sábado, 18 de fevereiro de 2012

Claudinho, um pequeno grande pintor


Novembro de 2007. A construção de nossa casa está em sua fase final. Nosso pedreiro, o Carabina, disse que é chegada a hora da pintura. Pergunto-lhe se ele indica alguém. “Tem um pintor baixinho que pintou a casa ali da esquina e a casa aqui em frente. Ele me parece ser um bom pintor.” Peço então pra que ele o chame pra ver o serviço que deve ser feito e para que possa nos dar um orçamento.

Janeiro de 2008. O pintor está passando a primeira demão de selador nas paredes e nos muros de nossa casa. Ele é realmente baixinho como o Carabina disse. Deve ter menos de 1,50m e parece ser bem jovem. Pergunto-lhe o nome. “Cláudio”, diz ele. De boné, ele vem trabalhar com um Del Rey. “Preciso comprar uma moto. Fica muito caro pra vir trabalhar de carro todos os dias”, lamenta ele.

Março de 2008. Faz alguns meses que o pintor está trabalhando aqui em casa. Ele deu as duas demãos de selador e saiu em busca de outros pequenos serviços até que o Carabina terminasse sua parte do serviço. Na verdade, estou quase enlouquecendo com as trapalhadas que ele anda aprontando. A primeira delas foi lavar o revolver de tinta com solvente na grama aqui de casa. A grama ficou queimada, está morrendo! Outro dia ele saiu pela porta da cozinha, e para não deixar a porta da sala destrancada, colocou uma enorme barra de ferro apoiada na maçaneta. No dia seguinte o Carabina, que possuía apenas a chave da porta da frente, tentou abri-la e, não conseguindo, empurrou a porta. O ferro que o Claudinho deixou arrancou uma baita lasca da porta – que já estava totalmente envernizada! Por fim, quando foi pintar os quartos, ele colocou todos os vasos sanitários em cima da cama box que a gente comprou. Quando eu vi, quase surtei. “Você tá ficando louco?”, disse a ele. “Que é isso, rapaz! Fica frio! Essa cama aguenta quase 500kg”, responde ele, calmamente. Tentando me controlar, retruco: “Então experimente ficar durante duas noites com uma mulher de 50kg em cima de você pra ver se você não sai amassado! Você está trabalhando pra mim ou contra mim?”

Maio de 2008. Faltam dois dias para o meu casamento. O Claudinho está tentando terminar o serviço. Tem trabalhado todos os dias até à noite. Ele parece estar se dedicando bastante pra que a casa fique pronta a tempo. Estou chateado pelas coisas que disse a ele. Às vezes, quando fico muito nervoso, acabo falando algo do qual eu me arrependo depois. Assim que ele terminar o serviço, vou dar-lhe um dinheiro extra por ter feito o serviço bem-feito e por ser uma pessoa de confiança. Acho que ele merece.

Novembro de 2010. Chamamos o Claudinho para dar uma reforma na pintura da casa. Temos muita confiança nele. Ele pintará todas as ferragens e também o escritório, além de lavar o telhado e aplicar o verniz para proteger as telhas. Já não nos tratamos mais como pintor e cliente, e sim como amigos. O filho da mãe me chama de “Tonho Cruise”. Eu o chamo de “Claudionor”.

Dezembro de 2010. O Claudinho terminou de reformar a pintura da casa. Quando lhe entrego o dinheiro, ele me pede um de meus óculos de sol. “Ah, me dá esse aqui, vai... Eu estou indo pra praia e preciso de óculos de sol.” Quando vejo o óculos que ele pediu, percebo que está cheio do verniz que ele deixou cair durante a pintura. “Ah, pega aí, pode levar.” Ele agradece, coloca os óculos, olha pra mim e cruza os braços. “Tô bonito, né? Pode falar, vai!”, diz ele, todo satisfeito com os óculos novos. “Obrigado! Até a próxima!”

Setembro de 2011. Chamamos o Claudinho novamente pra reparar algumas rachaduras do muro e fazer pequenas reformas, como pintar uma das paredes aqui da sala. Em uma delas há dois ganchos que precisam ser removidos. Baixinho como só ele, ele se estica o máximo que pode. “Tá vendo? Se fosse você, nem nas pontas dos pés você alcançaria!”. O filho dele, que o está ajudando, acha engraçado. “Ah, e o seu filho? Eu ainda não o vi.”, pergunta o Claudinho. Eis que ouço o choro do Miguel, que acabara de acordar. Sigo até seu berço e o tomo nos braços. “Vem cá, meu filho! Vou te mostrar um amiguinho, o Claudinho. Ele é mais ou menos do seu tamanho.” O Claudinho acha boa a piada e cai na risada. O filho dele quase passa mal de tanto rir.

Fevereiro de 2012. Fiquei sabendo, por meio da manicure de minha esposa, que o Claudinho fora atropelado dois dias atrás por um caminhão. Ele e um amigo seguiam de moto em direção a São José da Bela Vista, onde iam pintar uma igreja. Dizem que ele foi atropelado e que o motorista não prestou socorro. Ele faleceu no local. Foi sepultado ontem sem que eu ficasse sabendo. Escrevo essas palavras com imensa tristeza pela perda de um amigo e de um grande profissional. Deus certamente o levou por estar precisando de uma reforma no paraíso. Pelo jeito, estava com muita urgência. Onde estiver, tenha nessas palavras, meu amigo, o meu agradecimento por tê-lo conhecido e por tudo o que você fez por nós.

Um comentário:

Graziela disse...

Antonio e' muito triste perder pessoas queridas dessa forma... tao estupida (desculpa a palavra).
Receba meu abraco, pois nessas horas, nao sei nem o que falar, sinto muito sua perda.
Abracos
Gra