sábado, 24 de novembro de 2012

Crônica 13: Quem muito quer acaba ficando sem nada


Valdir era o que se podia chamar de bom exemplo. De família pobre, sempre foi muito estudioso. O sentimento que as moças nutriam por ele era o mesmo que a maioria nutre por homens pobres, tímidos e pouco abençoados em beleza: indiferença. Valdir encantava-se com a beleza das mulheres. Gastava boa parte do dinheiro de seu salário como office boy com rosas, sempre acompanhadas de poemas que ele mesmo escrevia. Em tempos em que o romantismo era coisa do passado, a maioria das moças achava aquilo ridículo. Ele ficava inconformado. Demorou pra entender que lhe faltava algo que o tornaria um homem mais interessante. Não bastava ser atencioso ou inteligente. O fato de beber e não fumar, na verdade, pesavam contra ele. Era preciso ter dinheiro.
Valdir então concentrou-se nos estudos. Ano após ano ele se destacava como o melhor aluno de suas turmas. Mas as mulheres nunca o notavam. Pelo contrário: elas pareciam gostar daqueles que menos estudavam. Interiormente, uma revolta enorme ia tomando conta de Valdir. “Elas não perdem por esperar”, dizia ele para si mesmo.
Os anos foram se passando. Valdir acabou tornando-se uma pessoa muito religiosa. Passou a freqüentar a igreja duas vezes por semana. Quando se ajoelhava, sempre pedia forças para vencer na vida. Eis que em uma missa de domingo que ele conheceu Tatiane, uma moça tímida, bem educada e estudiosa. Enfim, era a versão feminina de Valdir. Tatiane não era uma moça de parar o trânsito, mas tinha um lindo sorriso e era extremamente simpática. Os dois começaram a namorar. “Vamos ver no que vai dar”, pensavam.
Após cinco anos de namoro, Valdir e Tatiane se casaram. Tinham construído sua casa própria, possuíam bens e bons empregos. Valdir tornara-se gerente de uma grande empresa; Tatiane tornara-se uma decoradora de renome. Mas Valdir sentia que as coisas com Tatiane eram “mornas”. Ao invés de lingerie, ela vestia enormes calcinhas bege. Na noite de núpcias, ambos descobriram que eram virgens. Ao invés de ficar feliz, como faziam os homens de outros tempos, Valdir lamentava que Tatiane tivesse se casado virgem. Queria uma mulher mais experiente, do tipo daquelas que ele desejou durante sua adolescência.
Certo dia, após alguns anos de casamento, os colegas de gerência da empresa onde Valdir trabalhava convidaram-no para ir a uma casa de “diversão”. Todos eram casados, então Valdir não viu por que não ir. “Não deve ter problema”, pensou consigo mesmo. Quando chegaram na tal “casa”, Valdir foi logo abordado por uma mulher morena, que trajava apenas uma lingerie e um chapeuzinho. Seu coração veio à boca. Vendo-o paralisado, a mulher arrebatou-lhe um beijo “arrasta-quarteirões”, quase deixando-o sem pernas. Após isso, pegou nas mãos dele e colocou-as sobre seus seios. “Você gosta deles? Eles podem ser seus, se você quiser”.
Foi a primeira noite em que Valdir chegou de madrugada em casa. Tatiane o aguardava com a longa camisola de sempre. “Meu amor, onde você esteve? Eu estava preocupada! Ta tudo bem?” Valdir seguiu em direção ao quarto sem dizer uma palavra sequer.
Na noite seguinte, Valdir retornou ao local em busca da morena com quem ficara na noite anterior. Ao vê-lo, ela seguiu em direção a ele e agarrou-o pela gravata. “Que bom que você veio. Eu estava esperando por você...”
Após quinze “consultas” consecutivas com a tal morena, as coisas começaram a ficar tensas entre Valdir e Tatiane. Ela começou a desconfiar do esposo quando ligou no escritório e ninguém atendeu. A mentira de que estava trabalhando até tarde já não mais colava. Por outro lado, Valdir encontrava-se “de quatro” pela tal morena. Pensava nela o dia inteiro, contando os minutos para poder vê-la à noite. Descontrolado, ele passou a visitar a tal morena da “casa de diversão” inclusive durante o dia. Ele estava... apaixonado.
Já se passavam dois meses de visitas diurnas quando Valdir, em uma dessas visitas, encontrou a morena aos “amassos” com outro cliente. Ele descontrolou-se. Partiu para cima do homem, um senhor com mais de 60 anos, e o expulsou dali. Tatiane estava enfurecida. “Quem você pensa que é? Você acha que é meu dono só porque transamos algumas vezes?” Valdir estava descontrolado. “Eu preciso te tirar daqui. Quero você só pra mim!” Aquele discurso despertou risos na morena. “Coitado! Você acha que pode me sustentar? Quanto você acha que eu ganho aqui, hein? Você ja-ma-is conseguiria sustentar-me e manter o nível de vida que levo trabalhando aqui!”. Valdir retrucou: “Pois a partir de hoje você é minha mulher. Pegue suas coisas. Vou alugar um apartamento para você.” E pegando a mulher pelos braços, colocou-a no carro da empresa e seguiu para uma imobiliária. Lá alugou um apartamento de luxo para a morena. Em seguida, rumou em direção a uma butique e comprou as roupas mais caras para ela. Estranhamente, era algo que ele nunca havia feito para Tatiane, a mulher que estava ao seu lado há anos. Quando voltaram ao apartamento que alugaram, Valdir e a morena permaneceram no quarto durante quatro horas. A morena, envolta em jóias, despediu-se de Valdir, que precisava retornar ao trabalho.
Quando a porta do elevador do andar onde Valdir trabalhava, ele avistou sua mulher e seu chefe. Tatiane colocara um detetive para investigar o marido. Seu chefe estava possesso, pois ele havia permanecido o dia todo longe do trabalho, tendo usado o carro da empresa para fins particulares. “Valdir, há um bilhete sobre sua mesa. É sua carta de demissão. Quero você e suas coisas fora desta empresa ainda hoje”, disse seu chefe, tentando conter-se. Tatiane completou: “Na verdade, há dois envelopes. O outro é o meu pedido de divórcio.” Com semblante fechado e extremamente irritado, Valdir foi amontoando suas coisas e amaldiçoando os dois. “Vão para os quintos dos infernos vocês dois!”
Quando retornou ao apartamento que havia alugado para a morena, Valdir tentou fingir que estava tudo bem. Ajeitou a gravata e tentou colocar um sorriso no rosto. Quando abriu a porta, haviam dois homens “engalfinhados” a ela. Valdir desfez o sorriso, sem reação. Fechou a porta e seguiu para o corredor. Mil coisas lhe passavam pela cabeça, mas nenhuma conseguia explicar suas atitudes nos últimos meses. Ele acabara de jogar sua vida pelo ralo. Perdera seu emprego, perdera a esposa, perdera seus bens. E ao deparar-se com aquela cena, percebeu que tinha perdido o respeito por si mesmo. Com que tipo de mulher ele fora envolver-se?
Enquanto Tatiane seguia arrasada em direção ao advogado para acertar os detalhes do divórcio, ouviu um barulho intenso e uma multidão correndo. Esparramado sobre a calçada estava o corpo de Valdir. Ou o que restou dele.
Moral da história: quem muito quer, acaba ficando sem nada. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Carta para ler daqui a 30 anos


