domingo, 5 de fevereiro de 2012

Doutor ou professor?



Aqui perto de casa há um rapaz que sempre cumprimento quando passo de carro. Deve ter mais ou menos a minha idade. Não me lembro de onde o conheço. Minha impressão era a de ter trabalhado na Usina Alta Mogiana na mesma época que ele. Eis que outro dia, passando em frente à sua casa de bicicleta, ele acenou-me com a mão e, sorrindo, disse-me algo que deixou claro de onde o conheço: “E aí, professor!”, disse ele. Sim, ele foi meu aluno em uma das turmas de supletivo.

O ocorrido trouxe-me boas lembranças da época em que eu lecionava Química no ensino médio. Era bom ser chamado de professor. Não importava, se era pelo aluno dedicado que se sentava nas primeiras carteiras ou pelos espertinhos descolados e falantes que se sentavam no fundo da sala. Para mim a palavra “professor” soava como se fosse um título, mais importante que o de doutor. Aliás, eu nunca gostei que me chamassem de “doutor”, ainda que eu o tenha conseguido após meus seis anos de pós-graduação. Em nosso país qualquer um é chamado de doutor, mas poucos são chamados de “professor” com o devido respeito que a palavra requer. Talvez eu me sentisse honrado por possuir um título que aqueles que me ensinaram o que sei também possuem.

Para que você, caro leitor, não enxergue demagogia em minhas palavras, vou citar uma situação real que vivenciei. Durante quase quatro anos como professor de Química no ensino médio, várias pessoas passaram pela direção da escola em que eu lecionava. Guardo boas lembranças de todas elas, mas uma delas deixou-me péssimas recordações. A tal diretoria sentia-se superior a todos os professores porque cursava mestrado. Na época, eu já tinha concluído meu doutoramento, e talvez por possuir o título de “doutor”, ela se sentia desconfortável quando eu estava presente. Era como se ela não tivesse respeito por mim, mas tivesse que me “engolir” por eu ter um título que ela não tinha. Ela fazia questão de chamar-me de doutor diante dos outros professores, o que me parecia bastante irônico. Era como se ela quisesse dizer: “Você é doutor, não é? Então tem que saber!” Certa vez ouvi-a dizendo a uma das secretárias que era um ridículo um “doutor” como eu ter um blog e nele contar histórias pessoais. Ora, eu respeito a opinião dela e a de qualquer um que visite este blog sobre as coisas que aqui escrevo. Sei também que um número incalculável de pessoas – inclusive alguns familiares – que, assim como a tal diretora, considera ridículas as histórias que conto aqui. Acham que é uma exposição desnecessária e/ou uma grande perda de tempo. Pois bem. Se essas pessoas se preocupam tanto com o que eu faço ou escrevo, certamente sou muito importante em suas vidas, logo não posso decepcioná-las: tenho que continuar escrevendo aqui sempre que puder.

Desabafos à parte, a verdade, caro leitor, é que o título de “doutor” é hoje indispensável para o exercício do meu trabalho, mas somente para ele. Se alguém me encontrasse na rua e me chamasse de doutor, eu me sentiria constrangido. Por outro lado, sinto um grande orgulho quando algum aluno ou ex-aluno chamam-me de professor. Não significa necessariamente que ser professor é ser melhor que ser um “doutor” em alguma coisa. Mas temos de reconhecer o fato de que o segundo não existiria se não fosse o primeiro. Em outras palavras, o título de “professor” é o segundo título mais importante em minha vida. O primeiro, é claro, é o de "papai".

2 comentários:

Graziela disse...

Nossa Antonio que lindo seu texto e quao verdadeiro ele e'.
Sabe que eu tambem sou professora (de educacao infantil, mas sou!) e tenho muito orgulho disso.
Ja' te disse e repito, nao se preocupe tanto com que as pessoas dizem, pq se fizermos elas vao dizer, senao tambem dirao. Entao vamos o que achar melhor para voce.
Mas se puder te fazer um pedido (outro), nao deixe de escrever... rsrs.
Abracos e forca no seu primeiro e principal papel: o de pai.
Gra

Michel Leandro disse...

Graziela, quando diz "de educação infantil, mas sou!", gostaria de ressaltar a minha opnião: Ser professor do anos iniciais é ser um verdadeiro herói.
Mestre, doutor, professor ... sinto extrema tristeza no peito quando alguém olha pra mim e diz: "Você está se formando para professor, que pena"!
Dá uma dor no peito ... a cada dia nessa profissão cresço como ser humano e descobri que não há Educação impossível, o que existe é discursos pedagógicos autoritários que impedem a sua evolução.
É lindo ver os meus alunos colocando seus discursos pela boca a fora ... dando suas opniões sobre um texto. Um olhar curioso. Outro carinhoso ...
Professor Eduardo tu és orgulho para mim!!! Me ensinou a ter discurso próprio, a ir atrás dos meus sonhos e a ser verdadeiramente feliz, na simplicidade e na busca de autoconhecimento. A disciplina Química, Língua Portuguesa, Matemática, essas todas conseguimos aprender facilmente por qualquer um que a domine muito bem. Mas são POUCOS os que efetivamente cravam no nosso peito dignidade e nos mostram que a vida da gente pode ser diferente no futuro.
O MEU FUTURO É HOJE!!! E por enquanto as coisas tem caminhado bem ... Muito obrigado!!!!