segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Do que eu vou me lembrar de 2012



Daqui a algumas horas 2012 terá ficado para trás. Foi um ano bastante marcante e intenso e que passou muito depressa. Esta é uma boa oportunidade – se não for a única, pois sei que este dia passará voando – para reflexão, sobre o que foi feito ou deixado de lado, sobre os acertos e os erros em mais um ano que vai existir apenas em lembranças.
Eu mal vi o início de 2012, e digo isso literalmente. Eu havia feito cirurgia para correção de miopia e ainda estava em fase de recuperação. Embora tenha sido uma das melhores coisas que podiam ter me acontecido na vida e que me daria uma visão quase idêntica a que eu tinha com óculos, foi algo que custou-me caro – e digo isso não me referindo a dinheiro. Passei as férias de janeiro corrigindo qualificações e relatórios, coisas que deveriam ter sido feitas em dezembro, mas que não puderam ser feitas por eu estar em fase de recuperação da cirurgia. Quando retornei das férias, passei mal devido ao estresse e à falta de descanso.
A melhor lembrança que guardarei do início do ano será, sem dúvida, a viagem a Quirinópolis-GO. Após oito anos, voltei com meus pais à cidade onde passei os seis primeiros anos de minha vida. Revi pessoas que fizeram parte de minha infância, algumas delas já bem velhas. Foi muito especial, principalmente porque Débora e Miguel desta vez foram juntos. Levar meu filho ao lugar onde eu vivi com a idade dele foi uma emoção muito forte e que deixou marcas muito fortes.
No final de fevereiro vivenciei a primeira internação do Miguel devido a uma meningite. Ficamos todos assustados, pois nem uma simples gripe ele havia pegado até então. Talvez eu tenha vivido alguns dos dias mais horríveis de minha vida até então, não apenas pela doença em si, mas por ter tido que conciliá-la com o trabalho e com a preparação da documentação para um concurso que prestei na UNESP em Araraquara, em julho. Tive que preparar projeto e toda a documentação em menos de uma semana, pois fiquei sabendo do concurso na última hora. Eu tinha grandes chances, era um dos candidatos mais experientes, mas Deus não quis que fosse desta vez.
A melhor lembrança que me vem agora do mês de abril foi a partida de futebol entre professores e alunos do laboratório. Após mais de um ano frequentando a academia para fortalecer o joelho, consegui retornar aos campos, mesmo tendo que usar duas proteções para o joelho. A experiência foi muito boa, porém fez-me perceber que eu precisava definitivamente fazer uma cirurgia para o joelho. E eu a fiz em julho. Tomei coragem e fui ao Instituto de Medicina do Além para que o Dr. Alonso pudesse operar meus joelhos e minha coluna. Fiquei encantado com o trabalho desenvolvido pelo grupo, e surpreso com os resultados da cirurgia espiritual: minhas dores na coluna se foram e o joelho parou de doer – até eu tentar voltar a jogar futebol novamente, no mês de outubro...
Este foi também o ano em que mudei minha alimentação. Reduzi arroz e feijão e as carnes na alimentação e intensifiquei o consumo de alface, cenoura, beterraba, mamão, manga e laranja. Esta mudança, aliada a algumas corridas na esteira, ajudou-me a perder quase sete quilos, peso que ainda mantenho. Desde 2006 eu não me via tão leve.
Em termos de trabalho, este foi um ano muito aquém das expectativas. Não cheguei onde eu queria, porém fiquei mais ou menos na média em relação aos demais colegas do setor. 2013 será um ano decisivo, em que muitas coisas precisarão dar certo paras minhas futuras pretensões. Por falar em numerologia, acredito que será um ano excelente, pois sua soma é múltiplo de 3.
Sonhos para 2013? Ser pai novamente. Conseguir aprovação em um concurso público. Conseguir a renovação de minha bolsa de produtividade. Conseguir aprovação de outro projeto de pesquisa. Conseguir bolsas para todos os meus alunos de iniciação científica e de pós-graduação. Publicar 10 artigos. Construir uma casa. E chegar vivo e com saúde ao final de 2013 com todos os meus entes queridos vivos e com muita saúde. Posso talvez não conseguir nada do que eu quero, mas Deus poderia dar-me a bênção de ter pelo menos este último...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Eu te seguirei. Você me seguirá?


Sexta-feira, 28 de maio de 2010. 18h50min. O portão da garagem se levanta e seu carro estaciona. O portão se abaixa, o freio de mão é puxado e a porta se abre. Ele pega sua mochila com carteira, celular e notebook, fecha a porta do carro e começa a vencer os vãos de escada. Enfia a mão no bolso, à procura do molho de chave. Há várias delas. Passa uma, duas, três, quatro... Encontra a chave na nona tentativa. Já impaciente, gira a chave na fechadura e ganha a varanda. A porta da cozinha está fechada. Ele a abre. A casa está vazia.
19h30min. Após o banho e a sopa quente, ele segue para a sala. Abre uma das gavetas da estante e escolhe um dos DVDs de sua coleção. Ele liga a televisão e o aparelho de DVD, acomoda-se no chão da sala ao lado da bandeja, repleta de pedaços de melancia, e inicia sua viagem.