Meu querido filho,
Enquanto escrevo esta carta você está aqui ao meu lado, de pé. Você tem pouco mais que 80 cm e, por isso, não consegue enxergar meus dedos tocando nas teclas do notebook. Daqui a 30 anos, quando você realmente entender o que eu sinto neste momento, será difícil você acreditar que um dia foi tão pequeno, e que um dia existiu um notebook. Você provavelmente entenderá o sentido dessas palavras bem mais cedo – pelo menos é o que eu desejo... – porém você só virá a entender algumas coisas que aqui escreverei quando você for pai.
Se você quiser ler essa carta antes, tudo bem. Se o fizer, infelizmente você não entenderá o sentimento embutido nessas palavras, principalmente se você for adolescente. Neste caso, pode ser que você sinta vergonha por eu ter montado este blog pra você e seu irmão (ou irmã), que, espero eu, você venha a ter. “Que ideia ridícula é essa que o senhor teve de deixar essas coisas registradas em um blog?” A maioria dos adolescentes é assim mesmo. Sente vergonha dos pais e da família. Colegas são tudo o que importa, por mais idiotas e ridículos que eles sejam. Mas não se preocupe, filho. Há muito tempo atrás eu já fui um adolescente, e embora não tenha sido rebelde, não ter respondido para os meus pais e não ter sentido vergonha deles em nenhum momento, havia coisas que o seu vovô Altair me dizia que me deixavam nervoso. Coisas do tipo “Você não tem amigos; seu único amigo sou eu”; “Primeiro vem a obrigação; depois, a diversão”; “Um homem não pode ter preguiça pra nada nessa vida”; “Faça bem feito e fará uma vez só”. Eu não gostava de ajudá-lo a lavar o caminhão ou a lona. Eu queria apenas brincar e ficar com meus colegas. Naquela época, essas palavras pareciam-me sem sentido, mas se eu as disse a você, é porque entendi o que seu vovô queria dizer com as frases “É para o seu próprio bem” e “Você ainda vai me agradecer”.
Se você já for adulto, meu filho, eu desejo que a esta altura da vida esteja feliz. Não posso idealizar a sua vida; apenas desejo que esteja feliz. Somos de gerações diferentes, e o modelo de felicidade que escolhi – trabalho e família – pode não ter sido adotado por você. De qualquer forma, se você a esta altura casou-se e já for pai, você vai entender as palavras a seguir.
Hoje você tem um ano, seis meses e alguns dias. O tempo tem voado desde que você nasceu. Parece que ontem mesmo eu estava andando pela cada de madrugada com você nos braços, embrulhado em sua manta, chacoalhando-o pra que você pegasse no sono. No início eu e sua mamãe, pais de primeira viagem, demoramos pra entender que você sentia muito frio. Nos primeiros meses não deixamos você no berço, pois tínhamos medo de que algo acontecesse. Até compramos uma babá eletrônica, mas ela não funcionou... Preferimos coloca-lo no carrinho, ao lado da nossa cama. Sua mamãe acordava a qualquer mexida sua no carrinho. Eu dormia feito uma pedra.

