sábado, 24 de novembro de 2012

Crônica 13: Quem muito quer acaba ficando sem nada


Valdir era o que se podia chamar de bom exemplo. De família pobre, sempre foi muito estudioso. O sentimento que as moças nutriam por ele era o mesmo que a maioria nutre por homens pobres, tímidos e pouco abençoados em beleza: indiferença. Valdir encantava-se com a beleza das mulheres. Gastava boa parte do dinheiro de seu salário como office boy com rosas, sempre acompanhadas de poemas que ele mesmo escrevia. Em tempos em que o romantismo era coisa do passado, a maioria das moças achava aquilo ridículo. Ele ficava inconformado. Demorou pra entender que lhe faltava algo que o tornaria um homem mais interessante. Não bastava ser atencioso ou inteligente. O fato de beber e não fumar, na verdade, pesavam contra ele. Era preciso ter dinheiro.
Valdir então concentrou-se nos estudos. Ano após ano ele se destacava como o melhor aluno de suas turmas. Mas as mulheres nunca o notavam. Pelo contrário: elas pareciam gostar daqueles que menos estudavam. Interiormente, uma revolta enorme ia tomando conta de Valdir. “Elas não perdem por esperar”, dizia ele para si mesmo.
Os anos foram se passando. Valdir acabou tornando-se uma pessoa muito religiosa. Passou a freqüentar a igreja duas vezes por semana. Quando se ajoelhava, sempre pedia forças para vencer na vida. Eis que em uma missa de domingo que ele conheceu Tatiane, uma moça tímida, bem educada e estudiosa. Enfim, era a versão feminina de Valdir. Tatiane não era uma moça de parar o trânsito, mas tinha um lindo sorriso e era extremamente simpática. Os dois começaram a namorar. “Vamos ver no que vai dar”, pensavam.
Após cinco anos de namoro, Valdir e Tatiane se casaram. Tinham construído sua casa própria, possuíam bens e bons empregos. Valdir tornara-se gerente de uma grande empresa; Tatiane tornara-se uma decoradora de renome. Mas Valdir sentia que as coisas com Tatiane eram “mornas”. Ao invés de lingerie, ela vestia enormes calcinhas bege. Na noite de núpcias, ambos descobriram que eram virgens. Ao invés de ficar feliz, como faziam os homens de outros tempos, Valdir lamentava que Tatiane tivesse se casado virgem. Queria uma mulher mais experiente, do tipo daquelas que ele desejou durante sua adolescência.
Certo dia, após alguns anos de casamento, os colegas de gerência da empresa onde Valdir trabalhava convidaram-no para ir a uma casa de “diversão”. Todos eram casados, então Valdir não viu por que não ir. “Não deve ter problema”, pensou consigo mesmo. Quando chegaram na tal “casa”, Valdir foi logo abordado por uma mulher morena, que trajava apenas uma lingerie e um chapeuzinho. Seu coração veio à boca. Vendo-o paralisado, a mulher arrebatou-lhe um beijo “arrasta-quarteirões”, quase deixando-o sem pernas. Após isso, pegou nas mãos dele e colocou-as sobre seus seios. “Você gosta deles? Eles podem ser seus, se você quiser”.
Foi a primeira noite em que Valdir chegou de madrugada em casa. Tatiane o aguardava com a longa camisola de sempre. “Meu amor, onde você esteve? Eu estava preocupada! Ta tudo bem?” Valdir seguiu em direção ao quarto sem dizer uma palavra sequer.
Na noite seguinte, Valdir retornou ao local em busca da morena com quem ficara na noite anterior. Ao vê-lo, ela seguiu em direção a ele e agarrou-o pela gravata. “Que bom que você veio. Eu estava esperando por você...”
Após quinze “consultas” consecutivas com a tal morena, as coisas começaram a ficar tensas entre Valdir e Tatiane. Ela começou a desconfiar do esposo quando ligou no escritório e ninguém atendeu. A mentira de que estava trabalhando até tarde já não mais colava. Por outro lado, Valdir encontrava-se “de quatro” pela tal morena. Pensava nela o dia inteiro, contando os minutos para poder vê-la à noite. Descontrolado, ele passou a visitar a tal morena da “casa de diversão” inclusive durante o dia. Ele estava... apaixonado.
Já se passavam dois meses de visitas diurnas quando Valdir, em uma dessas visitas, encontrou a morena aos “amassos” com outro cliente. Ele descontrolou-se. Partiu para cima do homem, um senhor com mais de 60 anos, e o expulsou dali. Tatiane estava enfurecida. “Quem você pensa que é? Você acha que é meu dono só porque transamos algumas vezes?” Valdir estava descontrolado. “Eu preciso te tirar daqui. Quero você só pra mim!” Aquele discurso despertou risos na morena. “Coitado! Você acha que pode me sustentar? Quanto você acha que eu ganho aqui, hein? Você ja-ma-is conseguiria sustentar-me e manter o nível de vida que levo trabalhando aqui!”. Valdir retrucou: “Pois a partir de hoje você é minha mulher. Pegue suas coisas. Vou alugar um apartamento para você.” E pegando a mulher pelos braços, colocou-a no carro da empresa e seguiu para uma imobiliária. Lá alugou um apartamento de luxo para a morena. Em seguida, rumou em direção a uma butique e comprou as roupas mais caras para ela. Estranhamente, era algo que ele nunca havia feito para Tatiane, a mulher que estava ao seu lado há anos. Quando voltaram ao apartamento que alugaram, Valdir e a morena permaneceram no quarto durante quatro horas. A morena, envolta em jóias, despediu-se de Valdir, que precisava retornar ao trabalho.
Quando a porta do elevador do andar onde Valdir trabalhava, ele avistou sua mulher e seu chefe. Tatiane colocara um detetive para investigar o marido. Seu chefe estava possesso, pois ele havia permanecido o dia todo longe do trabalho, tendo usado o carro da empresa para fins particulares. “Valdir, há um bilhete sobre sua mesa. É sua carta de demissão. Quero você e suas coisas fora desta empresa ainda hoje”, disse seu chefe, tentando conter-se. Tatiane completou: “Na verdade, há dois envelopes. O outro é o meu pedido de divórcio.” Com semblante fechado e extremamente irritado, Valdir foi amontoando suas coisas e amaldiçoando os dois. “Vão para os quintos dos infernos vocês dois!”
Quando retornou ao apartamento que havia alugado para a morena, Valdir tentou fingir que estava tudo bem. Ajeitou a gravata e tentou colocar um sorriso no rosto. Quando abriu a porta, haviam dois homens “engalfinhados” a ela. Valdir desfez o sorriso, sem reação. Fechou a porta e seguiu para o corredor. Mil coisas lhe passavam pela cabeça, mas nenhuma conseguia explicar suas atitudes nos últimos meses. Ele acabara de jogar sua vida pelo ralo. Perdera seu emprego, perdera a esposa, perdera seus bens. E ao deparar-se com aquela cena, percebeu que tinha perdido o respeito por si mesmo. Com que tipo de mulher ele fora envolver-se?
Enquanto Tatiane seguia arrasada em direção ao advogado para acertar os detalhes do divórcio, ouviu um barulho intenso e uma multidão correndo. Esparramado sobre a calçada estava o corpo de Valdir. Ou o que restou dele.
Moral da história: quem muito quer, acaba ficando sem nada. 

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