sábado, 27 de outubro de 2012

As brincadeiras mudaram de uma geração para cá


Sábado, 27 de outubro de 2012. Estamos na loja Laruana, mais conhecida como “a loja do 1,99”. Débora está à procura de algo para a cozinha. Ela é detalhista, gosta de olhar com cuidado as mercadorias que vai comprar. Considerando que tudo aqui é barato, a chance de levar algo quebrado para casa é grande. Enquanto ela procura, Miguel transita entre as prateleiras passando a mão pelas porcelanas. “Puta merda! Ele vai quebrar tudo!” E lá vou eu atrás dele. Agora que ele aprendeu a andar, só Deus segura! Para distraí-lo, decido levá-lo à sessão de brinquedos.
Seguro o Miguel pela sua mão esquerda. Na mão direita ele leva um “mole-mole” que compramos na Pasteguita, onde ele é muito querido pelas atendentes. Na semana passada, uma delas presenteou-lhe com um “Kinder Ovo. Em sinal de agradecimento, ele a abraçou e a beijou no rosto. “Eu te amo, mocinho!”, estravasou, emocionada. De repente, ele pára de andar. “Mai, mai”, pede ele, querendo dizer que quer mais “mole mole”, uma espécie de doce na forma de pequenas bolinhas coloridas que deixa a boca colorida. Paro, abro o vidrinho de mole-mole e deixou cair em minha mão várias bolinhas. “Mai mai”. Coloco então uma pequeno “mole-mole” em sua boca e continuamos nosso passeio entre as prateleiras. “Olha, filho, que carro lindo!”, digo, apontando para um lindo conversível de plástico, com rodas grandes. “Cau”, repete ele. Mais adiante, um enorme caminhão caçamba. “Olha, filho, um caminhão!”. “Minhão”, repete ele. Nosso passeio continua. Aos poucos vou avistando um carro de bombeiro, uma patrol, uma carregadeira, um caminhão bi-trem... Vejo os preços. Ao contrário de quando eu era criança, hoje eles me parecem tão acessíveis...
Minha jornada por entre as prateleiras agora parece mais uma volta ao passado. De repente, surge uma vontade quase irresistível de comprar todos esses brinquedos de plástico, todos simples, e ir brincar com o Miguel no fundo da casa de meus pais. Mas meu bom senso faz-me lembrar que ele ainda tem apenas um ano e cinco meses e que ainda não sabe brincar. “Quando ele tiver uns cinco ou seis anos eu compro e brinco com ele.” Avisto então um menino, com mais ou menos cinco anos, passando ao meu lado e parando para admirar um brinquedo. Não, não era um dos carrinhos que eu queria comprar para o Miguel. É uma miniatura de octógono de UFC com dois lutadores dentro...
Essa cena traz-me de volta à realidade: há tempos não vejo um menino puxando um carrinho por um barbante, ou colocando terra na carroceria de um caminhãozinho de brinquedo. Mesmo os meninos de hoje que se parecem com os da minha época, que ainda brincam descalços e sem camisa pela rua, hoje preferem jogar pedras nas pessoas que passam a brincar de caminhãozinho nos montes de areias próximos às construções. Os tempos hoje são outros, mas após 20 anos, a criança que vive em mim parece ainda em busca de alguém para brincar de carrinho. O papai não brincou de carrinho comigo, pois não tinha paciência. Pelo que tenho visto desta geração de crianças, o meu filho também não terá.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Uma roda gigante chamada vida


Há mais ou menos uma semana venho passando por momentos de nostalgia. Sempre fui nostálgico, mas de uma semana pra cá a coisa está ficando séria. Isso certamente é culpa das músicas que ouço enquanto sigo para o trabalho. São todas músicas dos anos 70, 80, 90, 2000 e algumas poucas dos últimos tempos. As que mais me emocionam são as dos anos 70 e 80. Ainda gosto das músicas dançantes dos anos 90, mas elas doem aos meus ouvidos. Talvez eu esteja realmente ficando velho...