O tempo foi passando e nós nos sentimos seguros pra deixa-lo no berço. Nesse período, sua mamãe era quem dormia pesado. Ao primeiro chorinho eu acordava correndo e ia colocar a chupeta. Você sempre foi um bebê bonzinho, nem refluxo teve.
Aos quatro meses de idade nós o batizamos. No dia do seu batismo o padre atrasou-se mais de uma hora, pois tivera que sair para dar uma extrema unção... Foi uma cerimônia muito emocionante. Fizemos um almoço para comemorar. O dia do seu batismo foi o último dia em que conseguimos reunir todos os seus tios e tias maternos. Da família do papai vieram seus bisavós Maria e Antônio, tia Ângela, tia Nice e tio Válter, sua madrinha Hérica, seu padrinho Alexandre e sua priminha Clara, a quem você chamava de “Tata”. Seu vovô Altair fez um churrasco para comemorar.

Meses depois veio o Natal. Foi a primeira vez que montei a árvore com você conosco. Você estava ainda no carrinho enquanto eu decorava a árvore. Colocamos o aparelho de som na varanda pra ouvirmos música. Era uma noite quente. Eu e sua mamãe estávamos muito felizes por tê-lo conosco. Lembramos que no ano anterior você estava ainda na barriga da mamãe...

Na metade de janeiro de 2012, quando você já tinha oito meses, nós decidimos fazer uma viagem em família para Quirinópolis-GO, onde seus avós, eu e sua madrinha Hérica moramos durante seis anos. Foi muito emocionante vê-lo passando pelos mesmos lugares que eu passei quando eu tinha a sua idade. Muitas vezes eu me flagrei com os olhos cheios de lágrimas de tanta emoção. Todos diziam que você era muito parecido comigo quando tinha a sua idade. Quanto a você, não havia alguém que você estranhasse. Sempre receptivo, você ia nos braços de quem te convidasse. Você andou à cavalo com sua priminha Tata. Eu senti tanto orgulho de você...

