domingo, 19 de agosto de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? - capítulo 1


O futebol sempre foi uma de minhas grandes paixões. Não, eu não sou um expectador assíduo dos jogos do campeonato brasileiro nem sequer sei a escalação do time para o qual torço. Eu gostava mesmo era de jogar. Entre os anos de 2000 e 2003 eu jogava pelo menos duas vezes por semana, sendo que nos dois últimos anos deste período, cheguei a jogar quatro vezes. Bons tempos de pós-graduação em Ribeirão Preto... Foi o auge de minha forma física para o futebol...
Quando retornei a São Joaquim, em meados de 2004, o futebol passou a ser minha única atividade física. Já com 28 anos, eu não me dei conta da maldita perda de massa muscular. Acabei tornando-me um atleta de final de semana. Surgiram, então, as contusões no joelho. Duas delas vieram de lances em que eu pulei e caí apoiado apenas no joelho direito. Naquelas ocasiões, senti uma forte fisgada na parte posterior da panturrilha, que, sem força para suportar o peso, deixou-o a cargo do joelho direito. Isso ocorreu entre 2007 e 2008.
Após sucessivas tentativas de retorno às quadras de grama sintética, ensaiei um novo retorno no final de fevereiro de 2011. Tudo ia bem, até que ensaiei uma arrancada em direção ao gol e meu pé direito ficou preso. O joelho torceu, fazendo um barulho horrível. “Deus do céu! Não vou conseguir andar nunca mais!”, foi o que pensei na hora.
Os meses que se passaram foram marcados por sessões de fisioterapia para eliminar a dor e o inchaço. Na opinião do fisioterapeuta, não ocorrera ruptura do ligamento, mas era preciso um exame de ressonância para confirmar. Após conseguir correr na esteira e pedalar, recebi alta e fiz alto que relutei fazer a minha vida inteira: entrar para a musculação. Lá comecei o fortalecimento das pernas. Tudo ia bem, mas algo me incomodava: um forte barulho nos joelhos quando eu os dobrava. “É, tem algo de errado aqui”. Decidi então procurar um especialista.
A opinião do especialista, ao segurar meu joelho, foi simples: “Ligamento cruzado anterior rompido. Seu joelho está solto”, disse ele. “Mas como assim?: Não vai precisar de um ressonância pra dar o diagnóstico?”, perguntei-lhe. Ele riu. “Não esse é o nosso arroz-com-feijão de cada dia. Todos os dias atendo pessoas com o mesmo problema que o seu”. “E???”, perguntei-lhe, agora querendo saber o que era preciso fazer. “Os ligamentos não se regeneram. Tem que se submeter a uma cirurgia”. E pegando uma pequena maquete do joelho, começou a explicar-me quais eram as conseqüências do que ocorrera. “Se você quiser operar, não precisa. Dá pra levar uma vida quase normal. Mas não pode pular, dar arranques ou praticar esportes de impacto. Se for correr, só pequenos trotes. Recomendo natação e ciclismo. E se for operar, melhor decidir antes dos 40. A cirurgia é tranqüila, posso te dar alguns nomes de pessoas que operaram pra você ver como é”.
Na semana seguinte voltei ao fisioterapeuta. “É, meu caro, estou com o ligamento cruzado anterior rompido...” Ele fez uma cara de preocupado. “Posso dar uma olhada no ressonância ?” Disse-lhe então que o médico disse que não era necessário, e que ele deu um diagnóstico apenas com base nos testes que fez com meu joelho. Ele faz uma expressão de quem não concorda. “Vem cá, vamos fazer uns testes.” E lá vou eu para uma das salas. Deito-me e o assisto a dar alguns trancos em meus joelhos. “Olha, na verdade você tem uma folga nos dois joelhos, mas ela é maior no joelho direito. Sua ruptura, se realmente ocorreu, deve ter sido apenas parcial. Se eu fosse você, não fazia cirurgia, não. Fortaleça a perna na academia e deixe isso pra lá.”
Após meses freqüentando na academia, senti-me mais forte. Minhas pernas recuperaram a massa muscular perdida e eu já era capaz de correr na esteira 5km em menos de 30min. Mas algo ainda me incomodava: todas as vezes em que eu pegava o Miguel no colo, meu joelho direito travava. Era como se realmente houvesse uma ponta de ligamento solto...
Certo dia, em uma de minhas visitas ao dentista, ele disse-me que tinha o mesmo problema que eu e que havia feito a cirurgia. Perguntei-lhe o que ele achava. “Ah, se arrependimento matasse... Quer um conselho? Não faça.” Com meu joelho sempre travando, surgiu uma pergunta até então sem resposta: o que devo fazer?

Nenhum comentário: