sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 - Parte 1


Querido Eduardo,
Mais um Natal está se aproximando. Você foi um bom menino durante este ano. Por isso, quero que veja esta carta como o meu presente para você. Eu sei que, por ter 12 anos, você ficaria mais feliz em ganhar algum soldadinho ou algum brinquedo da coleção dos Comandos em Ação. Não se preocupe. Eles serão os presentes de seu vovô Miller e de sua tia Ângela neste ano. Bem, desculpe-me se estraguei a surpresa. De qualquer forma, você verá daqui a alguns anos que esta carta lhe será bem mais valiosa que toda a sua coleção de Comandos em Ação.
Eu sei que você tem sofrido muito desde que sua família mudou-se de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP. Já se passaram seis anos e você ainda não conseguiu adaptar-se totalmente e sente muita saudade da vida que levava na roça. Além disso, na escola você tem poucos amigos. Quanto a isso, Eduardo, eu tenho duas notícias ruins. A primeira delas é que você continuará sentindo saudades de sua infância em Quirinópolis pelo resto de sua vida. Para aumentar seu sofrimento, você verá a maioria das pessoas que você conheceu naquela época partirem uma a uma desta vida. Sim, Eduardo, elas morrerão. Pior que isso: a casa onde você morou será destruída e nada restará do lugar onde você viveu. Ele existirá apenas em suas lembranças ou nos sonhos que você terá de vez em quando. Lamento dizer que a segunda notícia também não é muito boa. Se você se queixa de ter poucos amigos, é bom avisá-lo que ao longo de sua vida você não fará muitas novas amizades. Conhecerá, sim, pessoas maravilhosas, e com elas dividirá momentos muito alegres. Mas essas pessoas estarão de passagem e muitas delas você não voltará a ver ou, se tiver sorte, irão encontrar-se raramente. Serão ótimos colegas, pode acreditar.
Calma, não jogue esta carta fora sem antes lê-la até o final. Meu objetivo ao enviá-la é apenas preveni-lo do sofrimento que está por vir, mesmo que para isso você tenha que sofrer agora, ao ler estas duras palavras. Não pense que neste momento encontro-me com uma bola de cristal prevendo o seu futuro. Não, não, muito pelo contrário. Mas voltemos ao que interessa.
Eu sei que você está sofrendo com as dores nas costas, e que para tratá-las, sua mãe tem te levado três vezes por semana na fisioterapia e na natação. Quanto a isso, eu tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que você vai aprender a nadar. A ruim é que as dores nas costas vão acompanhá-lo pelo resto da vida. Não pare de nadar como você está pretendendo. Eu sei que você pediu para o seu pai comprar o título do clube da Baixada pra você jogar futebol, e não para nadar. Por favor, não faça isso.
Você tem esforçado muito sua visão pra enxergar do fundo da sala de aula as coisas que as professores escrevem na lousa, não é mesmo? Pois bem. Esse é o primeiro sinal de que você tem problemas na visão e de que terá que usar óculos. Sim, Eduardo, você está se tornando míope. Por muitos anos você usará grossos óculos de grau, suas sobrancelhas serão grossas – tão grossas que parecerão ser uma única – e seus dentes frontais tornar-se-ão ainda mais separados. Por favor, não chore. Acalme-se. Acredite: isso não é o fim do mundo. Todos esses problemas serão resolvidos daqui a umas duas décadas, mas você terá que ter paciência. Há também outro problema que continuará te incomodando pelo resto da vida: seus cabelos. Eu sei que você passa muito tempo em frente ao espelho tentando encontrar um penteado mais bacana. Preste atenção no que eu vou te dizer: seu cabelo é ma-ra-vi-lho-so! Você não faz idéia da falta que você irá sentir deles daqui a umas duas décadas. Vai aqui um conselho: deixe seu cabelo em paz, por favor!
Sei que sei corpo está mudando, que sua barba está engrossando e que seus pêlos estão se espalhando pelos ombros e pelas costas. Vá se acostumando, pois você se tornará mais peludo que o seu pai. Isso te tornará alvo de gozação por parte dos colegas e fará com que muitas moças de sua idade afastem-se de você. Você será algo de chacota dos colegas por causa disso, pode acreditar. O mais curioso é que ao contar para o seu pai, ele dirá “É sinal de que você é macho!”. De fato, hormônios não te faltarão. Vontade de arrancar todos os seus pêlos também não. Você fará isso, mais cedo ou mais tarde, mesmo a contragosto de seu pai.
Sei que você está impressionado por eu saber tantas coisas sobre você. Por isso, você deve estar se perguntando se eu sou o pai Noel. Não seja inocente: pai Noel não existe.

(to be continued...) 

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