segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? - capítulo 3


Ao perceber meu interesse na cirurgia espiritual, seu Gilson ficou feliz. “É uma cirurgia sem cortes. Mas você precisa ter fé. Hoje vai ter consulta lá no IMA. Vai lá pra você ver como é que é.” Após passar-me algumas instruções, decidi visitar o IMA pra ver como funcionava.
Eu já havia visitado o lugar uma vez, quando fomos iniciar as coletas. Na verdade, o sítio 13 de maio, onde coletamos as plantas, é do médium João Berbel, que faz as cirurgias. “Mundo pequeno”, pensei. Quando cheguei, notei uma fila enorme de carros. Havia ônibus de outras cidades. Tive que estacionar o carro há uns 200 m da entrada. Quando cheguei, um voluntário de jaleco branco perguntou-se se era consulta ou retorno. “Consulta”, disse. Quando entrei na recepção, fiquei admirado com o número de pessoas. Deviam ser mais de 1500 pessoas. As mulheres esperavam sentadas. Alguns homens estavam sentados. À minha frente, dois homens de pé. Todos os demais que chegaram depois de mim também ficaram de pé. Inúmeras pessoas chegaram depois de mim. Enquanto aguardava, fiquei ouvindo dois senhores conversando. “Eu fui curado do ombro.” Outro disse: “Minha mulher estava com câncer. O médico ficou bobo de ver a ressonância do intestino dela. Está limpinho”, falava outro. À nossa frente, em um pequeno palanque, um homem iniciou um discurso que me tornaria uma pessoa diferente. “Meus irmãos, a gente é que escolhe a dor. Deus não fez a dor, é o homem que escolhe passar por ela. Quando o espírito se cura, a dor vai embora. Basta ter fé.”
Ah, a fé... Eu a perdi em algum lugar de minha jornada. Não vejo mais razão para ir à igreja. Nem rezar ao adormecer e ao acordar eu rezo... Deus está em tudo à minha volta, mas pareço tê-lo calado em meu coração. Nunca causei mal algum a quem quer que seja, ou pelo menos nunca tive intenção de fazê-lo, mas isso não é suficiente. O que faço com as ferramentas que dele recebi? Nos últimos cinco anos tenho apenas me preocupado com artigos, projetos, congressos... O mundo acadêmico é solitário, competitivo e cheio de vaidades. Aos poucos, o outro vai perdendo a importância. A maioria só pensa em si mesmo e em sua carreira acadêmica. Ao confrontar as palavras daquele homem de branco com o rumo que dei à minha vida, senti um aperto no coração. “Eu tenho as ferramentas, os meus dons, para fazer o bem ao próximo. Elas são um peso para mim, eu preciso usá-las da melhor forma possível. Mas eu tenho que prestar contas por esses dons. Se eu me recusar a usá-los para um bem maior, elas passam a ser um peso para mim.” Ora, eu tenho problemas na coluna e nos joelhos. São articulações. As articulações são as primeiras a ser afetadas quando se carrega um peso nos ombros. Tudo agora me parecia fazer sentido.
Após mais de uma hora e meia à espera na fila, de pé, fomos chamados para a sala de consulta. Lá os voluntários perguntaram qual o problema e anotaram. Em alguns instantes o Dr. Alonso, encarnado no médium João Berbel, passa por mim e coloca a mão em meu ombro. “Qual o problema, filho?” O voluntário diz: “Coluna e joelho”. Ele então receita duas medicações e se dirige para o próximo paciente. Seguindo as instruções do voluntário, dirijo-me para uma fila enorme. Nela aguardo mais uma meia hora. Recebo então gratuitamente uma cartela de comprimidos e uma pomada pra passar na coluna e no joelho. Lembrei então de ver tantas vezes o seu Gilson moendo as plantas para a preparação desses fitoterápicos que agora levo. “Mundo pequeno”. Também sou orientado a permanecer uma semana sem comer qualquer tipo de carne, nem ingerir bebida alcoólica ou fumar. Saio do IMA com a cirurgia marcada para a semana que vem e com a estranha certeza de que serei curado. Minha fé parece estar de volta.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? - capítulo 2



