domingo, 22 de dezembro de 2013

Lembranças de Natal

Meus queridos Miguel e Alice,
Quando eu era criança, o Natal era uma época mágica. Eu podia sentir o cheiro do Natal já quando as aulas terminavam. A cidade e as casas se enchiam de luzes e enfeites. Na televisão os brinquedos dominavam as propagandas. Vovô Mila, vovó Maria e tia Ângela perguntavam desde cedo o que eu e a tia Hérica gostaríamos de ganhar de presente.
Tenho lembranças muito boas daquela época. Na nossa casa o clima de Natal se resumia a um enfeite na porta de entrada. Mamãe dizia que enfeitar a casa só dava trabalho e que era “bobeira”. Só sentíamos que era mesmo Natal quando o papai voltava para casa após quase dois meses longe, lutando ao volante de seu caminhão para sustentar a casa.
Na casa da vovó Lourdes e do vovô Valter o clima de Natal também era evidente. Por motivos que surgiram antes mesmo do meu nascimento, eu nunca tive o costume de visitar a vovó Lourdes, mas nesta época eu ia visita-la quase todos os dias com o papai. O vovô Valter, que também era motorista, retornava ao lar. Eu ficava perto dos dois ouvindo as histórias que os dois contavam. Às vezes ficava procurando uvas na parreira, perguntando à vovó Lourdes se eu poderia pegar um cachinho. Ela deixava, mas já avisava: “É pra salada do ano novo”. Ela se referia à salada de frutas que ela fazia e distribuía para todos os filhos no primeiro dia do ano. Ficava olhando o chão, pintado de vermelho, e o piso vermelho e brilhante da sala, onde ela montava (e assim o fez até o seu último Natal em vida...) a pequena árvore de Natal. No sofá eu sempre encontrava um “Almanaque Sadol”, que sempre continha passatempos e piadas. Eu me entretinha enquanto os mais velhos conversavam na varanda. E como falavam alto! Quando o tio Wágner, a quem o papai chamava de “Buchudo” chegava, a conversa se acalorava. “Meu irmão, você tá ficando doido!”, dizia o papai quando ouvia os “negócios” que ele fazia. Enquanto isso, a vovó Lourdes se ocupava com o almoço. Tio Válter, a quem a gente chamava de “Tim”, chegava com seu fuscão Branco barulhento – o famoso 8018 (assim chamado por causa de sua placa). “Tim, por que você não coloca um escapamento decente neste carro?”, dizia o papai. “Ô homem nojento”, retrucava ele. Mesmo com um dos dedos cortados, ele apertava com força minha mão até que eu gritasse; então ele gargalhava. Mas o melhor Natal de todos foi quando a tia Vânia, o tio Natal e o Frederico estiveram lá. Sempre quieto, na maioria das vezes sem dizer nada, eu andava pela casa e observava tudo, sem tocar nada. Via o quartinho de despejo, onde ficavam as coisas do vovô; o quarto onde o tio Tim dormia; o quarto da vovó Lourdes; o quarto onde haviam duas camas, mas onde ninguém dormia; a sala. Cada detalhe permanece vivo em minha memória, mas as palavras são, neste caso, uma ferramenta muito ineficaz para que vocês entendam como era e o que eu sentia.
Na casa da vovó Maria e do vovô Mila o clima era diferente. Minha única tia materna, a Ângela, vivia com eles e só eu e minha irmã de netos para serem recebidos e presenteados. Muito católicos, eles colocavam uma árvore de Natal logo à porta de entrada e sempre montavam um lindo presépio. Por vezes eu passava a noite de Natal lá, à esperava do presente que o Papai Noel traria, mas que eu só abriria no dia de Natal. Ainda posso sentir o cheiro de sabonete de quando eles se banhavam, e o cheiro de creme dental Kolynos antes de eles irem dormir. Lembro-me das luzes se apagando e de uma única sendo deixada acesa, pra que eu e minha irmã não ficássemos com medo do escuro. No outro dia, os presentes e o delicioso café da manhã. Depois, o almoço, com direito à Coca-Cola de um litro e Guaraná Maçá Don.
Tenho inúmeras lembranças de outras noites e de dias de Natal, algumas muito boas, outras nem tanto, mas são essas boas lembranças hoje me torturam. Em nosso primeiro Natal juntos – mamãe, eu e vocês dois – nós sequer nos reuniremos com seus avós ou seus tios para um almoço...
Quando vocês souberem ler e, principalmente, entenderem essas palavras, saibam que eu e sua mamãe os amamos muito e que nós tivemos em 2013 o melhor Natal que pudemos dar a vocês. Não será necessariamente o Natal que nós idealizamos. Não será um Natal repleto de presentes ou com casa cheia, mas um Natal repleto de amor e carinho, onde, pela primeira vez, fazer vocês dois felizes será nossa única preocupação. 
Com amor,
Papai

