quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Meu querido filho - parte 4

Querido Miguel,
Até o dia 26 de fevereiro – ou seja, até os seus 9 meses e 16 dias de vida – você jamais ficara doente. Nem um resfriado sequer. Nem mesmo as inúmeras vacinas que você tomou foram capazes de te derrubar. Até aquele dia, meu filho, você foi uma muralha que os vírus, bactérias e fungos não conseguiram transpor.
Mas tudo tem sua primeira vez. E naquele dia e nos cinco próximos dias você nos deixou extremamente preocupados. Eu, sua mamãe, seus avós, bisavós, tia, madrinha, prima ficamos apreensivos com a febre de 39º que deixou você abatido durante todos aqueles dias. Foi difícil pegá-lo no colo e, ao invés de vê-lo sorrindo, sentir seu rosto encostando no meu ombro, com voz chorosa. Seu corpo queimava. Era como pegar um pedaço de carvão em chamas.
No domingo decidimos levá-lo à unidade de emergência da Unimed. Quem atendeu você foi um ginecologista. Descobrimos na volta para casa que ele foi um dos médicos que ajudoram em sua vinda a este mundo. Mas vamos falar sério: como plantonista ele foi um desastre! Sentou-se diante de você e começou a te perguntar o que você tinha. “Bom, já que você não quer falar, vamos ter que te examinar”, dizia ele. Eu imagino que aquilo tenha sido uma tentativa frustrada de parecer engraçado. Ele sequer conseguiu olhar a sua garganta. “Ela me parece meio raspada. Vamos ter que entrar com um antibiótico”. Saímos, agradecemos, passamos na drogaria e compramos a amoxicilina que ele receitou. Depois descobrimos que aquilo era um procedimento padrão e que ele não fazia a mínima idéia de qual era o seu problema.
Na segunda-feira sua mamãe levou você à pediatra. Infelizmente o papai não pôde ir porque teve que ir trabalhar. A médica que te atendeu – não era a doutora Fabiana – disse que você estava abatido e exames de sangue e de urina. A partir dele detectamos que você estava com uma virose muito forte, e que pra cortá-la seriam necessárias algumas injeções. Sua mamãe comprou as injeções e levou você ao posto da Unimed para que as enfermeiras as aplicassem durante quatro dias. Sua mamãe me contou que você chorou muito e que mesmo assim as enfermeiras ficaram encantadas com você.
Sua melhora só aparecer hoje, quarta-feira, após a segunda dose. Esperamos que a virose tenha ido embora definitivamente e trazido de volta o nosso sono.
Hoje eu e seu vovô Altair, meu papai, tivemos uma discussão muito triste. Ele levantou a voz para mim, dizendo que eu não era homem, que não tinha atitude e que não me importava com você. Tudo isso, acredite, foi porque ele queria que a gente levasse você para consultar em um outro médico. Então eu disse a ele que existem dois tipos de relacionamentos entre pais e filhos: aqueles em que o filho acha que o pai é um atrasado e não se importa com a experiência de vida dele, e aqueles em que o pai acha que sempre se achará melhor que o filho, que o filho sempre será inexperiente. Expliquei que o relacionamento entre eu e ele claramente se encaixava no segundo tipo. Por isso, pela primeira vez na vida precisei pedir que ele me respeitasse como filho, pois eu sempre o respeitei como pai. Eis aqui um ponto interessante, meu filho: eu não sei qual dos dois relacionamentos nós dois vamos ter. Eu espero que nos respeitemos mutuamente e que possamos aprender juntos. Que eu saiba dar ouvidos a você e que você possa ensinar-me coisas novas, e que você, no auge da sua juventude, seja sábio (ou pelo menos educado...) o suficiente para levar em consideração a minha experiência.
Ao ler isso, não quero que fique chateado com o vovô pela discussão que teve comigo. Ele estava apenas muito preocupado com você e queria que eu tivesse agido diferente (ou que, pelo menos, estivesse mais preocupado...). E por falar em gostar, meu filho, você chama a atenção por onde passa. Ri para desconhecidos e é simpático com todos. Todos temos muito orgulho de você. Assim como o seu avô, um dia, em um passado bem distante, teve orgulho de mim...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Claudinho, um pequeno grande pintor


