quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fragmentos da adolescência: o primeiro dos beijos que nunca dei

1988. Tenho 12 anos. A vida na cidade tem sido bem difícil para mim. Ainda sofro pra fazer amizades. Acho que ainda sou um “menino da roça”. Ainda assim, consegui uma meia dúzia de colegas com quem posso brincar, de carrinho ou de futebol. Nos últimos tempos descobri que também sou bom no jogo de “queimada”. Costumo ser sempre um dos últimos a ser "queimado". De vez em quando eu “cedo a minha vida” pra alguma menina que é queimada. Não para todas, é claro. Apenas para aquelas em que estou “de olho”. O problema é que eu só fico “de olho”. Até hoje não consegui coragem pra conversar com nenhuma dessas meninas sobre o que sinto por elas. Sei lá, só de pensar nisso me dá uma coisa estranha.Meu coração dispara, eu começo a suar. Meus pensamentos, ainda que eu os tente controlá-los, ficam confusos. Ouvi falar que o nome disso é timidez. Já o papai prefere dizer que eu tenho medo de mulher. Na verdade, acho que ele tem um medo enorme de que eu seja “viado”... É uma pena que ele não entenda o que eu sinto...
       São 18h. Estamos brincando na calçada em frente à casa do Adriano “saracura”. A brincadeira se chama “salada mista”. Até onde eu sei, salada mista é nome de comida. Estamos em sete pessoas: o Rodrigo “Tião”, o Adriano “Saradura”, eu, o Edwards “Brutus”, a Gláucia, sua irmã e a Luciana, sua prima. A Luciana tenta me explicar como a brincadeira funciona. “Nós vamos tampar o seu olho e apontar para alguém. Aí você tem que escolher: aperto de mão, abraço, beijo no rosto ou beijo na boca”. Certo. Tem apenas uma dúvida: “E seu eu disser beijo na boca e você apontar pra um menino?” Ela ri. “Aí você tem que beijar, ora bolas...” Aquilo me deixa apreensivo. Acho que vou sempre pedir aperto de mão pra não correr o risco.
     A brincadeira começa. Ela veda meus olhos com uma das mãos e me vira para a parede e aponta o dedo pra alguém, que a esta altura já não sei quem é.  “É esse?” Não. “É esse?” Não. “É esse?” Não. Então uma idéia maluca me ocorre: vou dizer sim para o próximo que ela apontar e pedir beijo na boca. Se for menina, eu dou. Se for menino, eu monto em minha bicicleta e volto correndo pra casa e nunca mais entro nessa brincadeira. "É esse?", pergunta ela. "Sim". Percebo então que ela está rindo. Os demais estão em silêncio. "Aperto de mão, abraço ou beijo no rosto ou beijo na boca?", pergunta ela. "Beijo na boca!" O silêncio então é quebrado por uma série de gargalhadas. "Puta merda, me dei mal!", penso comigo. Quando me viro, percebo que a Gláucia, a mais bonita das moças que estão na brincadeira, está um passo à frente dos outros. Meu coração dispara. "Beija! Beija!, gritam os colegas. Olho então para seus lindos lábios carnudos, que agora desenham um lindo sorriso. "Beija! Beija!" Seus grandes olhos negros parecem pequenos atrás das maçãs de seu rosto quando sorri. Seus cabelos incrivelmente negros e longos estão caídos sobre a parte da frente do corpo, espalhando pelo ar um delicioso cheiro de xampú. "Beija! Beija!" Eu não consigo acreditar que aquela menina a quem tantas vezes "dei a vida" durante a brincadeira de queimada está agora aqui à minha frente esperando um beijo meu. "Beija! Beija!" Meu coração dispara. Minhas mãos começam a suar, meu queixo começa a tremer. "Beija! Beija!" Pouco mais de cinco segundos se passaram desde que apontei o dedo e concordei, sem vê-la, em dar-lhe um beijo, mas a impressão é de que estou ali parado há uma década sem ter coragem de fazer aquilo que, na verdade, será o meu primeiro beijo. "Beija! Beija!" Meus olhos então varrem os colegas rapidamente. Estão todos rindo. O que será que estão pensando? Será que riem porque acham aquilo uma piada? Ou porque acham que eu não sei beijar e que ela, quando eu for me aproximar, não vai querer o beijo? "Beija! Beija!" Será que, assim como o papai, eles acham que eu sou feio e essa é a única chance que eu terei de beijar uma menina linda como a Gláucia? Em meio a tantos pensamentos confusos, minhas pernas parecem ganhar vida própria e tomam a decisão por si mesmas. Sem me dar conta do que estou fazendo, corro para a minha bicicleta e saio correndo em direção à minha casa. "Eu não acredito! Ele tá indo embora!", diz um colega. "Tá com medo de mulher?", grita outro. Eu pedalo mais rápido pra não ouvir mais o que estão falando, mas as gargalhadas são tão altas que ainda chegam aos meus ouvidos. Um dos colegas parece correr atrás de mim, como se quisesse convencer-me a voltar lá, mas não consegue alcançar-me. 
     Consigo, enfim, dobrar a esquina. Meu coração ainda está acelerado. Eu estou em pânico. Sigo então pedalando com força pra vencer a subida que me separa da rua de minha casa, quando então decido parar em frente à casa do tio Buchudo pra tomar um fôlego. De repente, meu coração desacelera. Tenho novamente o controle das minhas pernas. Olho à minha volta. São 19h. Não vejo ninguém pela rua. Meus pensamentos estão agora em ordem novamente. Eis então que meus olhos deixam o chão e olham para frente, como se finalmente eu entendesse o que acabara de acontecer. "Meu Deus do céu! Que merda eu acabei de fazer?!" Desço da bicicleta e começo a empurrá-la. Inconformado com a situação, uma mistura de vergonha e raiva de mim mesmo me abatem. Irritado, percebo o que aconteceu: eu acabei de desperdiçar uma grande oportunidade. E oportunidades como essa só aparecem uma única vez na vida. "Que bosta... Se o papai souber disso, ele me mata!"

Um comentário:

Anônimo disse...

É uma história muito interessante... adorei cada parte, pois nos faz viajar com a imaginação.