22h. O filme termina. Ele abre a gaveta do aparelho de DVD, retira o disco, coloca-o novamente na capa e o guarda de volta na gaveta da estante. Por uns instantes, ele fica parado, sentado no tapete da sala, olhando para o chão. “E agora?”, pensa ele. Ele está sozinho, pode fazer o que quiser. Mas o que significa liberdade quando se está sozinho? Ele se levanta. Calça os chinelos e começa a andar pela casa. Ele pode ouvir o eco dos próprios passos. Ele segue em direção ao quarto. Na cama, a colcha amarrotada conta que ela passou um tempo por ali. Ele pega o travesseiro. Fecha os olhos, respira fundo. O seu cheiro lhe preenche os pulmões. “Que falta você me faz...” No banheiro, as maquiagens, o espelho, os pincéis. No boxe, a toalha ainda molhada. Seu perfume ainda toma conta do banheiro.
22h10min. Ele segue para a sala. No sofá, as almofadas ainda estão como ela as deixou. Ele fecha os olhos e a vê deitada, acomodada entre as almofadas. “Que lindinha...”, diz ele, com um sorriso no rosto. Então ele segue para a cozinha. Lá ele encontra o prato de sopa que ela deixou no fundo da pia. Ele o pega, abre a torneira e o lava. Enfim, ele segue para o escritório. Além do trabalho, não há nada para fazer. Ele liga o computador e acessa a internet, à procura de algum vídeo. Por alguma razão, ele cai em um vídeo da música “Follow you, follow me”. Curioso, ele busca a sua tradução. “Eu te seguirei. Você me seguirá?”, diz o refrão. Com um nó na garganta, ele deixa as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Está cada dia mais difícil passar as noites longe dela. Ele sente muito a sua falta. Estão casados há quase dois anos. “Eu posso dizer: a noite é longa, mas você está aqui ao alcance de minhas mãos...”, diz a música. Sim, ela está em todos os lugares daquela casa, mas suas mãos não podem alcançá-la.
22h45min. De repente, ele ouve um barulho. Quase que adormecido, ele se coloca de pé, assustado. Subitamente, um outro estrondo vindo da garagem. Ele corre para a porta e a abre. A porta do carro se abre e ela vem ao seu encontro. Os dois se abraçam. Seus rostos se encostam; seus lábios também “Que saudade”, dizem um para o outro. “... mas eu prefiro o sorriso que você me dá. E eu posso dizer que enquanto eu viver, eu te seguire. E você, me seguirá?”, diz a música, que ainda toca no computador do escritório. Ele a abraça forte. “O que foi, meu amor?”, pergunta ela. “Não foi nada”, responde ele, com os olhos em lágrimas. “Deixe-me apenas senti-la”. “...e teremos apenas uma lágrima solitária a cada passar de ano”.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uma hora de academia


16 h. Ele estaciona o carro em frente à academia. “Que ridículo! Se quero manter a boa forma, por que não venho caminhando?”, pensa ele ao lembrar que a academia fica a apenas 500 m de casa. Pega as luvas, o tocador de mp3 com os fones e as chaves e sigo em direção à entrada. Como sempre, as luzes estão apagadas. Questão de economia. Talvez nem seja consciência, e sim por corte de gastos. Então ele sobe as escadas e segue em direção à prancha de abdominal. A prancha, aliás, está sempre vazia. Ninguém costa de fazer abdominais...
16h15min. Entra na sala de aparelhos um rapaz que ele não via há tempos. Ele puxa a conversa:
- E aí, tranquilo?
- Beleza! Você afinou, hein?, responde o camarada.
- É... eu perdi 7 quilos – responde ele, meio constrangido.
- Perdeu porque quis?
- Sim. E você? Parece que conseguiu uns quilos, hein? - diz ele, olhando para o abdômen arredondado do camarada.
- É... Eu consegui 15 quilos de massa!
- Então agora você tá satisfeito?
- Não, ainda não. Tô tentando ganhar mais uns 5 quilos.
- Pô, vai firme!
Então ele segue para a prancha de abdominal, para uma sequência de sofridos exercícios abdominais. Após 50 repetições, ele pára para um descanso. De relance, ele vê um rapaz em frente ao espelho, que estufa o peito, virao de lado, contrai os bíceps e os fica admirando. Seria cômica, se não fosse narcisista.
16h30min. Ele sobe na esteira para alguns minutos de caminhada e de corrida. Enquanto caminha, percorra a academia com os olhos. Na entrada, um rapaz “bombado” conversa com o dono, que pega um pote de suplemento para ele, que certamente sobrecarregarão seu rim e seu fígado terão nos próximos meses. 
Mais adiante, um outro rapaz, que três semanas atrás era raquítico, começa a preencher os vazios da camiseta. À sua frente um outro rapaz alto, com uma proteção abdominal, que parece não conseguir fechar os braços, talvez pelo volume de suas costas ou, ainda, por ter depilado as axilas. Por fim, ele nota que praticamente não há mulheres naquele ambiente. Encostada a um pilar, a professora permanece estática, olhando para o chão. Talvez esteja em busca de uma resposta para o fato de os peitorais dos outros alunos importar mais para os que ali estão que o volume dos seus. 