domingo, 15 de dezembro de 2013

Beautiful day

2004. Estou assistindo a um episódio do seriado Smallville, que narra a adolescência de Clark Kent, o alter-ego do Superman. No final de um dos episódios da 2ª. Temporada, chamado de “A flor”, Lana conversa com Clark sobre o que aconteceu durante o episódio. Ao fundo, uma linda música começa a tocar. De repente, a câmera se afasta e percebo que os dois estão em cima de um cata-vento. Fico curioso e pesquiso na internet a tal música. Descubro que se chama “Beautiful day” e é cantada pela banda U2. Fico então imaginando-me saindo da varanda da casa que quero construir, sobrevoando a vizinhança... É uma doce passagem de um sonho que, atualmente, está longe de se realizar...

2008. Débora e eu estamos assistindo ao DVD do nosso casamento. Quando se inicia o making off (ou seja, na parte em que mostra a preparação da noiva do salão), percebo que a música “Beautiful day” foi o tema que escolheu para essa parte do DVD. Que doce coincidência...

2013. Estou levando Miguel para a casa de minha mãe. Lá ele permanecerá até que Débora volte do trabalho e o busque. Ele está sentadinho em sua cadeira, no banco de trás do carro, com os cabelos despenteados, olhando pela janela. Está quieto, parece que ainda não acordou. Ligou então o rádio e começa a tocar “Beautiful day”. Digo então a ele: “Filho, olha essa música. Parece que tem um coraçãozinho batendo”. A  música começa a tocar. Ele me olha e sorri. “Papai, essa é bonitinha”. Sim, meu filho, ela é muito bonitinha. Algum dia você vai entender o quanto essa música é especial para o papai. Agora mais ainda, porque eu sempre me lembrarei de você quando eu ouvi-la. 

Meus primeiros seis meses no novo emprego


Foi na primeira semana de junho que comecei a trabalhar no novo emprego.  A sensação foi muito estranha. Todos me conheciam no meu antigo local de trabalho; aqui, para maioria, eu era um desconhecido. Muitos certamente pensaram que eu era um aluno ou técnico. Independente disso, ninguém sequer me cumprimentava ou mesmo retribuída às minhas tentativas frustradas de cumprimento. Mas eu já estava preparado para isso. Fui aprovado em concurso como todos eles, e mais cedo ou mais tarde, entenderiam que agora somos colegas de departamento.
A secretária do departamento explicou-me como a coisa funcionava. “Vamos te dar uma cadeira e uma mesa. O resto é com você. Não fornecemos material de escritório. Folhas para impressão ou canetas é com você. Quando precisar de envelope timbrado, vamos te fornecer, mas um de cada vez.” Em seguida, pediu meus dados para criar minha conta de e-mail. Segui então para uma mesa ao lado da sala onde meu amigo Eduardo, com quem viajo diariamente, gentilmente ajeitou para mim. A cadeira era desconfortável e a mesa muito baixa. Mas eu não podia reclamar do tratamento.  Era preciso ter paciência.
Nas primeiras semanas, sem laboratório e sem sala, concentrei-me em escrever os artigos para divulgar os resultados que eu havia obtido no antigo emprego. Além de uma forma de retribuir à instituição e aos antigos alunos, aquela iniciativa seria também importante para que eu começasse a mostrar serviço. Infelizmente eu veria, nos meses seguintes, esses artigos serem recusados sucessivas vezes pelas mais diversas revistas. Mas eu tinha fé e sabia que era apenas uma fase ruim.
Após passar por mais uma sala improvisada em um laboratório em reforma, onde supostamente meus alunos iriam trabalhar, migrei para uma sala no primeiro andar de um bloco afastado. Ali as coisas começaram a se desenrolar. Ministrei minhas primeiras aulas de Química Geral e já no dia seguinte cinco alunos vieram pedir estágio. Após o segundo dia vieram mais dois. Outros cinco vieram após um seminário que ministrei para o curso de bacharelado. Os alunos parecerem gostar das minhas aulas. Por outro lado, eu havia tido uma empatia enorme por eles.
Nos meses que se seguiram concentrei-me em fazer o que eu devia fazer: trabalhar. Não havia laboratório, mas havia coisas a serem feitas. Apesar de estar pessimista,  submeti meu projeto para a FAPESP. Pedi também a renovação de minha bolsa de produtividade no CNPq. Também consegui trazer as coisas que ficaram para trás na minha antiga instituição. Também participei de algumas bancas.
Quanto ao relacionamento com os colegas, fiquei muito surpreso e grato com uma colega, que havia sido minha professora nos tempos de pós-graduação. Além de passar-me algumas aulas, de dar dicas valiosas e de aceitar meu pedido para dividir uma disciplina com ela, ela presenteou Miguel e Alice. Foi uma grata surpresa. Conforme eu disse a ela, eu não esperava que alguém do departamento tivesse tamanha consideração por mim. Quanto aos demais, eu procuro até hoje evitar cruzar com alguém pelos corredores. Não por não querer conversa ou por ter raiva; é justamente o contrário: não quero cumprimentar alguém e ter que receber de volta um olhar indiferente.
Após seis meses, o balanço é positivo: o projeto, para minha surpresa e satisfação, foi aprovado pela FAPESP; os alunos fizeram uma avaliação positiva da disciplina que ministrei na graduação. Alguns, inclusive, enviaram-me e-mails demonstrando o reconhecimento e agradecendo pelas aulas deste semestre.
Com relação ao antigo emprego, o contato com todos não podia ser melhor. No entanto, a instituição trocou de dono e algumas pessoas que faziam parte do meu cotidiano foram dispensadas. Na verdade, foram 220 dispensas... Estou muito feliz com a decisão que tomei tempos atrás de estudar e de ter idealizado, um dia, trabalhar onde estou trabalhando. Sinto-me realizado. Consigo lidar com todos os aspectos negativos deste novo emprego, pois aqui tenho duas coisas que eu preciso não apenas para ser produtivo e feliz: paz e tranquilidade.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Momento de felicidade

