quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um presente para um velho amigo


Quarta-feira, 19 de dezembro. 5h45min. Ouço o toque de um despertador tocando bem longe. O toque vai se tornando cada vez mais intenso, até eu me dar conta de que ele está ao meu lado, insistindo pra que eu me levante. Sonolento, eu o pego nas mãos e procuro algum botão que o faça despertar daqui a cinco minutos. “Mais cinco minutos, por favor...” O cansaço toma conta de mim. Dormi apenas uma hora na noite anterior.
Após uma briga inútil com o despertador, dou-me conta de que preciso levantar-me. De pé, procuro o chinelo que devo ter chutado para debaixo da cama em um daqueles momentos irritados. Desisto. Sigo descalço para o banheiro. Abro o chuveiro. Em poucos minutos tudo estará bem.
6h50min. Coloco as coisas no carro. Repasso o meu roteiro e confiro novamente se ali está tudo o que preciso. O presente. Minha bolsa com o notebook. Os CDs a serem gravados. Estou pronto para a viagem. Espere: preciso conferir o nível da água no reservatório. Abro o capô e a verifico. Está baixa. Tento desenrolar a mangueira do suporte onde a Luciene a amarrou. Após duas ou três tentativas, perco a paciência e a puxo com força, quase arrancando o suporte da parede. “Merda!”. Ligo a mangueira, desenrosco a tampa do reservatório e o encho. Desligo a mangueira e a enrolo novamente. Quando vou fechar o capô, vejo que a água do reservatório do limpador do para-brisa também está abaixo do nível. “Puta que pariu! É hoje!” E lá vamos nós de novo encarar a mangueira enrolada...
7h35min. Estou em uma estrada de terra batida, seguindo para o sítio onde coleto as plantas para o meu projeto. Pelo caminho há pés de cafés por todos os lados. Na estrada há de tudo: curvas, buracos e alguns pequenos morros, daqueles que nos dão um frio na barriga quando se passa por eles em alta velocidade. “Você quer com ou sem emoção?”, perguntava o papai quando passávamos por esses morros. Resolvo arriscar-me. O carro voa sobre o barranco e meus órgãos internos sentem um vazio até voltarem ao lugar. Olhando por este ângulo não parece algo tão divertido, e sim irresponsável. Por que certas coisas não são tão legais como antes? Curiosamente, é o que a Cherr está contando na música que toca no rádio do carro: “If I could turn back time... If I could find a way...”
7h45min. Estaciono o carro e saio em procura do seu Gilson. Quando grito seu nome, percebo que ele está procurando por mim, mas pelo outro lado da casa. Eis que ele surge, já suado de tanto trabalhar. O dia para ele parece ter começado cheio. De luvas, ele passa os punhos pela testa para remover o excesso de suor. Ao fazer isso, ele remove também parte dos cabelos brancos que lhe caíam pela testa. “O sítio está limpo, seu Gilson. O senhor deve ter trabalhando muito ontem, hein?” Ele ri e começa a caminhar. Eu o sigo. Eis que ele inicia, como de praxe, mais um passeio pelo sítio. “Aqui eu passei o rastelo”, diz ele a certa altura. “Tudo isso eu rocei com a roçadeira costal”, conta ele ao chegarmos em outro lugar. “Veja essas mudas. São de mirra”, explica ele, apontando para pequenas mudas que encontram-se encostadas na parede. Eu coloco a mão sobre seu ombro. “Venha até aqui, seu Gilson. Eu tenho uma coisa para o senhor”. Ele sorri. Já sabe o que é. “Ah, mas não precisava...” Abro a porta do carro e lhe entrego um embrulho. Sem ter à mão algo cortante, ele usa os dentes pra tentar cortar o laço de durex que envolve o presente. “Peraí, seu Gilson. Deixe-me ajudá-lo”. Em menos de dez segundos o embrulho desaparece, dando espaço para uma caixa preta. Ele a abre e pega uma das botinas do par e a prova. “Nossa, essa botina é muito macia. Dá até dó de colocar pra trabalhar.”, diz ele. Enquanto isso, abro o notebook e o coloco em cima da mesa de metal onde, em ocasiões anteriores, ele mostrou-me seus livros. “Seu Gilson, eu vou gravar essas músicas dos anos 70 para o senhor”. “Uai, se você puder, eu fico agradecido”, responde ele, colocando de volta as botinas na caixa.
Assim que a gravação termina, eu coloco o CD de mp3 no carro e mostro a ele as músicas que foram gravadas. “Isso aí é ABBA, não é?” Eu balanço a cabeça em sinal afirmativo. “Eita! Essas músicas aí são do tempo em que eu namorava agarradinho...” Então ele inicia uma narrativa sobre seus feitos e conquistas. De certa forma, é realmente esse o efeito que essas músicas parecem ter.
A gravação do segundo CD termina. Nele foram gravadas músicas românticas dos anos 80. Ele se senta no banco do passageiro do meu carro, e com o controle na mão começa a passar as músicas, fazendo comentários que eu já não consigo mais ouvir por causa do som da música. De qualquer forma, é uma grande satisfação poder demonstrar certa gratidão pela amizade que com ele criei. Tenho imensa gratidão por ele ter sempre permitido que coletássemos as plantas ali cultivadas para que pudéssemos desenvolver nosso projeto sobre óleos essenciais. Na verdade, não foi esse o elo que nos tornou amigos. Ele é espírita. Foi ele quem me convenceu a fazer a cirurgia espiritual da coluna e dos joelhos. Na semana passada, ao perceber que eu estava triste, ele dispôs-se a dar-me um passe e livrar-me da tristeza. Funcionou.
“Vou passar o Natal ouvindo essas músicas e fazendo os brincos de bambu pra sua esposa”, explica ele, mostrando que gostou dos presentes. E como se quisesse mostrar que está agradecido, ele insiste pra que eu leve algumas mangas. Em seguida, dá-me um forte abraço. “Obrigado, Miller. Que Deus lhe abençoe”. Não, seu Gilson. Que Deus abençoe a nossa amizade.

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