No final de fevereiro você nos passou um susto. Durante mais de uma semana uma febre terrível abateu-se sobre você. À noite você acordava, chorando, queimando em febre. Nós te pegávamos no colo e você urrava de tanta dor. No domingo, levamos você a um plantonista. Ele mal examinou você e disse que era a garganta, receitando então um antibiótico. Não surgiu muito efeito, pois você jogava fora todo o remédio que colocávamos em sua boca. Mas a febre continuava. Na segunda-feira procuramos uma médica. Ela receitou cinco injeções e disse que você estava com infecção. A febre insistia, mesmo após a terceira injeção. Procuramos então o doutor Estevão, o pediatra que cuidou de mim quando criança. Ele o examinou com cuidado e diagnosticou meningite. Quando ele foi fazer a punção para confirmar, você sentiu tanta dor que chegou a fazer coco... Sua mamãe e eu choramos bastante. Tia Ângela quase desmaiou de tanto chorar. Você então ficou internado durante quase 10 dias. Foi um período difícil, porque o papai não podia ficar junto. Além disso, naquela época surgiu uma oportunidade de concurso para o papai, e eu não podia desperdiçar. Mesmo doentinho, você se mantinha alegre. O doutor dizia que você nem parecia que estava doente...

Passado o susto, você saiu do hospital e voltou para casa curado, graças a Deus. Em poucos dias você começou a arrastar-se pelo chão. Era a sua forma de gatinhar. A cada dia que se passava você ficava mais lindo...
Em maio fizemos uma linda festa para comemorar o seu primeiro aniversário. Pedi para reformar o tratorzinho que era meu quando criança, pra que você pudesse andar nele durante a festa. Você e eu vestimos camisas idênticas, feitas pela sua vovó Carminha. Nós dois usamos botinas. Foi uma festa linda! Quando fomos cantar parabéns, eu não conseguia parar de te olhar e agradecer a Deus por ter você em nossas vidas...


No mês de junho fomos à nossa primeira festa junina. Foi em Orlândia-SP, promovida pela escola em que a sua mamãe leciona. Você ficou lindo de chapeuzinho de palha!

Em julho nós fizemos nossa primeira viagem sozinhos. Eu, você e a sua mamãe fomos para Poços de Caldas-MG. Lá você deu um show à parte. Todas as senhoras que estavam no hotel vinham até a nossa mesa pra admirar você. Você acenava pra todas elas e ria o tempo todo. Durante as refeições a gente se sentava em frente ao músico. Todas as vezes você acenava para ele e começava a balançar as mãos. No último dia de estadia no hotel ele veio até a nossa mesa pra te conhecer pessoalmente. Também brincamos um pouco na areia do parque. No início você ficou meio tímido, mas você acabou gostando e deu o maior trabalho pra ir embora...

Em agosto comemorei o meu segundo dia dos pais. Almoçamos na casa da bisavó Maria. Vovô Sebastião também foi. Tiramos uma foto do "clube do Bolinha" pra deixar registrado este dia tão especial.

Nos meses que se seguiram você se desenvolveu de maneira extraordinária. Começou a falar “Papai” e “mamãe”, fazer sons de gato (“miau”), cachorro (“au”), pombinha (“tu-tu-tu”) e galinho (“clu-clu”). Passou a mandar beijos, a levantar a camisa e a mostrar o “barrigão”. Em todos os lugares que íamos as pessoas te chamavam pelo nome. Você era muito sociável e amigável. Mandava beijos e acenava pra todo mundo. Seus avós Carminha e Altair morriam de orgulho de você. Eles foram os primeiros a leva-lo ao supermercado. Vovô Altair insistia: “Esse aí é macho! Esse é dos meus!”, inflamava ele, todo orgulhoso de você. Seu bisavô Antônio comprou uma fardinha do São Paulo pra você. Ele quis que você fosse são-paulino como eu.
Uma das coisas que você mais gostava de fazer nessa idade era andar de bicicleta. Eu comprei uma cadeirinha e adaptei-a à bicicleta pra podermos passear pela cidade. Comprei também uma bicicleta para passearmos com a mamãe nos domingos de manhã. Era o nosso programa em família.

