domingo, 2 de setembro de 2012

Você faria uma cirurgia espiritual? Capítulo 4

     1o. de agosto, quarta-feira. São 18h15min. Uma multidão novamente se enfileira no IMA, agora para se submeter à cirurgia. Ao contrário da semana passada, quando fiz consulta e permaneci quase duas horas de pé, hoje consigo uma cadeira para aguardar sentado. O ritual inicial se repete: o Marquinho, um dos médiuns mais experientes do IMA, fala ao microfone palavras que confortam. "Não adianta curar o corpo se o espírito não se curar", resume ele. "Deus não fez o homem pra sentir dor. É ele quem escolhe sofrer." Frases como esta, que antes me pareciam estranhas, agora parecem fazer todo o sentido. Com as mãos juntas, em posição de prece, fecho os olhos e concentro-me em pedir perdão a Deus. Peço-lhe que ele leve minha dor embora. Se o homem pode escolher a dor, eu renuncio a ela e a todo o meu sofrimento. Subitamente sinto algo que não sei explicar nem descrever. Algo que faz com que todo o corpo se arrepie. "A cirurgia é apenas um ritual. A pessoa já está curada quando está sentada aí, nessas cadeiras, em busca da cura", diz Marquinho à multidão. "Meu Deus!", penso. 
     Os voluntários chamam então os que estão na mesma fileira que eu. "Os que têm problemas no joelho, por favor, fiquem na fileira da esquerda. Os que têm problemas na coluna, por favor, fiquem na da direita", pede um dos voluntários. "Em qual delas devo ficar? Eu tenho os dois problemas...", penso. Se eu tiver que escolher, escolherei a cirurgia no joelho. Afinal, convivo com problemas na coluna há mais de 20 anos e acabei me acostumando com ele. Posso deixar a cirurgia nos dois joelhos - acredite: durante esta semana, o joelho esquerdo também começou a doer... - para uma próxima oportunidade. 
     Quando entro na sala de cirurgia, avisto inúmeras macas brancas. Todos os enfermeiros estão de branco e devidamente trajados com proteções no rosto e na cabeça. Tudo indica que será uma cirurgia normal. Sou conduzido a uma das macas. "Qual o seu problema, irmão?", pergunta um dos enfermeiros voluntários. "Coluna e joelho", respondo. "Por favor, abaixe suas calças, tire a camisa e deixe-se de bruços na maca." Faço o que ele me manda. Não estou com medo da cirurgia, pois sei que não haverá cortes. Ao contrário do que seria uma cirurgia convencional, tenho a segurança de que nada de ruim ou de errado vai acontecer-me. Mesmo assim, quando olho para o lado, avisto homens de todas as idades, desde crianças a senhores de idade, deitados, semi-nus, à espera de cura. De repente, um calafrio percorre-me a coluna e eu me ponho a chorar inexplicavelmente. "Meu Deus, cure meu espírito. Leve minha dor embora. Leve de mim tudo o que é mal. Torne puro o meu espírito", peço em silêncio, agora entre lágrimas. Sinto então alguém passando um líquido com algodão em minhas costas e na parte posterior de meus dois joelhos, seguido pelo toque de algum objeto não cortante, que desenha sinais onde seriam os cortes. Logo em seguida, sinto os curativos sendo colocados. "Vai colocar faixa?", pergunta o voluntário àquele que, suponho, seja o Dr. Alonso. "Não precisa", responde. Após terminar o curativo, o voluntário pede que eu fique de pé. "Você está bem, irmão?", pergunta ele ao ver-me entre lágrimas, ele. "Sim, eu estou bem. Eu acho." Então ele pede que eu caminhe até a porta e aguarde a passagem do Dr. Alonso, o médico que acabou de operar-me. Aguardo em fila. "Por favor, deixem os braços estendidos relaxados ao longo do corpo", pede um outro voluntário. De repente, sinto alguém passando, segurando meus ombros e dando-me um forte tapa no meio da coluna. Era o Dr. Alonso. Somos então guiados pelos voluntários e aguardamos em uma cadeira por menos de um minuto, sendo então liberados para pegar os remédios. 
     De pé, na enorme fila, sinto meus dois joelhos e minha coluna extremamente doloridas. É uma dor diferente daquela que eu estava acostumado. É como se eu tivesse sido realmente cortado. Sinto meus joelhos fracos, como se não suportassem o peso de meu corpo. Quando sou atendido, a jovem voluntária orienta-me a permanecer três dias em repouso absoluto. Pego então novamente os remédios e me dirijo com dificuldades ao meu carro. Caminho com dificuldade, sinto-me fraco. Mas sinto-me curado!
     2 de agosto, quinta-feira. São 6h30min. Débora chama-me pra tomar café. Quando tenho sair da cama, dou-me conta de que estou cheio de curativos. Mal consigo andar de tanta dor nos joelhos e na coluna. Sinto como se estivesse repleto de pontos e de cicatrizes, embora eu saiba que nenhum corte visível foi feito.  É uma sensação difícil de explicar. O que posso descrever é que há muito, muito tempo eu não me sentia tão purificado e tão próximo de Deus. Estou realmente curado!

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