sábado, 1 de dezembro de 2012

Por que guardamos coisas velhas?



Sábado, 24 de novembro. São 17h. Estamos, eu e Miguel, na casa de meus avós maternos. Vovó Maria, vovô “Mila” e tia Ângela estão fazendo faxina. Pela varanda encontram-se, dispostos em vários pequenos “montes”, diversos utensílios de cozinha. Suada, tia Ângela explica o que está acontecendo. “Ai, Eduardo, eu fiquei com dó da sua avó e vou comprar um armário novo pra ela colocar as coisas dela”. E passando a mão pela testa, chama-me para ver como está ficando o serviço. Enquanto isso, vovó e vovô estão com o Miguel no galinheiro. Miguel enche as mãozinhas de grãos de milho e os joga para as galinhas comerem. “Ta!”, diz ele ao fazer o movimento. Em seguida, um “Mai, mai!” mostra que ele gostou e quer repetir a façanha.
Tia Ângela mostra-me como ficou a dispensa. “Nossa, filho, mas tinha taaaaaanta coisa velha aqui... Olha aqui essa prateleira... Forrei com papel. Arrumamos esse baú também. Tinha taaaaaaanta roupa velha aí... Algumas estavam com traças. Nós queimamos. Agora veja esse monte aqui.” E trazendo-me de volta para fora da dispensa, aponta para um grande monte de coisas que vai se formando ao lado da parede externa. “Ai, Eduardo, é difícil, viu? A sua avó não quer que joga essas coisas fora. Olha só esse saleiro!” Ela mostra-me um saleiro branco, já surrado e sem tampa. “Tia, isso é típico de quem passou dificuldade na vida. A vovó deve achar que vai precisar desse saleiro algum dia. Mas hoje esses saleiros não custam nem R$2,00... É bem mais fácil de comprar hoje que antigamente. Pode ser também que esse saleiro faça a vovó lembrar-se de alguma coisa do passado. A gente não sabe o que as pessoas mais velhas sentem...” Meu discurso, embora genérico, é feito a partir de observações próprias que parecem convencer a tia. “É, pode ser, né? Ah, deixa eu te mostrar uma chaleira que ela guardou.” Seguimos então para o quarto de hóspedes.

Sentado em uma poltrona de sofá diante de uma televisão de tubo, lembro-me das vezes em que eu alugava fitas VHS para assistir no vídeo cassete da vovó. Lá em casa nós não tínhamos vídeo cassete... Dois filmes que assisti aqui marcaram-me bastante: “Demolidor, o homem sem medo” e “A casa dos espíritos”. Esse último fez-me chorar barbaridade... Tia Ângela surge então com uma chaleira de porcelana branca, com flores estampadas na parte externa. Na chaleira há uma tomada de dois pinos “grudada” diretamente na porcelana. O estranho é que não há fios. Se conectada à tomada, essa chaleira provavelmente deveria ficar praticamente colada à parede. Tia Ângela segue exibindo a chaleira e falando alguma coisa que não me atrai muito a atenção. “Nossa, tem tanta coisa dentro dessa chaleira...” Ela inicia então uma “faxina” dentro da chaleira. De lá saem uma tomada, alguns botões e mais um sem fim de coisas velhas. “A vovó deve guardar essas coisas porque deve significar algo pra ela”, digo pra mim mesmo, reforçando minha teoria. Eis que de repente ela tira da chaleira algo que me parece familiar. “Olha aqui, filho! Você lembra disso?” São dois ratinhos feitos de cartolina. Estão amarelados por causa o tempo. Ambos seguram nas mãos o que parede ser uma vassoura com um pom-pom na ponta, o que lembra ser uma vassoura. “Eu já vi esses ratinhos antes...”, penso comigo. A resposta me vem como uma faca transpassando-me o peito. Preso ao rabinho feito de fio encontra-se um pequeno pedaço de papel, já amarelado pelo tempo, com os dizeres: “Antônio Eduardo, 16/06/1979”. Em estado de choque, tomo os dois ratinhos nas mãos e sigo para a sala de estar. Sento-me e fico a observar aqueles dois bichinhos, que foram enfeites da mesa de aniversário de meu terceiro ano de vida. A vovó guardou aqueles ratinhos durante 33 anos....



Minha respiração fica presa, um nó se forma na garganta. Os olhos ficam mergulhados em lágrimas. Imediatamente eu coloco os óculos escuros. Não quero que me vejam chorando. Coloco então os dois ratinhos sobre a mesa e fico-os observando enquanto viajo de volta ao passado. Lembro então que a festa de meu aniversário de três anos foi realizada aqui na casa da vovó, há 33 anos... Aquela festa deve ter tido um significado especial pra a vovó. Levanto-me e sigo até a porta da varanda, de onde avisto a vovó e o vovô ainda brincando com o Miguel. Ele tem quase a idade que eu tinha quando aqueles ratinhos foram feitos... De repente, como se o Miguel entendesse o que eu estou sentindo, ele bate palmas e dá um beijo no rosto da vovó e do vovô. É um sinal de agradecimento pela doçura com que os dois o tratam. É um sinal de reconhecimento pelo amor que sempre me dedicaram. No fundo, eu sei que o Miguel os leva de volta ao passado, fazendo-os lembrar daquela criança fofa que eu fui e que eles, por causa da distância, não tiveram chance de curtir. Da mesa da sala de jantar, os dois ratinhos de cartolina parecem olhar-me. Parecem querer ensinar-me que pequenas coisas possuem grandes significados pra gente, e que às vezes precisam ser guardadas pra fazer-nos lembrar de certos momentos mágicos que o tempo insiste em apagar as marcas. 

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