domingo, 18 de novembro de 2012

Carta para ler daqui a 30 anos


Meu querido filho,
Enquanto escrevo esta carta você está aqui ao meu lado, de pé. Você tem pouco mais que 80 cm e, por isso, não consegue enxergar meus dedos tocando nas teclas do notebook. Daqui a 30 anos, quando você realmente entender o que eu sinto neste momento, será difícil você acreditar que um dia foi tão pequeno, e que um dia existiu um notebook. Você provavelmente entenderá o sentido dessas palavras bem mais cedo – pelo menos é o que eu desejo... – porém você só virá a entender algumas coisas que aqui escreverei quando você for pai.
Se você quiser ler essa carta antes, tudo bem. Se o fizer, infelizmente você não entenderá o sentimento embutido nessas palavras, principalmente se você for adolescente. Neste caso, pode ser que você sinta vergonha por eu ter montado este blog pra você e seu irmão (ou irmã), que, espero eu, você venha a ter. “Que ideia ridícula é essa que o senhor teve de deixar essas coisas registradas em um blog?” A maioria dos adolescentes é assim mesmo. Sente vergonha dos pais e da família. Colegas são tudo o que importa, por mais idiotas e ridículos que eles sejam. Mas não se preocupe, filho. Há muito tempo atrás eu já fui um adolescente, e embora não tenha sido rebelde, não ter respondido para os meus pais e não ter sentido vergonha deles em nenhum momento, havia coisas que o seu vovô Altair me dizia que me deixavam nervoso. Coisas do tipo “Você não tem amigos; seu único amigo sou eu”; “Primeiro vem a obrigação; depois, a diversão”; “Um homem não pode ter preguiça pra nada nessa vida”; “Faça bem feito e fará uma vez só”. Eu não gostava de ajudá-lo a lavar o caminhão ou a lona. Eu queria apenas brincar e ficar com meus colegas. Naquela época, essas palavras pareciam-me sem sentido, mas se eu as disse a você, é porque entendi o que seu vovô queria dizer com as frases “É para o seu próprio bem” e “Você ainda vai me agradecer”.
Se você já for adulto, meu filho, eu desejo que a esta altura da vida esteja feliz. Não posso idealizar a sua vida; apenas desejo que esteja feliz. Somos de gerações diferentes, e o modelo de felicidade que escolhi – trabalho e família – pode não ter sido adotado por você. De qualquer forma, se você a esta altura casou-se e já for pai, você vai entender as palavras a seguir.
Hoje você tem um ano, seis meses e alguns dias. O tempo tem voado desde que você nasceu. Parece que ontem mesmo eu estava andando pela cada de madrugada com você nos braços, embrulhado em sua manta, chacoalhando-o pra que você pegasse no sono. No início eu e sua mamãe, pais de primeira viagem, demoramos pra entender que você sentia muito frio. Nos primeiros meses não deixamos você no berço, pois tínhamos medo de que algo acontecesse. Até compramos uma babá eletrônica, mas ela não funcionou... Preferimos coloca-lo no carrinho, ao lado da nossa cama. Sua mamãe acordava a qualquer mexida sua no carrinho. Eu dormia feito uma pedra.

O tempo foi passando e nós nos sentimos seguros pra deixa-lo no berço. Nesse período, sua mamãe era quem dormia pesado. Ao primeiro chorinho eu acordava correndo e ia colocar a chupeta. Você sempre foi um bebê bonzinho, nem refluxo teve.
Aos quatro meses de idade nós o batizamos. No dia do seu batismo o padre atrasou-se mais de uma hora, pois tivera que sair para dar uma extrema unção... Foi uma cerimônia muito emocionante. Fizemos um almoço para comemorar. O dia do seu batismo foi o último dia em que conseguimos reunir todos os seus tios e tias maternos. Da família do papai vieram seus bisavós Maria e Antônio, tia Ângela, tia Nice e tio Válter, sua madrinha Hérica, seu padrinho Alexandre e sua priminha Clara, a quem você chamava de “Tata”. Seu vovô Altair fez um churrasco para comemorar.

Meses depois veio o Natal. Foi a primeira vez que montei a árvore com você conosco. Você estava ainda no carrinho enquanto eu decorava a árvore. Colocamos o aparelho de som na varanda pra ouvirmos música. Era uma noite quente. Eu e sua mamãe estávamos muito felizes por tê-lo conosco. Lembramos que no ano anterior você estava ainda na barriga da mamãe...

Na metade de janeiro de 2012, quando você já tinha oito meses, nós decidimos fazer uma viagem em família para Quirinópolis-GO, onde seus avós, eu e sua madrinha Hérica moramos durante seis anos. Foi muito emocionante vê-lo passando pelos mesmos lugares que eu passei quando eu tinha a sua idade. Muitas vezes eu me flagrei com os olhos cheios de lágrimas de tanta emoção. Todos diziam que você era muito parecido comigo quando tinha a sua idade. Quanto a você, não havia alguém que você estranhasse. Sempre receptivo, você ia nos braços de quem te convidasse. Você andou à cavalo com sua priminha Tata. Eu senti tanto orgulho de você...

