quarta-feira, 28 de março de 2012

O fim de uma era

São 23h19min. Estou ouvindo “Eternal Flame”, do The Bangles. É dos anos 80. Pode ser que muitos de vocês não conheçam. Era tema da novela “Que rei sou eu?”. Pois é... Pode ser que vocês realmente não conheçam...

Eu adoro ouvir músicas dos anos 80. Aliás, a maior parte das músicas que ouço são dos anos 70 ou 80. A que toca agora é “Take my breath away”, tema do filme Top Gun. Ora – você deve estar se perguntando – por que razão ele está escrevendo sobre as músicas que ele está ouvindo? Explico. Essas músicas transportam-me para uma época especial de minha vida, dos 10 aos 14 anos. Mas hoje, especialmente, essas músicas assumem um significado mais melancólico que o usual. O papai, dois dias após completar 30 anos, vendeu seu caminhão. Eu jamais imaginei que ele, na maioria das vezes movido pelo sentimento em suas ações, fosse capaz de desfazer-se daquele que foi seu maior companheiro durante a segunda metade de sua vida.

Dois fatos contribuíram para a sua decisão. O primeiro deles é o seu estado de saúde. Após a cirurgia para retirada do câncer, ele deveria ter permanecido em repouso. Ao visitar a casa de minha finada vovó Lourdes, encontrou o também saudoso vovô Crotti desmaiado, tendo convulsões. Não pensou duas vezes: pegou-o nos braços e o levou ao hospital. Sua atitude heroica salvou o vovô, mas deixou-lhe como herança uma enorme hérnia na região em que a cirurgia foi feita. Essa hérnia o incomodava quando ele fazia força para subir no caminhão ou trocar um pneu. Era impossível para ele continuar na profissão. Um outro fator foi a situação atual dos caminhoneiros e carreteiros. As transportadoras tomaram quase todo o serviço, restaram poucos motoristas autônomos. Os fretes que sobram são ridiculamente miseráveis.. Nos últimos anos em que trabalhou, o papai malganhava pra pagar as despesas do caminhão. Em outras palavras, a venda do caminhão foi uma das coisas mais acertadas que ele fez.

Mas voltemos às músicas dos anos 80. Na época em que a maioria delas era sucesso nas rádios, eu passava tardes ajudando o papai a cuidar de seu caminhão. Quando ele voltava de viagem, meu fim de semana estava comprometido. Eu lavava a parte inferior da carroceria e a lona. Era a parte mais suja, obviamente. Eu levava quase dois dias pra fazer isso! Nas férias de fim de ano, quando as cargas para o papai transportar praticamente desapareciam, o papai colocava o caminhão na oficina do tio Bixim, protegido do sol, pra reformarmos as chapas e os para-barros. Eu ia na frente lixando, ele vinha atrás pintando. Quantas não foram as tardes em que deixei de brincar no clube da Baixada pra ajudar o papai... Eu de-tes-ta-va ajuda-lo a cuidar do caminhão! Aquilo não era nada divertido. “Se Deus quiser você não vai ser caminhoneiro, mas tem que aprender a trabalhar pra virar homem”, explicava. É claro que ele tinha razão. Foi graças àquele caminhão que eu tive minhas maiores lições de como trabalhar, de como é importante fazer as coisas com capricho.

O caminhão se foi. No chão do quintal de casa, recentemente coberto por pedras, restaram os rastros dos pneus. Há um vazio no quintal da casa de meus pais. Há um vazio nos nossos corações. Mas não há razão para tristeza. Ninguém morreu. Muito pelo contrário: o papai parece ter renascido como um novo homem, racional e ponderado. E, claro, muito mais feliz por passar as manhãs em companhia do Miguelzinho, ao invés de se perder em lembranças, o papai parece preocupado em deixar boas lembranças para o seu tão querido netinho. E isso me deixa ainda mais orgulhoso dele.

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