terça-feira, 3 de abril de 2012

A primeira internação



3 de março. 7h. Tudo está quieto. Um silêncio perturbador reina nos cômodos da casa. Nem os raios do sol conseguem penetrar pelas fretas da janela, cuja cortina foi descuidadosamente aberta há alguns dias. O dia deve estar nublado. Na cozinha, restos de um café da manhã que foi tomado às pressas. Na pia, pratos e panelas vão se acumulando, à espera de uma esponja que não chega. Sobre a cama desarrumada, estão os travesseiros, ainda amassados, dispostos perpendicularmente um ao outro. Paralelas, como se formasse um túnel, estão duas almofadas. A colcha mostra a marca de dois corpos que ali dormiram há alguns dias, um de adulto e outro de uma criança de poucos menos de um ano.
Aproximo-me da cama. Entre as almofadas repousa uma pequena manta branca. Eu a tomo em minhas mãos. Aproximo-a. Cheiro-a. Meus olhos se fecham e eu avisto meu querido filho sorrindo, rastejando pelo chão como se fosse um pequeno soldado. Ele ainda não é capaz de andar, mas parece saber, desde os primeiros dias de vida, como trazer alegria a esta casa. Neste momento ele e sua mamãe devem estar acordando no hospital. Ele está internado, com meningite. Nunca pegou uma gripe sequer. Mas não resistiu à meningite. O médico nos disse que é uma meningite viral. Nada grave, mas que é preciso mantê-lo internado por pelo menos uma semana. Os dois primeiros dias foram de isolamento absoluto. Só eu e sua mamãe pudemos vê-lo. Antes do diagnóstico foram pelo menos quatro noites terríveis para ele, com febre de quase 40º. Agora ele está bem, graças a Deus. Mas ainda está hospitalizado, em companhia de sua mamãe
Sento-me então ao pé da cama, com a manta nas mãos. Apóio os cotovelos nos joelhos, e com os olhos rasos em lágrimas, olho para cima, na esperança de que uma força superior possa consolar-me neste momento. Sinto-me pequeno, sem forças, triste. Tudo me parece tão passageiro. Há uma semana nós três nos divertíamos no chão da sala. Os seus brinquedinhos ainda estão lá. Um carrinho, uma cordinha, um frasco de remédio vazio que ele adora morder. A tristeza e a solidão reinam sem ele e sua mamãe. Esta casa só é um lar quando eles estão aqui. A vida definitivamente não tem nenhum sentido sem os dois.

2 comentários:

Graziela disse...

Antonio que susto!
Na esperanca de que o Miguel querido, ja' esteja totalmente recuperado e vcs tambem. Ofereco-te meu abraco.
Filho doente e' algo que nao podemos controlar e nos faz quase adoecer ao mesmo tempo. Como eu gostaria de trocar de lugar com meu filho, quando ele adoece.
Infelizmente nao e' possivel e nesses momentos eles precisam de nos inteiros (mesmo que estejamos em frangalhos).

Forca e fiquem na paz do Senhor.
Nao demora para dar noticias nao, por favor.
Gra
* Nicolas nunca teve meningite, mas teve um comeco de pneumonia (foi algo forte, fortissimo, ele mal conseguia respirar direito, ficou no oxigenio por horas, caido, meio acordado, meio dormido. Passamos somente uma noite no hospital e foi terrivel. Nao consigo imaginar o que vcs passaram, mas sei que o amor e a dedicacao de voces pode superar tudo. Abcos amigos).

Leonardo disse...

Antônio (ou Eduardo?), desejo forças pro seu filho. Ele tem bons pais ao lado, isso já vale bastante na cura.
Quase perdi meu irmão mais novo por causa de uma infecção pleural que parecia bobinha e hoje está aqui firme e forte.

(re)Descobri o seu blog em um momento um pouco crítico da minha vida acadêmica (justo na Química, pra variar), ao ler os posts notei que estive presente à distância em vários momentos e lugares citados por você aqui.

Não só isso, tenho a impressão que sou eu amanhã escrevendo tudo.

Tudo na vida passa, até a uva passa! Abraços