quarta-feira, 27 de junho de 2012

Viva!


Há um ditado que diz: “Quem quase morreu, ainda vive. Mas quem quase viveu já está morto”. Este enunciado, embora curto, traduz a essência da vida: “Carpe diem”. Não, você não deve aproveitar o seu dia cometendo atos irresponsáveis, bebendo além da conta ou tratando as pessoas que o cerca de forma inadequada. Você deve, sim, aproveitar cada momento. Para isso, elimine os pensamentos ruins. Esqueça as  contas a pagar. Elimine os projetos que você não conseguiu realizar. Não permita que eles o deixem frustrado. Deixe de olhar as coisas que você gostaria de ter ou a vida que gostaria de ter. Não pense. Apenas sinta. Faça algo mais desafiador que pular de para-quedas: fuja de sua rotina frenética e pare à beira de um lago. Veja o pôr do sol. Sinta a brisa fresca da noite. Feche os olhos. Apenas ouça.

Quando encontrar alguém que quer falar com você, ouça. Procure mais ouvir do que falar. Algumas dessas pessoas querem apenas a sua atenção. Para elas nada pode ser mais valioso. Seja paciente. Abrace as pessoas que você gosta: pai, mãe, avós, irmãos ou amigos. Sinta o abraço. Você verá quão mágico isso pode ser.

Em situações em que se sentir nervoso, não diga nada. As palavras podem ser mais dolorosas que um ato e, por isso, podem ser imperdoáveis. Pense, por um momento, se você gostaria de ouvir o que está prestes a dizer a alguém. Seja piedoso; perdoe. Cuide para que a mágoa não tome conta de você. Faça uma faxina na sua alma. Deixe nela apenas as coisas boas, as boas lembranças.

Por outro lado, se tiver algo de bom a dizer a alguém, diga. As pessoas que merecerem vão adorar ouvir o que você tiver de bom a dizer sobre elas. Agradeça. Muitas vezes o reconhecimento e o agradecimento valem mais que milhões em notas. Além disso, caro leitor, a vida passa rápido. Por isso, diga tudo o que de bom tiver pra dizer. Amanhã pode ser tarde demais. Não confie no futuro e não deposite suas esperanças nele. Ele pode não vir. Ou então pode deixa-lo desapontado. Por tudo isso, viva agora! O que você está esperando?

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Fragmentos de minha adolescência - A morte do romantismo


1985. Tenho 9 anos. Estudo na escola Manoel Gouveia de Lima, na 3ª. série. Uma de minhas colegas de classe chama-me a atenção por sua beleza. É morena, pele lisa. Tem os lábios lindos. Eu fico sempre de longe, admirando sua beleza. Só admirando. Sou muito tímido e acho que jamais terei coragem de dizer-lhe o quanto a acho bonita. Ela parece gostar do “Branco”, um dos colegas de sala. Ele é mais falante, mais popular e menos tímido.

1986. Tenho 10 anos. Gosto muito de brincar de queimada na rua aqui de casa. A única menina que brinca com a gente é a Roseli, a quem chamamos de “Zê”. Ela tem um rosto delicado, mas parece ter uma expressão triste. Como eu também sou quieto, talvez a gente se desse bem. Isso, é claro, se eu tivesse coragem de dizer pra ela o quanto eu a admiro. O Alessandro, meu vizinho, confessou-me que também gosta dela. Outro dia eu notei uma troca de sorrisos e olhares entre os dois. Ah, se eu fosse menos tímido...

1990. Tenho 13 anos. Estou na 8ª. série. Há uma moça que joga vôlei para o time da escola, chamada Alessandra. O que me desperta a atenção é que, além de bonita, ela parece ser quieta e comportada. Para vencer a timidez, desta vez tentarei algo diferente: vou demonstrar meus sentimentos através de recados. Começo então a escrever versos e a entrega-los através de um amigo, o Alessandro (não o mesmo que gostava da Zê...). Eu faço isso repetidas vezes. Até um botão de rosa eu fui entregar outro dia em sua casa... Acho que sou um cara romântico. Após uns dois meses de recados, versos e poemas, enfim uma manifestação da parte dela. “Diga a ele que eu não quero nada com ele, que ele está fazendo papel de bobo”. Este foi o recado que ela me enviou através do Alessandro. Acho que ela também não gosta de caras tímidos nem tampouco românticos...
1991. Tenho 16 anos. Ainda sou muito tímido. Os caras dizem que quando se tem algo pra dirigir – uma moto, carro ou mesmo mobilete – é mais fácil pra se arranjar uma namorada, mas mesmo assim ainda não consegui ninguém. Acho que é porque sou muito quieto. Há uma moça muito bonita que me chamou a atenção outro dia na rua. Descobri que se chama Milena. Tem o cabelo curto, parecido com o da Julie McCoulough. Todos os domingos à tarde eu saio de mobilete pelas ruas da cidade, na esperança de vê-la. Outro dia eu a vi andando em uma bicicleta Caloi Ceci cor-de-rosa. Eu fiquei rodeando os quarteirões, passando ao seu lado e olhando para ela, sem ter coragem de parar e conversar. Maldita timidez! A estratégia, no entanto, despertou sua reação. Ela descobriu que sou amigo do Carlos e enviou-me um recado através dele. “Aquele cara é louco? Diga a ele pra parar de me seguir, pois ele está fazendo papel de bobo. Eu não quero nada com ele!” Definitivamente, as mulheres parecem não gostar de homens românticos nem tímidos.
1992. Estou com o Carlos na avenida. Ele tem um amigo bastante divertido, a quem apelidamos de “Papinha”. Há uma menina que estou paquerando, chamada Gisele. Ela tem cabelos loiros e olhos verdes. Desta vez eu vou superar minha timidez e conversar. Peço ao Papinha pra ir até ela e dizer que tem um amigo seu que quer conhece-la. Ele some em meio à multidão e volta uns 15min depois. “E aí, qual foi a resposta dela? Ela quer me conhecer?”, perguntou-lhe, ansioso. “Antes ela quer saber se você tem carro ou moto”, diz ele, meio desapontado. Pois é. Além de não gostarem de homens tímidos, quietos e românticos, as mulheres parecem ter preferência pelos rapazes de posses.
1995. Estou no ponto aguardando o ônibus que irá levar-nos para a faculdade. Estou rodeado de outras pessoas, rapazes e moças. Estamos no mês de abril. A faculdade parece ter feito bem para mim. Já não sou mais tão tímido. Sou bem mais extrovertido que há 10 anos, mas isso ainda não resolveu o meu problema, pois ainda não tenho namorada. As conversas que ouço das mulheres que me rodeiam dão a entender que elas gostam de homens românticos, mas na prática não é isso que acontece. Percebi que boa parte delas se embriaga e vai para as “baladas”. Muitas vezes acabam beijando o primeiro que aparece. Isso, convenhamos, não tem nada de romântico. É justamente por isso que estou um pouco desapontado com as mulheres de minha geração. Há uns dois anos que eu não encontro uma mulher que valha a pena ser paquerada. Uma das colegas de ponto, a Bel, domina a conversa em nossa roda. Ela não faz o meu tipo. Fala alto, gesticula e sorri. Também falo bastante, gesticulo e faço umas piadinhas de vez em quando. Após uma dessas piadinhas, ela endurece a expressão e me dá um tapa doído no ombro. Eu não deixo por menos e revido. O tapa que lhe aplico no ombro faz com que ela se gire, indo de encontro ao muro. “Seu grosso! Não sabe que não se pode bater em mulher?” Sério, eu lhe explico. “Ora, os direitos não são iguais? Mulher comigo agora é assim: bateu, levou!”, respondo.
Uma das lições que aprendi nesses últimos 10 anos é que a maioria das mulheres não dá a mínima para homens românticos. São tachados de caretas, e não raramente são motivo de chacotas. A partir de hoje eu não sou mais um cara romântico. As mulheres terão de mim o que elas derem. Eu as tratarei como elas me tratarem. Até que algum dia eu encontre alguém que ressuscite em mim o homem romântico que acabou de ser sepultado.