Novembro de 2007. A construção de nossa casa está em sua fase final. Nosso pedreiro, o Carabina, disse que é chegada a hora da pintura. Pergunto-lhe se ele indica alguém. “Tem um pintor baixinho que pintou a casa ali da esquina e a casa aqui em frente. Ele me parece ser um bom pintor.” Peço então pra que ele o chame pra ver o serviço que deve ser feito e para que possa nos dar um orçamento.

Janeiro de 2008. O pintor está passando a primeira demão de selador nas paredes e nos muros de nossa casa. Ele é realmente baixinho como o Carabina disse. Deve ter menos de 1,50m e parece ser bem jovem. Pergunto-lhe o nome. “Cláudio”, diz ele. De boné, ele vem trabalhar com um Del Rey. “Preciso comprar uma moto. Fica muito caro pra vir trabalhar de carro todos os dias”, lamenta ele.

Março de 2008. Faz alguns meses que o pintor está trabalhando aqui em casa. Ele deu as duas demãos de selador e saiu em busca de outros pequenos serviços até que o Carabina terminasse sua parte do serviço. Na verdade, estou quase enlouquecendo com as trapalhadas que ele anda aprontando. A primeira delas foi lavar o revolver de tinta com solvente na grama aqui de casa. A grama ficou queimada, está morrendo! Outro dia ele saiu pela porta da cozinha, e para não deixar a porta da sala destrancada, colocou uma enorme barra de ferro apoiada na maçaneta. No dia seguinte o Carabina, que possuía apenas a chave da porta da frente, tentou abri-la e, não conseguindo, empurrou a porta. O ferro que o Claudinho deixou arrancou uma baita lasca da porta – que já estava totalmente envernizada! Por fim, quando foi pintar os quartos, ele colocou todos os vasos sanitários em cima da cama box que a gente comprou. Quando eu vi, quase surtei. “Você tá ficando louco?”, disse a ele. “Que é isso, rapaz! Fica frio! Essa cama aguenta quase 500kg”, responde ele, calmamente. Tentando me controlar, retruco: “Então experimente ficar durante duas noites com uma mulher de 50kg em cima de você pra ver se você não sai amassado! Você está trabalhando pra mim ou contra mim?”

Maio de 2008. Faltam dois dias para o meu casamento. O Claudinho está tentando terminar o serviço. Tem trabalhado todos os dias até à noite. Ele parece estar se dedicando bastante pra que a casa fique pronta a tempo. Estou chateado pelas coisas que disse a ele. Às vezes, quando fico muito nervoso, acabo falando algo do qual eu me arrependo depois. Assim que ele terminar o serviço, vou dar-lhe um dinheiro extra por ter feito o serviço bem-feito e por ser uma pessoa de confiança. Acho que ele merece.

Novembro de 2010. Chamamos o Claudinho para dar uma reforma na pintura da casa. Temos muita confiança nele. Ele pintará todas as ferragens e também o escritório, além de lavar o telhado e aplicar o verniz para proteger as telhas. Já não nos tratamos mais como pintor e cliente, e sim como amigos. O filho da mãe me chama de “Tonho Cruise”. Eu o chamo de “Claudionor”.

Dezembro de 2010. O Claudinho terminou de reformar a pintura da casa. Quando lhe entrego o dinheiro, ele me pede um de meus óculos de sol. “Ah, me dá esse aqui, vai... Eu estou indo pra praia e preciso de óculos de sol.” Quando vejo o óculos que ele pediu, percebo que está cheio do verniz que ele deixou cair durante a pintura. “Ah, pega aí, pode levar.” Ele agradece, coloca os óculos, olha pra mim e cruza os braços. “Tô bonito, né? Pode falar, vai!”, diz ele, todo satisfeito com os óculos novos. “Obrigado! Até a próxima!”