12 de dezembro. Minha esposa, eu e nossos filhos estamos na casa da vovó Maria. Viemos a convite da tia Ângela, que hoje completa mais um ano de vida. Papai e mamãe também estão aqui. As atenções de todos estão divididas entre os meus dois pequenos. Enquanto mamãe, tia Ângela, Clara e vovó babam na Alice, fico com o vovô aqui no quintal. Com o Miguel no colo, eu o chamo. “Filho, o papai vai contar uma historinha pra você.” Ele responde: “Ham...”, já ansioso pela história. Eu prossigo; “Era uma vez um menino que morava numa fazenda muuuuuuuito longe, com seu papai e sua mamãe. Ele não tinha ninguém para brincar. Um dia seu vovô veio visita-lo. Ele ensinou o menino a amarrar seu sapato e brincou de caminhãozinho  com ele. O menininho então pediu para seu vovô imaginar que puxasse o caminhão que ele mesmo havia feito no canivete. E o menininho ficou muuuito feliz.” Quando olho para o vovô, seus olhos estão rasos em lágrimas. Eu e ele sabemos quem é o menininho e quem é o vovô da história que acabei de contar... Eu também fico emocionado...

Passados alguns instantes, ainda com o Miguel no colo, todos param para ver a Clara e eu dançarmos Tarantella. Decido fazer isso com o Miguel nos braços. Ele dá cada risada gostosa! Enquanto rodo, vejo a alegrai no rosto de todos que estão ali presentes. Todos nos olham e sorriem. Miguel está às gargalhadas, que parecem contaminar aos que assistem a cena. Papai parece ter se esquecido que meu tio Tim está em estado grave de saúde devido á diabete; vovó, vovô e mamãe deixaram as dores de lado. Momentos como este são raros e precisam ser registrados pra que eu possa me lembrar dele daqui a alguns anos...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Coisas que são urgentes

Em outras épocas eu era alguém que vivia muitas experiências. Em 2005, por exemplo, quando criei este blog, eu dava aulas na rede pública e na universidade. No ano seguinte passei também a ter histórias pra contar da academia onde eu fazia hidroginástica, e do ônibus em que viajava pra dar aulas na universidade. Ainda tinha minhas aventuras pra contar das viagens que eu fazia em uma estrada cheia de perigos e percalços. Por outro lado, eu era um rapaz cheio de sonhos. Queria construir minha casa, casar-me e ter meus filhos.
Hoje em dia as histórias que eu tenho pra contar são um pouco menos interessantes ou, talvez, eu já não tenha mais tempo pra conta-las. Isso porque eu consegui construir minha casa, casar-me e ter dois filhos maravilhosos. Eles ainda são novos e é a eles que eu dedico o tempo que eu tinha pra escrever aqui de vez em quando.
Escrever é algo que eu sempre gostei muito de fazer. Porém, no momento há outras coisas que são mais urgentes. Meus filhos não podem esperar! Meu filho nasceu outro dia e já está com dois anos e seis meses. Preciso investir na moldagem de seu caráter e na sua educação. Tudo o mais, por agora, me parece menos importante. Além disso, eles são o meu maior orgulho, são as minhas maiores vitórias.

