segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A triste saga de um celular Nokia N8 - parte 2



Quando o proprietário do lavador ouve que o celular que ele mesmo colocou no porta-luvas do carro não estava lá, uma de suas sobrancelhas se arqueia. É claro que algo estranho deve ter acontecido. A situação, no entanto, é pra lá de constrangedora. De fato, eu pensei umas dez mil vezes antes de vir perguntar-lhe sobre o agora maldito Nokia N8. Arrependido, eu tento aliviar a situação. “Bom, vamos fazer o seguinte: o senhor dá uma olhada aí pra tentar descobrir o que aconteceu, enquanto eu olho lá em casa e tento ver se o encontro por lá. Pode ser que minha esposa o tenha tirado do porta-luvas e ele esteja perdido em algum canto. Depois eu passo aqui pra gente conversar.” Ele balança a cabeça para cima e para baixo, mostrando estar de acordo com a idéia. “Combinado!” Sigo então para casa e me empenho em uma nova busca por todos os possíveis cantos onde o celular poderia estar, mas fracasso novamente. Quando passo em frente ao lavador, vejo o proprietário conversando com seus três jovens funcionários, aparentemente nervoso. A cena faz-me concluir que não é um bom momento para parar. Dou então algumas voltas pela cidade e retorno uns 15min depois. “Fizemos uma busca pelo celular lá em casa e infelizmente não o encontramos...”. Ele ouve, e meio constrangido, começa a desabafar. “Olha, se eu não tivesse visto este celular, a situação poderia ser diferente. Mas eu o vi, eu mesmo o coloquei no porta-luvas do seu carro. Perguntei para os meninos aqui e eles disseram que não foram eles. Então eu dispensei os três. Se a culpa não é de um deles, então a culpa é de todo mundo. Pode ver quanto custa o aparelho que eu vou te dar outro.” Assustado com a atitude radical, típica de um homem honesto ferido e envergonhado, eu fico reticente com relação ao que dizer. A única coisa que me ocorre neste momento é que inocentes irão pagar por algo que não fizeram. E se por acaso o N8 estiver perdido lá em casa? E se o proprietário dispensar os três funcionários, pagar um aparelho novo para mim e eu, depois de algum tempo, encontrar o antigo aparelho? Conseguirei viver sabendo que fui responsável pela dispensa injusta de três jovens e pelo reembolso de um aparelho que na verdade sempre este aqui? Angustiado, eu novamente opto por ser cauteloso. “Por favor, não dispense os meninos. Vamos aguardar um tempo. Talvez o celular esteja lá em casa mesmo e a gente não tenha conseguido encontra-lo. Vou conversar novamente com minha esposa pra confirmar se ela tem mesmo certeza de não ter retirado o aparelho do porta-luvas . Vamos fazer o seguinte: eu volto a ligar para o senhor. Mas por enquanto, não dispense os meninos.” Muito educado, ele concorda. “Vamos torcer pra que você ache o celular lá na sua casa. Acho que seria melhor pra todo mundo”, finaliza ele, demonstrando sua vontade de que as coisas se resolvam o mais rápido possível.


21 de dezembro. Já é quase meia noite e eu não consigo dormir. Não consigo aceitar que o meu N8 se foi sem que eu o tivesse utilizado. O aparelho era novinho! Nem a película protetora eu havia retirado... A esta altura um sentimento de inconformismo e revolta toma conta de mim. Eu já procurei o aparelho por todos os cantos de casa umas cinco ou seis vezes. De repente, a possibilidade de que o N8 realmente não esteja aqui em casa começa a ganhar peso. “Imagina, Eduardo! Você leva o carro pra lavar neste lavador há tantos anos. É improvável que uma coisa desse tipo tenha acontecido”, diz a Débora antes de pegar no sono. Subitamente, jogo a coberta para o lado e sigo em direção ao computador. Entro no site da Nokia e vejo o modelo que está me tirando o sono. O preço: R$899,00, que podem ser parcelados em 12 vezes. “Que se dane! Vou comprar outro aparelho!” Quando estou quase terminando de efetuar a compra, Débora aparece e me convence a aguardar mais um pouco.

22 de dezembro. São 15h. Sem vontade de ir novamente ao lavador, eu procuro pelo telefone do proprietário e efetuo a ligação. Já não sei mais o que dizer a ele, pois estou extremamente chateado e constrangido com isso tudo. O que posso dizer é que fui o grande culpado por isso tudo. Se eu tivesse retirado o celular do carro, nada disso teria acontecido. Sem saber mais o que fazer e com medo de que os funcionários do lavador sejam punidos por um erro que certamente não cometeram, disco os números e aguardo. Quando identifico a voz do proprietário, identifico-me. “Ô, doutor, o senhor está bem? Eu estava aguardando a sua ligação.” Um frio me percorre a espinha. “Por acaso o senhor tem alguma novidade sobre o aparelho de celular que estava no porta-luvas?” A resposta me surpreende e me alivia. “Sim, tenho sim! Ele está aqui comigo. Passe aqui pra pegá-lo. Aí eu aproveito e te conto o que aconteceu.” Débora, ao ouvir minha conversa, sente-se aliviada. “Graças a Deus”. Mas o que terá acontecido? Onde estava este celular? Por que ele foi aparecer só agora?
(continua...)

Nenhum comentário: