quarta-feira, 20 de junho de 2012

Fragmentos de minha adolescência - A morte do romantismo


1985. Tenho 9 anos. Estudo na escola Manoel Gouveia de Lima, na 3ª. série. Uma de minhas colegas de classe chama-me a atenção por sua beleza. É morena, pele lisa. Tem os lábios lindos. Eu fico sempre de longe, admirando sua beleza. Só admirando. Sou muito tímido e acho que jamais terei coragem de dizer-lhe o quanto a acho bonita. Ela parece gostar do “Branco”, um dos colegas de sala. Ele é mais falante, mais popular e menos tímido.

1986. Tenho 10 anos. Gosto muito de brincar de queimada na rua aqui de casa. A única menina que brinca com a gente é a Roseli, a quem chamamos de “Zê”. Ela tem um rosto delicado, mas parece ter uma expressão triste. Como eu também sou quieto, talvez a gente se desse bem. Isso, é claro, se eu tivesse coragem de dizer pra ela o quanto eu a admiro. O Alessandro, meu vizinho, confessou-me que também gosta dela. Outro dia eu notei uma troca de sorrisos e olhares entre os dois. Ah, se eu fosse menos tímido...

1990. Tenho 13 anos. Estou na 8ª. série. Há uma moça que joga vôlei para o time da escola, chamada Alessandra. O que me desperta a atenção é que, além de bonita, ela parece ser quieta e comportada. Para vencer a timidez, desta vez tentarei algo diferente: vou demonstrar meus sentimentos através de recados. Começo então a escrever versos e a entrega-los através de um amigo, o Alessandro (não o mesmo que gostava da Zê...). Eu faço isso repetidas vezes. Até um botão de rosa eu fui entregar outro dia em sua casa... Acho que sou um cara romântico. Após uns dois meses de recados, versos e poemas, enfim uma manifestação da parte dela. “Diga a ele que eu não quero nada com ele, que ele está fazendo papel de bobo”. Este foi o recado que ela me enviou através do Alessandro. Acho que ela também não gosta de caras tímidos nem tampouco românticos...
1991. Tenho 16 anos. Ainda sou muito tímido. Os caras dizem que quando se tem algo pra dirigir – uma moto, carro ou mesmo mobilete – é mais fácil pra se arranjar uma namorada, mas mesmo assim ainda não consegui ninguém. Acho que é porque sou muito quieto. Há uma moça muito bonita que me chamou a atenção outro dia na rua. Descobri que se chama Milena. Tem o cabelo curto, parecido com o da Julie McCoulough. Todos os domingos à tarde eu saio de mobilete pelas ruas da cidade, na esperança de vê-la. Outro dia eu a vi andando em uma bicicleta Caloi Ceci cor-de-rosa. Eu fiquei rodeando os quarteirões, passando ao seu lado e olhando para ela, sem ter coragem de parar e conversar. Maldita timidez! A estratégia, no entanto, despertou sua reação. Ela descobriu que sou amigo do Carlos e enviou-me um recado através dele. “Aquele cara é louco? Diga a ele pra parar de me seguir, pois ele está fazendo papel de bobo. Eu não quero nada com ele!” Definitivamente, as mulheres parecem não gostar de homens românticos nem tímidos.
1992. Estou com o Carlos na avenida. Ele tem um amigo bastante divertido, a quem apelidamos de “Papinha”. Há uma menina que estou paquerando, chamada Gisele. Ela tem cabelos loiros e olhos verdes. Desta vez eu vou superar minha timidez e conversar. Peço ao Papinha pra ir até ela e dizer que tem um amigo seu que quer conhece-la. Ele some em meio à multidão e volta uns 15min depois. “E aí, qual foi a resposta dela? Ela quer me conhecer?”, perguntou-lhe, ansioso. “Antes ela quer saber se você tem carro ou moto”, diz ele, meio desapontado. Pois é. Além de não gostarem de homens tímidos, quietos e românticos, as mulheres parecem ter preferência pelos rapazes de posses.
1995. Estou no ponto aguardando o ônibus que irá levar-nos para a faculdade. Estou rodeado de outras pessoas, rapazes e moças. Estamos no mês de abril. A faculdade parece ter feito bem para mim. Já não sou mais tão tímido. Sou bem mais extrovertido que há 10 anos, mas isso ainda não resolveu o meu problema, pois ainda não tenho namorada. As conversas que ouço das mulheres que me rodeiam dão a entender que elas gostam de homens românticos, mas na prática não é isso que acontece. Percebi que boa parte delas se embriaga e vai para as “baladas”. Muitas vezes acabam beijando o primeiro que aparece. Isso, convenhamos, não tem nada de romântico. É justamente por isso que estou um pouco desapontado com as mulheres de minha geração. Há uns dois anos que eu não encontro uma mulher que valha a pena ser paquerada. Uma das colegas de ponto, a Bel, domina a conversa em nossa roda. Ela não faz o meu tipo. Fala alto, gesticula e sorri. Também falo bastante, gesticulo e faço umas piadinhas de vez em quando. Após uma dessas piadinhas, ela endurece a expressão e me dá um tapa doído no ombro. Eu não deixo por menos e revido. O tapa que lhe aplico no ombro faz com que ela se gire, indo de encontro ao muro. “Seu grosso! Não sabe que não se pode bater em mulher?” Sério, eu lhe explico. “Ora, os direitos não são iguais? Mulher comigo agora é assim: bateu, levou!”, respondo.
Uma das lições que aprendi nesses últimos 10 anos é que a maioria das mulheres não dá a mínima para homens românticos. São tachados de caretas, e não raramente são motivo de chacotas. A partir de hoje eu não sou mais um cara romântico. As mulheres terão de mim o que elas derem. Eu as tratarei como elas me tratarem. Até que algum dia eu encontre alguém que ressuscite em mim o homem romântico que acabou de ser sepultado.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lindooooo,é todinha aminha vida,ñ sei quando vou ressuscitar novamente viu,mas só em ler tudo isso me sinto melhor!Ameiiiii

Antônio Crotti disse...

Olá! Que bom que você se identificou com o post. Desde aquela época o romantismo começou a perder espaço para o "estilo" moderno de "ficar". Era isso aí que acontecia com pessoas como eu...