Setembro de 2011. Chamamos o Claudinho novamente pra reparar algumas rachaduras do muro e fazer pequenas reformas, como pintar uma das paredes aqui da sala. Em uma delas há dois ganchos que precisam ser removidos. Baixinho como só ele, ele se estica o máximo que pode. “Tá vendo? Se fosse você, nem nas pontas dos pés você alcançaria!”. O filho dele, que o está ajudando, acha engraçado. “Ah, e o seu filho? Eu ainda não o vi.”, pergunta o Claudinho. Eis que ouço o choro do Miguel, que acabara de acordar. Sigo até seu berço e o tomo nos braços. “Vem cá, meu filho! Vou te mostrar um amiguinho, o Claudinho. Ele é mais ou menos do seu tamanho.” O Claudinho acha boa a piada e cai na risada. O filho dele quase passa mal de tanto rir.

Fevereiro de 2012. Fiquei sabendo, por meio da manicure de minha esposa, que o Claudinho fora atropelado dois dias atrás por um caminhão. Ele e um amigo seguiam de moto em direção a São José da Bela Vista, onde iam pintar uma igreja. Dizem que ele foi atropelado e que o motorista não prestou socorro. Ele faleceu no local. Foi sepultado ontem sem que eu ficasse sabendo. Escrevo essas palavras com imensa tristeza pela perda de um amigo e de um grande profissional. Deus certamente o levou por estar precisando de uma reforma no paraíso. Pelo jeito, estava com muita urgência. Onde estiver, tenha nessas palavras, meu amigo, o meu agradecimento por tê-lo conhecido e por tudo o que você fez por nós.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O tempo não poupa ninguém


Aqui em casa não assinamos jornal. Aliás, ao longo de minha vida houve apenas duas épocas em que eu costumava ler jornais. Uma delas foi nos anos 90, quando a tia Vânia e o tio Natal assinavam o Estadão. A outra foi durante a pós-graduação, quando todos os moradores da casa de estudantes rachávamos o valor da assinatura da Folha de São Paulo. Em outras palavras, eu não leio jornal faz um bom tempo. Minhas fontes de notícias são o UOL e o Yahoo. Passo sempre por lá, leio os títulos das reportagens e clico em algum que eventualmente me interesse.
Eis que agora, às 22h55min, enquanto eu acessava a página do UOL, surge esta foto aí acima, com a chamada “Schwarzenegger e Stallone se encontram na fila de operação”. Stallone é conhecido pela geração de hoje pelo filme “Os mercenários”. Já Arnold Schwazenegger não estrela um filme já faz alguns anos. Andou afastado do cinema por causa de seu mandato como governador do Estado da Califórnia.
O fato é que esses dois caras inspiraram uma geração inteira de jovens na década de 80. Schwazenegger, eleito três vezes Mister Universo – logicamente, não pela beleza facial, mas por ser na época um fisioculturista – estrelou clássicos como “O predador”, “O vingador do futuro” e “O exterminador do futuro”. O segundo filme da franquia do exterminador é o meu preferido. A cena em que ele carrega uma arma em uma caixa com rosas é uma verdadeira obra de arte.
Assim como Schwazenegger, Silvéster Stallone nunca foi um bom ator, mas teve a sorte de estrelar os filmes da série “Rambo” e “Rocky Balboa”. “Rocky, um lutador”, foi o filme ganhador do Oscar no ano em que nasci. “Rocky II, a revanche”, continuação do primeiro, é uma lição de superação. Aliás, todos os filmes da série Rocky são excelentes – com exceção de Rocky V, que não deveria sequer existir.
Deixando meu lado cinéfilo de lado, a foto acima levou-me a refletir sobre dois pontos principais. O primeiro deles é que estes dois homens representaram o modelo de masculinidade da minha geração. Sim, os caras eram nossos heróis! Na época, se alguém soubesse que você não assistiu a um Rocky ou a um Exterminador, certamente achariam que há algo de errado com a sua masculinidade. Obviamente os tempos eram outros.
Se você, caro leitor, nasceu no final dos anos 80 e nunca assistiu a nenhum dos filmes que mencionei – o que, pra ser sincero, acho pouco provável – talvez olhe a foto desses dois senhores de idade e não entenda o que estou querendo dizer. Por isso – e aqui me refiro ao meu segundo ponto de reflexão – quero que entenda uma coisa: todos envelhecem. Inclusive o Stallone, o Schwarzenegger e o Clint Eastwood.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Doutor ou professor?