Muitos pensamentos povoam minha mente enquanto ouço essas músicas. Lembro-me dos tempos de infância e da adolescência, principalmente. Mas lembrar do passado e olhar para quem sou no presente traz-me um pensamento desesperador: o tempo está passando e as pessoas que tanto amo estão envelhecendo. Tudo bem, eu também estou envelhecendo. A questão é que elas estão se aproximando da linha de chegada. Algumas pessoas, como a vovó Lourdes, o vovô Crotti, a tia Alice, o tio Chiquinho, o tio Agenor, o tio Antônio, o tio Joaquim, a tia Augusta e o tio Luís já ultrapassaram a linha de chegada. A criança e o adolescente que fui também já não existem mais, e deles eu também sinto saudade. As músicas fazem-me lembrar de situações em que essas pessoas estavam vivas.
Mas não é só isso. Hoje eu olho para os meus pais e para os meus avós e vejo o quanto eles sentiram os anos que se passaram desde que eu e minha irmã nascemos. As dores começam a acumular-me e os remédios e suas doses  vão aumentando gradativamente. Com isso, tarefas simples para eles vão aos poucos se tornando grandes vitórias quando ainda são executadas.
Olho para o papai e vejo os cabelos e pêlos brancos tomando conta de seu corpo. O homem bravo e enérgico, que tanto cobrou de mim, agora caminha com dificuldade devido a um esporão. Seus braços, que há exatos 20 anos levantavam 60 kg cada um e que eu não conseguia derrubar nem mesmo com os dois braços, mal conseguem segurar os 12 kg do Miguel. Sofrendo com a diabetes, ele se viu sem forças para exercer sua profissão de caminhoneiro e vendeu seu caminhão. Ele, que passava até 70 dias longe de casa, viajando pelas estradas em busca do nosso sustento, permanece agora o dia todo no sofá, entediado, assistindo aos programas da Discovery Channel.
Minha mamãe, sempre guerreira, hoje sente as dores dos anos castigando-lhe o corpo. Os anos tirando água de cisterna em Quirinópolis-GO e as décadas lavando roupa e costurando trouxeram-lhe uma dormência terrível a seus braços. Ainda é uma mulher forte, que não se entrega, que dorme poucas horas de sono e acaba fazendo sempre mais do que realmente agüentaria. Isso certamente eu herdei dela... Quantas noites ela não acordava para abrir o portão quando eu voltava das noites de sábado. Foram quatro anos me buscando e me levando no ponto de ônibus para ir e voltar da faculdade, e mais seis me levando até a rodoviária para ir para Ribeirão Preto, onde eu passava a semana estudando. Quanto cuidado ela tinha ao preparar-me o leite e o pão com manteiga antes de dormir...
 Olho para o vovô Miller e me lembro das vezes em que eu, ainda uma criança, o puxava pelas mãos pelo quintal de nossa casa, lá em Quirinópolis-GO, para que ele me ajudasse a encontrar velhas pilhas de rádio – que eu fazia de conta que eram botijões de gás. Quando as encontrávamos, as colocávamos nos enormes caminhões de madeira que ele mesmo havia feito ao canivete. Lembro das inúmeras vezes que ele me levava na garupa de sua bicicleta Gorike até a sua casa, pra eu brincar com o Marquinho. Quando eu ia ao catecismo, eu o procurava pela praça, onde ele trabalhava como jardineiro. Não raramente ele achava algum brinquedo perdido e guardava pra dar-me de presente.
Olho para a vovó Maria e para a titia Ângela e me recordo dos almoços de domingo na casa delas. Havia sempre uma Coca-Cola “litro” e uma garrafa de guaraná maçã (Don). Após o almoço nós brincávamos de torrinha. Elas, a mamãe, o vovô, eu e a “fia”, minha irmã. Lembro também das noites de Natal em que eu lá passava à espera dos presentes. A vovó ainda faz as bolachinhas de nata e o delicioso bolo “pão-de-ló”. Ainda hoje, quando vou à tarde até a casa delas, ainda sinto o mesmo cheiro...
Todas essas lembranças tornam os momentos com cada um deles especial e único. E quando me aproximo deles sinto o quanto sou privilegiado por ainda tê-los, vivos, sãos e saudáveis. Isso certamente está acontecendo comigo por agora ser também pai. Olho para o Miguel e lembro-me de mim mesmo quando tinha aquela idade. É aí que eu vejo o quanto o tempo passa. E que a vida é uma roda gigante, que tem seus altos e baixos, e que após incontáveis voltas, vai parar pra que cada um de nós seja obrigado a descer. 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Conselhos de pai para filho


Meu querido Miguel,
No momento em que esta carta está sendo escrita, você tem apenas um ano e cinco meses de idade. Você é um menino iluminado, sorridente, carinhoso e carismático, muito parecido com que eu, seu papai, fui um dia. Estou endereçando essas palavras a você por ser no momento nosso único filho, e porque no momento em que elas estão sendo escritas eu ainda não sei se você terá um irmãozinho ou irmãzinha. De qualquer forma, eu espero que você entenda o mais rápido possível a mensagem desta carta. Quanto mais cedo o fizer, menos decepções você sofrerá.
