sexta-feira, 27 de julho de 2012

Cada um tem o E.T. que merece


Domingo, 22 de julho. Estamos na via Anhanguera, em direção à São Joaquim da Barra. Estávamos agora há pouco no cinema assistindo ao filme “Era do Gelo 4”. Débora está ao meu lado e a Clarinha está no bando traseiro. Estamos mais ou menos na metade do percurso. No rádio está tocando a música “Back in time”, tema do filme Men in Black III. Clarinha está quieta, olhando para as plantações de cana que vão ficando para trás a cada quilômetro. Débora está olhando para alguma estrela. Só eu é que pareço estar aproveitando a viagem. De repente, após um período fixando o olhar em algum ponto do céu, ela rompe o silêncio. “É impressão minha ou há duas luzes que estão se mexendo ali no céu?”. “Claro, aquilo ali são dois discos voadores”, penso, sem no entanto dizer nada. Então olho para o ponto do céu a que ela se referiu. Subitamente um frio percorre minha coluna. Lá estão duas luzes ovaladas, que parecem realmente se mover. Às vezes se encontram, às vezes se afastam uma da outra.  Eu fico em silêncio. “E então, o que você acha que é?” Eu fico quieto. Faço apenas uma cara de desprezo, como se não fosse nada. Na verdade, eu não sei o que é. “Dinho, eu não sei o que é, mas disco voador eu sei que não é, porque E.T. não existe”, diz a Clarinha. “É verdade, filha. Você tem razão”, respondo, já sem ter tanta certeza.
De repente, tenho a impressão e que aquelas luzes estão nos seguindo. Piso no acelerador, na tentativa de deixar as malditas luzes para trás. Em vão. Às vezes, quando essas luzes se encontram, tenho a impressão e que estão se afastando, mas uma delas não demora a ir no sentido que estamos trafegando. A situação começa a me incomodar e um turbilhão de pensamentos ruins toma conta de minhas mente. E o Miguel? E se forem E.T.s, e les quiserem nos abduzir? Ninguém vai ficar sabendo! Meu Deus, e se for o fim do mundo? E se esses forem apenas dois? E se for apenas o começo de uma invasão alienígena? Será que vão nos matar? Meu Deus, será que o Mulder tinha razão em acreditar em uma conspiração alienígena na série Arquivo X?
Quilômetros de estrada vão ficando para trás. Eu piso fundo no acelerador pra assegurar que nosso carro não fique isolado dos demais. A situação segue tensa. O carro segue pela estrada e as luzes parecem persegui-lo. Quando passamos pelo posto da polícia rodoviária, decido parar o carro. Desço o vidro e avisto as duas luzes de longe. Percebo que os dois sinais luminosos estão conectados a um mesmo ponto do solo. São, na verdade, duas projeções de luz, feitas por dois canhões luminosos que estão no solo. Eu balanço a cabeça. “O que é que é aquilo, Dinho?”, pergunta a Clara. “Um E.T.”. Ela se assusta. “Um E.T.?”. “Sim, filha. Não era nada do que a gente pensava. Foi um Equívoco Total... “

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Neymar ou Dunga?