16h50min. No aparelho de mp3 começa a tocar “Going to distance”, tema do filme Rocky II – a revanche. Ele acelera o passo e atinge 14 km/h. Suas passadas se alargam. Alguns rapazes o olham. Devem estar pensando: “Que mané! Desse jeito ele vai perder massa muscular.” Sem problemas. Cada um segue em busca de seu objetivo. E mesmo que os objetivos sejam diferentes, todos convivem bem. E assim a vida na academia segue: cada um na sua. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Natal é todo dia!

24 de dezembro. 19h. Estou com o Miguel no colo, olhando as estrelas pelo céu da janela da varanda. “Lá teté!”, diz ele apontando para a lua. No canto da parede atrás de mim, a alguns metros, está a árvore de Natal repleta de luzes, todas apagadas. A varanda está escura. A guirlanda continua na porta da sala, que está fechada. O tapete vermelho e branco com um desenho de papai Noel contendo os dizeres “Feliz Natal”, que se encontra no hall de entrada, não foi tocado por nenhum outro pé que não fosse o meu, o da Débora ou do pequeno Miguel. Na mesa onde foi feita a ceia do ano passado não há sequer toalha.
20 h. Estaciono o carro em frente à casa de meus pais. Desço e abro a porta para retirar o Miguel. O portão se abre. É minha irmã. Ela vem em direção ao Miguel. Débora desce pela porta do outro lado. As duas se encontram e se cumprimentam. Eu não via esta cena desde o último aniversário do Miguel. Entramos todos, eu, a Débora e minha irmã com o Miguel nos braços, pelo corredor. Próximo à varanda está o papai, parado. Está com um olhar iluminado e um sorriso prestes a tomar conta de seu rosto. Ele olha pra minha mãe e diz algo do tipo “Eles vieram”.
21h. Estamos à mesa. Antes de iniciarmos a comilança, damos as mãos e rezamos a Deus pela saúde e por estarmos todos aqui reunidos.
22 h. Tia Ângela, vovó Maria e vovô Mila chegaram. Agora não falta mais ninguém. Após distribuírem os presentes, vovô Mila, mamãe e Clarinha sentam-se e observam o Miguel brincando. Ele está jogando os pequenos bois que vieram no caminhão de boiadeiro que o vovô Mila lhe deu. “Ele está colocando os bois para pastara”, brinca minha mãe. O papai ri. “Como ele é lindo!”, diz tia Ângela. “Dá vontade de morder!”, solta minha irmã. Débora e eu estamos orgulhosos e felizes.
23 h. Estou novamente na varanda de casa. Miguel já está dormindo em seu quarto. Acendo as luzes da árvore de Natal e ligo a televisão. Débora e eu sentamo-nos no sofá e. Passo o braço por cima de seu ombro. Entreolhamo-nos. “Feliz Natal, meu amor”, dizemos um ao outro quase que ao mesmo tempo. Após alguns minutos de papo, ela não contém a curiosidade e pergunta se estou triste por termos passado a noite de Natal na casa dos meus pais e não aqui em casa. “De modo algum” – respondo – “No ano passado nós esperamos que a noite de Natal fosse como as propagandas que passam na televisão: família unida, todos alegres compartilhando de um sentimento mágico que não existe. Já hoje nós estivemos reunidos como em um dia qualquer, sem cerimônia ou expectativas. E você pode ter certeza de que Deus estava entre nós.” Paro por um minuto, olhando pelo céu estrelado da janela. “Hoje nós proporcionamos a felicidade ao invés de esperarmos que ela viesse até a nossa casa. Foi uma das noites de Natal mais felizes dos últimos anos.”
Qual é, afinal, o sentido do Natal? Celebrar uma união que não existe entre pessoas que mal se vêem ou se falam durante o ano? Não! A ideia é celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Para isso, é preciso apenas ter Deus e bondade no coração. E se você conseguiu sentir a chama de Jesus brotando em seu coração neste Natal, tenha a certeza de que todos os seus dias daqui pra frente serão Natal. Na verdade, deveria ser Natal todos os dias.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 (parte final)


Esse ano passou muito rápido, não é mesmo? Pode ter certeza de que este foi um dos melhores anos de sua infância ou , pelo menos, um dos que você mais se lembrará. Mas o próximo ano será muito melhor, pode acreditar. Aliás, é assim que você deve pensar sempre. A cada ano que terminar, agradeça por tudo e mentalize que o ano seguinte vai ser ainda melhor.
Bom, eu acho que essa carta está maior do que eu imaginava quando comecei a escrevê-la. Porém, antes de finalizá-la, gostaria de pedir que você faça algo para mim: ame sua família com todo o seu coração. Ame seus avós e dê a eles a máxima atenção que puder. Eu sei que você gosta mais do vovô Mila e da vovó Maria, pois eles te dão mais atenção, mas você não deve deixar de visitar o vovô Crotti e a vovó Lourdes. Você tem que entender que eles têm muitos netos e, por isso, você não pode ter o amor deles só pra você. Ame também sua tia Ângela. Faça isso de todo o seu coração. Ela é e continuará sendo por uns bons anos uma segunda mãe pra você, e você deve ser tão bom para ela quanto um filho seria. Ame também sua irmã. Não se envergonhe quando ela vier falar com você durante os recreios na escola. Você não percebe, mas ela sente orgulho de você. Eu sei que você sente ciúmes dos seus pais com relação a ela, pois acha que eles gostam mais dela que de você. Não, Eduardo, não é verdade. Eles apenas dividem o amor deles entre vocês dois. Não seja egoísta!
