quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As aventuras de Miguel - O banho de Coca-Cola

Setembro de 2012. Estou no supermercado. Pela primeira vez estou fazendo compras com o Miguel. Ele tem quase um ano e cinco meses, mas ainda não caminha. Para facilitar as compras e evitar de mantê-lo nos braços o tempo todo, eu o coloco sentado no carrinho de supermercado. Ele parece fazer a festa. Tudo o que ali coloco passa por suas mãos. É uma diversão só. À medida que vou passando pelos corredores do mercado o carrinho vai se enchendo e o espaço reservado para o Miguel vai ficando pequeno. Ele então se levanta e começa a brincar com uma pequena grade que fica na parte anterior do carrinho. Quando aberta, aquelas peças formam uma pequena cadeira, onde eu poderia tê-lo colocado sentado. Ele então descobre que ao mexer naquelas peças surge um barulho agudo engraçado.
Estou indo em direção ao caixa. Miguel está de pé brincando com a grade. De repente, uma das pontas da grade esbarra em uma garrafa de Coca-Cola que está no carrinho. A grade perfura a Coca-Cola, e devido à pressão, um jato enorme de líquido escuro jorra em minha direção. Em um segundo ou dois minha camiseta está grudando no corpo, completamente encharcada de Coca-Cola. Coloco a mão no jato, mas o que consigo fazer é apenas desviar o fluxo de gás e de Coca-Cola para o chão. Todos estão olhando, inclusive o Miguel. Olho para o seu cabelo. Pequenas gotas de Coca-Cola parecem ter sido borrifadas em seu cabelo. Ele me olha com carinha de quem não tá entendendo o que está acontecendo.
Após trocar a Coca-Cola danificada por uma outra, a moça do caixa pergunta se ele assustou. "Não, ele é tranquilo." E olhando para ele, digo: "Miguel, fala oi pra moça". Ele sorri e abana a mão pra ela. Sem eu dizer nada, ele leva sua mãozinha à boca e manda um beijo estalado para ela. "Aaaaah, que fofinho!", diz ela. "Miguel, o que foi que aconteceu com a Coca?", pergunto. Ele sorri. "Buuuuuuuuuuuum!" A moça se derrete. Ensopado, o único sentimento que me toma neste momento é o de imenso orgulho, felicidade e gratidão por poder passar tudo isso com meu filho.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Problemas com a timidez no século XXI


Terça-feira, 11 de setembro. Há 11 anos as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, que só conheci por fotos, foram destruídas por terroristas, matando milhares de pessoas. Muitas vidas foram levadas naquele ataque terrorista, mas no momento quem precisa levar a vida sou eu. Tenho que trabalhar pra ganhar o sustento de minha família.
São 9h 15min. Estou no posto, abastecendo o carro. Os frentistas acabam de encher o tanque pra que eu possa ir trabalhar nos próximos três dias, pelo menos. Após o frentista entregar-me a chave e me passar o valor da conta, dirijo-me à sala onde devo efetuar o pagamento, onde também ficam os produtos de conveniência. Logo na entrada percebo que o dono do posto est´aao telefone, falando baixo e olhando para a mesa. Quando me vê, ele levanta os olhos e esboça um sorriso de quem está pouco preocupado com a minha pressa. “Só um minutinho...”, diz ele, sem muita cortesia nem pressa.
Fico então aguardando por algum tempo enquanto ele tenta estornar um débito de cartão de um cliente que foi lançado duas vezes. Parado à porta, de frente para o dono e de costas para a loja, percebo alguém passando, que logo se manifesta. “Posso deixar um currículo?”, pergunta ele. O dono do posto, mantendo a preocupação com o seu erro com o cartão e a indiferença com relação a mim e àquele rapaz, limita-se a balançar a cabeça. Olho então para o rapaz. É um jovem com idade entre 17 e 20 anos, cabelo escuro e com corte militar, trajando calça de abrigo e um tênis colorido. Meio sem jeito, aquele jovem ajeita os óculos, inclina o ombro e deixa sua mochila cair lentamente sobre a mesa. Dela ele tira uma pasta, de onde sai uma folha com sua foto e, suponho, algumas informações sobre ele. Ele a deixa sobre a mesa, fecha a pasta e aguarda na mochila e, com a mochila nas costas, sai pela mesma porta que entrou sem dizer uma palavra. 
Com pressa e sem perspectivas de que o dono vá resolver o seu problema tão cedo, decido pagar em dinheiro. Ele me olha, pega a nota e tira a nota, apenas acenando com a cabeça um "obrigado", imediatamente retornando sua atenção para o telefone. Sigo então para o carro, e de dentro dele fico observando aquele jovem empurrando sua bicicleta, com a mochila nas costas, olhando para o chão. Sou então tomado por uma conclusão horrível: aquele jovem dificilmente receberá uma ligação do dono do posto. Minha conclusão não tem nada a ver com o humor do dono do posto ou com a educação que trata seus funcionários, e sim com a postura daquele jovem. Ao entrar na sala, não mostrou nenhum entusiasmo nem cordialidade, não desejou bom dia pra ninguém nem tampouco nos cumprimentou. Ao sair, sua reação foi mais ou menos a mesma. E sabem por quê? Culpa de sua timidez. A mesma timidez que faz com que uma de nossas colegas de hidroginástica não fale com ninguém. Embora passe a impressão de ser "metida", certamente é um problema de timidez, ocasionado pela falta de auto-estima. Eu sei reconhecer essas características nas pessoas, pois eu as tenho comigo também. 
A sociedade, de maneira geral, penaliza as pessoas tímidas, não lhes dando chances de mostrarem quem realmente são e do que são capazes. Isso não ocorre apenas com as pessoas tímidas; ocorre os "feios", com os "gordinhos" ou com as "magrelas" e daí por diante. Infelizmente as pessoas gostam de outras que transmitam uma imagem de sucesso e de alegra, e não de fracasso ou tristeza. Fico então pensando o que será do Miguel no futuro. Se for tímido como fui, certamente sofrerá horrores. Tentarei fazer o possível pra que não seja e tenha uma boa auto-estima - controlá-la para que não se converta em arrogância é um desafio ainda maior... O curioso é que muitas vezes as pessoas que ignoram as que não se encaixam no padrão também passaram pelos mesmos problemas. 
Pessoas com esse perfil vivem oprimidas e, não tão eventualmente, transformam-se em atiradores e entram em cinemas e escolas matando todo mundo e torcendo para que alguém lhes tire a vida e aliviem seus sofrimentos. Por isso, seja compreensivo quando conversar com alguém que lhe abaixar a cabeça e não te olhar nos olhos enquanto falas. Ao fazer isso, acredite ou não, você estará ajudando muito aquela pessoa e a sociedade. E mais que isso, acumulará créditos para as contas que terá que prestar a Deus quando partir dessa para melhor...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? Capítulo final (?)