Eu, seu papai, recebi do meu papai, o seu vovô Altair, uma educação primorosa e rigorosa. Desde pequeno ele mostrou-me a importância de ser honesto, de honrar com a palavra, de ser trabalhador, de não ter preguiça, de ser perseverante, de fazer as coisas bem feitas e mais um sem número de coisas. Todas elas, meu filho, eu aprendi muito bem. Nem todas foram fáceis de assimilar, mas graças a ele eu tornei-me um homem de verdade. Não apenas um homem “macho”, no sentido que, aliás, ele também insistia em me passar, mas também no sentido de ser um homem íntegro.
Mas houve uma lição que o seu vovô tentou me ensinar que eu, seu papai, não quis aprender. Ela deveria ter sido a mais fácil delas, mas eu me recusei aceita-la por mais de 20 anos. Desde os 15 anos o papai chamava-me no canto e dizia-me: “Meu filho, abre o olho: um homem não tem amigos. Seu único amigo é seu pai”. Como eu já entendia um pouco das coisas, eu achava que ele dizia aquilo porque tinha tido algumas experiências desagradáveis e algumas decepções com pessoas que ele julgava ser um amigo, ou porque tinha ciúmes de mim por passar tanto tempo com meus “amigos”. No auge de minha adolescência, e tendo eu eleito alguns poucos como meus “amigos” do peito, eu refutei o conselho dele, como se eu estivesse imune ao que viria acontecer algum tempo depois. Assim como seu vovô, eu decepcionei-me de tal forma que hoje eu não acredito mais na palavra “amizade”. Seu vovô tinha razão: não se tem amigos; tem-se “colegas”. E a atenção que você dedica a eles e a confiança que neles é depositada são diretamente proporcional à decepção que eles te causam com o tempo.
Eu não posso escrever nomes aqui, meu filho. Se eu tiver vida, saúde e sanidade quando você entender essas palavras, poderei contar-te pessoalmente cada uma das minhas decepções com os “amigos” que o seu vovô tanto falava. Aliás, se ele estiver vivo e com saúde quando você entender essas palavras – e eu desejo muito que isso aconteça – ele próprio poderá contar-te as histórias de vida dele. Mas o importante, meu filho, não é saber os nomes, e sim reconhecer quem são os “amigos” que na verdade não são.
Se você for adolescente quando ler isso, certamente ficará revoltado e indignado como eu fiquei quando seu avô tentou ensinar-me a mesma coisa. Mas não se chateie, meu filho. Ter colegas é uma coisa maravilhosa! Você se divertirá muito eles. Você passará horas muito agradáveis, dará muitas risadas, jogará muito futebol e irá a lugares bem divertidos. Quero que você entenda que ter colegas é uma das melhores coisas da vida, e que você precisará muito deles. O grande problema é você depositar neles expectativa e confiança excessivas. Eu espero que você não cometa esse erro como eu cometi várias e várias vezes.
Eu gostaria de adicionar um pouco da minha experiência de 36 anos ao conselho de seu avô e complementar o conselho dele: “seja amigo de todos, mas não espere que ninguém seja seu amigo”. Agindo assim, meu filho, você será muito benquisto por todos, será alguém com quem os outros poderão contar, porém não se decepcionará com ninguém. Porque o grande problema de se crer que amigos existem é a decepção que você tem quando descobre que eles são, na verdade, apenas colegas.