Por fim, quero que ame imensamente seu pai e sua mãe. Sua mãe será sua eterna companheira. Ela sempre se preocupará com você e sempre estará ao seu lado quando você precisar, até o dia em que você se tornar um homem independente. E quando isso acontecer, a dor que ela sentirá por não mais poder ajudá-lo não será maior que o orgulho que dela tomará conta. Quanto a seu pai, respeite-o. Eu sei que você fica revoltado quando ele pede pra você lavar o caminhão dele quando volta das semanas fora de casa. Sei também que você fica extremamente irritado quando ele te faz lavar a lona no meio da rua ou passar as férias o ajudando a pintar as chapas e para-barros do caminhão. É claro que você não acredita quando ele diz que ele faz isso pra você virar um homem, e que um dia você irá agradecê-lo. Pois bem. Você terá por ele uma gratidão maior que essas palavras podem expressar. Você sempre se lembrará dele como o seu grande herói, embora muitas vezes ele lhe parecerá o seu patrão. Não, Eduardo, ele é o seu pai.
Você deve estar se perguntando quem sou pra saber tudo isso sobre você. Não se amedronte, meu caro. Não sou Deus, não sou papai Noel nem algum cartomante que faz previsões. Na verdade, Eduardo, eu sou você daqui a 24 anos. Acredite ou não, escrevo esta carta para você com a mesma idade que o seu pai tem hoje: 36 anos. Hoje eu (ou melhor, você...) também tem um filho, e ele se parece com você (melhor dizendo, comigo...). Por mais que ao longo da vida eu tenha desejado que muitas coisas tenham sido diferentes, consigo entender hoje que elas deveriam ter sido como foram. E seu eu tivesse o poder de voltar ao passado, a única coisa que eu realmente mudaria seria a intensidade com que em vivi cada momento, agradecendo a Deus por cada um deles. Bom, eu não posso mais fazer isso. Mas você ainda pode. É por isso, Eduardo, que eu te escrevi esta carta tão longa: para que você possa olhar ao seu redor e sentir-se um menino mais feliz. Há tantas coisas boas em sua vida... Não reclame do que te falta, pois você conseguirá tudo isso algum dia e sentirá falta desses dias que você está vivendo.
Aproveito pra te desejar um feliz Natal. A propósito, não se prenda tanto aos presentes que você irá ganhar. Ao invés disso, abrace seus avós, seus pais e a tia Ângela bem forte e agradeça-lhes pelo amor que eles têm por você, pois esse amor vale mais do que qualquer presente do mundo, inclusive os soldadinhos dos Comandos em Ação que você vai ganhar. Ooops...
De seu melhor amigo,
Eduardo, 23 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um presente para um velho amigo


Quarta-feira, 19 de dezembro. 5h45min. Ouço o toque de um despertador tocando bem longe. O toque vai se tornando cada vez mais intenso, até eu me dar conta de que ele está ao meu lado, insistindo pra que eu me levante. Sonolento, eu o pego nas mãos e procuro algum botão que o faça despertar daqui a cinco minutos. “Mais cinco minutos, por favor...” O cansaço toma conta de mim. Dormi apenas uma hora na noite anterior.
Após uma briga inútil com o despertador, dou-me conta de que preciso levantar-me. De pé, procuro o chinelo que devo ter chutado para debaixo da cama em um daqueles momentos irritados. Desisto. Sigo descalço para o banheiro. Abro o chuveiro. Em poucos minutos tudo estará bem.
6h50min. Coloco as coisas no carro. Repasso o meu roteiro e confiro novamente se ali está tudo o que preciso. O presente. Minha bolsa com o notebook. Os CDs a serem gravados. Estou pronto para a viagem. Espere: preciso conferir o nível da água no reservatório. Abro o capô e a verifico. Está baixa. Tento desenrolar a mangueira do suporte onde a Luciene a amarrou. Após duas ou três tentativas, perco a paciência e a puxo com força, quase arrancando o suporte da parede. “Merda!”. Ligo a mangueira, desenrosco a tampa do reservatório e o encho. Desligo a mangueira e a enrolo novamente. Quando vou fechar o capô, vejo que a água do reservatório do limpador do para-brisa também está abaixo do nível. “Puta que pariu! É hoje!” E lá vamos nós de novo encarar a mangueira enrolada...
7h35min. Estou em uma estrada de terra batida, seguindo para o sítio onde coleto as plantas para o meu projeto. Pelo caminho há pés de cafés por todos os lados. Na estrada há de tudo: curvas, buracos e alguns pequenos morros, daqueles que nos dão um frio na barriga quando se passa por eles em alta velocidade. “Você quer com ou sem emoção?”, perguntava o papai quando passávamos por esses morros. Resolvo arriscar-me. O carro voa sobre o barranco e meus órgãos internos sentem um vazio até voltarem ao lugar. Olhando por este ângulo não parece algo tão divertido, e sim irresponsável. Por que certas coisas não são tão legais como antes? Curiosamente, é o que a Cherr está contando na música que toca no rádio do carro: “If I could turn back time... If I could find a way...”
