sexta-feira, 18 de maio de 2012

Uma música alucinógena


Quarta-feira, 16 de maio. Estou dirigindo em direção ao trabalho. A sensação de gratidão por estar vivo, por ter saúde, um emprego e uma família é enorme. Tenho o meu próprio carro. Embora seja um carro da década passada, eu me dou conta de que jamais pensei, quando criança, em ter um carro com quatro portas, vidro elétrico e direção hidráulica. É muita mordomia para alguém que, quando criança, na década de 80, desenhava lanternas e painéis em seus pequenos carrinhos de plástico, que sequer preenchiam a palma da mão.

O céu está repleto de nuvens cinzentas. São as mesmas nuvens que me deixavam triste quando o papai estava pelas estradas do Brasil afora em busca de sustento para nossa família, na cabine de seu antigo caminhão amarelo. Em poucos anos o Miguel olhará para as mesmas nuvens. Eu espero que elas não o deixem tão nostálgico quanto eu.

Cada pequeno detalhe parece levar-me de volta ao passado. Mas por quê? Qual será o meu problema com o passado? Afinal de contas, os anos de minha infância e de minha adolescência foram tão difíceis que eu não teria problema algum em esquecê-los.

No rádio, mais de uma centena de músicas por mim selecionadas segue tocando durante a viagem. Estão armazenadas em um minúsculo cartão SD, cujo tamanho não chega a 5% dos discos de vinil que tocavam na vitrola do aparelho de som que minha irmã ganhara de meus pais. A maior parte das músicas que selecionei foram gravadas nos anos 70 e 80. São verdadeiros clássicos. Na pasta dos anos 70 há várias músicas do Bee Gees e do ABBA, este último o conjunto predileto do papai. Neste momento, por exemplo, está tocando "Knowing me, knowing you". De repente, a estrada desaparece diante de meus olhos, como se eu fosse transportado de meu carro para a casa do tio Chiquinho, em Cambira-PR. As paredes de tábuas de madeira e a luz incandescente sobre a mesa da cozinha conferem um conforto ímpar. É como se eu me sentisse em casa. Na pia da cozinha, a tia Augusta vai preparando o almoço enquanto a prima Sônia, sempre cuidadosa e prestativa, preocupa-se em organizar a mesa para o almoço. Enquanto isso, o tio Chiquinho, sentado à minha frente com o cigarro entre os dedos, de pernas cruzadas, conta histórias sobre os antepassados da família Crotti. Meus olhos observam atento cada detalhe desta cena: a tia Augusta indo em direção à dispensa; a forma compenetrada com que a prima Sônia dedica-se à realização de suas tarefas; a riqueza de pormenores com que o tio Chiquinho conta cada passagem de suas histórias. Eu me sinto em casa.

De volta ao meu carro, piso no pedal do freio para reduzir a velocidade do carro, deixando no ar uma única: por que essa cena me vêm à mente sempre que ouço as músicas do ABBA? E por que essa música, composta quando eu tinha apenas um ano de idade, me traz tais lembranças? Esta é uma das perguntas cujas respostas eu nunca terei. Tio Chiquinho e tia Augusta partiram e a casa que aparece em minhas lembranças foi vendida. Quanto à prima Sônia, talvez me considere um louco se fizer esta pergunta a ela... De qualquer forma, é bom saber que eu tenho um lugar perdido em minhas lembranças onde eu sempre serei bem acolhido. E, principalmente, onde o tio Chiquinho e a tia Augusta sempre estarão à minha espera.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fragmentos da adolescência: o primeiro dos beijos que nunca dei

