sábado, 15 de dezembro de 2012

Efeito borboleta: a carta de 1988 (parte 2)


Quero que preste bastante atenção nas palavras que você vai ler agora: aproveite cada momento de sua vida, principalmente desses anos que estão por vir. Mas veja bem: aproveitar não significa que você deva abrir mão de quem você é. E eu sei bem quem você é. Sei, por exemplo, que o fato de ainda não ter uma namoradinha, como boa parte de seus amigos, te incomoda bastante. Infelizmente seu pai não te deu uma boa resposta quando você lhe perguntou a razão disso. De fato, falar que você não tinha namorada porque era feio não é a melhor coisa que um pai pode dizer a uma criança de 12 anos. Muito pelo contrário: isso fez com que você perdesse sua auto-estima. Ora, e como não acreditar no seu pai, que você tanto ama? Como poderia o seu grande herói dizer algo tão duro ou, então, contar-te uma mentira? Na verdade, Eduardo, é preciso que você entenda que seu pai lhe disse isso em tom de brincadeira. Lembra-se de que ele riu depois de ter dito que você é feio? Acredite: daqui a umas décadas você fará o mesmo tipo de brincadeira com ele. Ele te dirá coisas bem mais duras e você achará graça do que ele disser, pois vai reconhecer que ele está brincando. Por isso, não leve o que ele disse tão a sério. Você é muito mais bonito do que você pode imaginar. De qualquer forma, não quero, não posso nem devo convencê-lo do contrário, porque há certas coisas que não devem sair do rumo.
Eu não sei como te dizer isso de outra forma, por isso tentarei ser direto: você reconhecerá daqui a alguns anos que até o fato de seu pai ter dito que você é feio terá sido bom pra você. E sabe por quê? Porque isso te manterá afastado das mulheres. As palavras de seu pai fazem e continuarão fazendo por muitos anos com que você se sinta inseguro, com medo de ser rejeitado pelas moças que você considera bonitas. E isto será uma das melhores coisas que ele terá feito por você. Explico: sem ter uma namorada, você passará os próximos anos assistindo seus colegas menos tímidos e mais abastados financeiramente saindo, beijando e namorando as meninas que você tanto admira. Isso despertara em você um doce sentimento de revolta, que o fará entregar-se aos estudos na esperança de que isso mude algum dia. E acredite: você não apenas conseguirá como também chegará mais longe do que você possa imaginar...
Eu sei que você é apaixonado por loiras. Essa sua paixão se intensificará nos próximos anos e te fará sentir-se inspirado a escrever lindos versos. No entanto, você gostará de suas musas inspiradoras em silêncio. Seus versos lhes parecerão lindos, porém elas não conseguirão entender. Seja paciente com elas; embora sejam belas, são curtas em intelecto. De qualquer forma, seu sofrimento, suas lágrimas, seus poemas e o seu romantismo, que serão por vezes considerados “fora de moda”, bem como sua dedicação aos estudos, farão de você um homem de características únicas e muito peculiares. Surgirá então uma mulher em sua vida, muito mais linda que as loiras com rostinho de anjo que você começou a ver nas páginas das revistas Playboy. Você a conhecerá de uma forma bastante inusitada. Ela encontrará em você todas as qualidades que nem mesmo você acredita possuir, como, por exemplo, bom-humor e alegria, que tem estado desaparecidos desde aquela surra que seu pai te deu lá em Quirinópolis-GO, por ocasião da venda do trator. Essa mulher, sim, apreciará os poemas que você escreverá e suspirará com as rosas que você as der de presente. Portanto, não ache que as paixões platônicas que tanto te fazem chorar hoje são o fim do mundo. Mas, por favor, não fique esperando por essa mulher. Se você o fizer, ela certamente não virá. Você precisa seguir o seu caminho de sofrimento para estar preparado quando encontrá-la. Como te disse, aproveite cada momento de sua adolescência. Chore pelas moças que tiver que chorar, escreva os poemas que tiver que escrever, sofra o que você tiver que sofrer. Enfim, seja quem você é, e não se ache o rapaz mais feio do mundo. Afinal, a mais linda das morenas espera por você no futuro. Ooops... Desculpe-me. Acho que já estou contando detalhes demais.
Diante de tudo isso, você deve estar se perguntando: quem está te escrevendo essas palavras? Não, Eduardo, eu não sou Deus.
(to be continued...)

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