sábado, 16 de junho de 2012

Nove anos sem parada


16 de junho. 8h40min. De pé ao lado do slide, eu aponto para o slide projetado sobre o painel de lona branco, tentando explicar reações de fragmentação aos alunos do curso de mestrado. Tenho o privilégio e a oportunidade de ensinar o que aprendi durante meus 36 anos de vida, que estão se completando hoje. Sim, hoje é dia de meu aniversário. Os slides vão passando, um a um. Os alunos acenam com suas cabeças, demonstrando assim que estão entendendo. O celular toca. É a mamãe. Deve ser pra dar os parabéns. Não posso atender agora. Ela terá, mais uma vez, que esperar. Pobre mamãe... Às vezes acho que não mereço tanta dedicação. Os números de slides vão aumentando. A dificuldade do conteúdo também. De repente, uma mensagem. É de minha irmã. Tivemos um desentendimento recente. Mas ela se lembrou do meu aniversário...
12h20min. Estou seguindo de volta para casa. Olho para a paisagem seca, pensativo. No rádio, músicas das décadas de 70 e 80, selecionadas e gravadas em um cartão SD. Elas me fazem lembrar o passado e viajar por anos que eu vivi. Alguma coisa me prende ao passado e eu não consigo descobrir o que é. Pode ser o medo de envelhecer. Certa vez me disseram pra fazer regressão. Eu não quis. Tenho medo do que posso encontrar lá. Deixemos como está. Que eu permaneça nostálgico, mas sadio.
Logo após cruzar a ponte do rio e fazer a curva à esquerda, avisto o altar em homenagem à Nossa Senhora. Pela primeira vez em nove anos que faço este percurso sinto vontade de parar. Desço do carro e fico ali uns minutos, parado à sombra da encosta do morro, olhando. Sob o altar brota uma pequena mina, cuja água escorre pelo canto da rodovia. É a vida brotando entre as rochas. Ali estão inúmeras homenagens deixadas por fiéis que alcançaram seus pedidos. É a prova de que milagres existem. Nove anos. E é a primeira vez que paro... Onde foi parar minha fé, santo Deus? Olho para cima. O sol esconde-se atrás da folhagem de uma pequena árvore. Sinto um aperto no peito, um nó na garganta. Pode ser que não tenha perdido a fé em Deus. Devo apenas ter pedido a fé nas pessoas. Ou, talvez, em mim mesmo.

domingo, 10 de junho de 2012

Fragmentos de minha infância - Meu amigo "Nadão"


1980. Quando me perguntam quantos aninhos eu tenho, eu mostro minha mão direita com o dedão escondido. “Cuato”. Aqui onde a gente mora tem pouca gente com a minha idade pra brincar comigo. A dona Segunda tem alguns filhos da minha idade, mas eu os vejo muito pouco. O Crioulo, que me presenteou com um caminhão betoneira, também vem pouco aqui em casa. Ele é muito bonzinho, mas é mais velho e deve ter que trabalhar. Coitado, deve ter gastado metade do salário dele naquele caminhãozinho que me deu... Ele é muito divertido, eu adoro a risada dele! Ele se parece muito com o Mussum, dos Trapalhões... Com o Missim eu também gostava de brincar, mas depois daquela história da “bucetinha”, a mamãe não me deixou brincar com ele de novo.
Foto do meu amido Crioulo, tirada em 2004.

A pessoa com quem eu mais gosto de brincar é com o Adão. Eu o chamo ele de “Nadão”. Ele é filho do seu “Fi” Vieira e da dona Dica. A mamãe me contou que ele é bem mais velho que eu, mas que ele não cresceu. Ele brinca no meio das vacas e é muito esperto. Aqui na roça ele é o meu melhor amigo.
Foto tirada em 1980. Agachado está o meu agora saudoso amigo Adão (o "Nadão"). Esse de chapéu, que não queria sair na foto, sou eu.