Muitas das histórias que eu teria pra contar agora seriam sobre minhas experiências como pai. Elas serão contadas à medida do possível. Eu só preciso que alguém pare o relógio pra eu fazer isso...

domingo, 3 de novembro de 2013

Convulsão

Quarta-feira, 7 de janeiro de 2007. O relógio do celular acusa 12h18min. Estou almoçando na faculdade, em companhia da amiga Niege. Somos professores de pós-graduação e fazemos parte do grupo de pesquisa em Química aqui da universidade. Estamos sentados em uma mesa azul, onde há um enorme símbolo da Pepsi desenhado. As cadeiras também são azuis. De um buraco no centro da mesa emerge, meio desequilibrado, a haste de um enorme guarda-sol. Enquanto eu deixo o garfo e a faca de lado, na tentativa de centralizar a haste do guarda-sol, eu tento prestar atenção no que a Niege está me contando. Sinto-a preocupada e ao mesmo tempo magoada com algumas coisas que têm acontecido por aqui. São coisas que não nos dizem respeito, mas que de certa forma mostram que existem bastidores também na ciência de nosso país e que os mesmos não são tão floridos como a maioria pensa. Ao conseguir centralizar o guarda-sol, tento alternar meu olhar entre a Niege e o prato de comida, para que eu possa manter a boca cheia e, ao mesmo tempo, prestar atenção no que ela diz. Em uma rápida olhada pela praça de alimentação, percebo que há muitas pessoas no local. Há poucos lugares disponíveis. Circulando entre as mesas, com camisa branca contendo os dizeres "Forno e fogão" bordados em azul, um homem negro, aparentando entre 30 e 40 anos transita ente as mesas com pratos e bandejas na mão. Seu apelido é Luisinho. Sua função é retirar os pratos e bandejas que os "fregueses" deixam sobre as mesas. É um homem humilde. Quando cumprimentado, limita-se a um mero movimento de cabeças. Dificilmente abre a boca para falar algo, talvez por causa da timidez ou (quem sabe?) por ser de origem humilde e estar trabalhando para alunos "ricos"...
Retorno rapidamente os olhos para a Niege. Meus ouvidos permanecem sempre atentos ao que ela fala, mas meu pensamento viaja longe, como se estivesse elaborando uma resposta para tudo o que ela está me contando. Ela realmente está muito chateada. Após alguns minutos, ela termina com um simples "Você acha que tem cabimento?" Agora com a vez da palavra, eu exponho o que meu lento pensamento conseguiu processar dentre todas as coisas que ela disse. "Olha, Niege, eu acho que você tem razão quanto à sua forma de pensar, mas acho que há também um outro lado que pode lhe ser prejudicial caso você revele o que está me revelando agora. Eu sugiro que você..." Sou então interrompido por um enorme estrondo. É o som etridente, característico de um prato que cai e se quebra ao colidir com o chão. Este som vem acompanhado por um outro um pouco mais "oco", como se uma pessoa tivesse caído. Tentando manter a calma, eu olho na direção de onde veio o som. Percebo então um rápido movimento de pessoas próximo ao palco onde as bandas costumam todar. "Meu Deus do céu, acudam aqui, por favor! O Luisinho caiu!" Ao olhar em direção ao aglomerado de pessoas, vejo o Luisinho, que há poucos segundos avistei, caído no chão. Ele me parece inconsciente, pois seus olhos estão fechados. Deitado de bruços e com os braços junto ao corpo, o Luisinho colide sua cabeça sucessivas vezes contra o chão, em movimentos ritmados e repetidos. Aos poucos um corte se abre logo acima de sua sobrancelha, fazendo gotejar sangue sobre o chão onde ele está batendo a cabeça. Sua boca começa a encher-se de sangue, que ele parece estar inconscientemente cuspindo. "Meu Deus, Niege, o que é que está acontecendo?", pergunto à minha amiga. Antes que ela pudesse responder-me, alguém que correu em socorro do Luisinho grita: "Chamem um médico, por favor! O Luisinho está tendo convulsões!" Então eu me levanto e dou alguns passos em direção ao corpo do Luisinho, que a esta altura já não sei se está vivo ou morto. Algumas pessoas tentam controlá-lo, na tentativa de fazer com que ele pare de bater com a cabeça no chão. Ao viraram o corpo dele, seu corpo aumenta a freqüência com que ele realiza seus movimentos de convulsão. Assustado com o volume de sangue que a esta altura se acumula sobre o chão, coloco uma mão na boca (que a esta hora está entreaberta) enquanto a outra se mantém na testa. Eu não sei o que fazer! Chocado com aquela cena, eu me afasto e procuro um lugar para sentar-me. O lugar que encontro fica próximo da sorveteria da Perfetto, sob a sombra de enormes eucaliptos. Respiro fundo... Percebo então o quanto somos frágeis e que nesta vida estamos apenas de passagem. A qualquer momento podemos ser chamados a partir desta vida, por isso cada segundo que dela usufruimos deve ser vivido com muita intensidade e amor. Para muitos, não existe uma segunda chance. Eu espero que haja uma para o Luisinho...

