quinta-feira, 3 de maio de 2012

Fragmentos da adolescência - A máquina de Coca-Cola


1991. Tenho 15 anos. Vejo a paisagem verde passar lentamente pela janela. Já não há tantas matas como antigamente e o tom do verde que agora vejo é um pouco mais claro. É da soja, que há tempos vem conquistando espaço na paisagem. Não sei onde vamos parar.
Pela frente, as duas pistas da via Anhanguera assemelham-se a duas enormes artérias conduzindo os carros aos seus destinos. O asfalto é liso, bem diferente da estrada batida pela qual costumávamos trafegar quando morávamos em Quirinópolis-GO, há 10 anos. Agora moramos em São Joaquim da Barra-SP e estamos indo em direção à Orlândia-SP.
Ao invés do pequeno trator Massey Ferguson 50X, ao qual carinhosamente chamávamos de “cinquentinha”, viajamos agora em um Mercedes Benz 2013, fabricado em 1970. É com ele que o papai tenta agora sustentar nossa família. Já não o vejo todos os dias. Às vezes ele passa até mais de um mês longe da gente. Na cabine de seu caminhão eu reparo os detalhes e busco aos poucos saber um pouco mais sobre o papai caminhoneiro, já que o papai lavourista não mais existe. No painel estão grudadas as imagens de Nossa Senhora da Aparecida e do Padre Cícero, para quem ele certamente reza todas as noites pedindo para voltar para casa com saúde. No porta luvas, caixas e caixas de remédios repousam em duas caixas maiores. São o arsenal do papai para a batalha do dia-a-dia. Sua saúde foi se perdendo ao longo dos quase 41 anos de vida difícil. Mas o papai ainda é um homem muito forte. Seus braços, queimados pelo sol, são tão fortes que até hoje eu não consigui vencê-lo na queda de braços, nem usando os dois braços.
Os quilômetros de asfalto aos poucos parecem ser engolidos pelo capô amarelo do caminhão. Assim que passamos por um posto da polícia rodoviária, reparo o papai dando sinal de seta e entrando à direita. Estamos passando sob a estrada que estávamos agora há pouco. Agora estamos retornando em direção à São Joaquim. No posto da polícia rodiviária, agora à esquerda, os policiais vão parando os carros para verificar a documentação. “Morféticos! Lá vai os filhos da p... arrancarem dinheiro dos coitadinhos. Prender os bandidos eles não prendem, não! Ô raça desgraçada!”, esbraveja o papai, que tantas multas já levou por causa do cinto de segurança, extintor de incêndio, pneus carecas... “Olha, eu vou te falar, filho: quando eles querem multar, eles acham um motivo! Os federais são piores: ficam rodando o caminhão procurando algum motivo pra multar esperando o coitado do ‘passa-fome’ molhar a mão deles”. “Passa-fome” é o termo que o papai usa pra se referir aos caminhoneiros.
Viramos novamente à direita. Estamos agora no Posto Santa Rita. É um posto cercado de árvores, um dos mais bonitos que já vi. O papai então aponta para a churrascaria. “A comida ali é uma delícia! No domingo o papai vem buscar uma marmitex pra você ver como a comida é boa..."
Após abastecer e lavar o pára-brisa, o papai pede que eu desça. “Vem cá, filho. Quero te mostrar uma coisa.” Eu desço, curioso. “Seguimos então até uma enorme caixa de metal colorida, que deve ter uns dois metros de altura. Nela estão os dizeres “Coca-Cola”. “Uai, papai, o que é isso?”. “Isso, filho, é uma máquina de Coca-Cola. Você coloca uma moeda, aperta um botão e ela te dá na hora uma latinha de Coca-Cola, Sprite, Fanta ou Taí. Você que escolhe.” Ao ver minha expressão meio ressabiada, ele me passa uma ficha, que mais se parece uma ficha de telefone. “Coloca a ficha aí pra você ver e aperta um botão”. Sigo suas instruções e aperto o botão “Coca-Cola”. Ouço então um forte estrondo de dentro da máquina e dou um pulo para trás. Avisto então uma pequena lata de Coca-Cola surgindo por uma saída da máquina. “Viu? Não te falei? Vamos fazer de novo!”, diz ele. O ritual se repete mais três vezes. “Vamos levar uma pra ‘Fia’ e outra pra sua mãe.” O barulho, antes assustador, agora me parece engraçado. Ao ver que eu gostei do barulho, agora com as mãos cheias de latinhas de Coca-Cola, o papai e diz: “Gostou, Dado? Quando eu vi, eu pensei: ‘Preciso mostrar isso pro Dado. Ele vai gostar”. Então ele se vira em direção ao caminhão e diz: “Esse povo não tem mais nada que inventar mesmo. O que não é a tecnologia!”
Entramos no caminhão, ambos degustando nossas pequenas Coca-Colas, em silêncio. O papai parece feliz e orgulhoso por ter me agradado. Estou realmente feliz por estar com ele e por ter visto algo que eu nunca tinha visto. Fico então pensando no que o papai disse sobre a tecnologia. Coloco então os cotovelos sobre os joelhos, com a lata de Coca-Cola nas mãos, e deixo meu olhar se perder em algum ponto da paisagem. “Coitado do papai. Não deve nem saber que hoje já existe vídeo game Atari e vídeo cassete...”

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