sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Uma roda gigante chamada vida


Há mais ou menos uma semana venho passando por momentos de nostalgia. Sempre fui nostálgico, mas de uma semana pra cá a coisa está ficando séria. Isso certamente é culpa das músicas que ouço enquanto sigo para o trabalho. São todas músicas dos anos 70, 80, 90, 2000 e algumas poucas dos últimos tempos. As que mais me emocionam são as dos anos 70 e 80. Ainda gosto das músicas dançantes dos anos 90, mas elas doem aos meus ouvidos. Talvez eu esteja realmente ficando velho...
Muitos pensamentos povoam minha mente enquanto ouço essas músicas. Lembro-me dos tempos de infância e da adolescência, principalmente. Mas lembrar do passado e olhar para quem sou no presente traz-me um pensamento desesperador: o tempo está passando e as pessoas que tanto amo estão envelhecendo. Tudo bem, eu também estou envelhecendo. A questão é que elas estão se aproximando da linha de chegada. Algumas pessoas, como a vovó Lourdes, o vovô Crotti, a tia Alice, o tio Chiquinho, o tio Agenor, o tio Antônio, o tio Joaquim, a tia Augusta e o tio Luís já ultrapassaram a linha de chegada. A criança e o adolescente que fui também já não existem mais, e deles eu também sinto saudade. As músicas fazem-me lembrar de situações em que essas pessoas estavam vivas.
Mas não é só isso. Hoje eu olho para os meus pais e para os meus avós e vejo o quanto eles sentiram os anos que se passaram desde que eu e minha irmã nascemos. As dores começam a acumular-me e os remédios e suas doses  vão aumentando gradativamente. Com isso, tarefas simples para eles vão aos poucos se tornando grandes vitórias quando ainda são executadas.
Olho para o papai e vejo os cabelos e pêlos brancos tomando conta de seu corpo. O homem bravo e enérgico, que tanto cobrou de mim, agora caminha com dificuldade devido a um esporão. Seus braços, que há exatos 20 anos levantavam 60 kg cada um e que eu não conseguia derrubar nem mesmo com os dois braços, mal conseguem segurar os 12 kg do Miguel. Sofrendo com a diabetes, ele se viu sem forças para exercer sua profissão de caminhoneiro e vendeu seu caminhão. Ele, que passava até 70 dias longe de casa, viajando pelas estradas em busca do nosso sustento, permanece agora o dia todo no sofá, entediado, assistindo aos programas da Discovery Channel.
Minha mamãe, sempre guerreira, hoje sente as dores dos anos castigando-lhe o corpo. Os anos tirando água de cisterna em Quirinópolis-GO e as décadas lavando roupa e costurando trouxeram-lhe uma dormência terrível a seus braços. Ainda é uma mulher forte, que não se entrega, que dorme poucas horas de sono e acaba fazendo sempre mais do que realmente agüentaria. Isso certamente eu herdei dela... Quantas noites ela não acordava para abrir o portão quando eu voltava das noites de sábado. Foram quatro anos me buscando e me levando no ponto de ônibus para ir e voltar da faculdade, e mais seis me levando até a rodoviária para ir para Ribeirão Preto, onde eu passava a semana estudando. Quanto cuidado ela tinha ao preparar-me o leite e o pão com manteiga antes de dormir...
 Olho para o vovô Miller e me lembro das vezes em que eu, ainda uma criança, o puxava pelas mãos pelo quintal de nossa casa, lá em Quirinópolis-GO, para que ele me ajudasse a encontrar velhas pilhas de rádio – que eu fazia de conta que eram botijões de gás. Quando as encontrávamos, as colocávamos nos enormes caminhões de madeira que ele mesmo havia feito ao canivete. Lembro das inúmeras vezes que ele me levava na garupa de sua bicicleta Gorike até a sua casa, pra eu brincar com o Marquinho. Quando eu ia ao catecismo, eu o procurava pela praça, onde ele trabalhava como jardineiro. Não raramente ele achava algum brinquedo perdido e guardava pra dar-me de presente.
Olho para a vovó Maria e para a titia Ângela e me recordo dos almoços de domingo na casa delas. Havia sempre uma Coca-Cola “litro” e uma garrafa de guaraná maçã (Don). Após o almoço nós brincávamos de torrinha. Elas, a mamãe, o vovô, eu e a “fia”, minha irmã. Lembro também das noites de Natal em que eu lá passava à espera dos presentes. A vovó ainda faz as bolachinhas de nata e o delicioso bolo “pão-de-ló”. Ainda hoje, quando vou à tarde até a casa delas, ainda sinto o mesmo cheiro...
Todas essas lembranças tornam os momentos com cada um deles especial e único. E quando me aproximo deles sinto o quanto sou privilegiado por ainda tê-los, vivos, sãos e saudáveis. Isso certamente está acontecendo comigo por agora ser também pai. Olho para o Miguel e lembro-me de mim mesmo quando tinha aquela idade. É aí que eu vejo o quanto o tempo passa. E que a vida é uma roda gigante, que tem seus altos e baixos, e que após incontáveis voltas, vai parar pra que cada um de nós seja obrigado a descer. 

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