Outro conselho que eu gostaria de passar: “As pessoas estão apenas interessadas no que você pode oferecer a elas, e não no que elas podem oferecer a você.” Ninguém faz nada de graça, meu filho. Até aquele que faz uma caridade espera a bênção de Deus em retribuição ao seu ato, ou, então, o faz pelo sentimento de satisfação de fazê-lo. Em muitos momentos de minha vida eu pensei ter encontrado alguns “anjos”, pessoas verdadeiramente iluminadas que me ajudaram a superar um período difícil ou que me ajudaram a crescer profissionalmente. As que me ajudaram a crescer profissionalmente mostraram que não o fizeram desinteressadamente, pois de certa forma cobraram o pagamento anos depois. As que eu classificava como “anjos” mostraram-se pessoas extremamente dissimuladas, calculistas, gananciosas e inescrupulosas quando lhes convinham.
Calma, meu filho, não se desespere. Não é minha intenção passar-te minhas decepções. Meu desejo, na verdade, é que você não se decepcione. Curta seus colegas, desde que não beba, fume ou se drogue para parecer-lhes um cara “legal” ou “descolado”. Mas entenda que eles são apenas seus colegas e que não merecem algo de você que eles não te dedicam. Por favor, não seja bobo: não faça nada para ser aceito em um "bando" de colegas. Tenha sua própria personalidade! Seja forte! E esse forte, você entenderá, não significa ter músculos. Significa ter cérebro.
O que eu considero mais irônico é que talvez os colegas de sua idade também lerão isso e acharão que você é um grande filho da mãe porque eu quis que você fosse assim. Na verdade, se eles fizerem isso, os verdadeiros filhos da mãe são eles, pois essa será a forma mais desleal que eles encontrarão de manipulá-lo e de forçá-lo a seguir as regras deles. Aliás, já te adianto: os adolescentes são assim mesmo quando você não faz o que eles querem. Você é excluído da turma! Não espero que você seja tão forte como eu fui para não viver “em bando”, mas desejo muito que você não sucumba à pressão que eles vão fazer pra que você seja “igual a eles” para ser aceito.
Meu desejo, meu filho, é que você seja um grande homem. Um homem, se possível, melhor ou tão bom quando seu vovô e seu papai foram. Eu rezo a Deus para que Ele me dê vida, saúde e sanidade suficientes para vê-lo sobreviver aos seus "amigos" e para passar esses conselhos para os seus filhos. E se Deus me permitir, espero viver para ouvir as suas histórias também. Porque os anos passarão, eu perderei minha saúde, meus cabelos, minha força, minha visão, minhas pernas, meus dentes e minha virilidade. Mas acredite, meu filho: eu jamais deixarei de ser o seu único amigo. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Crônica 11: Cuidado com o que você pede


Era tarde da noite. Henrique não conseguia pegar no sono. Um turbilhão de idéias o incomodava. Estava passando por um período difícil. Henrique sabia que não era um gênio, mas soube associar seu potencial mediano à enorme vontade de vencer para construir uma carreira vencedora. Ele havia elevado os lucros de sua empresa a patamares excelentes. No entanto, ele não se sentia em paz. Havia sido demitido uma vez daquela mesma empresa no início de sua carreira. Por isso, Henrique sonhava em ir para outra empresa, maior e mais consolidada.
Certa vez surgiu uma oportunidade de emprego em uma grande empresa. Henrique concorreu à vaga, e dentre as centenas de candidato, ficou em segundo. A tristeza dele foi enorme. Durante meses ele havia projetado sua vida no futuro trabalhando naquela grande empresa. Pensou em todas as possibilidades. Tudo em vão. Henrique estava desapontado. O tempo, o grande curador de todos os males, fez com que ele se recompusesse rapidamente e retomasse suas atividades normais. Afinal, ele estava empregado e não tinha, pelo menos por enquanto, razões para reclamar.
Dois anos se passaram e Henrique viu em uma outra grande empresa a oportunidade de construir seu futuro. Havia novamente apenas uma vaga. Aquela vaga, aquela sim, parecia-lhe ser bem melhor que a que ele pleiteou anteriormente. Após analisar, sentiu certo alívio por não ter sido selecionado para aquela outra vaga. “Aquela vaga certamente não era pra ser minha”, tentava conformar-se enquanto se preparava para a série de testes a que ia submeter-se.
Na semana em que os testes estavam sendo realizados, Henrique soube que o candidato que havia sido selecionado no teste anterior desistiu da vaga. O convite para a vaga que Henrique tanto sonhou chegou por meio de um telegrama enquanto ele estava na sala de espera para a entrevista final para a vaga que ele agora queria. A vaga que por tanto tempo lhe interessou surgira agora em um momento curioso: ele já não a desejava mais. A vaga que ele tanto sonhou... A oportunidade estava em suas mãos. Quando fechou o envelope, Henrique foi chamado para a entrevista final. E agora, o que fazer?