Mais uma experiência como professor

9 de março de 2006. Em 2003, tomei conhecimento que uma escola da rede privada, aqui de São Joaquim, estava precisando de um professor de Química. Na época, recordo-me que a minha experiência didática limitava-se às sofríveis e angustiantes aulas de Controle de Qualidade para o curso de Farmácia, uma disciplina que não tinha nada a ver com a minha formação...
Pois bem. Como o meu objetivo na época era juntar uma quantidade de dinheiro necessária para comprar uma casa ou um terreno, tomei a iniciativa de enviar meu currículo para análise. Lembro-me perfeitamente que fui tratado com frieza pelo diretor. Naquele momento, a sua intenção de mostrar-me que eu estava perdendo o meu tempo foi algo constrangedor. Confesso que fiquei, de certa forma, desapontado com o tratamento dele, pois eu precisava muito aquelas aulas.
Mas, como dizem, o mundo dá muitas voltas...
Hoje, passados mais de três anos, a escola está com o sinal amarelo aceso. A situação financeira da escola está tão caótica que o tal diretor acabou vendendo a escola para três professoras, como forma de pagamento da dívida que tinha com os seus professores e funcionários. Uma dessas professoras é minha amiga e, a seu convite, fui cobrir a ausência de um dos professores de Química.
Dois foram os motivos que me levaram a topar esse desafio. O primeiro deles foi por ter sido convidado por essa amiga, que está se dedicando de corpo e alma para reerguer a escola. O segundo é o fato que eu estava curioso para constatar, por mim mesmo, as diferenças entre uma escola pública e uma escola da rede privada.
Com relação à qualidade das aulas, não posso garantir que foram como eu gostaria, mas acho que não deixei muito a desejar. Pelos erros, entretanto, assumo toda a culpa sozinho. Afinal, a coordenadora equivocou-se ao me comunicar o horário e o conteúdo das aulas... Não tive vergonha e proferi uns "não sei" várias vezes...
Como experiência, posso resumir que hoje eu não trocaria mais se trocaria a rede pública de ensino pela rede privada. Não sei se as apostilas e o dinheiro (que sobram na rede privada e que faltam na escola pública) substituem um afeto saudável.
Mais uma vez, Deus mostrou-me que realmente não sei pedir. Por isso, irei apenas agradecer por mais esta oportundidade e por ter me conduzido todos estes anos para o caminho que sigo agora...

Falso professor ou professor falso?

Terça-feira, 7 de dezembro de 2007. Passei toda a manhã tentando preencher os diários e fechar as notas no ensino médio. Havia poucos alunos na escola, então preferi ficar em sala de aula, sozinho, a permanecer na sala de professores. Eis que um professor de Matemática veio conversar comigo. Trata-se de um homem de meia idade, que beira os 50 anos de idade. Ele é desquitado e adora uma “balada”. O professor adentrou a sala e começou a conversar comigo. Após alguns minutos de conversa, perguntei sobre o que havia causado a sua separação. Uma pergunta dessas está longe de ser “fuxico”. Minha intenção é conhecer cada vez mais sobre os relacionamentos. Afinal, a partir de maio próximo eu serei um homem casado. Sem meias palavras, o professor começou a contar-me sua vida. Senti tristeza em suas palavras, e em determinados momentos, lamentei muito a situação em que aquele homem se encontrava. Minutos depois ele deixou a sala e sumiu. Passado algum tempo, as faxineiras começaram a varrer a sala e me comunicaram que só havia eu de professor na escola. Foi então que decidi ir embora. “Ora, se não há alunos e todos os professores se foram, por que irei permanecer aqui?”, pensei. E assim o fiz. Quando estou me aproximando de casa, o celular toca. É a Ivani, nossa coordenadora. “Eduardo, onde você está?”, pergunta ela, com voz séria. Ao ouvir a resposta, ela diz: “Há um aluno aqui pedindo um trabalho para compensar as faltas. A diretoria disse que se você não estiver aqui, você vai ficar com falta”. A questão é que aquele aluno não estava na escola enquanto eu estava lá, caso contrário eu não teria vindo embora. Eu me recordo de tê-lo visto na porta da escola quando fui embora. “Pode colocar falta, pois não acho justo ter que voltar aí só pra satisfazer as vontades deste aluno. Se ele quisesse assistir às aulas ou quisesse realmente um trabalho, deveria ter ido à escola.” Para minha surpresa, fiquei sabendo, por meio de um outro professor amigo meu, que enquanto a diretoria falava que ia colocar falta para mim, aquele professor de meia idade com quem eu acabara de conversar dizia: “Eu concordo com você. Tem que ficar com falta mesmo.” Eu achava que tudo nesta vida tinha limite, mas a falsidade dos homens parece ser uma exceção. Fico então imaginando: o que será dos alunos nas mãos de professores desprovidos de caráter e de ética como este? Como é que se quer construir uma sociedade mais justa quando os próprios professores são os maiores defensores da “lei de Gérson”?