Em 2008, quando iniciei a coleta de no sítio 13 de maio para a obtenção de óleos essenciais, conheci o seu Gilson. Sempre educado e prestativo, ele ficava o tempo todo falando das “espiritualidades” que havia naquele sítio. “Há uma universidade espiritual sobre este sítio”. Ele tinha uma razão forte pra dizer aquilo. São daquele sítio que saíam as matérias-primas para os fitoterápicos que são fornecidos gratuitamente aos pacientes do Instituto de Medicina do Além, que eu até então desconhecia. “Os espíritos dos índios é que dizem quais plantas devemos usar.”
Durante minhas coletas o seu Gilson sempre me via reclamando de dores na coluna. “Por que você não faz uma cirurgia espiritual?”, sugeriu. “Como funciona?” Ele me esclareceu que era uma cirurgia sem cortes. “Todo problema no corpo vem do espírito. Você precisa curar o seu espírito pra dor ir embora.” Por mais que eu tivesse respeito pelo que ele dizia, era difícil de aceitar que aquilo pudesse dar certo. Afinal, como uma cirurgia dessas poderia aliviar minhas dores nas costas?
Os anos foram se passando. Três anos depois, agora também com o problema no meu joelho direito, seu Gilson disse novamente. “Por que é que você não faz uma cirurgia espiritual? O doutor Alonso pode te curar.” A possibilidade, agora, pareceu-me ainda mais remota. Ora, como uma cirurgia sem cortes poderia conectar as duas pontas soltas do ligamento do meu joelho?
Certo dia, Débora e eu decidimos ir à missa com o Miguel. Como ele ainda não andava, ficamos com ele no colo. Quando ele começou a ficar inquieto, sai com ele pela igreja e fui mostrar a imagem de Nossa Senhora das Graças. Foi então que meu joelho travou. Uma, duas, três, quatro, várias vezes. A cada três ou quatro passos um nervo na parte lateral da perna parecia sair do lugar. Era o maldito ligamento. Naquele dia voltei para casa arrasado. “Que caramba, meu filho vai crescer e nem futebol eu vou poder jogar com ele.” Fiquei então arrasado. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. A cirurgia não era uma boa opção, pois segundo o dentista, deixaria minha perna atrofiada. Foi então que uma idéia, até então remota, começou a tomar meus pensamentos. Peguei então o telefone e liguei para o seu Gilson. “Seu Gilson, como é essa tal de cirurgia espiritual?”

domingo, 19 de agosto de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? - capítulo 1


O futebol sempre foi uma de minhas grandes paixões. Não, eu não sou um expectador assíduo dos jogos do campeonato brasileiro nem sequer sei a escalação do time para o qual torço. Eu gostava mesmo era de jogar. Entre os anos de 2000 e 2003 eu jogava pelo menos duas vezes por semana, sendo que nos dois últimos anos deste período, cheguei a jogar quatro vezes. Bons tempos de pós-graduação em Ribeirão Preto... Foi o auge de minha forma física para o futebol...
Quando retornei a São Joaquim, em meados de 2004, o futebol passou a ser minha única atividade física. Já com 28 anos, eu não me dei conta da maldita perda de massa muscular. Acabei tornando-me um atleta de final de semana. Surgiram, então, as contusões no joelho. Duas delas vieram de lances em que eu pulei e caí apoiado apenas no joelho direito. Naquelas ocasiões, senti uma forte fisgada na parte posterior da panturrilha, que, sem força para suportar o peso, deixou-o a cargo do joelho direito. Isso ocorreu entre 2007 e 2008.
Após sucessivas tentativas de retorno às quadras de grama sintética, ensaiei um novo retorno no final de fevereiro de 2011. Tudo ia bem, até que ensaiei uma arrancada em direção ao gol e meu pé direito ficou preso. O joelho torceu, fazendo um barulho horrível. “Deus do céu! Não vou conseguir andar nunca mais!”, foi o que pensei na hora.
Os meses que se passaram foram marcados por sessões de fisioterapia para eliminar a dor e o inchaço. Na opinião do fisioterapeuta, não ocorrera ruptura do ligamento, mas era preciso um exame de ressonância para confirmar. Após conseguir correr na esteira e pedalar, recebi alta e fiz alto que relutei fazer a minha vida inteira: entrar para a musculação. Lá comecei o fortalecimento das pernas. Tudo ia bem, mas algo me incomodava: um forte barulho nos joelhos quando eu os dobrava. “É, tem algo de errado aqui”. Decidi então procurar um especialista.
A opinião do especialista, ao segurar meu joelho, foi simples: “Ligamento cruzado anterior rompido. Seu joelho está solto”, disse ele. “Mas como assim?: Não vai precisar de um ressonância pra dar o diagnóstico?”, perguntei-lhe. Ele riu. “Não esse é o nosso arroz-com-feijão de cada dia. Todos os dias atendo pessoas com o mesmo problema que o seu”. “E???”, perguntei-lhe, agora querendo saber o que era preciso fazer. “Os ligamentos não se regeneram. Tem que se submeter a uma cirurgia”. E pegando uma pequena maquete do joelho, começou a explicar-me quais eram as conseqüências do que ocorrera. “Se você quiser operar, não precisa. Dá pra levar uma vida quase normal. Mas não pode pular, dar arranques ou praticar esportes de impacto. Se for correr, só pequenos trotes. Recomendo natação e ciclismo. E se for operar, melhor decidir antes dos 40. A cirurgia é tranqüila, posso te dar alguns nomes de pessoas que operaram pra você ver como é”.
Na semana seguinte voltei ao fisioterapeuta. “É, meu caro, estou com o ligamento cruzado anterior rompido...” Ele fez uma cara de preocupado. “Posso dar uma olhada no ressonância ?” Disse-lhe então que o médico disse que não era necessário, e que ele deu um diagnóstico apenas com base nos testes que fez com meu joelho. Ele faz uma expressão de quem não concorda. “Vem cá, vamos fazer uns testes.” E lá vou eu para uma das salas. Deito-me e o assisto a dar alguns trancos em meus joelhos. “Olha, na verdade você tem uma folga nos dois joelhos, mas ela é maior no joelho direito. Sua ruptura, se realmente ocorreu, deve ter sido apenas parcial. Se eu fosse você, não fazia cirurgia, não. Fortaleça a perna na academia e deixe isso pra lá.”
Após meses freqüentando na academia, senti-me mais forte. Minhas pernas recuperaram a massa muscular perdida e eu já era capaz de correr na esteira 5km em menos de 30min. Mas algo ainda me incomodava: todas as vezes em que eu pegava o Miguel no colo, meu joelho direito travava. Era como se realmente houvesse uma ponta de ligamento solto...
Certo dia, em uma de minhas visitas ao dentista, ele disse-me que tinha o mesmo problema que eu e que havia feito a cirurgia. Perguntei-lhe o que ele achava. “Ah, se arrependimento matasse... Quer um conselho? Não faça.” Com meu joelho sempre travando, surgiu uma pergunta até então sem resposta: o que devo fazer?