7h45min. Estaciono o carro e saio em procura do seu Gilson. Quando grito seu nome, percebo que ele está procurando por mim, mas pelo outro lado da casa. Eis que ele surge, já suado de tanto trabalhar. O dia para ele parece ter começado cheio. De luvas, ele passa os punhos pela testa para remover o excesso de suor. Ao fazer isso, ele remove também parte dos cabelos brancos que lhe caíam pela testa. “O sítio está limpo, seu Gilson. O senhor deve ter trabalhando muito ontem, hein?” Ele ri e começa a caminhar. Eu o sigo. Eis que ele inicia, como de praxe, mais um passeio pelo sítio. “Aqui eu passei o rastelo”, diz ele a certa altura. “Tudo isso eu rocei com a roçadeira costal”, conta ele ao chegarmos em outro lugar. “Veja essas mudas. São de mirra”, explica ele, apontando para pequenas mudas que encontram-se encostadas na parede. Eu coloco a mão sobre seu ombro. “Venha até aqui, seu Gilson. Eu tenho uma coisa para o senhor”. Ele sorri. Já sabe o que é. “Ah, mas não precisava...” Abro a porta do carro e lhe entrego um embrulho. Sem ter à mão algo cortante, ele usa os dentes pra tentar cortar o laço de durex que envolve o presente. “Peraí, seu Gilson. Deixe-me ajudá-lo”. Em menos de dez segundos o embrulho desaparece, dando espaço para uma caixa preta. Ele a abre e pega uma das botinas do par e a prova. “Nossa, essa botina é muito macia. Dá até dó de colocar pra trabalhar.”, diz ele. Enquanto isso, abro o notebook e o coloco em cima da mesa de metal onde, em ocasiões anteriores, ele mostrou-me seus livros. “Seu Gilson, eu vou gravar essas músicas dos anos 70 para o senhor”. “Uai, se você puder, eu fico agradecido”, responde ele, colocando de volta as botinas na caixa.
Assim que a gravação termina, eu coloco o CD de mp3 no carro e mostro a ele as músicas que foram gravadas. “Isso aí é ABBA, não é?” Eu balanço a cabeça em sinal afirmativo. “Eita! Essas músicas aí são do tempo em que eu namorava agarradinho...” Então ele inicia uma narrativa sobre seus feitos e conquistas. De certa forma, é realmente esse o efeito que essas músicas parecem ter.
A gravação do segundo CD termina. Nele foram gravadas músicas românticas dos anos 80. Ele se senta no banco do passageiro do meu carro, e com o controle na mão começa a passar as músicas, fazendo comentários que eu já não consigo mais ouvir por causa do som da música. De qualquer forma, é uma grande satisfação poder demonstrar certa gratidão pela amizade que com ele criei. Tenho imensa gratidão por ele ter sempre permitido que coletássemos as plantas ali cultivadas para que pudéssemos desenvolver nosso projeto sobre óleos essenciais. Na verdade, não foi esse o elo que nos tornou amigos. Ele é espírita. Foi ele quem me convenceu a fazer a cirurgia espiritual da coluna e dos joelhos. Na semana passada, ao perceber que eu estava triste, ele dispôs-se a dar-me um passe e livrar-me da tristeza. Funcionou.
“Vou passar o Natal ouvindo essas músicas e fazendo os brincos de bambu pra sua esposa”, explica ele, mostrando que gostou dos presentes. E como se quisesse mostrar que está agradecido, ele insiste pra que eu leve algumas mangas. Em seguida, dá-me um forte abraço. “Obrigado, Miller. Que Deus lhe abençoe”. Não, seu Gilson. Que Deus abençoe a nossa amizade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Obrigado, volte sempre

          Quando tive a ideia de criar este blog, a intenção era deixar registrada a minha vida, dia-a-dia - daí o nome "Narrativas do cotidiano". Eu queria que as pessoas que lessem cada postagem sentissem como se ela mesmo estivesse vivendo aquilo. Obviamente, pensei nos meus filhos. Quando eu ficar velho, certamente terei me esquecido de tantas histórias, então nada mais justo que deixá-las registradas pra me lembrar quando estiver mais velho. Com relação ao formato do blog, eu me inspirei um pouco no blog do Eudes. Sempre gostei das histórias que ele conta e da linguagem que ele usa. Isso já faz sete anos.
         Durante esse período houve momentos em que eu praticamente abandonei o blog. Em 2010, por exemplo, eu não cheguei a postar nem uma mensagem por mês. O motivo não foi a falta de inspiração nem a falta de tempo. Foi simplesmente a maldita sensação de estar escrevendo para ninguém ler. Era desanimador dispensar um bom tempo - às vezes quase uma hora do seu dia - pra escrever algo que ninguém vai ler. Vários outros blogs, alguns construídos na mesma época que este, vieram a sucumbir pelo mesmo motivo.
Eis então que o blogger instalou a ferramenta de contagem de visitas. Pude então ver que uma média de 30 pessoas visita este blog por dia. Sei que não são as mesmas pessoas, pois consta aí na barra lateral que apenas 11 pessoas seguem este blog. Fiquei então um pouco mais animado e comecei a atualizá-lo com mais frequência.