No final de fevereiro você nos passou um susto. Durante mais de uma semana uma febre terrível abateu-se sobre você. À noite você acordava, chorando, queimando em febre. Nós te pegávamos no colo e você urrava de tanta dor. No domingo, levamos você a um plantonista. Ele mal examinou você e disse que era a garganta, receitando então um antibiótico. Não surgiu muito efeito, pois você jogava fora todo o remédio que colocávamos em sua boca. Mas a febre continuava. Na segunda-feira procuramos uma médica. Ela receitou cinco injeções e disse que você estava com infecção. A febre insistia, mesmo após a terceira injeção. Procuramos então o doutor Estevão, o pediatra que cuidou de mim quando criança. Ele o examinou com cuidado e diagnosticou meningite. Quando ele foi fazer a punção para confirmar, você sentiu tanta dor que chegou a fazer coco... Sua mamãe e eu choramos bastante. Tia Ângela quase desmaiou de tanto chorar. Você então ficou internado durante quase 10 dias. Foi um período difícil, porque o papai não podia ficar junto. Além disso, naquela época surgiu uma oportunidade de concurso para o papai, e eu não podia desperdiçar. Mesmo doentinho, você se mantinha alegre. O doutor dizia que você nem parecia que estava doente...

Passado o susto, você saiu do hospital e voltou para casa curado, graças a Deus. Em poucos dias você começou a arrastar-se pelo chão. Era a sua forma de gatinhar. A cada dia que se passava você ficava mais lindo...
Em maio fizemos uma linda festa para comemorar o seu primeiro aniversário. Pedi para reformar o tratorzinho que era meu quando criança, pra que você pudesse andar nele durante a festa. Você e eu vestimos camisas idênticas, feitas pela sua vovó Carminha. Nós dois usamos botinas. Foi uma festa linda! Quando fomos cantar parabéns, eu não conseguia parar de te olhar e agradecer a Deus por ter você em nossas vidas...


No mês de junho fomos à nossa primeira festa junina. Foi em Orlândia-SP, promovida pela escola em que a sua mamãe leciona. Você ficou lindo de chapeuzinho de palha!

Em julho nós fizemos nossa primeira viagem sozinhos. Eu, você e a sua mamãe fomos para Poços de Caldas-MG. Lá você deu um show à parte. Todas as senhoras que estavam no hotel vinham até a nossa mesa pra admirar você. Você acenava pra todas elas e ria o tempo todo. Durante as refeições a gente se sentava em frente ao músico. Todas as vezes você acenava para ele e começava a balançar as mãos. No último dia de estadia no hotel ele veio até a nossa mesa pra te conhecer pessoalmente. Também brincamos um pouco na areia do parque. No início você ficou meio tímido, mas você acabou gostando e deu o maior trabalho pra ir embora...

Em agosto comemorei o meu segundo dia dos pais. Almoçamos na casa da bisavó Maria. Vovô Sebastião também foi. Tiramos uma foto do "clube do Bolinha" pra deixar registrado este dia tão especial.

Nos meses que se seguiram você se desenvolveu de maneira extraordinária. Começou a falar “Papai” e “mamãe”, fazer sons de gato (“miau”), cachorro (“au”), pombinha (“tu-tu-tu”) e galinho (“clu-clu”). Passou a mandar beijos, a levantar a camisa e a mostrar o “barrigão”. Em todos os lugares que íamos as pessoas te chamavam pelo nome. Você era muito sociável e amigável. Mandava beijos e acenava pra todo mundo. Seus avós Carminha e Altair morriam de orgulho de você. Eles foram os primeiros a leva-lo ao supermercado. Vovô Altair insistia: “Esse aí é macho! Esse é dos meus!”, inflamava ele, todo orgulhoso de você. Seu bisavô Antônio comprou uma fardinha do São Paulo pra você. Ele quis que você fosse são-paulino como eu.
Uma das coisas que você mais gostava de fazer nessa idade era andar de bicicleta. Eu comprei uma cadeirinha e adaptei-a à bicicleta pra podermos passear pela cidade. Comprei também uma bicicleta para passearmos com a mamãe nos domingos de manhã. Era o nosso programa em família.

Enquanto termino essas palavras você está dormindo em nossa cama, ao lado da mamãe. Até 18 de novembro de 2012 você foi uma criança muito educada, simpática, alegre e, acima de tudo, muito carinhosa. O que mais chama a atenção é, de fato, o seu carinho. Você tem manifestações espontâneas de beijar-nos. Quando estou com você, você diz “papai” e me dá um beijo no rosto. Parece uma forma de agradecimento. Você já anda para todos os lados, já não é mais possível segurá-lo conosco. No entanto, você não é um menino mal-educado. É curioso, porém não mexe em nada. É obediente, principalmente com relação a mim. O que eu posso te dizer, meu filho, é que a vida hoje não teria muito sentido sem você. E se você for um adulto quando ler essas palavras, saiba que eu ainda o amo. Mas não se chateie quando eu disser “Eu amava tanto você...”. Porque as crianças são adoravelmente inocentes e ingênuas. Nós, ao longo da vida, vamos perdendo a ingenuidade e a inocência, talvez por uma questão de sobrevivência. Seu avô me dizia isso; eu agora te digo isso. E você, se as coisas tiverem seguido o rumo natural, certamente estará dizendo isso ao seu filho ou à sua filha.
Termino essa carta por aqui, meu filho. Preciso agora ir dormir. Antes, porém, darei um beijo na sua bochecha rosada e sentirei o cheirinho da sua nuca. Devo aproveitar meus dias o máximo com você. Porque em breve, se Deus quiser, e sem que eu perceba, você será um homem adulto. Então aquela criança que agora dorme conosco e o homem jovem que agora te escreve não mais existirão. Restará apenas um velho homem, aguardando por um abraço do filho que ele tanto amou desde os primeiros dias.
Eu te amo, meu filho. Eu sempre te amarei.

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a sua iniciativa de escrever o blog, e tenho certeza que seu filho adorará ler essas histórias! Parabéns
Thaynara, SP.

Virginia RACCO disse...

Muito legal! Me inspirou a fazer o mesmo. Fotos contam histórias, mas às vezes, se deslocam da época real. Juntas com sentimentos, com certeza, terão muito mais vida! Parabéns!👋👋👋