1992. 16h. É sábado. Estamos no campo da venda do Tibúrcio. O Tiago, filho da Dalva, convidou-me para vir até aqui assistir ao jogo de futebol. O campo, na verdade, é um pasto. Eventualmente um dos jogadores atola o pé nas enormes crostas de fezes que as vacas que ali estiveram durante a semana deixaram. Lá no meio do campo, vestindo uma chuteira sem meias, está o Adão. Hoje ele já é um homem. Tem suas namoradas, e apesar da vida sofrida, parece estar sempre alegre. De repente, alguém chuta a bola longe. Ele aproveita e vem até a cerca. “Ô Dadinho, você não vai jogar?”, pergunta-me ele. “Então, Adão... eu esqueci minha chuteira... se eu soubesse, tinha trazido...” Ele se vira, a bola está em jogo novamente. “Está faltando um para o nosso time. Você não quer jogar na defesa?”, diz ele, indo em direção ao centro do “campo”. Eu aceito.

20h. Voltamos à venda do Tibúrcio. Papai, mamãe e a “Fia” estão conversando com a “Du Carmo”, esposa do Tibúrcio. Estou sentado em uma mureta. Sob o telhado de capim vários casais dançam forró. Lá está o Adão. Ele está dançando com alguém. Deve ser sua namorada. Ele a vira de um lado para outro. Seus pés são leves. Como eu queria saber dançar assim. Ele me vê olhando ele dançar e dá uma risada. Em uma de suas voltas pelo salão improvisado, ele passa dançando perto de mim e diz: “Dado, por que você não chama a Ila pra dançar?” A Ila é a irmã dele. Ela é uma moça muito bonita, mas é um pouco mais velha que eu. E eu sou muito tímido, não sei o que dizer a ela. Sem contar, é claro, que eu não sei dançar. Eu apenas balanço a cabeça, dizendo que não. Ele ri e também balança a cabeça, meio que inconformado. A poeira do chão de terra batida vai subindo. Como é bom voltar aqui após tantos anos...

Janeiro de 2012. Faz 8 anos que eu não vinha aqui. Da última vez a Dalva, Luzimar, Tiago e Aline ainda moravam no sítio Douradinho, do qual tomavam conta para a vovó Lourdes. Agora moram na cidade. Estou com a Débora, que viera aqui conosco quando namorávamos há apenas um ano, e com nosso filho Miguel. Ele vai conhecer – embora sem se dar conta – os lugares por onde passei quando tinha a idade dele. Mas tudo está diferente. Quase não dá pra reconhecer onde a gente morava. Pergunto para a Dalva de seu irmão Adão, meu grande amigo na época em que morávamos aqui. “O Adão não está bom, Dado. Ele está com doença de Chagas. Ele tá fraquinho de dar dó... Outro dia ele perguntou por você... Se der tempo a gente vai na casa dele fazer uma visita”. Eu concordo.

10 de junho de 2012. Do chão da sala, deitado, com o Miguel sobre minha barriga, eu ligo pra mamãe. “Filho, você sabe quem morreu? O ‘Nadão’. Ele foi enterrado ontem. Ia colocar o marca-passo na segunda-feira...” Eu fico em silêncio por uns cinco segundos. “Coitado...” É a única coisa que consigo dizer. Meu amigo Adão faleceu sem que eu pudesse revê-lo e apresentar-lhe o Miguel. De qualquer forma, eu gostaria que ele soubesse, onde quer que esteja, que eu jamais irei esquecê-lo. Foi um privilégio tê-lo como amigo. Eu ser-lhe-ei eternamente grato pela paciência que teve comigo durante minha infância. Descanse em paz, meu amigo. Sua partida deixa-me com um vazio no coração, onde você ocupará sempre um lugar especial. Você partiu sem  que eu pudesse lhe dizer adeus, mas viverá para sempre em minhas lembranças de infância.

sábado, 9 de junho de 2012

Realidade ou conto de fadas?


7h30min. Ouço um som vindo de seu quarto. Não me mexo. Estou embriagado de sono. Minutos depois te vejo sentado aos pés da cama, com um enorme sorriso no rosto. Um sorriso doce e inocente. Você começa sua marcha em minha direção. Suas mãos e seus joelhos se movem rápido. Em poucos segundos estou com você em meus braços. Beijo-lhe as bochechas róseas. “Deus te abençoe, meu filho”.