          Pois bem. Outro dia tive a curiosidade de digitar o nome do blog no Google pra ver no que ia dar. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um trabalho de conclusão de curso da Universidade Federal do Rio Grande do Norte que usou um dos posts deste blog e uma apostila de Português de uma escola técnica estadual utilizando uma das nossas narrativas como exemplo ao longo do texto. Aliás, que apostila bem feita! Tempos atrás encontrei uma indicação de uma coordenadora de ensino, chamando este blog de "diário de bordo". Quanta gentileza! O mais interessante nisso é que as pessoas fizeram a devida citação ao blog. Não tendo eu formação alguma na área de Português ou Linguística, confesso que fiquei muito lisonjeado.
         Minha intenção nunca foi ganhar dinheiro com este blog, e certamente nunca será. Procuro, na medida do possível, escrever textos agradáveis - embora às vezes longos - para que os visitantes tenham algo para ler e possam conhecer-me através de minhas palavras, da mesma forma que meus filhos farão em um futuro próximo. Em se tratando de textos pessoais, é compreensível que muitos visitantes não comentem por educação. Além disso, eu entendo que às vezes é melhor ler uma piada a textos recheados de nostalgia. Por essa razão, eu gostaria de agradecê-lo, caro visitante/leitor, pela sua visita. Se você tiver paciência, dê uma vasculhada no blog. Há algumas histórias bem engraçadas por aqui e há outras que vão te fazer chorar. Basta ter paciência para procurar. Muito obrigado a todos pela visita! Continuarei escrevendo pra que vocês possam sempre voltar. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 (parte 2)


Quero que preste bastante atenção nas palavras que você vai ler agora: aproveite cada momento de sua vida, principalmente desses anos que estão por vir. Mas veja bem: aproveitar não significa que você deva abrir mão de quem você é. E eu sei bem quem você é. Sei, por exemplo, que o fato de ainda não ter uma namoradinha, como boa parte de seus amigos, te incomoda bastante. Infelizmente seu pai não te deu uma boa resposta quando você lhe perguntou a razão disso. De fato, falar que você não tinha namorada porque era feio não é a melhor coisa que um pai pode dizer a uma criança de 12 anos. Muito pelo contrário: isso fez com que você perdesse sua auto-estima. Ora, e como não acreditar no seu pai, que você tanto ama? Como poderia o seu grande herói dizer algo tão duro ou, então, contar-te uma mentira? Na verdade, Eduardo, é preciso que você entenda que seu pai lhe disse isso em tom de brincadeira. Lembra-se de que ele riu depois de ter dito que você é feio? Acredite: daqui a umas décadas você fará o mesmo tipo de brincadeira com ele. Ele te dirá coisas bem mais duras e você achará graça do que ele disser, pois vai reconhecer que ele está brincando. Por isso, não leve o que ele disse tão a sério. Você é muito mais bonito do que você pode imaginar. De qualquer forma, não quero, não posso nem devo convencê-lo do contrário, porque há certas coisas que não devem sair do rumo.
Eu não sei como te dizer isso de outra forma, por isso tentarei ser direto: você reconhecerá daqui a alguns anos que até o fato de seu pai ter dito que você é feio terá sido bom pra você. E sabe por quê? Porque isso te manterá afastado das mulheres. As palavras de seu pai fazem e continuarão fazendo por muitos anos com que você se sinta inseguro, com medo de ser rejeitado pelas moças que você considera bonitas. E isto será uma das melhores coisas que ele terá feito por você. Explico: sem ter uma namorada, você passará os próximos anos assistindo seus colegas menos tímidos e mais abastados financeiramente saindo, beijando e namorando as meninas que você tanto admira. Isso despertara em você um doce sentimento de revolta, que o fará entregar-se aos estudos na esperança de que isso mude algum dia. E acredite: você não apenas conseguirá como também chegará mais longe do que você possa imaginar...
Eu sei que você é apaixonado por loiras. Essa sua paixão se intensificará nos próximos anos e te fará sentir-se inspirado a escrever lindos versos. No entanto, você gostará de suas musas inspiradoras em silêncio. Seus versos lhes parecerão lindos, porém elas não conseguirão entender. Seja paciente com elas; embora sejam belas, são curtas em intelecto. De qualquer forma, seu sofrimento, suas lágrimas, seus poemas e o seu romantismo, que serão por vezes considerados “fora de moda”, bem como sua dedicação aos estudos, farão de você um homem de características únicas e muito peculiares. Surgirá então uma mulher em sua vida, muito mais linda que as loiras com rostinho de anjo que você começou a ver nas páginas das revistas Playboy. Você a conhecerá de uma forma bastante inusitada. Ela encontrará em você todas as qualidades que nem mesmo você acredita possuir, como, por exemplo, bom-humor e alegria, que tem estado desaparecidos desde aquela surra que seu pai te deu lá em Quirinópolis-GO, por ocasião da venda do trator. Essa mulher, sim, apreciará os poemas que você escreverá e suspirará com as rosas que você as der de presente. Portanto, não ache que as paixões platônicas que tanto te fazem chorar hoje são o fim do mundo. Mas, por favor, não fique esperando por essa mulher. Se você o fizer, ela certamente não virá. Você precisa seguir o seu caminho de sofrimento para estar preparado quando encontrá-la. Como te disse, aproveite cada momento de sua adolescência. Chore pelas moças que tiver que chorar, escreva os poemas que tiver que escrever, sofra o que você tiver que sofrer. Enfim, seja quem você é, e não se ache o rapaz mais feio do mundo. Afinal, a mais linda das morenas espera por você no futuro. Ooops... Desculpe-me. Acho que já estou contando detalhes demais.
