sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O dia de finados e a maldição dos cunhados


8h30min. Paro o carro em frente à entrada lateral do cemitério. Débora, seus pais e o Miguel descem. Saio em procura de um lugar para estacionar o carro. O cemitério está lotado.
8h45min. Estamos à sombra da árvore do túmulo do Edvaldo, irmão da Débora. Enquanto ela e seus pais rezam e acendem as velas, eu tento tomar conta do Miguel. Ele vê as velas sendo acesas e começa a assoprar de longe. Quer apaga-las a qualquer custo. Ele quer subir nos túmulos. “Não pode, filho. Aí é a casinha de uma pessoa que foi para o céu”. Ele me olha com uma carinha de quem parece ter entendido, traz o pé de volta para o chão e começa a acenar para o túmulo, como se estivesse dizendo “tchau” para alguém.
9h10min. Débora, agora com o Miguel nos braços, segue em direção a mais um túmulo de sua família. Sua mãe segue na frente, acompanhada logo atrás pelo meu sogro. Aviso que ficarei para trás, para passar no túmulo de meus bisavós. Eu nunca gostei de vir ao cemitério. O túmulo de meus bisavós é o único que sei onde fica. Apóio-me sobre o calcanhar esquerdo e, agachado, olho para os quatro túmulos à minha frente. No da esquerda está enterrado meu tio Agenor Crotti. Há apenas um vaso, com flores vermelhas miúdas. Não há dele uma foto sequer. Tio Agenor não deixou filhos. O túmulo dele transparece descuidado. No túmulo à direita dele  foram velados meus bisavós José Crotti, Maria Borella Crotti e a tia Célia, filha deles. Na cabeceira do túmulo há uma planta rasteira aromática que me é familiar. Chamam-na de boldo. Seu nome científico é Plectranthus neochilus, uma espécie da família das Lamiáceas que produz óleo essencial. Eu me recordo como se fosse hoje da minha surpresa quando reconheci que aquela planta era a primeira que investiguei durante o meu projeto de pesquisa. Coincidência ou não, o óleo essencial daquela espécie deu bons resultados em todos os ensaios que fizemos. No interior da capela, à sua cabeceira, há apenas uma foto da tia Célia. No terceiro túmulo estão enterrados a tia Alice, o tio Joaquim e o “finado” Celsim, como eles costumavam chama-lo. Lá dentro avisto uma foto da querida tia Alice. Quanta saudade...
O túmulo mais à direita não está identificado. É um túmulo de azulejos e de mármore preto, que contrasta com os outros três, revestidos de pequenos pisos verdes rajados, muito usados nas décadas de 70 e 80. Neste túmulo foi enterrado meu tio Eduardo Borella. O vovô Válter Crotti, antes de falecer, disse que queria ser enterrado neste túmulo, e a vovó Lourdes, pelo que me lembro, disse que queria ser enterrada com o vovô Crotti. Aqui jazem os três, em um túmulo agora sem identificação. Sobre ele repousam alguns vasos, provavelmente deixados pelos seus filhos. Meu pai e cada um de meus tios jamais se esqueceram de meus avós, mas nunca mais se sentaram à mesma mesa para se lembrar deles juntos. Assim como ocorre com qualquer outra família, a morte dos pais representou o fim do elo que mantinha os filhos unidos.
Coloco-me então de pé e tento encontrar respostas para uma difícil questão: por que os filhos tendem a se distanciar após a morte dos pais? Parece-me que com a morte dos pais, os filhos passam a ver seus respectivos maridos ou esposas, e seus filhos, obviamente, como os entes mais importantes de suas vidas. O amor fraterno fica em segundo plano. Com isso, sem a postura conciliadora dos pais, a relação entre os irmãos passa a ser “envenenada” pela postura separatista dos cunhados e cunhadas. O amor entre os irmãos jamais deixará de existir, mas ele dificilmente voltará a se manifestar por influência dos cunhados e cunhadas. Muitas vezes o problema nem é entre os irmãos, mas entre os seus respectivos companheiros, que eventualmente se odeiam e acabam tornando-os inimigos mortais.
É triste pensar que algumas pessoas maldosas celebram o fato de estarem livres da família do companheiro(a) – no caso, dos pais falecidos e de seus cunhados, agora seus inimigos mortais durante ou após a disputa pela herança deixada por seus sogros. Em outras palavras, o dia de finados é o dia do fim nos mais diversos sentidos que a palavra pode ser usada. É um dia de tristeza e de perdas. Não há mesmo nada a ser celebrado. 

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