sábado, 2 de novembro de 2013

Última carta ao meu avô Crotti

Querido vovô Crotti,
Não sei bem ao certo por que motivo estou escrevendo estas palavras, pois sei que o senhor nunca as lerá. Na verdade, acho que o senhor nunca teve muita paciência para ler ou, talvez, não goste de ler O fato é que hoje, sem razão aparente, senti vontade de escrever-lhe esta carta.
Embora nós não tenhamos sido muito próximos, as lembranças que guardo do senhor são muito boas. Lembro-me de que o senhor gostava de tocar sanfona, que tinha uma voz grossa e firme. Quando ficava nervoso, sempre dizia que ia dar um tiro na cabeça de alguém. Eu tinha realmente medo de que o senhor fizesse isso, mas o papai dizia que o senhor só falava aqui "da boca pra fora". O senhor também adorava dançar. Jamais esquecerei o dia em que encontrei o senhor em um dos forrós do SEMAI, em uma das vezes em que fui com Débora e os pais dela. O senhor ficou surpreso quando me viu, já que eu nunca soube dançar e muito menos gostava de forró...
Quando tornei-me adulto e comecei a contar piadas, percebi que o papai ficou orgulhoso de mim quando eu as contava para o senhor e o senhor ria delas. Também fiquei sabendo que o se gabou algumas vezes de ter um neto doutor. Tenho ainda guardado o único par de sapatos que o senhor me deu quando eu tinha três anos de idade. É daquele aniversário de três anos a única lembrança que eu tenho do senhor me segurando em seus braços. Aquele presente me marcou tanto... Quando criança, até pedi uma sanfona de presente para o senhor me ensinar a tocar. 
Hoje não adianta mais tentar me desculpar ou pedir que o senhor mude. É tarde demais para nós dois, vovô. Nada restou daquele homem forte e nervoso que conheci. Fui visitá-lo ontem no hospital e chorei muito. As notícias que o médico nos deu não foram boas. Seu pulmão está trabalhando apenas com 10% da capacidade. Os outros 90% foram tomados pelo efizema. O cigarro, seu amigo inseparavél de sempre, acabou levando-o a este estado. O alimento chega até o senhor por uma sonda, e uma outra sonda o ajuda a urinar. O senhor está evacuando muito sangue, vovô, e isso o está deixando anêmico. Quando deixar de evacuar sangue, o médico colocará novamente o balão para ajudar na respiração, e como o pulmão do senhor está comprometido, o senhor terá falta de ar e talvez morra sufocado. O senhor está inconsciente, não reconhece ninguém e não tem força pra falar (não há ar suficiente em seus pulmões...). Em outras palavras, resta-lhe muito pouco tempo de vida.
Sei que o senhor jamais saberá disso, mas preciso dizer que lamento muito pelo que o senhor está passando. Ninguém merece tanto sofrimento. O senhor dizia que eu era um mole e que era preciso ser durão pra vencer na vida. Acho que o senhor passou a me olhar com olhos diferentes depois que comecei a trabalhar. Só que agora, vovô, eu não consigo ser egoísta o suficiente pra pedir que o senhor seja durão e que Deus o deixe conosco nesta situação. É triste escrever isso, vovô, mas eu sei que este é o fim da linha.
Queria também pedir desculpas por não ter sido um neto suficientemente bom, ainda que eu o tenha sempre respeitado. Sentirei saudades da sanfona tocando na varanda, do cheiro de cigarro, de ver o senhor beijando a boca do cachorrinho e até mesmo de vê-lo gritando com a vovó. Aliás, quando o senhor partir (e todos nós sabemos que isso está próximo), saiba que a vovó irá logo em seguida, pois ela o ama mais que a si mesma. Além das lembranças, restará uma família desmantelada, certamente desunida pela briga pelos bens que vocês deixarão.
O papai diz que o senhor nunca lhe deu um abraço, e eu sinto que ele tem muita mágoa do senhor por isso. Percebo que ele queria ter recebido do senhor o carinho que ele me deu, mas que mesmo assim, e do jeito dele, vejo que ele o ama e o respeita muito. Eu espero que o senhor o perdoe.  
Por fim, quero que o senhor saiba que não medirei esforços para que o sobrenome Crotti seja sinônimo de bondade e de boa índole, em honra à força que o senhor tem mostrado nos últimos anos em sua luta contra os seus problemas de saúde.
Com muito carinho,
De seu neto
Eduardo
(meu avô faleceu no final de 2008, pouco depois de escrever esta carta; somente agora tive coragem de publicá-la...)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Fragmentos de minha adolescência - parte 4