1988. Tenho 12 anos. A vida na cidade tem sido bem difícil para mim. Ainda sofro pra fazer amizades. Acho que ainda sou um “menino da roça”. Ainda assim, consegui uma meia dúzia de colegas com quem posso brincar, de carrinho ou de futebol. Nos últimos tempos descobri que também sou bom no jogo de “queimada”. Costumo ser sempre um dos últimos a ser "queimado". De vez em quando eu “cedo a minha vida” pra alguma menina que é queimada. Não para todas, é claro. Apenas para aquelas em que estou “de olho”. O problema é que eu só fico “de olho”. Até hoje não consegui coragem pra conversar com nenhuma dessas meninas sobre o que sinto por elas. Sei lá, só de pensar nisso me dá uma coisa estranha.Meu coração dispara, eu começo a suar. Meus pensamentos, ainda que eu os tente controlá-los, ficam confusos. Ouvi falar que o nome disso é timidez. Já o papai prefere dizer que eu tenho medo de mulher. Na verdade, acho que ele tem um medo enorme de que eu seja “viado”... É uma pena que ele não entenda o que eu sinto...
       São 18h. Estamos brincando na calçada em frente à casa do Adriano “saracura”. A brincadeira se chama “salada mista”. Até onde eu sei, salada mista é nome de comida. Estamos em sete pessoas: o Rodrigo “Tião”, o Adriano “Saradura”, eu, o Edwards “Brutus”, a Gláucia, sua irmã e a Luciana, sua prima. A Luciana tenta me explicar como a brincadeira funciona. “Nós vamos tampar o seu olho e apontar para alguém. Aí você tem que escolher: aperto de mão, abraço, beijo no rosto ou beijo na boca”. Certo. Tem apenas uma dúvida: “E seu eu disser beijo na boca e você apontar pra um menino?” Ela ri. “Aí você tem que beijar, ora bolas...” Aquilo me deixa apreensivo. Acho que vou sempre pedir aperto de mão pra não correr o risco.
     A brincadeira começa. Ela veda meus olhos com uma das mãos e me vira para a parede e aponta o dedo pra alguém, que a esta altura já não sei quem é.  “É esse?” Não. “É esse?” Não. “É esse?” Não. Então uma idéia maluca me ocorre: vou dizer sim para o próximo que ela apontar e pedir beijo na boca. Se for menina, eu dou. Se for menino, eu monto em minha bicicleta e volto correndo pra casa e nunca mais entro nessa brincadeira. "É esse?", pergunta ela. "Sim". Percebo então que ela está rindo. Os demais estão em silêncio. "Aperto de mão, abraço ou beijo no rosto ou beijo na boca?", pergunta ela. "Beijo na boca!" O silêncio então é quebrado por uma série de gargalhadas. "Puta merda, me dei mal!", penso comigo. Quando me viro, percebo que a Gláucia, a mais bonita das moças que estão na brincadeira, está um passo à frente dos outros. Meu coração dispara. "Beija! Beija!, gritam os colegas. Olho então para seus lindos lábios carnudos, que agora desenham um lindo sorriso. "Beija! Beija!" Seus grandes olhos negros parecem pequenos atrás das maçãs de seu rosto quando sorri. Seus cabelos incrivelmente negros e longos estão caídos sobre a parte da frente do corpo, espalhando pelo ar um delicioso cheiro de xampú. "Beija! Beija!" Eu não consigo acreditar que aquela menina a quem tantas vezes "dei a vida" durante a brincadeira de queimada está agora aqui à minha frente esperando um beijo meu. "Beija! Beija!" Meu coração dispara. Minhas mãos começam a suar, meu queixo começa a tremer. "Beija! Beija!" Pouco mais de cinco segundos se passaram desde que apontei o dedo e concordei, sem vê-la, em dar-lhe um beijo, mas a impressão é de que estou ali parado há uma década sem ter coragem de fazer aquilo que, na verdade, será o meu primeiro beijo. "Beija! Beija!" Meus olhos então varrem os colegas rapidamente. Estão todos rindo. O que será que estão pensando? Será que riem porque acham aquilo uma piada? Ou porque acham que eu não sei beijar e que ela, quando eu for me aproximar, não vai querer o beijo? "Beija! Beija!" Será que, assim como o papai, eles acham que eu sou feio e essa é a única chance que eu terei de beijar uma menina linda como a Gláucia? Em meio a tantos pensamentos confusos, minhas pernas parecem ganhar vida própria e tomam a decisão por si mesmas. Sem me dar conta do que estou fazendo, corro para a minha bicicleta e saio correndo em direção à minha casa. "Eu não acredito! Ele tá indo embora!", diz um colega. "Tá com medo de mulher?", grita outro. Eu pedalo mais rápido pra não ouvir mais o que estão falando, mas as gargalhadas são tão altas que ainda chegam aos meus ouvidos. Um dos colegas parece correr atrás de mim, como se quisesse convencer-me a voltar lá, mas não consegue alcançar-me. 
     Consigo, enfim, dobrar a esquina. Meu coração ainda está acelerado. Eu estou em pânico. Sigo então pedalando com força pra vencer a subida que me separa da rua de minha casa, quando então decido parar em frente à casa do tio Buchudo pra tomar um fôlego. De repente, meu coração desacelera. Tenho novamente o controle das minhas pernas. Olho à minha volta. São 19h. Não vejo ninguém pela rua. Meus pensamentos estão agora em ordem novamente. Eis então que meus olhos deixam o chão e olham para frente, como se finalmente eu entendesse o que acabara de acontecer. "Meu Deus do céu! Que merda eu acabei de fazer?!" Desço da bicicleta e começo a empurrá-la. Inconformado com a situação, uma mistura de vergonha e raiva de mim mesmo me abatem. Irritado, percebo o que aconteceu: eu acabei de desperdiçar uma grande oportunidade. E oportunidades como essa só aparecem uma única vez na vida. "Que bosta... Se o papai souber disso, ele me mata!"

