sábado, 27 de outubro de 2012

As brincadeiras mudaram de uma geração para cá


Sábado, 27 de outubro de 2012. Estamos na loja Laruana, mais conhecida como “a loja do 1,99”. Débora está à procura de algo para a cozinha. Ela é detalhista, gosta de olhar com cuidado as mercadorias que vai comprar. Considerando que tudo aqui é barato, a chance de levar algo quebrado para casa é grande. Enquanto ela procura, Miguel transita entre as prateleiras passando a mão pelas porcelanas. “Puta merda! Ele vai quebrar tudo!” E lá vou eu atrás dele. Agora que ele aprendeu a andar, só Deus segura! Para distraí-lo, decido levá-lo à sessão de brinquedos.
Seguro o Miguel pela sua mão esquerda. Na mão direita ele leva um “mole-mole” que compramos na Pasteguita, onde ele é muito querido pelas atendentes. Na semana passada, uma delas presenteou-lhe com um “Kinder Ovo. Em sinal de agradecimento, ele a abraçou e a beijou no rosto. “Eu te amo, mocinho!”, estravasou, emocionada. De repente, ele pára de andar. “Mai, mai”, pede ele, querendo dizer que quer mais “mole mole”, uma espécie de doce na forma de pequenas bolinhas coloridas que deixa a boca colorida. Paro, abro o vidrinho de mole-mole e deixou cair em minha mão várias bolinhas. “Mai mai”. Coloco então uma pequeno “mole-mole” em sua boca e continuamos nosso passeio entre as prateleiras. “Olha, filho, que carro lindo!”, digo, apontando para um lindo conversível de plástico, com rodas grandes. “Cau”, repete ele. Mais adiante, um enorme caminhão caçamba. “Olha, filho, um caminhão!”. “Minhão”, repete ele. Nosso passeio continua. Aos poucos vou avistando um carro de bombeiro, uma patrol, uma carregadeira, um caminhão bi-trem... Vejo os preços. Ao contrário de quando eu era criança, hoje eles me parecem tão acessíveis...
Minha jornada por entre as prateleiras agora parece mais uma volta ao passado. De repente, surge uma vontade quase irresistível de comprar todos esses brinquedos de plástico, todos simples, e ir brincar com o Miguel no fundo da casa de meus pais. Mas meu bom senso faz-me lembrar que ele ainda tem apenas um ano e cinco meses e que ainda não sabe brincar. “Quando ele tiver uns cinco ou seis anos eu compro e brinco com ele.” Avisto então um menino, com mais ou menos cinco anos, passando ao meu lado e parando para admirar um brinquedo. Não, não era um dos carrinhos que eu queria comprar para o Miguel. É uma miniatura de octógono de UFC com dois lutadores dentro...
Essa cena traz-me de volta à realidade: há tempos não vejo um menino puxando um carrinho por um barbante, ou colocando terra na carroceria de um caminhãozinho de brinquedo. Mesmo os meninos de hoje que se parecem com os da minha época, que ainda brincam descalços e sem camisa pela rua, hoje preferem jogar pedras nas pessoas que passam a brincar de caminhãozinho nos montes de areias próximos às construções. Os tempos hoje são outros, mas após 20 anos, a criança que vive em mim parece ainda em busca de alguém para brincar de carrinho. O papai não brincou de carrinho comigo, pois não tinha paciência. Pelo que tenho visto desta geração de crianças, o meu filho também não terá.

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