Maio de 1986. Tenho 10 anos. Estudo na Escola Estadual Manoel Gouveia de Lima. Estou na 4a série A, no período “da manhã”. Minha professora, a “tia” Dalva, que é minha professora desde a 3a série, também foi professora da mamãe. Sou um aluno muito comportado. Tenho boas notas, porém sou muito tímido. Quase não converso com os colegas. Acho que sou assim porque não quero tirar notas vermelhas. O papai disse que se aparecer mais notas “B” do que notas “A” no boletim, eu vou apanhar. Sendo assim, eu prefiro não conversar para prestar mais atenção na aula. Eu me sento na segunda fileira, contando da janela em direção à porta. Não gosto de me sentar lá na frente, porque eu acho que a professora poderá chamar minha atenção por mínimo que seja o deslize que eu cometer. Sendo assim, prefiro sentar mais para o fundo da classe. Por aqui há alguns alunos bem “bagunceiros”, alguns deles são até repetentes. Um deles tem um nome engraçado. Chama-se “Shershes” (nem a professora sabe escrever o nome dele direito!), mas a gente o chama pelo apelido: “Bill”. Ele é o aluno mais alto e mais velho da nossa turma. Deve ter uns 16 anos, mais ou menos. Tem cabelos loiros bem lisos, que chegam à altura dos ombros. Quando se senta e puxa a carteira em direção ao seu corpo, seus joelhos ficam mais altos do que o nível da mesa. Às vezes eu olho e fico rindo comigo mesmo, imaginando como alguém pode ser tão grande. Há também um aluno muito rebelde em nossa sala. O apelido dele é “Paçoca”. É um negro magro, com alguns dentes faltando e outros encavalados. Tem uma voz rouca e um cabelo de corte bem baixo. O “Paçoca” é o aluno mais brigão e encrenqueiro da sala. Confesso que tenho um certo medo dele, por isso prefiro ficar quieto no meu canto. Na verdade, não me lembro de ter falado com ele nenhuma vez. Prefiro assim, pois ele tem sido muito maldoso até mesmo com os colegas que conversam com ele. Embora eu tenha apenas 10 anos, eu sei dar bastante valor nas poucas coisas que eu tenho, a começar pelo material escolar. A mamãe comprou para mim um pequeno estojo de madeira, que tem mais ou menos uns 8 cm de largura por uns 20 cm de comprimento. A tampa é marrom, com algumas “rosas” estampadas. Embora eu não tenha gostado muito da tampa, por achar que aquelas rosas fossem motivo para alguém tirar o sarro, este estojo acabou se tornando a peça mais querida do meu material escolar. Em sua lateral, com todas as cores de minha “Bic 4 cores”, escrevi meu nome bem forte, para que ninguém tome o estojo de mim. Dentro do estojo eu guardo, com muito carinho, as minhas canetas duas "Bic Kilométricas", a azul e a vermelha, um lápis da Faber-Castell que contém tabuada, uma borracha “Mercuryo” e um apontador de metal. Quando estou com este estojo nas mãos, eu sinto como se eu e ele fôssemos um só.
Acabo de copiar o ponto que a tia Dalva passou na lousa. Guardo então as canetas “kilométricas” azul e vermelha dentro do meu querido estojo e fecho o caderno. Agora é só aguardar bem quietinho a tia nos chamar lá na frente para dar visto no "ponto" de hoje. “Antônio Eduardo”, chama ela em voz alta, após alguns minutos. Abro então o caderno brochura pequeno e sigo cuidadosamente entre as carteiras. Meus passos são leves, para não fazer muito barulho quando meus pés tocam no assoalho de madeira. Mostro então o ponto para a tia Dalva. Ela analisa cuidadosamente, lançando sobre os óculos de armação preta um olhar quase clinico. “Muito bem”, diz ela, enquanto dá o visto e anota o ponto positivo na caderneta da classe. Com a timidez de sempre, pego o caderno nas mãos e sigo de volta para minha carteira. Quando lá chego, percebo que há algo de errado... Meu estojo não está lá! “Meu Deus do céu, onde foi parar o meu estojo?”, pergunto para mim mesmo. Ouço então uma gargalhada. É