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia dos pais

Hoje acordei com um murro no rosto. Foi a forma que o Miguel encontrou de desejar-me feliz dia dos pais. Nem precisava. Vê-lo ali, deitado na nossa cama, é o melhor presente que eu podia receber.
Almoçamos na casa de meus avós. Lá reunimos papai, mamãe, meu sogro e minha sogra. Todos os homens ali presentes são pais, mas eu era o único que além de pai, ainda sou filho. É um grande privilégio poder lidar com meu pai agora que também sou pai. Muitas coisas que eu não entendia tempos atrás agora me parecem muito claras.



O que fiz como filho? Tratei bem o papai, o vovô e o meu sogro. Dei-lhes a atenção que um pai merece. A atenção que, se eu tiver oportunidade de envelhecer com saúde, espero receber do Miguel e de seus irmãos – se vierem a este mundo... Como presente, dei uma grana para o papai comprar um sapato. Também gravei uma seleção de músicas pra ele tocar em seu carro. Tanto o rádio como os auto-falantes foram presentes meus. Quando ele foi medir sua diabetes, que costuma estar sempre acima de 200, uma surpresa: 120. “É porque estou feliz, ouvindo música”, disse ele. O que fiz como pai? Brinquei muito com o Miguel. Demos voltas pelas ruas com sua motoquinha. Brincamos com a mangueira, jogamos água por todos os lados. Ele se divertiu bastante. E, claro, beijei-o e abracei-o muito. Como está fofo... Ah, você me acha um "babão"? Bem, você vai entender isso quando for pai. E eu desejo, do fundo do meu coração, que você seja!


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fragmentos de minha infância - Domando a branquinha


1986. Tenho 10 anos. Acabo de voltar da escola. Fecho o portão marrom de madeira e sigo em direção ao alpendre. A mamãe e o papai estão me esperando. Peço-lhes suas bênçãos e entro na sala. “Dado, vai lá no seu quarto. Tem um presente pra você.” Abro a porta. “Meu Deus! É uma Triunfo!” Encostada sobre a cama da Fia está a bicicleta que tanto sonhei. É uma bicicleta de amortecedor! É branca e vermelha, igualzinha à que o Adriana “Saracura” tem! E tem rodinhas, acessório indispensável pra quem não sabe andar de bicicleta, como eu. Empolgado, peço ao papai para leva-la para a rua.

Já na calçada, peço para o papai colocar-me em cima dela. “Nossa, papai, o amortecedor dela é duro. Não tem como amolecer ele?”. Ele ri. “Claro que tem. Espera aí que nós vamos dar um jeito.” Abaixando-se, ele deixa cair parte do conteúdo de um vidro de óleo Singer em ambos os amortecedores e, em seguida, passa suas pernas sobre o enorme banco vermelho, deixando repousar sobre os amortecedores seus mais de 120 quilos. A bicicleta parece torcer. O para-lama traseiro chega a encostar no pneu. O papai ri. “Tá bom assim, filho?” E dizendo isso, começa a pular em cima do banco. “Vê se já tá bom, filho.”, diz ele, na expectativa de estar ajudando. Quando ele abandona a bicicleta, vejo que ela está realmente desalinhada... “E aí, filho, gostou? O papai poliu ela pra você. Agora você já pode andar, ela já está com os amortecedores bem moles! Agora só falta você aprender a andar...”

Um silêncio toma conta da calçada. Isso não vai ser nada fácil...
(to be continued...)