8h. Estaciono em frente à casa de seus avós paternos. Sua avó está te aguardando ao portão. Mal estaciono e ela abre a porta. “Que coisa rica!”, diz ela, com as mãos juntas, como se agradecesse a Deus por tamanha bênção. Você aponta para cima, em direção aos pássaros que tanto te encantam. Já nos braços dela você se projeta em direção ao alpendre. Seu avô não está. Você então me olha e se proejta em minha direção, ensaiando um choro. Eu o tomo novamente em meus braços.

8h30min. Estamos na cadeira da barbearia. Giovani, meu colega há 20 anos e barbeiro há 16, veste pacientemente em você uma túnica laranja. Você o olha, mas não se assusta. Aos poucos os pequenos cachos de seu cabelo vão caindo sobre meus ombros. “Nossa, como ele é bonzinho!”, diz o Eric, que ali está aguardando a chegada do outro barbeiro.

9h. Seus bisavós quase abrem a porta do carro em movimento, tamanha a ansiedade por vê-lo com o novo corte de cabelo. “Ai, que gracinha! Tá parecendo um rapaz!”, dizem, encantados. Você retribui novamente com um sorriso encantador, projetando seu corpo à frente, na esperança de que alguém o tire do bebê-conforto. É difícil não sorrir quando se está perto de você...

9h30min. Sua mamãe está experimentando uma fantasia para uma festa dos anos 60. Marcelinha, a filha do dono do estabelecimento – o Marcelo, com quem estudei em 1993 na FEAM-COC – desenha um largo sorriso quando você toca em seu nariz. Ela começa a engatinha e você, agora no chão, segue-a. Parece estar se divertindo.

10h. Deixamos você na casa de sua avó materna. Ela cuidará de você enquanto seu vovô prepara o almoço. Quando me vê sair, você aponta o dedo em minha direção. Parece querer o meu colo...

13h. Estamos em casa. Você está em meus braços, dormindo. Eu o levo até o berço. Também preciso repousar...

14h. Você está de pé novamente. Sua mamãe vai pegá-lo. Mas você choraminga. Quer meus braços novamente...

15h. Você está no triciclo que a titia Angela deu-te de aniversário. Eu o estou empurrando. Estamos correndo atrás de sua mamãe. Você solta altas gargalhadas. Está feliz por nos ver brincando com você...

16h30min. Estamos passeando em frente à nossa casa. Você aponta para o campo de futebol. Quer ver as crianças jogando. Eu o carrego nos braços até lá. Você aponta o tempo todo e diz: "Uh!". Deve estar querendo brincar também...

18h. Estou sentado no chão da sala, com as costas apoiadas ao sofá. Você está deitado no chão, chupando chupeta, com o pescoço apoiado em minha coxa. Estamos assistindo “Law & Order”. Você adora o tema da abertura da série e a música que toca nas chamadas para os intervalos.

20h. Você está quase adormecendo na cama de nosso quarto, assistindo ao DVD da Galinha Pintadinha. Está apoiado sobre o meu braço direito. Eu cochilo. Você permanece com os olhos fixos na tela da televisão. Quando sua mãe se deita ao meu lado, você fica sentado e dá um de seus melhores sorrisos. “Como é lindo o nosso filho!”

23h30min. Você está dormindo em seu berço. Fico te olhando. Uma mistura de sensações se confundem neste momento. Gratidão, a Deus, por ter nos enviado um filho tão encantador. Orgulho, por você ser tão doce. Alegria, por vê-lo feliz. E fascínio por você ser tão parecido comigo. Afinal, há 35 anos, quando o seu vovô trabalhava como lavourista lá em Quirinópolis, eu não desgrudava um minuto sequer dele. Exatamente como você fez. E acredite: eu passava minhas tardes de domingo olhando as partidas de futebol que aconteciam no campo da fazenda do tio Antônio. Assim como você se encantou com os meninos jogando futebol hoje à tarde. Passo então a mão pelo seu rosto e acaricio seus cabelos e me pego sorrindo, com uma lágrima no canto do olho. “Durma com os anjos, meu filho. Eu te amo.”

quinta-feira, 7 de junho de 2012

De novo...


