” Aquelas palavras me deixam chocado. “Então foi ele?”. Ele confirma: “Sim. Mas ele havia negado que foi ele. Quando eu falei com ela sobre o sumiço do seu celular, ela conversou com ele com muito jeito e ele confessou que havia pego o celular.”
Sem saber o que dizer, coloco o celular no bolso e peço desculpas por aquela situação tão constrangedora. “Imagina. Eu é que lhe devo desculpas”. Diante da honestidade daquele homem, agendo para amanhã a lavagem do meu carro. “Ta combinado!”, diz ele, aparentemente aliviado por não ter perdido o cliente. Despeço-me, dou partida e sigo em direção à minha casa. Enquanto dirijo, sou abatido por uma grande tristeza. Não pelas fotos ou vídeos do meu filho que foram apagadas, mas pela situação daquele jovem. Está separado da família sabe-se lá há quanto tempo. Deve ter tido uma vida difícil, sem muitos bons exemplos a seguir ou pessoas que se preocupassem de verdade com ele. Segundo a educação que recebi, o roubo é não apenas um crime, mas um pecado. Para aquele jovem, no entanto, apossar-se do celular deve ter significado uma oportunidade de ter algo que ele dificilmente teria condições de comprar. Ver aquele celular caro, novinho em folha, no porta-luvas do carro deve ter sido uma tentação enorme. Imediatamente me vem à mente a imagem de um menino pobre passando em frente a uma loja de brinquedos sonhando com um dos itens da vitrine que seus pais não têm condições de comprar-lhe. Não, eu não tenho por ele qualquer sentimento de raiva por ter deletado o que havia no celular. Na verdade, eu sinto pena, muita pena. E no fundo, eu me sinto muito mal, pois é horrível sentir pena de alguém. Deus sabe que venho de uma família de origem humilde, que sofri para estudar e que ao longo da vida tive que lidar com pouco dinheiro. Mas nada, absolutamente nada do que eu tenha vivido se aproxima da situação desse jovem. Por mais estranho que pareça, a sensação que eu tenho é a de que fui eu quem roubou algo daquele jovem.
Eu espero, de todo o meu coração, que a tutora daquele jovem consiga tirar desta situação um aprendizado para ele. Quanto a mim, os dias em que fiquei longe do meu celular Nokia 08 trouxeram-me duas lições, que aqui compartilho: 1) Cuidado com as fotos que você tira com a câmera do seu celular; ele pode cair nas mãos de outras pessoas quando você menos esperar; 2) Jamais deixe de usar algo novo que você comprou para continuar usando o velho; se você fizer isso, é porque realmente não precisava ter comprado nada novo.

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