          Faz um mês e cinco dias que fiz a cirurgia espiritual em meus dois joelhos e na coluna. Desde então retornei quatro vezes ao IMA. As filas estão cada vez mais gigantescas. Um número cada vez maior de pessoas surge em busca de cura através das cirurgias espirituais feitas pelo Dr. Alonso. Todos os fitoterápicos distribuídos pelo IMA são gratuitos. Para sobreviver, a instituição vive de doações daqueles que são curados e se sentem agradecidos e abençoados. 
          Você que acompanhou minha jornada desde o primeiro capítulo deve estar curioso pra saber se estou curado. Minha resposta é simples: não. A conclusão a que eu cheguei é que a cura através de uma cirurgia espiritual não é definitiva, pois o corpo se cura na cirurgia, mas o espírito não. Pode ser difícil entender isso, e é mais difícil ainda tentar explicar, principalmente para alguém leigo no assunto como sou. Minha conclusão baseia-se no que ouço nas palestras que são proferidas enquanto aguardamos para ser atendidos. Ora, mas o que seria essa "cura do espírito"? Pelo que entendi, curar o espírito requer uma mudança de comportamento, de pontos de vista e na maneira de pensar. Quando pensamos algo ruim, os espíritos com energia ruim se aproximam de nós e ficam ali próximos, causando dor, impaciência, deixando-nos nervosos e uma série de outras coisas.
          Na palestra desta última quarta-feira as palavras foram duras. "A pessoa vem aqui em busca de cura. O Dr. Alonso cura e tempos depois a pessoa está doente novamente. O que aconteceu? Aí a pessoa diz pra si mesma: 'Ah, mas eu não faço mal pra ninguém. De vez em quando faço uma doação... Por que estou sofrendo?' Ora, meus irmãos, isso não é nenhum mérito: isso é obrigação de cada um!" É curioso como às vezes certas verdades parecem ser ditas para certas pessoas da multidão... Como eu, neste caso. 
          Após um mês, continuo em busca de minha cura. As dores nos joelhos e nas colunas se foram. Quando acordo não sinto dores na coluna e já não preciso alongar pra começar o meu dia. Já consigo tomar banho de pé, coisa que eu não conseguia fazer antes da cirurgia. No último retorno, por exemplo, passei mais ou menos três horas de pé. Se preciasse avaliar o resultado, diria que estou de 85 a 90% melhor. Um colega que encontrei hoje disse-me que fez uma cirurgia no joelho direito há 75 dias. O joelho está inchado, ele ainda manca ao caminhar. Contou-me que ontem o médico teve que tirar três seringas de sangue de seu joelho. Há uma cicatriz enorme no joelho, marca da cirurgia. Inúmeras outras pessoas que conheço está na mesma situação que ele. Eu mesmo estaria se tivesse feito a cirurgia que ele. "E olha que o meu médico é bom", disse ele. "O meu não é bom. O meu é o Dr. Alonso", pensei comigo. Nesse caso, eu mudo minha opinião sobre o resultado de minha cirurgia: foi um sucesso!
          Para aqueles que não acreditam, aqui deixo o meu relato. Meu corpo está curado, mas o espírito pode sempre ter uma recaída. Talvez por isso existam os retornos: pra que cada paciente jamais se esqueça de que foi curado e procure cuidar-se. Estou em busca da cura para o meu espírito. Se eu fosse você, iniciaria a sua enquanto é tempo...




