terça-feira, 16 de outubro de 2012

Conselhos de pai para filho


Meu querido Miguel,
No momento em que esta carta está sendo escrita, você tem apenas um ano e cinco meses de idade. Você é um menino iluminado, sorridente, carinhoso e carismático, muito parecido com que eu, seu papai, fui um dia. Estou endereçando essas palavras a você por ser no momento nosso único filho, e porque no momento em que elas estão sendo escritas eu ainda não sei se você terá um irmãozinho ou irmãzinha. De qualquer forma, eu espero que você entenda o mais rápido possível a mensagem desta carta. Quanto mais cedo o fizer, menos decepções você sofrerá.
Eu, seu papai, recebi do meu papai, o seu vovô Altair, uma educação primorosa e rigorosa. Desde pequeno ele mostrou-me a importância de ser honesto, de honrar com a palavra, de ser trabalhador, de não ter preguiça, de ser perseverante, de fazer as coisas bem feitas e mais um sem número de coisas. Todas elas, meu filho, eu aprendi muito bem. Nem todas foram fáceis de assimilar, mas graças a ele eu tornei-me um homem de verdade. Não apenas um homem “macho”, no sentido que, aliás, ele também insistia em me passar, mas também no sentido de ser um homem íntegro.
Mas houve uma lição que o seu vovô tentou me ensinar que eu, seu papai, não quis aprender. Ela deveria ter sido a mais fácil delas, mas eu me recusei aceita-la por mais de 20 anos. Desde os 15 anos o papai chamava-me no canto e dizia-me: “Meu filho, abre o olho: um homem não tem amigos. Seu único amigo é seu pai”. Como eu já entendia um pouco das coisas, eu achava que ele dizia aquilo porque tinha tido algumas experiências desagradáveis e algumas decepções com pessoas que ele julgava ser um amigo, ou porque tinha ciúmes de mim por passar tanto tempo com meus “amigos”. No auge de minha adolescência, e tendo eu eleito alguns poucos como meus “amigos” do peito, eu refutei o conselho dele, como se eu estivesse imune ao que viria acontecer algum tempo depois. Assim como seu vovô, eu decepcionei-me de tal forma que hoje eu não acredito mais na palavra “amizade”. Seu vovô tinha razão: não se tem amigos; tem-se “colegas”. E a atenção que você dedica a eles e a confiança que neles é depositada são diretamente proporcional à decepção que eles te causam com o tempo.
Eu não posso escrever nomes aqui, meu filho. Se eu tiver vida, saúde e sanidade quando você entender essas palavras, poderei contar-te pessoalmente cada uma das minhas decepções com os “amigos” que o seu vovô tanto falava. Aliás, se ele estiver vivo e com saúde quando você entender essas palavras – e eu desejo muito que isso aconteça – ele próprio poderá contar-te as histórias de vida dele. Mas o importante, meu filho, não é saber os nomes, e sim reconhecer quem são os “amigos” que na verdade não são.
Se você for adolescente quando ler isso, certamente ficará revoltado e indignado como eu fiquei quando seu avô tentou ensinar-me a mesma coisa. Mas não se chateie, meu filho. Ter colegas é uma coisa maravilhosa! Você se divertirá muito eles. Você passará horas muito agradáveis, dará muitas risadas, jogará muito futebol e irá a lugares bem divertidos. Quero que você entenda que ter colegas é uma das melhores coisas da vida, e que você precisará muito deles. O grande problema é você depositar neles expectativa e confiança excessivas. Eu espero que você não cometa esse erro como eu cometi várias e várias vezes.
Eu gostaria de adicionar um pouco da minha experiência de 36 anos ao conselho de seu avô e complementar o conselho dele: “seja amigo de todos, mas não espere que ninguém seja seu amigo”. Agindo assim, meu filho, você será muito benquisto por todos, será alguém com quem os outros poderão contar, porém não se decepcionará com ninguém. Porque o grande problema de se crer que amigos existem é a decepção que você tem quando descobre que eles são, na verdade, apenas colegas.
Outro conselho que eu gostaria de passar: “As pessoas estão apenas interessadas no que você pode oferecer a elas, e não no que elas podem oferecer a você.” Ninguém faz nada de graça, meu filho. Até aquele que faz uma caridade espera a bênção de Deus em retribuição ao seu ato, ou, então, o faz pelo sentimento de satisfação de fazê-lo. Em muitos momentos de minha vida eu pensei ter encontrado alguns “anjos”, pessoas verdadeiramente iluminadas que me ajudaram a superar um período difícil ou que me ajudaram a crescer profissionalmente. As que me ajudaram a crescer profissionalmente mostraram que não o fizeram desinteressadamente, pois de certa forma cobraram o pagamento anos depois. As que eu classificava como “anjos” mostraram-se pessoas extremamente dissimuladas, calculistas, gananciosas e inescrupulosas quando lhes convinham.
Calma, meu filho, não se desespere. Não é minha intenção passar-te minhas decepções. Meu desejo, na verdade, é que você não se decepcione. Curta seus colegas, desde que não beba, fume ou se drogue para parecer-lhes um cara “legal” ou “descolado”. Mas entenda que eles são apenas seus colegas e que não merecem algo de você que eles não te dedicam. Por favor, não seja bobo: não faça nada para ser aceito em um "bando" de colegas. Tenha sua própria personalidade! Seja forte! E esse forte, você entenderá, não significa ter músculos. Significa ter cérebro.
O que eu considero mais irônico é que talvez os colegas de sua idade também lerão isso e acharão que você é um grande filho da mãe porque eu quis que você fosse assim. Na verdade, se eles fizerem isso, os verdadeiros filhos da mãe são eles, pois essa será a forma mais desleal que eles encontrarão de manipulá-lo e de forçá-lo a seguir as regras deles. Aliás, já te adianto: os adolescentes são assim mesmo quando você não faz o que eles querem. Você é excluído da turma! Não espero que você seja tão forte como eu fui para não viver “em bando”, mas desejo muito que você não sucumba à pressão que eles vão fazer pra que você seja “igual a eles” para ser aceito.
Meu desejo, meu filho, é que você seja um grande homem. Um homem, se possível, melhor ou tão bom quando seu vovô e seu papai foram. Eu rezo a Deus para que Ele me dê vida, saúde e sanidade suficientes para vê-lo sobreviver aos seus "amigos" e para passar esses conselhos para os seus filhos. E se Deus me permitir, espero viver para ouvir as suas histórias também. Porque os anos passarão, eu perderei minha saúde, meus cabelos, minha força, minha visão, minhas pernas, meus dentes e minha virilidade. Mas acredite, meu filho: eu jamais deixarei de ser o seu único amigo. 

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