domingo, 10 de junho de 2012

Fragmentos de minha infância - Meu amigo "Nadão"


1980. Quando me perguntam quantos aninhos eu tenho, eu mostro minha mão direita com o dedão escondido. “Cuato”. Aqui onde a gente mora tem pouca gente com a minha idade pra brincar comigo. A dona Segunda tem alguns filhos da minha idade, mas eu os vejo muito pouco. O Crioulo, que me presenteou com um caminhão betoneira, também vem pouco aqui em casa. Ele é muito bonzinho, mas é mais velho e deve ter que trabalhar. Coitado, deve ter gastado metade do salário dele naquele caminhãozinho que me deu... Ele é muito divertido, eu adoro a risada dele! Ele se parece muito com o Mussum, dos Trapalhões... Com o Missim eu também gostava de brincar, mas depois daquela história da “bucetinha”, a mamãe não me deixou brincar com ele de novo.
Foto do meu amido Crioulo, tirada em 2004.

A pessoa com quem eu mais gosto de brincar é com o Adão. Eu o chamo ele de “Nadão”. Ele é filho do seu “Fi” Vieira e da dona Dica. A mamãe me contou que ele é bem mais velho que eu, mas que ele não cresceu. Ele brinca no meio das vacas e é muito esperto. Aqui na roça ele é o meu melhor amigo.
Foto tirada em 1980. Agachado está o meu agora saudoso amigo Adão (o "Nadão"). Esse de chapéu, que não queria sair na foto, sou eu.

1992. 16h. É sábado. Estamos no campo da venda do Tibúrcio. O Tiago, filho da Dalva, convidou-me para vir até aqui assistir ao jogo de futebol. O campo, na verdade, é um pasto. Eventualmente um dos jogadores atola o pé nas enormes crostas de fezes que as vacas que ali estiveram durante a semana deixaram. Lá no meio do campo, vestindo uma chuteira sem meias, está o Adão. Hoje ele já é um homem. Tem suas namoradas, e apesar da vida sofrida, parece estar sempre alegre. De repente, alguém chuta a bola longe. Ele aproveita e vem até a cerca. “Ô Dadinho, você não vai jogar?”, pergunta-me ele. “Então, Adão... eu esqueci minha chuteira... se eu soubesse, tinha trazido...” Ele se vira, a bola está em jogo novamente. “Está faltando um para o nosso time. Você não quer jogar na defesa?”, diz ele, indo em direção ao centro do “campo”. Eu aceito.

20h. Voltamos à venda do Tibúrcio. Papai, mamãe e a “Fia” estão conversando com a “Du Carmo”, esposa do Tibúrcio. Estou sentado em uma mureta. Sob o telhado de capim vários casais dançam forró. Lá está o Adão. Ele está dançando com alguém. Deve ser sua namorada. Ele a vira de um lado para outro. Seus pés são leves. Como eu queria saber dançar assim. Ele me vê olhando ele dançar e dá uma risada. Em uma de suas voltas pelo salão improvisado, ele passa dançando perto de mim e diz: “Dado, por que você não chama a Ila pra dançar?” A Ila é a irmã dele. Ela é uma moça muito bonita, mas é um pouco mais velha que eu. E eu sou muito tímido, não sei o que dizer a ela. Sem contar, é claro, que eu não sei dançar. Eu apenas balanço a cabeça, dizendo que não. Ele ri e também balança a cabeça, meio que inconformado. A poeira do chão de terra batida vai subindo. Como é bom voltar aqui após tantos anos...

Janeiro de 2012. Faz 8 anos que eu não vinha aqui. Da última vez a Dalva, Luzimar, Tiago e Aline ainda moravam no sítio Douradinho, do qual tomavam conta para a vovó Lourdes. Agora moram na cidade. Estou com a Débora, que viera aqui conosco quando namorávamos há apenas um ano, e com nosso filho Miguel. Ele vai conhecer – embora sem se dar conta – os lugares por onde passei quando tinha a idade dele. Mas tudo está diferente. Quase não dá pra reconhecer onde a gente morava. Pergunto para a Dalva de seu irmão Adão, meu grande amigo na época em que morávamos aqui. “O Adão não está bom, Dado. Ele está com doença de Chagas. Ele tá fraquinho de dar dó... Outro dia ele perguntou por você... Se der tempo a gente vai na casa dele fazer uma visita”. Eu concordo.

10 de junho de 2012. Do chão da sala, deitado, com o Miguel sobre minha barriga, eu ligo pra mamãe. “Filho, você sabe quem morreu? O ‘Nadão’. Ele foi enterrado ontem. Ia colocar o marca-passo na segunda-feira...” Eu fico em silêncio por uns cinco segundos. “Coitado...” É a única coisa que consigo dizer. Meu amigo Adão faleceu sem que eu pudesse revê-lo e apresentar-lhe o Miguel. De qualquer forma, eu gostaria que ele soubesse, onde quer que esteja, que eu jamais irei esquecê-lo. Foi um privilégio tê-lo como amigo. Eu ser-lhe-ei eternamente grato pela paciência que teve comigo durante minha infância. Descanse em paz, meu amigo. Sua partida deixa-me com um vazio no coração, onde você ocupará sempre um lugar especial. Você partiu sem  que eu pudesse lhe dizer adeus, mas viverá para sempre em minhas lembranças de infância.

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