Diante de tudo isso, você deve estar se perguntando: quem está te escrevendo essas palavras? Não, Eduardo, eu não sou Deus.
(to be continued...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 - Parte 1


Querido Eduardo,
Mais um Natal está se aproximando. Você foi um bom menino durante este ano. Por isso, quero que veja esta carta como o meu presente para você. Eu sei que, por ter 12 anos, você ficaria mais feliz em ganhar algum soldadinho ou algum brinquedo da coleção dos Comandos em Ação. Não se preocupe. Eles serão os presentes de seu vovô Miller e de sua tia Ângela neste ano. Bem, desculpe-me se estraguei a surpresa. De qualquer forma, você verá daqui a alguns anos que esta carta lhe será bem mais valiosa que toda a sua coleção de Comandos em Ação.
Eu sei que você tem sofrido muito desde que sua família mudou-se de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP. Já se passaram seis anos e você ainda não conseguiu adaptar-se totalmente e sente muita saudade da vida que levava na roça. Além disso, na escola você tem poucos amigos. Quanto a isso, Eduardo, eu tenho duas notícias ruins. A primeira delas é que você continuará sentindo saudades de sua infância em Quirinópolis pelo resto de sua vida. Para aumentar seu sofrimento, você verá a maioria das pessoas que você conheceu naquela época partirem uma a uma desta vida. Sim, Eduardo, elas morrerão. Pior que isso: a casa onde você morou será destruída e nada restará do lugar onde você viveu. Ele existirá apenas em suas lembranças ou nos sonhos que você terá de vez em quando. Lamento dizer que a segunda notícia também não é muito boa. Se você se queixa de ter poucos amigos, é bom avisá-lo que ao longo de sua vida você não fará muitas novas amizades. Conhecerá, sim, pessoas maravilhosas, e com elas dividirá momentos muito alegres. Mas essas pessoas estarão de passagem e muitas delas você não voltará a ver ou, se tiver sorte, irão encontrar-se raramente. Serão ótimos colegas, pode acreditar.
Calma, não jogue esta carta fora sem antes lê-la até o final. Meu objetivo ao enviá-la é apenas preveni-lo do sofrimento que está por vir, mesmo que para isso você tenha que sofrer agora, ao ler estas duras palavras. Não pense que neste momento encontro-me com uma bola de cristal prevendo o seu futuro. Não, não, muito pelo contrário. Mas voltemos ao que interessa.
Eu sei que você está sofrendo com as dores nas costas, e que para tratá-las, sua mãe tem te levado três vezes por semana na fisioterapia e na natação. Quanto a isso, eu tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que você vai aprender a nadar. A ruim é que as dores nas costas vão acompanhá-lo pelo resto da vida. Não pare de nadar como você está pretendendo. Eu sei que você pediu para o seu pai comprar o título do clube da Baixada pra você jogar futebol, e não para nadar. Por favor, não faça isso.
Você tem esforçado muito sua visão pra enxergar do fundo da sala de aula as coisas que as professores escrevem na lousa, não é mesmo? Pois bem. Esse é o primeiro sinal de que você tem problemas na visão e de que terá que usar óculos. Sim, Eduardo, você está se tornando míope. Por muitos anos você usará grossos óculos de grau, suas sobrancelhas serão grossas – tão grossas que parecerão ser uma única – e seus dentes frontais tornar-se-ão ainda mais separados. Por favor, não chore. Acalme-se. Acredite: isso não é o fim do mundo. Todos esses problemas serão resolvidos daqui a umas duas décadas, mas você terá que ter paciência. Há também outro problema que continuará te incomodando pelo resto da vida: seus cabelos. Eu sei que você passa muito tempo em frente ao espelho tentando encontrar um penteado mais bacana. Preste atenção no que eu vou te dizer: seu cabelo é ma-ra-vi-lho-so! Você não faz idéia da falta que você irá sentir deles daqui a umas duas décadas. Vai aqui um conselho: deixe seu cabelo em paz, por favor!
Sei que sei corpo está mudando, que sua barba está engrossando e que seus pêlos estão se espalhando pelos ombros e pelas costas. Vá se acostumando, pois você se tornará mais peludo que o seu pai. Isso te tornará alvo de gozação por parte dos colegas e fará com que muitas moças de sua idade afastem-se de você. Você será algo de chacota dos colegas por causa disso, pode acreditar. O mais curioso é que ao contar para o seu pai, ele dirá “É sinal de que você é macho!”. De fato, hormônios não te faltarão. Vontade de arrancar todos os seus pêlos também não. Você fará isso, mais cedo ou mais tarde, mesmo a contragosto de seu pai.
Sei que você está impressionado por eu saber tantas coisas sobre você. Por isso, você deve estar se perguntando se eu sou o pai Noel. Não seja inocente: pai Noel não existe.

(to be continued...) 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Por que guardamos coisas velhas?



