quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma curta viagem ao passado


20h. Os pingos da chuva colidem com força no pára-brisa. O forte vento faz balançar as copas das árvores, espalhando folhas pela rua. Os clarões no céu indicam que esta será uma noite chuvosa. Estou seguindo em direção à casa de meus pais, que eu às vezes ainda chamo de “minha casa”. Vou apenas dar um “oi”, pois minha esposa e meu filho estão à minha espera lá na “nossa casa”. Desço pela rua São Paulo, a rua mais longa e mais importante da cidade, onde estão as principais lojas. À direita, o supermercado Cecílio, que um dia foi o supermercado DeGiovani, em cujas prateleiras já esteve, na década de 80, a coleção completa dos “Comandos em ação”. Passo em frente à rodoviária, onde durante seis embarquei e desembarquei de minhas viagens a Ribeirão Preto, onde cursei pós-graduação. Mais à frente a farmácia Alves, ou “farmácia do Osvaldo”, como o papai costuma chamar. Eu me lembro do tempo em que o papai tinha “conta” nesta farmácia... Um pouco mais à frente, quase na outra esquina, há uma loja de tinta onde um dia foi a Padaria Araquém – nome dado em homenagem a um tal de “Araquém, o gol Men”, personagem de uma propaganda de alguma copa, acho que de 1986 ou 1990. O negócio sucumbiu assim que surgiram as padarias nos supermercados.
Na esquina da frente, agora do lado esquerdo, havia um imenso terreno baldio onde os circos costumavam armar suas tendas, onde hoje se aloja a “Laruana”. Este nome já foi sinônimo de loja de brinquedos. Hoje aí se vende de tudo.
Um pouco mais à frente, do lado esquerdo, avisto a casa onde mora o Betinho, meu colega de colégio, o único com quem já briguei em toda a minha vida. À sua frente, um sobrado onde funciona uma escola de inglês. Naquele prédio funcionou durante um período o açougue do Cláudio, onde trabalhou o Cleiton, o melhor amigo do meu então melhor amigo Carlos.
Um pouco mais à frente, ainda à esquerda, ainda funciona a borracharia do Zé Cláudio, que já se pareceu um dia com o finado Patrick Swaize. Só o rosto, obviamente. À esquerda avisto os muros da escola estadual Manoel Gouveia de Lima. Foi ali que estudei os oito anos de colégio. Ali passei os anos mais felizes de minha vida escolar. Na década de 80 a escola era cercada por um alambrado de arame de uns dois metros de altura. Com o aumento da violência foram construídos muros enormes, talvez de uns três metros e meio de altura.
Viro à esquerda e pego a rua Santa Catarina. Passo em frente ao antigo bar do Agenor. Era ali que eu comprava os salgadinhos Cheetos quando eu tinha uns 10 anos e colecionava adesivos fluorescentes da Pantera Cor-de-rosa. À esquerda, onde havia um enorme terreno baldio e uma enorme cruz esculpida em madeira, que a gente chamava de “cruzeiro”, funciona hoje a pastoral do menor. Há até quadra coberta...
Chego então à esquina com a rua Minas Gerais. À direita avisto o lugar onde a vovó Lourdes e o vovô Crotti moravam. Na frente da casa há uma caçamba com entulhos. Depois que eles morrera, os filhos venderam a casa. Não restou pedra sobre pedra. Na esquina, a casa do saudoso tio Agenor, que tantas vezes viajou com o papai para o Goiás nos tempos em que eram caminhoneiros. À esquerda avisto o lugar onde funcionava as Cozinhas Segato, onde o tio Tim trabalhava. Hoje ali parece funcionar uma serralheria. Quanto ao tio Tim, a quem eu tanto temia pedir bênção quando criança por ele apertar minhas mãos, a diabetes vitimou sua perna direita, que teve que ser amputada para cima do joelho...
Paro na esquina com a rua Voluntário Geraldo. Por um segundo sinto vontade de seguir reto e passar em frente ao lugar onde era o “campinho” e da casa onde nós brincávamos de guerra de tijolos. Se o fizer, passarei em frente à casa do Fernando “pé sujo”, amigo de infância, na casa de quem brincávamos de futebol. Lembro-me então que sua mãe Cecília faleceu há menos de um mês. Uma tristeza me abate e eu mudo então de idéia.