Moral da história: Cuidado com o que você pede. Cuide-se para estar preparado para receber aquilo que você está pedindo. Se não estiver, não peça. Não sonhe com algo bom que algum dia pode tornar-se realidade e não lhe parecer tão bom.

domingo, 7 de outubro de 2012

Era uma vez, em 2006...


Quando as luzes se apagam, todas as coisas adquirem a mesma cor. Não dá pra se ter a certeza se os olhos estão abertos ou fechados. Ouço um barulho de morcegos correndo sobre o forro de meu quarto improvisado, que na verdade é uma parte do que um dia foi a nossa varanda. Para impedir a entrada da brisa fria, um pedaço de pano foi colocado debaixo da porta. Meus pais estão dormindo lá dentro, e caso eu precise gritar por eles, certamente não escutarão.
Mas não será preciso. Já sou crescido, tenho quase 30 anos. Mesmo depois que a “Fia” mudou-se com a Clara, preferi ficar aqui neste meu pequeno cubículo a voltar para o quarto que com ela dividi durante tantos anos. Este é o meu espaço da casa. É pequeno, mas é meu. E para alguém que passou quase seis anos morando com mais 20 pessoas em uma casa de estudantes em uma grande cidade, nada como ter um espaço para si mesmo. A internet ainda é discada. No mês passado o valor da conta de telefone foi altíssimo. Por causa disso, e para não ouvir queixas do papai, eu assumi as contas de telefone e de luz. Sim, ele se queixa que meu computador fica ligado o dia inteiro...
De manhã a visão da janela de meu pequeno quarto é linda. As árvores no fundo do quintal fazem uma sombra deliciosa na janela. Dela também posso avistar o enorme angico no quintal da marcenaria do Segato, que por tantos anos de minha adolescência fiquei admirando. Após acordar, dirijo-me à escola Edda Cardoso de Souza Marcussi, onde leciono Química. Às tardes eu trabalho em alguns artigos científicos que vão surgindo. Por volta das 16h sigo para a natação, que foi indicada pelo médico para meus problemas com a coluna. Ele diagnosticou três bicos de papagaio, que certamente foram adquiridos ao longo dos anos de estudo. À noite sigo para a faculdade ministrar aulas de Química Orgânica.
Nos fins de semana nenhuma novidade. Jogo futebol aos sábados e vou namorar à noite. Meu horário de namoro é das 20h30min às 12h, mas sempre chego atrasado. Uma boa parte deste tempo é gasto com pedidos de desculpas pelo atraso. Minha namorada fica furiosíssima! E com razão. De vez em quando vamos ao cinema. Não costumamos ir a restaurantes ou bares. Estamos construindo nossa casa, então precisamos economizar. Queremos nos casar o mais breve possível, mas não vamos fazê-lo enquanto a construção de nossa casa não for finalizada.
Levo uma vida com bastante rotina, mas isso não me incomoda nem um pouco. Gosto da minha rotina. Eu fico me perguntando como será a minha rotina após o casamento. Quero muito ter uma TV LCD de 40” e um aparelho de DVD quando tiver minha casa própria. Aqui na casa dos meus pais não tem. Aliás, nunca tivemos nem vídeo game. Fui comprar meu computador aos 26 anos, com o meu próprio dinheiro, o que é pra mim motivo de orgulho. A propósito, será que serei pai? Quantos filhos eu terei? Serão meninos ou meninas? São tantas dúvidas... Espero apenas que daqui a alguns anos eu tenha uma vida tranquila, sem falta de dinheiro e com mais saúde que tenho hoje. E, claro, que todos de minha família possam estar juntos pra celebrarmos a vida. Porque apesar de tudo o que almejo em minha vida, uma família unida e saudável sempre será o mais importante para mim. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Qual a importância do seu facebook na sua vida?


