quarta-feira, 11 de julho de 2012

Crônica 10 - Vejam só, como são as coisas...

            Mendonça era um daqueles caras com quem todos podiam contar. Era leal às amizades e todos gostavam de tê-lo por perto. No trabalho, ele era responsável por um importante setor da empresa. Trabalhava ali desde os 15 anos, época em que começou como office boy. Menino de origem pobre, teve que batalhar muito para provar seu valor. Aos poucos foi conquistando seu espaço, sempre respeitando o dos demais colegas. Mendonça era dedicado. Dava o sangue pela empresa e pelo seu setor. Tinha o respeito dos diretores e donos, pois tornara um dos setores problema da empresa em um dos mais produtivos. Sempre que preciso, ficava após o horário. Era o que se podia chamar de “funcionário modelo”.
Eis que em uma das reuniões, um dos diretores da empresa, que acabara de voltar da Alemanha, expos a importância de se contar com um pessoal altamente gabaritado para se alavancar o prestígio da empresa. Ficou então decidido que a empresa custearia os funcionários responsáveis por cada setor em estágios e cursos de pós-graduação no exterior. Mendonça foi um dos selecionados para fazer um desses cursos. Foi então que os diretores descobriram algo arrebatador: Mendonça não tinha curso superior. Todos ficaram chocados. Afinal de contas, ele estava ali há tanto tempo... Como podiam deixar uma pessoa sem curso superior liderar um dos setores mais importantes da empresa? “Se a concorrência ficar sabendo, será um escândalo”, disse um dos diretores.
Foi nesta mesma época que Elvis entrou em cena. Ele acabara de retorna r de um período de cursos pela Europa e Estados Unidos. Tinha estagiado em grandes empresas. Era recém-formado. Boa pinta. Vestia-se bem, sempre de terno e gravata. Distribuía sorrisos e tapinhas nas costas de todos. Era a figura do jovem bem-sucedido. Estranhamente, mesmo com toda a sua experiência no exterior, Elvis estava desempregado. Um dos diretores da empresa, sabendo da situação envolvendo Mendonça, sugeriu o nome de Elvis em uma das reuniões. Chamaram-no então para uma entrevista. Todos ficaram encantados com aquele jovem que falava bem, gesticulava e que aparentava estar “antenado” no que de mais moderno estava sendo projetado em empresas do exterior.
Os diretores, então, convocaram uma reunião a portas fechadas com os acionistas da empresa. Deveriam decidir o que fazer com Mendonça: ou custeariam um curso de graduação para ele ou o dispensariam, colocando Elvis em seu lugar. As opiniões se dividiram. Alguns defendiam que Mendonça estava ali há anos e que sempre “deu o sangue” pela empresa. Outro apontou que Mendonça era produtivo, e que colocar um outro que eles não conheciam seria uma aposta arriscada. Já outro defendeu que Mendonça não se adaptaria, pois já era “velho” e que estava “acomodado”. Outro diretor acreditava que Elvis traria um outro fôlego para a empresa. Um outro se exaltou. “Já pensaram que o Mendonça passou boa parte de sua vida preocupando-se tanto com nossa empresa que não teve tempo de estudar?”. A reunião estendeu-se até tarde da noite.
Quando Mendonça chegou no dia seguinte havia um envelope branco sobre sua mesa. Abriu, leu e sentou-se. Anos e anos trabalhando e se dedicando àquela empresa... Mendonça fora trocado por um jovem. A empresa optou por trocar um homem produtivo por um jovem cheio de idéias. Trocaram um fato por uma promessa.
Com o coração apertado, Mendonça juntou suas coisas, despediu-se dos colegas e daqueles que supervisionou por tantos anos e saiu. Semanas depois, com o dinheiro que lhe restara do acerto de contas, Mendonça montou uma empresa, que em cinco anos tornara-se uma das maiores do país. Seus filhos cresceram e se graduaram com louvor em seus cursos. Um deles, Mendonça Jr., optou por seguir a mesma carreira que o pai. Estagiou no exterior, possuía fluência em vários idiomas. Um dia, Mendonça Jr. chegou em casa radiante. Tinha conseguido um emprego na empresa em que o pai trabalhara décadas atrás. Feliz, porém curioso, Mendonça quis detalhes. “Pai, eu fui contratado para ocupar uma vaga na gerência. Eles me disseram que a vaga era de um tal de Elvis. Disseram que desde que eles o contrataram, nunca rendeu o que eles esperavam”. Mendonça parou por alguns segundos e fixou seu olhar em um canto da sala, sem dizer nada. Tentou esconder sua tristeza para não estragar o momento feliz de seu filho. “Pois veja só, meu filho, como são as coisas...”
            No dia seguinte, Mendonça encontrou na mesa da empresa que fundou um currículo. Era de um tal de Elvis. Mendonça então abriu sua gaveta. Lá havia um envelope branco, que recebera de anos atrás. Nele, escrito em letras miúdas, havia os dizeres: “Informamos que a partir desta data não necessitamos mais de seus serviços”. Pois vejam só, como são as coisas...

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