Enquanto termino essas palavras você está dormindo em nossa cama, ao lado da mamãe. Até 18 de novembro de 2012 você foi uma criança muito educada, simpática, alegre e, acima de tudo, muito carinhosa. O que mais chama a atenção é, de fato, o seu carinho. Você tem manifestações espontâneas de beijar-nos. Quando estou com você, você diz “papai” e me dá um beijo no rosto. Parece uma forma de agradecimento. Você já anda para todos os lados, já não é mais possível segurá-lo conosco. No entanto, você não é um menino mal-educado. É curioso, porém não mexe em nada. É obediente, principalmente com relação a mim. O que eu posso te dizer, meu filho, é que a vida hoje não teria muito sentido sem você. E se você for um adulto quando ler essas palavras, saiba que eu ainda o amo. Mas não se chateie quando eu disser “Eu amava tanto você...”. Porque as crianças são adoravelmente inocentes e ingênuas. Nós, ao longo da vida, vamos perdendo a ingenuidade e a inocência, talvez por uma questão de sobrevivência. Seu avô me dizia isso; eu agora te digo isso. E você, se as coisas tiverem seguido o rumo natural, certamente estará dizendo isso ao seu filho ou à sua filha.
Termino essa carta por aqui, meu filho. Preciso agora ir dormir. Antes, porém, darei um beijo na sua bochecha rosada e sentirei o cheirinho da sua nuca. Devo aproveitar meus dias o máximo com você. Porque em breve, se Deus quiser, e sem que eu perceba, você será um homem adulto. Então aquela criança que agora dorme conosco e o homem jovem que agora te escreve não mais existirão. Restará apenas um velho homem, aguardando por um abraço do filho que ele tanto amou desde os primeiros dias.
Eu te amo, meu filho. Eu sempre te amarei.

domingo, 11 de novembro de 2012

Crônica 12: Mulher tem que ser gostosa! Ou bonita?