Já na rua Voluntário Geraldo, passo em frente ao clube da Baixada. Eis aí um lugar que me traz muitas lembranças boas... Foi ali que fui campeão de tênis de mesa e de futebol de salão. Foi ali que aprendi a jogar xadrez com a saudosa “tia “Luzia Baptistussi”, que também ensinou-me a jogar tênis de mesa. Ali conheci o amigo “Binga”, pau pra toda obra, que até ajudar-me a roubar rosa e colocá-la na casa das meninas que eu paquerava na adolescência ele ajudou. Sem contar dos colegas Adnan, Rangel, Kidão, Lóbis, Sandrinho, Chesca, Oratisnan e tantos outros colegas do time de vôlei. Mas isso foi há muito tempo. Com o surgimento das quadras de grama sintética a maioria e com as sucessivas administrações desastrosas, o clube foi aos poucos perdem sócios e permanece deserto a maior parte do tempo.
À direita, a casa do amigo Alan, a quem chamávamos de “Marreta”. Sempre me identifiquei muito com ele, pois éramos considerados os “nerds” do bairro. Chegamos a estudar juntos na FEAM-COC em 1993, no 3º ano do ensino médio. Ele foi cursar Direito, eu fui cursar Química. Hoje ele é fiscal da receita federal. Um grande rapaz, que sempre mereceu meu respeito e admiração. Seu pai, o Inácio, faleceu também faleceu há pouco tempo. Logo à frente, dois terrenos baldios, onde eu vinha com o meu primo Fernando jogar futebol nos primeiros meses que nos mudamos de Quirinópolis. Ao lado deste terreno ainda há a casa da dona Estela, mas só a casa. Ela não mora mais lá. Na verdade, eu nem sei se ela ainda está viva... À esquerda, avisto um cômodo onde funcionava a locadora da Isaura. Cheguei a alugar algumas fitas cassetes ali, entre elas a do filme “Casa dos Espíritos”, que assisti na casa da vovó Maria.
Chego, enfim, na esquina com a rua Espírito Santo. Paro ali por um instante e olho para as casas da vizinhança. À direita, avisto as casas onde moravam os irmãos André, Sandro e Fernandinho, e à minha frente, a casa onde moraram Zé Adalberto, Marcelo e Eduardo. A mãe deles, a dona Têmis, trabalhava em um banco. Eduardo, que cresceu e ficou conhecido como “Machadinho”, era o mais jovem. Faleceu em um acidente de carro, se não me engano. Os outros dois certamente sequer se lembram de mim. Na casa ao lado, hoje em obras, está a casa onde morava o Alessandro Popolin, um grande amigo de infância. Não tenho notícias dele há mais de 20 anos, desde que se mudou para alguma cidade do Estado de Goiás. Ambos gostávamos da Roseli – a “Zé”, irmã do Shimu – mas nenhum de nós tinha coragem de se declarar... Ela morava, juntamente com seu irmão Shimu, hoje proprietário de um lavador, e seus outros irmãos, na casa à direita à do Renato, o “Batata”, e do Ricardo, o “Xuxa”. O pai dele, o seu Abrão, trabalhava no banco Comyndi. Na casa à esquerda moravam a Rogéria e o Nélson e suas filhas Daniela e Ana Carolina. O seu Nelson também trabalhava em um banco, assim como o esposo da dona Cleide, que morava na casa ao lado. Lembro de um de seus filhos, o Luciano, com quem eu adorava brincar.
Ao lado da casa do Alessandro está a casa onde morava a dona “Cota Mazier”, sempre bem humorada e com alto astral. Ao lado da casa dela existia um terreno baldio, na frente do qual o Xuxa fazia “cross” com sua bicicleta “Monareta” – que, obviamente, não suportou e teve seu quadro trincado... Hoje ali moram tia Vânia, tio Natal e meu primo Frederico.
Chego enfim à casa de meus pais. Na infância havia duas árvores em frente de casa e o muro era baixo. Não havia garagem coberta e o caminhão passava as noites na rua, até que o papai vendeu algumas vacas e comprou o terreno ao lado, que era do tio Tim. Ali cresceu uma enorme mangueira, que por quase 20 anos protegeu-nos do sol e sob a qual fazíamos os churrascos em família.
Estaciono o carro e o desligo, mas não desço dele. Permaneço ali por um instante, pensando em como a vida passa rápido. Alguns de meus colegas e/ou seus pais já morreram ao longo desses 25 anos. Muitas dessas lembranças certamente já se apagaram de suas memórias, e aos poucos irão se apagando da minha, até o dia em que só existirão através das postagens deste blog.

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