Aqui perto de casa há um rapaz que sempre cumprimento quando passo de carro. Deve ter mais ou menos a minha idade. Não me lembro de onde o conheço. Minha impressão era a de ter trabalhado na Usina Alta Mogiana na mesma época que ele. Eis que outro dia, passando em frente à sua casa de bicicleta, ele acenou-me com a mão e, sorrindo, disse-me algo que deixou claro de onde o conheço: “E aí, professor!”, disse ele. Sim, ele foi meu aluno em uma das turmas de supletivo.

O ocorrido trouxe-me boas lembranças da época em que eu lecionava Química no ensino médio. Era bom ser chamado de professor. Não importava, se era pelo aluno dedicado que se sentava nas primeiras carteiras ou pelos espertinhos descolados e falantes que se sentavam no fundo da sala. Para mim a palavra “professor” soava como se fosse um título, mais importante que o de doutor. Aliás, eu nunca gostei que me chamassem de “doutor”, ainda que eu o tenha conseguido após meus seis anos de pós-graduação. Em nosso país qualquer um é chamado de doutor, mas poucos são chamados de “professor” com o devido respeito que a palavra requer. Talvez eu me sentisse honrado por possuir um título que aqueles que me ensinaram o que sei também possuem.

Para que você, caro leitor, não enxergue demagogia em minhas palavras, vou citar uma situação real que vivenciei. Durante quase quatro anos como professor de Química no ensino médio, várias pessoas passaram pela direção da escola em que eu lecionava. Guardo boas lembranças de todas elas, mas uma delas deixou-me péssimas recordações. A tal diretoria sentia-se superior a todos os professores porque cursava mestrado. Na época, eu já tinha concluído meu doutoramento, e talvez por possuir o título de “doutor”, ela se sentia desconfortável quando eu estava presente. Era como se ela não tivesse respeito por mim, mas tivesse que me “engolir” por eu ter um título que ela não tinha. Ela fazia questão de chamar-me de doutor diante dos outros professores, o que me parecia bastante irônico. Era como se ela quisesse dizer: “Você é doutor, não é? Então tem que saber!” Certa vez ouvi-a dizendo a uma das secretárias que era um ridículo um “doutor” como eu ter um blog e nele contar histórias pessoais. Ora, eu respeito a opinião dela e a de qualquer um que visite este blog sobre as coisas que aqui escrevo. Sei também que um número incalculável de pessoas – inclusive alguns familiares – que, assim como a tal diretora, considera ridículas as histórias que conto aqui. Acham que é uma exposição desnecessária e/ou uma grande perda de tempo. Pois bem. Se essas pessoas se preocupam tanto com o que eu faço ou escrevo, certamente sou muito importante em suas vidas, logo não posso decepcioná-las: tenho que continuar escrevendo aqui sempre que puder.

Desabafos à parte, a verdade, caro leitor, é que o título de “doutor” é hoje indispensável para o exercício do meu trabalho, mas somente para ele. Se alguém me encontrasse na rua e me chamasse de doutor, eu me sentiria constrangido. Por outro lado, sinto um grande orgulho quando algum aluno ou ex-aluno chamam-me de professor. Não significa necessariamente que ser professor é ser melhor que ser um “doutor” em alguma coisa. Mas temos de reconhecer o fato de que o segundo não existiria se não fosse o primeiro. Em outras palavras, o título de “professor” é o segundo título mais importante em minha vida. O primeiro, é claro, é o de "papai".