terça-feira, 24 de abril de 2012

Fragmentos de minha infância - A pressa é inimiga da perfeição


1981. Papai e eu estamos consertando a nossa colhedeira de milho. Na verdade, é o papai quem está lá em cima dela tentando descobrir por que ela não está funcionando direito. Estou apenas tentando ajudar. Como sempre, estou com o meu pequeno chapéu de palha, de botina, de calça e de camiseta. Eu me visto como o papai. Ele é o meu grande herói. É o meu grande amigo. Enquanto ele trabalha e eu não posso ajudá-lo, fico olhando o lugar onde moramos. Nossa casa é pequena, com dois quartos, uma sala, uma cozinha e uma dispensa, que serve também como banheiro. Nós tomamos banho em uma enorme bacia de alumínio. É claro que a mamãe tira a água da nossa cisterna antes e a esquenta. Tomar banho nessa época é difícil, principalmente por causa do frio. O rio fica a uns 200 do fundo do quintal de nossa casa. Quando é frio, faz muuuuito frio! Já chegou a gear por aqui.
Em frente à nossa casa há uma enorme árvore, que faz sombra até a porta da sala. É debaixo dessa árvore que o papai deixa o nosso carro, um fusca branco. É com ele que conseguimos vencer os 26 km que nos separam de Quirinópolis, a cidade mais próxima de onde moramos. Não temos energia elétrica aqui em casa. A televisão só funciona à bateria, mas não conseguimos sintonizar nenhuma estação. Nossa fonte de comunicação com o mundo é o rádio. Do lado direito da árvore há um banco estreito e comprido, e mais adiante, uma cerca de arame farpado que separa o quintal da nossa casa da roça de milho que o papai acabou de colher. No meio da roça, imponentes, estão enormes palmeiras que enfeitam a paisagem. Elas são muito altas. Parecem-me tão próximas do céu...
“Fi, pega a chave de fenda pro papai lá na casinha”, pede o papai. Mais que rapidamente, parto correndo em busca da chave. Quero mostrar a ele que sou rápido. Procuro então a parte da cerca de arame que está desfeita. Vários fios do arame estão no chão. “Vai dar pra eu passar; dá pra pular direto, não vou nem precisar parar”. Para minha surpresa, um fio de arame encontra-se à altura de meu rosto, mas eu não o vejo à tempo. Quando passo correndo despercebidamente por ele, sinto as farpas rasgando a pele de meu olho esquerdo. Imediatamente tudo que vejo fica vermelho. Meu rosto está cheio de sangue. Eu começo a chorar. A mamãe e o papai, ao verem o sangue, ficam desesperados. “Meu filho! Meu Deus do céu, meu filho! Olha pra mamãe! Você tá me vendo? Vem cá, vamos lavar seu olho!” O papai se esquece completamente do que estava fazendo e corre em busca de uma camisa e da chave do carro. Ofegante, ele segura minha cabeça e tenta examinar o meu olho. “Graças à Santa Luzia parece que não afetou o olho. O corte foi só na pele, na parte de cima do olho. Lava o olho dele, vamos levar ele para o hospital.”
Mantenho então os dois olhos fechados. Sinto-me apenas ser colocado dentro do carro, sob os pedidos do papai e da mamãe pra que eu não abra os olhos. Eu seguirei os conselhos deles. Eu confio neles, eu sei que vou ficar bem. Eles são minha segurança. Mas uma coisa deu pra perceber: não dá certo fazer as coisas com pressa. O papai que me desculpe, mas a partir de hoje eu não farei mais nada com pressa.

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