     Não se estranhe com o título desta postagem. Neymar e Dunga não jogaram juntos. Seus nomes foram utilizados para representar dois estilos de jogadores e de pessoas completamente diferentes. Decidi falar sobre eles pra que você, caro leitor, entenda a comparação que será feita em seguida.
     Os mais jovens devem lembrar-se de Dunga apenas como o técnico carrancudo que comandou a seleção brasileira de futebol em 2010 na copa da África do Sul. Na ocasião, a seleção canarinho foi vergonhosamente eliminada pela seleção holandesa por um placar de dois a zero. Há outros, como eu, que se lembram de Dunga como o capitão da copa de 1994, que conquistou o tetracampeonato sob o comando de Carlos Alberto Parreira. Considerado um treinador retranqueiro, que se preocupada mais em não tomar gols do que em fazê-los, Parreira elegeu Dunga como o capitão do time. E ele bem desempenhava sua função. Era um volante pra lá de dedicado, com um excelente preparo físico. Alguns diziam que era sinônimo de "muita raça e pouca técnica". O fato era que ele não gostava de “firulas”. Exigia dedicação e objetividade do time. Os que assistiram àquela grande conquista certamente se lembram de que o campeonato foi conquistado realmente com raça, graças aos gols de Romário e de Bebeto e às defesas milagrosas do glorioso Tafarel. Resumindo: era um time tão aplicado que não tinha tempo de demonstrar sua habilidade. Ainda assim, quando a seleção conquistou o tetracampeonato, ninguém sentiu falta do tão discutido “futebol-arte”.
     Se por um lado Dunga é símbolo daquela seleção, Neymar é o ícone do futebol brasileiro mais recente. Jovem com corpo mirrado, com sorriso malandro, é o típico menino pobre que conseguiu mudar de vida graças ao seu futebol. O rapaz é realmente muito habilidoso. Existe uma empatia enorme dos brasileiros, principalmente os jovens, para com o referido atacante do Santos. Apesar de seu salário milionário – e não exagero, já que são R$3.000.000,00 que caem mensalmente na conta do jogador – até agora Neymar pouco conquistou para o salário que ganha. Nos momentos decisivos, como o da Copa Libertadores, o atacante amarelou. Na seleção brasileira, sua vaga é sempre garantida, porém o atacante pouco faz quando entra em campo. Alguns críticos dizem que ele só joga bem contra times fracos. Nessas ocasiões, as firulas começam a aparecer e a imprensa imediatamente volta a chama-lo de “craque”, “jóia santista” e outros termos que me embrulham o estômago. Conservadas as devidas proporções, Neymar faz-me lembrar do atacante Denílson, hoje apresentador da Rede Bandeirantes. Muita habilidade, muitos lances belos, futebol-espetáculo, mas título que é bom mesmo, nada...
     Certamente você tem algum time, e é bem provável que você entenda bem mais de futebol que eu, porém deixarei aqui uma única pergunta: você prefere o futebol-objetivo e raçudo de Dunga ou o futebol-arte cheio de firulas de Neymar? Infelizmente eu não posso responder essa pergunta por você, mas deixarei então uma evidência que pode ajudá-lo a fazer sua escolha: o Corinthians, campeão da Copa libertadores invicto, com todos os méritos, possui um time aguerrido, dedicado, organizado, raçudo. Durante toda a competição a imprensa classificou o time como um “time de operários”, ou seja, pouco técnico. Tais características lembram-me a seleção de 1994, que foi tetracampeã do mundo. Vale lembar que o Corinthians de “operários” venceu o Santos da “jóia” Neymar. Reforço: não torço para nenhum dos dois times.
   Mas por que razão estou comparando esses dois jogadores de épocas distintas? Por uma razão muito simples: nosso povo é um país de Neymares, não de Dungas. É um povo que gosta de pão e circo e que, da mesma forma, valoriza as aparências. Parecer é mais importante que ser. Em nosso país, os operários, aqueles que trabalham de verdade, não são valorizados. Vale aqui a comparação clássica entre médico e professor. Médicos são valorizados, pois salvam vidas. Seu trabalho é reconhecido. Já os professores, que foram responsáveis pela formação do médico, não são valorizados nem tampouco reconhecidos. Pergunte a um jovem se ele quer ser um professor ou um médico. Ou se ele quer ser Dunga ou Neymar. 
   É preciso ficar claro que embora eu seja fã do Dunga, não o considero um jogador exemplar nem tampouco estou afirmando que ele é melhor que o Neymar. Estou apenas usando dois exemplos pra defender que nosso povo gosta de pão e circo, que aprecia espetáculos e valoriza quem parece que faz, e não quem realmente faz. Infelizmente nosso país não é um país de operários; é um país pra "inglês ver". É por isso que o Neymar é o ídolo que é hoje.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Crônica 10 - Vejam só, como são as coisas...