domingo, 2 de setembro de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? Capítulo 4

     1o. de agosto, quarta-feira. São 18h15min. Uma multidão novamente se enfileira no IMA, agora para se submeter à cirurgia. Ao contrário da semana passada, quando fiz consulta e permaneci quase duas horas de pé, hoje consigo uma cadeira para aguardar sentado. O ritual inicial se repete: o Marquinho, um dos médiuns mais experientes do IMA, fala ao microfone palavras que confortam. "Não adianta curar o corpo se o espírito não se curar", resume ele. "Deus não fez o homem pra sentir dor. É ele quem escolhe sofrer." Frases como esta, que antes me pareciam estranhas, agora parecem fazer todo o sentido. Com as mãos juntas, em posição de prece, fecho os olhos e concentro-me em pedir perdão a Deus. Peço-lhe que ele leve minha dor embora. Se o homem pode escolher a dor, eu renuncio a ela e a todo o meu sofrimento. Subitamente sinto algo que não sei explicar nem descrever. Algo que faz com que todo o corpo se arrepie. "A cirurgia é apenas um ritual. A pessoa já está curada quando está sentada aí, nessas cadeiras, em busca da cura", diz Marquinho à multidão. "Meu Deus!", penso. 
     Os voluntários chamam então os que estão na mesma fileira que eu. "Os que têm problemas no joelho, por favor, fiquem na fileira da esquerda. Os que têm problemas na coluna, por favor, fiquem na da direita", pede um dos voluntários. "Em qual delas devo ficar? Eu tenho os dois problemas...", penso. Se eu tiver que escolher, escolherei a cirurgia no joelho. Afinal, convivo com problemas na coluna há mais de 20 anos e acabei me acostumando com ele. Posso deixar a cirurgia nos dois joelhos - acredite: durante esta semana, o joelho esquerdo também começou a doer... - para uma próxima oportunidade. 
     Quando entro na sala de cirurgia, avisto inúmeras macas brancas. Todos os enfermeiros estão de branco e devidamente trajados com proteções no rosto e na cabeça. Tudo indica que será uma cirurgia normal. Sou conduzido a uma das macas. "Qual o seu problema, irmão?", pergunta um dos enfermeiros voluntários. "Coluna e joelho", respondo. "Por favor, abaixe suas calças, tire a camisa e deixe-se de bruços na maca." Faço o que ele me manda. Não estou com medo da cirurgia, pois sei que não haverá cortes. Ao contrário do que seria uma cirurgia convencional, tenho a segurança de que nada de ruim ou de errado vai acontecer-me. Mesmo assim, quando olho para o lado, avisto homens de todas as idades, desde crianças a senhores de idade, deitados, semi-nus, à espera de cura. De repente, um calafrio percorre-me a coluna e eu me ponho a chorar inexplicavelmente. "Meu Deus, cure meu espírito. Leve minha dor embora. Leve de mim tudo o que é mal. Torne puro o meu espírito", peço em silêncio, agora entre lágrimas. Sinto então alguém passando um líquido com algodão em minhas costas e na parte posterior de meus dois joelhos, seguido pelo toque de algum objeto não cortante, que desenha sinais onde seriam os cortes. Logo em seguida, sinto os curativos sendo colocados. "Vai colocar faixa?", pergunta o voluntário àquele que, suponho, seja o Dr. Alonso. "Não precisa", responde. Após terminar o curativo, o voluntário pede que eu fique de pé. "Você está bem, irmão?", pergunta ele ao ver-me entre lágrimas, ele. "Sim, eu estou bem. Eu acho." Então ele pede que eu caminhe até a porta e aguarde a passagem do Dr. Alonso, o médico que acabou de operar-me. Aguardo em fila. "Por favor, deixem os braços estendidos relaxados ao longo do corpo", pede um outro voluntário. De repente, sinto alguém passando, segurando meus ombros e dando-me um forte tapa no meio da coluna. Era o Dr. Alonso. Somos então guiados pelos voluntários e aguardamos em uma cadeira por menos de um minuto, sendo então liberados para pegar os remédios. 
     De pé, na enorme fila, sinto meus dois joelhos e minha coluna extremamente doloridas. É uma dor diferente daquela que eu estava acostumado. É como se eu tivesse sido realmente cortado. Sinto meus joelhos fracos, como se não suportassem o peso de meu corpo. Quando sou atendido, a jovem voluntária orienta-me a permanecer três dias em repouso absoluto. Pego então novamente os remédios e me dirijo com dificuldades ao meu carro. Caminho com dificuldade, sinto-me fraco. Mas sinto-me curado!
     2 de agosto, quinta-feira. São 6h30min. Débora chama-me pra tomar café. Quando tenho sair da cama, dou-me conta de que estou cheio de curativos. Mal consigo andar de tanta dor nos joelhos e na coluna. Sinto como se estivesse repleto de pontos e de cicatrizes, embora eu saiba que nenhum corte visível foi feito.  É uma sensação difícil de explicar. O que posso descrever é que há muito, muito tempo eu não me sentia tão purificado e tão próximo de Deus. Estou realmente curado!