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Fragmentos da adolescência - A máquina de Coca-Cola


1991. Tenho 15 anos. Vejo a paisagem verde passar lentamente pela janela. Já não há tantas matas como antigamente e o tom do verde que agora vejo é um pouco mais claro. É da soja, que há tempos vem conquistando espaço na paisagem. Não sei onde vamos parar.
Pela frente, as duas pistas da via Anhanguera assemelham-se a duas enormes artérias conduzindo os carros aos seus destinos. O asfalto é liso, bem diferente da estrada batida pela qual costumávamos trafegar quando morávamos em Quirinópolis-GO, há 10 anos. Agora moramos em São Joaquim da Barra-SP e estamos indo em direção à Orlândia-SP.
Ao invés do pequeno trator Massey Ferguson 50X, ao qual carinhosamente chamávamos de “cinquentinha”, viajamos agora em um Mercedes Benz 2013, fabricado em 1970. É com ele que o papai tenta agora sustentar nossa família. Já não o vejo todos os dias. Às vezes ele passa até mais de um mês longe da gente. Na cabine de seu caminhão eu reparo os detalhes e busco aos poucos saber um pouco mais sobre o papai caminhoneiro, já que o papai lavourista não mais existe. No painel estão grudadas as imagens de Nossa Senhora da Aparecida e do Padre Cícero, para quem ele certamente reza todas as noites pedindo para voltar para casa com saúde. No porta luvas, caixas e caixas de remédios repousam em duas caixas maiores. São o arsenal do papai para a batalha do dia-a-dia. Sua saúde foi se perdendo ao longo dos quase 41 anos de vida difícil. Mas o papai ainda é um homem muito forte. Seus braços, queimados pelo sol, são tão fortes que até hoje eu não consigui vencê-lo na queda de braços, nem usando os dois braços.
Os quilômetros de asfalto aos poucos parecem ser engolidos pelo capô amarelo do caminhão. Assim que passamos por um posto da polícia rodoviária, reparo o papai dando sinal de seta e entrando à direita. Estamos passando sob a estrada que estávamos agora há pouco. Agora estamos retornando em direção à São Joaquim. No posto da polícia rodiviária, agora à esquerda, os policiais vão parando os carros para verificar a documentação. “Morféticos! Lá vai os filhos da p... arrancarem dinheiro dos coitadinhos. Prender os bandidos eles não prendem, não! Ô raça desgraçada!”, esbraveja o papai, que tantas multas já levou por causa do cinto de segurança, extintor de incêndio, pneus carecas... “Olha, eu vou te falar, filho: quando eles querem multar, eles acham um motivo! Os federais são piores: ficam rodando o caminhão procurando algum motivo pra multar esperando o coitado do ‘passa-fome’ molhar a mão deles”. “Passa-fome” é o termo que o papai usa pra se referir aos caminhoneiros.
Viramos novamente à direita. Estamos agora no Posto Santa Rita. É um posto cercado de árvores, um dos mais bonitos que já vi. O papai então aponta para a churrascaria. “A comida ali é uma delícia! No domingo o papai vem buscar uma marmitex pra você ver como a comida é boa..."
Após abastecer e lavar o pára-brisa, o papai pede que eu desça. “Vem cá, filho. Quero te mostrar uma coisa.” Eu desço, curioso. “Seguimos então até uma enorme caixa de metal colorida, que deve ter uns dois metros de altura. Nela estão os dizeres “Coca-Cola”. “Uai, papai, o que é isso?”. “Isso, filho, é uma máquina de Coca-Cola. Você coloca uma moeda, aperta um botão e ela te dá na hora uma latinha de Coca-Cola, Sprite, Fanta ou Taí. Você que escolhe.” Ao ver minha expressão meio ressabiada, ele me passa uma ficha, que mais se parece uma ficha de telefone. “Coloca a ficha aí pra você ver e aperta um botão”. Sigo suas instruções e aperto o botão “Coca-Cola”. Ouço então um forte estrondo de dentro da máquina e dou um pulo para trás. Avisto então uma pequena lata de Coca-Cola surgindo por uma saída da máquina. “Viu? Não te falei? Vamos fazer de novo!”, diz ele. O ritual se repete mais três vezes. “Vamos levar uma pra ‘Fia’ e outra pra sua mãe.” O barulho, antes assustador, agora me parece engraçado. Ao ver que eu gostei do barulho, agora com as mãos cheias de latinhas de Coca-Cola, o papai e diz: “Gostou, Dado? Quando eu vi, eu pensei: ‘Preciso mostrar isso pro Dado. Ele vai gostar”. Então ele se vira em direção ao caminhão e diz: “Esse povo não tem mais nada que inventar mesmo. O que não é a tecnologia!”
Entramos no caminhão, ambos degustando nossas pequenas Coca-Colas, em silêncio. O papai parece feliz e orgulhoso por ter me agradado. Estou realmente feliz por estar com ele e por ter visto algo que eu nunca tinha visto. Fico então pensando no que o papai disse sobre a tecnologia. Coloco então os cotovelos sobre os joelhos, com a lata de Coca-Cola nas mãos, e deixo meu olhar se perder em algum ponto da paisagem. “Coitado do papai. Não deve nem saber que hoje já existe vídeo game Atari e vídeo cassete...”