A internet é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores avanços da humanidade. Ainda hoje em dia fico vislumbrado quando, de um computador conectado à internet surge um filme, uma música ou um episódio de uma série. Mais interessante ainda é você poder conversar com uma pessoa que está a milhares de quilômetros, talvez até do outro lado do mundo, e vê-la enquanto fala com ela. Mas isso, caro leitor, é uma visão de quem pertence à geração do final dos anos 70 e que viveu sua adolescência sem ter a mínima idéia do que era um computador. Hoje percebo a diferença que isso fez em minha vida.
Se você pertence à geração dos anos 90 ou dos anos 2000, certamente achará estranho o que vou escrever agora. Aliás, é bem provável que não consiga entender como existia vida antes da internet e dos computadores. Mas acredite: existia. E por mais que você pense que a internet aproximou as pessoas – e isso é verdade, em alguns casos, principalmente quando estão realmente muito distantes -, os fatos mostram que na maioria das vezes ocorreu justamente o contrário.
A internet fez com que os jovens de hoje deixassem de brincar e de interagirem. Quando eu tinha entre 8 e 16 anos, o que eu mais gostava era de brincar. Jogávamos “bete”, um jogo que se resumia a impedir que uma lata de óleo (que hoje deu lugar às embalagens plásticas..) fosse derrubada por uma bolinha, que deveria ser golpeada com um cabo de vassoura e jogada para longe do adversário. Jogávamos futebol na rua. As bolas geralmente eram bolas de plástico que haviam sido furadas e que, de tão dura e pesada, mal conseguia quicar... Desenhávamos trilhas nas ruas e calçadas e reuníamos uma turma pra brincarmos de polícia e ladrão – cada um com sua bicicleta. Isso sem contar as brincadeiras de “pique-esconde” e de queimada. Era muito divertido.
Ora, por que razão estou me lembrando disso agora? Porque hoje à tarde, após uma sessão de hidroginástica, a instrutora contou-nos que uma aluna de 8 anos ingressou hoje na natação disse-lhe que o único esporte que ela pratica é o “facebook”. Isso mesmo, facebook! Essa criança, assim como a maior parte dos jovens – e por que não dizer, os adultos de várias gerações – preferem dedicar seu precioso tempo construindo uma imagem do que viver. As fotos hoje em dia são tiradas para quê? Para onde elas vão? Para um álbum de família? Não! Elas vão para o seu facebook! As pessoas usam seus facebooks como se fossem um cartão postal, e cuidam mais deles que de suas próprias vidas. Muitos gastam horas e horas falando pelo “face” ao invés de se encontrarem pessoalmente. E não estou falando de pessoas que moram em outras cidades – às vezes a pessoa mora no mesmo quarteirão que você! A imagem que você constrói através do seu facebook tornou-se mais importante do que o que você realmente é. E se há algo que você precisa ser é “popular”. Quanto mais amigos no facebook você tiver, mais pessoas vão comentar e curtir suas postagens. E é isso o que mais te importa na vida, não é?
Não estou afirmando que sou contra a internet ou facebook, mesmo porque este blog também é uma “ferramenta virtual” que, de certa forma, também me toma algum tempo. O que estou dizendo é que as pessoas deveriam se encontrar mais e se divertirem como antigamente, ao invés de se tornarem “escravas” da imagem que tentam construir. Alguém se lembra das brincadeiras na garagem? Eram as festas da nossa geração! Algum colega se dispunha a colocar um rádio com alguma fita cassete na garagem de sua casa e chamava os rapazes e moças pra dançar e comer algum salgado ou coisa do tipo. Quantos e quantos casamentos não começaram nessas “brincadeiras”? Ao invés disso, as pessoas gastam seus tempos preciosos em frente às telas de seus computadores.
Faz sete anos que tenho este blog. Quando decidi mantê-lo, minha decisão era a de manter vivas as minhas histórias para que meus filhos pudessem conhecê-las quando estiverem adultos. No entanto, percebi que o tempo que gastarei para escrevê-las e postá-las no blog é tão precioso que decidi dedicá-lo para que ele tenha suas próprias lembranças de seu papai. Deixar boas lembranças parece-me, nesse instante, mais importante que deixar minhas histórias. É por isso que escreverei sempre que puder, mas apenas quando ele já estiver dormindo. Criei um facebook, mas apenas porque “todo mundo tem” e eu acabei seguindo a onda, mas raramente o atualizo.
E você, vai continuar dedicando seu tempo ao seu facebook ou a cuidar de sua própria vida – ou melhor dizendo, da sua vida REAL?