Leonardo e Flávio eram amigos de infância. Estudaram nas mesmas classes durante o colégio e ensino médio, prestaram juntos o serviço militar e viajaram lado a lado no ônibus durante os quatro anos de faculdade. Apesar de tanta cumplicidade, os dois tinham personalidades bem diferentes e opiniões diferentes, principalmente no que diz respeito às mulheres. Flávio era um típico “nerd”. Era chamado de “bitolado” nos tempos de colégio. Filho de pais pobres e conservadores, sempre viu nos estudos uma oportunidade de vencer na vida. Era magro, tímido, usava óculos de grau. Discreto, era fácil para ele entrar e sair de um ambiente. Já Leonardo era o “boa pinta”. Filho de uma família tradicional, alto e com corpo mais atlético, ele era capitão do time de handebol da escola. Sempre foi um rapaz muito popular, benquisto por todos e muito brincalhão. Todos o queriam por perto.
Os dois amigos de longa data estavam naquela noite em busca de uma companhia feminina. Flávio saíra de um relacionamento curto e estava um pouco desapontado com as mulheres. Não se julgava um cara e sorte e achava que nunca encontraria sua outra metade. Já Leonardo havia tido várias metades. Não se prendia facilmente a uma única mulher. Sempre saía acompanhado de um bar, e no outro dia sempre tinha novas aventuras para contar sobre a noite anterior.
Após algumas horas lembrando fatos da infância, Leonardo avistou duas moças.
- Meu, olha aquela maravilha ali próxima àquele pilar! – exclamou Leonardo.
Flávio ajeitou os olhos e, discretamente, olhou para a direção indicada por Leonardo. Permaneceu quieto por alguns segundos.
- Meu, cê tá vendo o que eu tô vendo, cara?
Flávio permanecia quieto. Não conseguia dizer uma palavra. Parecia hipnotizado. Após a insistência do velho amigo, resolveu manifestar-se.
- Léo, você tem razão: que morena linda!
O amigo ficou inconformado.
- Cê tá louco, Flavim? Eu tô falando daquela loiraça popozuda, não da magrinha que está ao lado dela. Meu, olha o tamanho da bunda aquela mina! E aqueles peitos? Que mina gostosa!
- Eu tô pirado, sim, Léo, mas é naquela morena. Olha que rosto perfeito!
- Cê tá de sacanagem, né, Flavim? Quem quer saber de rosto, cara? A mulher tem que ter é peitos grandes, pernas grossas e uma bunda gigante. Na hora “H” é isso que importa! Rosto não atrapalha; você coloca um travesseiro ou apaga a luz, e tá tudo certo! E dando uma risada, colocou a mão sobre o ombro do amigo.
Flávio riu da reação do amigo.
- Você não tem jeito mesmo, seu maluco! Cara, essa loira aí nem é loira! Dá pra ver que o cabelo dela foi descolorido. Olha as raízes escuras! E esses peitos... Certeza que isso aí é silicone! E te falo mais: esse cabelo liso aí é chapinha.
- Porra, Flavim! Às vezes cê me deixa preocupado, mermão! Homem que é homem não fica reparando nessas coisas, não. Mulher que é mulher tem que ser é gostosa, e ponto final! Essa aí mesmo, entre quatro paredes, deve ser um espetáculo!
- O que eu tô querendo te dizer é que uma mulher bonita tem que ter o rosto bonito. O corpo cai com o tempo, cara. As "gostosonas" de hoje serão as obesas do futuro. É por isso que eu te falo: aquela morena ao lado da loira tá me deixando “caidaço”...
Os gostos daqueles dois amigos por mulheres sempre foram distintos. Talvez por isso fossem amigos há tantos anos. De repente, Leonardo teve uma idéia.
- Flavim, escuta só, cara: que que cê acha da gente chamar essas duas pra se sentarem aqui com a gente? A gente paga umas bebidas pra elas, troca umas idéias e se dá bem no fim da noite. Topa?
Flávio balançou a cabeça, como se não tivesse outra opção.
Muito descolado, Leonardo pegou um copo de cerveja, levantou-se e o esvaziou em poucos goles pra tomar coragem. Seguiu então em direção às duas moças, e com poucas palavras, convenceram-nas a irem se sentar à mesa com eles.
Nos minutos que se passaram, Leonardo iniciou uma conversa direta com a loira, chamada Tiffany. Elogiou seu cabelo, perguntou se ela era modelo. A loira ficou toda inchada. Flávio iniciou uma conversa leve com Juliana, a amiga morena de Tiffany. Era uma moça simpática. De perto era ainda mais encantadora.
Após pouco mais de 20 minutos de conversa, Léo levantou-se de mãos dadas com Tiffany, abriu a carteira, deixou uma nota de R$100,00 sobre a mesa e despediu-se do amigo, que já arrancava sorrisos de Juliana.
No dia seguinte, Leonardo ligou para Flávio.
- E aí, Flavim, beleza?
- Beleza, Léo! E aí, tudo jóia?
- Aqui tá tudo firmeza. Contaí: como foi a sua noite com a Juliana?
- Pô, minha noite terminou por volta das duas horas, quando deixei-a em casa.
- E aí, cê comeu ela?
Flávio riu da falta de jeito do amigo.
- A gente ficou. Demos uns amassos apenas. A gente tá namorando.
Léo ficou inconformado.
- Cara, só você mesmo... Você deve ser o único cara no mundo que ainda respeita as mulheres. Ainda vão achar que você é viado!
- E você, como foi com a Tiffany?
- Bom, se você quer saber, a noite foi maravilhosa!
- Vocês estão namorando também?
- Namorando? Cê tá é doido!
- Mas por quê? Você não tá me dizendo que a noite foi maravilhosa?
- Quando disse que a noite foi maravilhosa, tô querendo dizer que a gente transou muito.
- Tá, beleza. Mas, tipo, que horas você a levou em casa?
- Em casa? Léo, vou te contar, cara... Eu apaguei! Quando acordei no outro dia e olhei para o lado, levei um susto: a mulher estava com um tamanho de cabelo... A maquiagem dela tinha ido pros vinagres. Que mulher horrível! Tipo, ela até que é simpática, mas não dá nem pra olhar direito no rosto dela de tão feia...
- Ora, você não disse que mulher não tem que ser bonita, tem que ser gostosa?
- Mas ela é bonita. Só que só de corpo.
- Vocês vão ser ver de novo? Vai ligar pra ela?
- Cara, se eu topar com ela de novo na balada, pode até ser que role. Mas andar de mãos dadas com ela de dia não dá, não...
Flávio conteve o riso.
- Mas e a bunda dela? E os peitos?
- Cumpadi, eu sei onde você quer chegar: você quer que eu concorde com você, que um rosto bonito é fundamental em uma mulher, né?
- Não, Léo. O que estou querendo dizer é que um rosto bonito vai despertá-lo como um homem, e que um corpo bonito vai apenas despertar o animal que existe em você.
- Putz, lá vem você de novo com essas teorias baratas. Mulher tem que ser é gostosa e safada, cara!
Flávio riu.
- E por que é que na manhã seguinte você não olhou nos olhos da Tiffany e disse pra ela o quanto ela era gostosa?
Um silêncio se fez ao telefone. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O dia de finados e a maldição dos cunhados