Sábado, 24 de novembro. São 17h. Estamos, eu e Miguel, na casa de meus avós maternos. Vovó Maria, vovô “Mila” e tia Ângela estão fazendo faxina. Pela varanda encontram-se, dispostos em vários pequenos “montes”, diversos utensílios de cozinha. Suada, tia Ângela explica o que está acontecendo. “Ai, Eduardo, eu fiquei com dó da sua avó e vou comprar um armário novo pra ela colocar as coisas dela”. E passando a mão pela testa, chama-me para ver como está ficando o serviço. Enquanto isso, vovó e vovô estão com o Miguel no galinheiro. Miguel enche as mãozinhas de grãos de milho e os joga para as galinhas comerem. “Ta!”, diz ele ao fazer o movimento. Em seguida, um “Mai, mai!” mostra que ele gostou e quer repetir a façanha.
Tia Ângela mostra-me como ficou a dispensa. “Nossa, filho, mas tinha taaaaaanta coisa velha aqui... Olha aqui essa prateleira... Forrei com papel. Arrumamos esse baú também. Tinha taaaaaaanta roupa velha aí... Algumas estavam com traças. Nós queimamos. Agora veja esse monte aqui.” E trazendo-me de volta para fora da dispensa, aponta para um grande monte de coisas que vai se formando ao lado da parede externa. “Ai, Eduardo, é difícil, viu? A sua avó não quer que joga essas coisas fora. Olha só esse saleiro!” Ela mostra-me um saleiro branco, já surrado e sem tampa. “Tia, isso é típico de quem passou dificuldade na vida. A vovó deve achar que vai precisar desse saleiro algum dia. Mas hoje esses saleiros não custam nem R$2,00... É bem mais fácil de comprar hoje que antigamente. Pode ser também que esse saleiro faça a vovó lembrar-se de alguma coisa do passado. A gente não sabe o que as pessoas mais velhas sentem...” Meu discurso, embora genérico, é feito a partir de observações próprias que parecem convencer a tia. “É, pode ser, né? Ah, deixa eu te mostrar uma chaleira que ela guardou.” Seguimos então para o quarto de hóspedes.

Sentado em uma poltrona de sofá diante de uma televisão de tubo, lembro-me das vezes em que eu alugava fitas VHS para assistir no vídeo cassete da vovó. Lá em casa nós não tínhamos vídeo cassete... Dois filmes que assisti aqui marcaram-me bastante: “Demolidor, o homem sem medo” e “A casa dos espíritos”. Esse último fez-me chorar barbaridade... Tia Ângela surge então com uma chaleira de porcelana branca, com flores estampadas na parte externa. Na chaleira há uma tomada de dois pinos “grudada” diretamente na porcelana. O estranho é que não há fios. Se conectada à tomada, essa chaleira provavelmente deveria ficar praticamente colada à parede. Tia Ângela segue exibindo a chaleira e falando alguma coisa que não me atrai muito a atenção. “Nossa, tem tanta coisa dentro dessa chaleira...” Ela inicia então uma “faxina” dentro da chaleira. De lá saem uma tomada, alguns botões e mais um sem fim de coisas velhas. “A vovó deve guardar essas coisas porque deve significar algo pra ela”, digo pra mim mesmo, reforçando minha teoria. Eis que de repente ela tira da chaleira algo que me parece familiar. “Olha aqui, filho! Você lembra disso?” São dois ratinhos feitos de cartolina. Estão amarelados por causa o tempo. Ambos seguram nas mãos o que parede ser uma vassoura com um pom-pom na ponta, o que lembra ser uma vassoura. “Eu já vi esses ratinhos antes...”, penso comigo. A resposta me vem como uma faca transpassando-me o peito. Preso ao rabinho feito de fio encontra-se um pequeno pedaço de papel, já amarelado pelo tempo, com os dizeres: “Antônio Eduardo, 16/06/1979”. Em estado de choque, tomo os dois ratinhos nas mãos e sigo para a sala de estar. Sento-me e fico a observar aqueles dois bichinhos, que foram enfeites da mesa de aniversário de meu terceiro ano de vida. A vovó guardou aqueles ratinhos durante 33 anos....



Minha respiração fica presa, um nó se forma na garganta. Os olhos ficam mergulhados em lágrimas. Imediatamente eu coloco os óculos escuros. Não quero que me vejam chorando. Coloco então os dois ratinhos sobre a mesa e fico-os observando enquanto viajo de volta ao passado. Lembro então que a festa de meu aniversário de três anos foi realizada aqui na casa da vovó, há 33 anos... Aquela festa deve ter tido um significado especial pra a vovó. Levanto-me e sigo até a porta da varanda, de onde avisto a vovó e o vovô ainda brincando com o Miguel. Ele tem quase a idade que eu tinha quando aqueles ratinhos foram feitos... De repente, como se o Miguel entendesse o que eu estou sentindo, ele bate palmas e dá um beijo no rosto da vovó e do vovô. É um sinal de agradecimento pela doçura com que os dois o tratam. É um sinal de reconhecimento pelo amor que sempre me dedicaram. No fundo, eu sei que o Miguel os leva de volta ao passado, fazendo-os lembrar daquela criança fofa que eu fui e que eles, por causa da distância, não tiveram chance de curtir. Da mesa da sala de jantar, os dois ratinhos de cartolina parecem olhar-me. Parecem querer ensinar-me que pequenas coisas possuem grandes significados pra gente, e que às vezes precisam ser guardadas pra fazer-nos lembrar de certos momentos mágicos que o tempo insiste em apagar as marcas.