            Mendonça era um daqueles caras com quem todos podiam contar. Era leal às amizades e todos gostavam de tê-lo por perto. No trabalho, ele era responsável por um importante setor da empresa. Trabalhava ali desde os 15 anos, época em que começou como office boy. Menino de origem pobre, teve que batalhar muito para provar seu valor. Aos poucos foi conquistando seu espaço, sempre respeitando o dos demais colegas. Mendonça era dedicado. Dava o sangue pela empresa e pelo seu setor. Tinha o respeito dos diretores e donos, pois tornara um dos setores problema da empresa em um dos mais produtivos. Sempre que preciso, ficava após o horário. Era o que se podia chamar de “funcionário modelo”.
Eis que em uma das reuniões, um dos diretores da empresa, que acabara de voltar da Alemanha, expos a importância de se contar com um pessoal altamente gabaritado para se alavancar o prestígio da empresa. Ficou então decidido que a empresa custearia os funcionários responsáveis por cada setor em estágios e cursos de pós-graduação no exterior. Mendonça foi um dos selecionados para fazer um desses cursos. Foi então que os diretores descobriram algo arrebatador: Mendonça não tinha curso superior. Todos ficaram chocados. Afinal de contas, ele estava ali há tanto tempo... Como podiam deixar uma pessoa sem curso superior liderar um dos setores mais importantes da empresa? “Se a concorrência ficar sabendo, será um escândalo”, disse um dos diretores.
Foi nesta mesma época que Elvis entrou em cena. Ele acabara de retorna r de um período de cursos pela Europa e Estados Unidos. Tinha estagiado em grandes empresas. Era recém-formado. Boa pinta. Vestia-se bem, sempre de terno e gravata. Distribuía sorrisos e tapinhas nas costas de todos. Era a figura do jovem bem-sucedido. Estranhamente, mesmo com toda a sua experiência no exterior, Elvis estava desempregado. Um dos diretores da empresa, sabendo da situação envolvendo Mendonça, sugeriu o nome de Elvis em uma das reuniões. Chamaram-no então para uma entrevista. Todos ficaram encantados com aquele jovem que falava bem, gesticulava e que aparentava estar “antenado” no que de mais moderno estava sendo projetado em empresas do exterior.
Os diretores, então, convocaram uma reunião a portas fechadas com os acionistas da empresa. Deveriam decidir o que fazer com Mendonça: ou custeariam um curso de graduação para ele ou o dispensariam, colocando Elvis em seu lugar. As opiniões se dividiram. Alguns defendiam que Mendonça estava ali há anos e que sempre “deu o sangue” pela empresa. Outro apontou que Mendonça era produtivo, e que colocar um outro que eles não conheciam seria uma aposta arriscada. Já outro defendeu que Mendonça não se adaptaria, pois já era “velho” e que estava “acomodado”. Outro diretor acreditava que Elvis traria um outro fôlego para a empresa. Um outro se exaltou. “Já pensaram que o Mendonça passou boa parte de sua vida preocupando-se tanto com nossa empresa que não teve tempo de estudar?”. A reunião estendeu-se até tarde da noite.
Quando Mendonça chegou no dia seguinte havia um envelope branco sobre sua mesa. Abriu, leu e sentou-se. Anos e anos trabalhando e se dedicando àquela empresa... Mendonça fora trocado por um jovem. A empresa optou por trocar um homem produtivo por um jovem cheio de idéias. Trocaram um fato por uma promessa.
Com o coração apertado, Mendonça juntou suas coisas, despediu-se dos colegas e daqueles que supervisionou por tantos anos e saiu. Semanas depois, com o dinheiro que lhe restara do acerto de contas, Mendonça montou uma empresa, que em cinco anos tornara-se uma das maiores do país. Seus filhos cresceram e se graduaram com louvor em seus cursos. Um deles, Mendonça Jr., optou por seguir a mesma carreira que o pai. Estagiou no exterior, possuía fluência em vários idiomas. Um dia, Mendonça Jr. chegou em casa radiante. Tinha conseguido um emprego na empresa em que o pai trabalhara décadas atrás. Feliz, porém curioso, Mendonça quis detalhes. “Pai, eu fui contratado para ocupar uma vaga na gerência. Eles me disseram que a vaga era de um tal de Elvis. Disseram que desde que eles o contrataram, nunca rendeu o que eles esperavam”. Mendonça parou por alguns segundos e fixou seu olhar em um canto da sala, sem dizer nada. Tentou esconder sua tristeza para não estragar o momento feliz de seu filho. “Pois veja só, meu filho, como são as coisas...”
            No dia seguinte, Mendonça encontrou na mesa da empresa que fundou um currículo. Era de um tal de Elvis. Mendonça então abriu sua gaveta. Lá havia um envelope branco, que recebera de anos atrás. Nele, escrito em letras miúdas, havia os dizeres: “Informamos que a partir desta data não necessitamos mais de seus serviços”. Pois vejam só, como são as coisas...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Maldição sobre duas rodas

     Trânsito é algo que sempre mexe com meus nervos. E olha que eu moro em uma cidade pequena, com aproximadamente 60 mil habitantes. Não é nenhuma metrópole, nem tampouco há engarrafamentos gigantescos. Aqueles longos engarrafamentos que são mostrados diariamente nos noticiários certamente ter-me-iam causado um infarto há tempos. Mesmo assim, o trânsito é algo que me tira do sério.
Como eu já mencionei aqui algumas vezes, há motoristas folgados, daqueles que cortam sua frente, aparentando pressa, mas que após isso transitam a velocidade de tartaruga. Isso é tão irritante quanto aqueles apressadinhos que praticamente encostam seus carros na traseira do carro da frente, dão sinal de luz, mais parecendo uma ambulância com um paciente em estágio terminal que um automóvel comum. Mas nada, absolutamente nada é mais irritante e perigoso que os seres que trafegam sobre duas rodas.
Desculpem-me, mas eu não estou exagerando. Já atropelei duas bicicletas e uma moto. E adivinhem? Eu não estava errado em nenhuma delas. As duas bicicletas que atropelei trafegavam na contra-mão e surgiram do nada quando eu me certificada de que não vinha nenhum carro no sentido da rua em que eu ia virar. Quanto à moto, um caminhão dirigia lentamente. Percebi que daria tempo de atravessar a rua. E realmente daria, não fosse um entregador que ultrapassou o caminhão em alta velocidade pela direita. Graças a Deus não houve morte nem tampouco feridos em nenhum dos três acidentes.
Pois vejam como são as coisas. Hoje eu trafegava pela avenida calmamente, curtindo uma música do Bee Gees, com o meu filho no banco de trás. De repente, avisto um Uno pelo retrovisor tão colado na traseira que parecia querer entrar no porta-malas. Decido então mudar para a faixa da direita. Quando o faço, quase atropelo um mototaxista, que surgira do nada em alta velocidade, ultrapassando pela direita... Foi por poucoo, por muito pouco.
Não serei tão radical quanto o papai e dizer que odeio motoqueiros e ciclistas. No entanto, temo que algum dia eu me envolva em algum acidente de trânsito com algum ciclista ou motoqueiro que possa vir a causar a morte de algum deles. Sinto como se fosse uma “maldição” me perseguindo sobre duas rodas. A única coisa a fazer é redobrar a cautela. E rezar muito.