Estou em um lugar estranho. Não consigo distinguir cores, tudo parece cinzento. A paisagem está devastada pela guerra. Começo então a caminhar em direção a uma luz. No horizonte, enfim, cores. É pra lá que eu vou. Estamos eu e o “Branco”, um colega de infância. De repente, ouço passos. Eles estão nos seguindo. São soldados. Estão armados com mosquetões e metralhadoras. Eles não querem que saiamos daqui. Começamos a correr. Eles também apertam o passo. Quando chegamos ao fim da linha, deparamo-nos com um muro muito alto, com fios de cerca elétrica para impedir nossa fuga. Os soldados abrem fogo. São vários e vários tiros. Olho para o Branco e faço sinal positivo. Ele sabe o que quero dizer. Corro em direção a ele e elevo meu pé direito. Com as duas mãos ele projeta meu pé para cima e eu consigo com a perna esquerda derrubar algumas das hastes da cerca elétrica. Assim conseguimos pular o muro. Deparamo-nos com um enorme pasto. Não é a planície que imaginávamos. Mas, enfim, estamos livres. Ou, pelo menos, achamos que estamos até avistarmos os soldados. Eles ainda nos perseguem com as armas nas mãos, mas agora já não atiram. Corremos então a um conjunto de casas abandonadas, com paredes muito próximas umas das outras. Parecem também abandonadas. Talvez tenham sido também destruídas pela guerra. Já não avisto mais o Branco. Ele parece ter ido em outra direção. Avisto então uma luz, que parece estar no final do labirinto. Vou então caminhando por entre as paredes até chegar a uma varanda. É uma casa antiga, com um assoalho velho, porém muito limpo. Lá estão sentados meu avô Valter Crotti, a dona Deolinda, o seu Dudu e mais algumas outras pessoas que já partiram. Estão todos “proseando”. Meu avô sorri, parece feliz em ver-me ali. Aquilo tudo me parece estranho. Dona Deolinda, no entanto, parece entristecida. “Não diGa nada a ele, Válter. Ele ainda não sabe...” Peraí: o que é que eu não sei? De repente, percebo que estou com as mãos ensanguentadas. Devo ter sido atingido por alguns daqueles tiros. As pessoas presentes naquela varanda, iluminada pela luz de um lampião pendurado ao teto por um arame, parecem olhar-me com pena. Um cheiro forte de café e pão de queijo vem da cozinha. Morrer não é tão ruim quanto eu pensava. Pelo menos não neste sonho...

domingo, 3 de junho de 2012

35 anos depois


1977. Quando ouço o barulho da partida do trator, pulo da cama rapidinho. Sei que o papai vai buscar leite de trator no sítio da vovó. Não quero ficar longe dele... Então ele me leva, sentado em sua perna.

2012. O Miguel percebe que vou sair. Começa a chorar. Está no colo de sua mamãe, mas mesmo assim chora. Ele quer vir comigo. Coloco-o então no carro, sentado sobre as minhas pernas. Dou partida no carro e saio em direção à padaria, para comprar leite.

Papai sempre dizia: “O que você faz para seus pais, você receberá de seus filhos”. Eu espero que ele tenha razão. Mas, sinceramente, eu não sei se merecia tanto...

sábado, 2 de junho de 2012

Versos tristes


À medida que os anos vão se passando
A vida parece tornar-se mais dura
Feridas vão se abrindo em sua alma
E para a maioria delas não haverá cura.

Você reconhece amizades artificiais
Às quais por tanto tempo você se dedicou.
E daquele amigo, que era quase um irmão
Apenas a mágoa da traição ficou.

Quanto à família, meu caro amigo,
Ela será de grande importância em sua vida
Mas não se espante se em algum instante
ela abrir as mais dolorosas feridas.

Envelhecer, enfim, é muito triste.
Não porque o tempo leva sua saúde e beleza
Mas acima de tudo, pela esperança e alegria
Que os anos levam, deixando apenas tristeza.