quarta-feira, 18 de julho de 2012

Neymar ou Dunga?


     Não se estranhe com o título desta postagem. Neymar e Dunga não jogaram juntos. Seus nomes foram utilizados para representar dois estilos de jogadores e de pessoas completamente diferentes. Decidi falar sobre eles pra que você, caro leitor, entenda a comparação que será feita em seguida.
     Os mais jovens devem lembrar-se de Dunga apenas como o técnico carrancudo que comandou a seleção brasileira de futebol em 2010 na copa da África do Sul. Na ocasião, a seleção canarinho foi vergonhosamente eliminada pela seleção holandesa por um placar de dois a zero. Há outros, como eu, que se lembram de Dunga como o capitão da copa de 1994, que conquistou o tetracampeonato sob o comando de Carlos Alberto Parreira. Considerado um treinador retranqueiro, que se preocupada mais em não tomar gols do que em fazê-los, Parreira elegeu Dunga como o capitão do time. E ele bem desempenhava sua função. Era um volante pra lá de dedicado, com um excelente preparo físico. Alguns diziam que era sinônimo de "muita raça e pouca técnica". O fato era que ele não gostava de “firulas”. Exigia dedicação e objetividade do time. Os que assistiram àquela grande conquista certamente se lembram de que o campeonato foi conquistado realmente com raça, graças aos gols de Romário e de Bebeto e às defesas milagrosas do glorioso Tafarel. Resumindo: era um time tão aplicado que não tinha tempo de demonstrar sua habilidade. Ainda assim, quando a seleção conquistou o tetracampeonato, ninguém sentiu falta do tão discutido “futebol-arte”.
     Se por um lado Dunga é símbolo daquela seleção, Neymar é o ícone do futebol brasileiro mais recente. Jovem com corpo mirrado, com sorriso malandro, é o típico menino pobre que conseguiu mudar de vida graças ao seu futebol. O rapaz é realmente muito habilidoso. Existe uma empatia enorme dos brasileiros, principalmente os jovens, para com o referido atacante do Santos. Apesar de seu salário milionário – e não exagero, já que são R$3.000.000,00 que caem mensalmente na conta do jogador – até agora Neymar pouco conquistou para o salário que ganha. Nos momentos decisivos, como o da Copa Libertadores, o atacante amarelou. Na seleção brasileira, sua vaga é sempre garantida, porém o atacante pouco faz quando entra em campo. Alguns críticos dizem que ele só joga bem contra times fracos. Nessas ocasiões, as firulas começam a aparecer e a imprensa imediatamente volta a chama-lo de “craque”, “jóia santista” e outros termos que me embrulham o estômago. Conservadas as devidas proporções, Neymar faz-me lembrar do atacante Denílson, hoje apresentador da Rede Bandeirantes. Muita habilidade, muitos lances belos, futebol-espetáculo, mas título que é bom mesmo, nada...
     Certamente você tem algum time, e é bem provável que você entenda bem mais de futebol que eu, porém deixarei aqui uma única pergunta: você prefere o futebol-objetivo e raçudo de Dunga ou o futebol-arte cheio de firulas de Neymar? Infelizmente eu não posso responder essa pergunta por você, mas deixarei então uma evidência que pode ajudá-lo a fazer sua escolha: o Corinthians, campeão da Copa libertadores invicto, com todos os méritos, possui um time aguerrido, dedicado, organizado, raçudo. Durante toda a competição a imprensa classificou o time como um “time de operários”, ou seja, pouco técnico. Tais características lembram-me a seleção de 1994, que foi tetracampeã do mundo. Vale lembar que o Corinthians de “operários” venceu o Santos da “jóia” Neymar. Reforço: não torço para nenhum dos dois times.
   Mas por que razão estou comparando esses dois jogadores de épocas distintas? Por uma razão muito simples: nosso povo é um país de Neymares, não de Dungas. É um povo que gosta de pão e circo e que, da mesma forma, valoriza as aparências. Parecer é mais importante que ser. Em nosso país, os operários, aqueles que trabalham de verdade, não são valorizados. Vale aqui a comparação clássica entre médico e professor. Médicos são valorizados, pois salvam vidas. Seu trabalho é reconhecido. Já os professores, que foram responsáveis pela formação do médico, não são valorizados nem tampouco reconhecidos. Pergunte a um jovem se ele quer ser um professor ou um médico. Ou se ele quer ser Dunga ou Neymar. 
   É preciso ficar claro que embora eu seja fã do Dunga, não o considero um jogador exemplar nem tampouco estou afirmando que ele é melhor que o Neymar. Estou apenas usando dois exemplos pra defender que nosso povo gosta de pão e circo, que aprecia espetáculos e valoriza quem parece que faz, e não quem realmente faz. Infelizmente nosso país não é um país de operários; é um país pra "inglês ver". É por isso que o Neymar é o ídolo que é hoje.

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