8h30min. Paro o carro em frente à entrada lateral do cemitério. Débora, seus pais e o Miguel descem. Saio em procura de um lugar para estacionar o carro. O cemitério está lotado.
8h45min. Estamos à sombra da árvore do túmulo do Edvaldo, irmão da Débora. Enquanto ela e seus pais rezam e acendem as velas, eu tento tomar conta do Miguel. Ele vê as velas sendo acesas e começa a assoprar de longe. Quer apaga-las a qualquer custo. Ele quer subir nos túmulos. “Não pode, filho. Aí é a casinha de uma pessoa que foi para o céu”. Ele me olha com uma carinha de quem parece ter entendido, traz o pé de volta para o chão e começa a acenar para o túmulo, como se estivesse dizendo “tchau” para alguém.
9h10min. Débora, agora com o Miguel nos braços, segue em direção a mais um túmulo de sua família. Sua mãe segue na frente, acompanhada logo atrás pelo meu sogro. Aviso que ficarei para trás, para passar no túmulo de meus bisavós. Eu nunca gostei de vir ao cemitério. O túmulo de meus bisavós é o único que sei onde fica. Apóio-me sobre o calcanhar esquerdo e, agachado, olho para os quatro túmulos à minha frente. No da esquerda está enterrado meu tio Agenor Crotti. Há apenas um vaso, com flores vermelhas miúdas. Não há dele uma foto sequer. Tio Agenor não deixou filhos. O túmulo dele transparece descuidado. No túmulo à direita dele  foram velados meus bisavós José Crotti, Maria Borella Crotti e a tia Célia, filha deles. Na cabeceira do túmulo há uma planta rasteira aromática que me é familiar. Chamam-na de boldo. Seu nome científico é Plectranthus neochilus, uma espécie da família das Lamiáceas que produz óleo essencial. Eu me recordo como se fosse hoje da minha surpresa quando reconheci que aquela planta era a primeira que investiguei durante o meu projeto de pesquisa. Coincidência ou não, o óleo essencial daquela espécie deu bons resultados em todos os ensaios que fizemos. No interior da capela, à sua cabeceira, há apenas uma foto da tia Célia. No terceiro túmulo estão enterrados a tia Alice, o tio Joaquim e o “finado” Celsim, como eles costumavam chama-lo. Lá dentro avisto uma foto da querida tia Alice. Quanta saudade...
O túmulo mais à direita não está identificado. É um túmulo de azulejos e de mármore preto, que contrasta com os outros três, revestidos de pequenos pisos verdes rajados, muito usados nas décadas de 70 e 80. Neste túmulo foi enterrado meu tio Eduardo Borella. O vovô Válter Crotti, antes de falecer, disse que queria ser enterrado neste túmulo, e a vovó Lourdes, pelo que me lembro, disse que queria ser enterrada com o vovô Crotti. Aqui jazem os três, em um túmulo agora sem identificação. Sobre ele repousam alguns vasos, provavelmente deixados pelos seus filhos. Meu pai e cada um de meus tios jamais se esqueceram de meus avós, mas nunca mais se sentaram à mesma mesa para se lembrar deles juntos. Assim como ocorre com qualquer outra família, a morte dos pais representou o fim do elo que mantinha os filhos unidos.
Coloco-me então de pé e tento encontrar respostas para uma difícil questão: por que os filhos tendem a se distanciar após a morte dos pais? Parece-me que com a morte dos pais, os filhos passam a ver seus respectivos maridos ou esposas, e seus filhos, obviamente, como os entes mais importantes de suas vidas. O amor fraterno fica em segundo plano. Com isso, sem a postura conciliadora dos pais, a relação entre os irmãos passa a ser “envenenada” pela postura separatista dos cunhados e cunhadas. O amor entre os irmãos jamais deixará de existir, mas ele dificilmente voltará a se manifestar por influência dos cunhados e cunhadas. Muitas vezes o problema nem é entre os irmãos, mas entre os seus respectivos companheiros, que eventualmente se odeiam e acabam tornando-os inimigos mortais.
É triste pensar que algumas pessoas maldosas celebram o fato de estarem livres da família do companheiro(a) – no caso, dos pais falecidos e de seus cunhados, agora seus inimigos mortais durante ou após a disputa pela herança deixada por seus sogros. Em outras palavras, o dia de finados é o dia do fim nos mais diversos sentidos que a palavra pode ser usada. É um dia de tristeza e de perdas. Não há mesmo nada a ser celebrado.