o Paçoca. Ao olhar para ele, percebo que ele esta com meu estojo nas mãos. Na outra mão ele tem uma caneta Bic, com a qual ele está riscando sobre o meu nome, com tanta forca que está perfurando a madeira do meu estojo tão estimado. Desesperado, eu me esqueço do medo que tenho dele e parto pra cima dele, na tentativa de tentar recuperar o meu estojo. “Fica frio, muleque. Tá com dó do estojo, é? Isso é porque você não viu o que eu fiz com o seu caderno! Hahaha” Ao ouvir isso, um frio me percorre a coluna. Corro então para a minha carteira, em busca dos meus outros cadernos que ali permaneceram enquanto eu fui levar o caderno para a tia Dalva dar o visto. Percebo então que todos os meus cadernos estão riscados, do começo ao fim! Neste momento sinto uma raiva que eu nunca havia sentido antes. Minha respiração começa a se acelerar. Lagrimas de ódio começam a escorrer pelo meu rosto. Olho para o Paçoca, ainda rabiscando o meu estojo, já todo estragado. Ele ainda está sorrindo. Aproximo-me dele e coloco as duas mãos no estojo, para tomá-lo de suas mãos. No momento em que ele tenta resistir, eu começo a chutar com força a canela dele com o bico do meu tênis Rainha. “Ai ai ai, seu filho da p...” Ao sentir a dor na canela, o Pacoca afrouxa o estojo e eu o tomo de suas mãos. No entanto, acho que minhas bicudas em sua canela o deixaram nervoso, e ele parte pra cima de mim com toda a fúria. Sem saber me defender, eu apenas protejo a cabeça próxima aos dois cotovelos, como se estivesse aguardando os murros que ele ia dar. No entanto, ouço a voz forte e lenta do Bill, que se levanta e fica entre mim e o Paçoca. “Paçoca, larga mão, vai. Você já estragou os cadernos e os estojos dele. Ele já tá chorando. Isso vai dar rolo”, diz o Bill. “Bill, sai da minha frente. Você viu ele me chutando! Eu vou quebrar a cara dele!” Ao ouvir a confusão no fundo da sala, a tia Dalva vem correndo verificar o que aconteceu. “O que e que está acontecendo aqui, hein? Alguém pode me explicar?” O Paçoca se antecipa: "Tia, ele chutou minha canela!" Ao ouvir isso, eu intensifico o choro, na tentativa de comover a Tia Dalva. “Tia, olha o que ele fez com o meu estojo e com os meus cadernos!”, digo-lhe, mostrando os estragos feitos pelo Paçoca. Irritada, a tia Dalva desfere uns 4 ou 5 tapas no ombro do Paçoca, pega-o pelo antebraço e segue com ele para a diretoria. Ainda chateado, com o estojo todo rabiscado nas mãos, eu olho para o Bill. Ele ri e diz: "Tonhão, você me deve uma esfirra lá na cantina do Seu Tavico, hein!" Eu retribuo o sorriso. “Pode deixar, Bill. Valeu!” Afinal, se não fosse o Bill, os meus dentes neste momento estariam mais estragados que os do Paçoca...
Outros Fragmentos de minha adolescência:

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma paixão chamada futebol


O futebol é, de longe, o esporte mais praticado no Brasil. É o chamado “esporte das massas” e requer apenas uma bola ou algo aproximadamente redondo que possa ser chutado. Em nosso país, uma criança descobre facilmente como chutar uma bola quando está caminhando e encontra uma à sua frente. O chute é quase uma extensão do movimento das pernas durante sua caminhada.
Minha história de futebol iniciou-se com meu avô Antônio Miller. Desde pequeno ele me presenteava com fardas de vários times. Não sei por que diabos acabei gostando da farda do São Paulo e o acabei escolhendo para meu time. O fato é que ele queria que eu fosse jogador de futebol. Claro que isso era uma vontade dele, e nada tinha a ver com minha habilidade. Eu me lembro de uma vez em que ele foi assistir a um jogo; nervoso, acabei fazendo um gol contra... Acho que minha avó Maria Olívia tinha estava mais certa ao querer que eu me tornasse padre que o meu avô ao querer que eu me tornasse jogador de futebol... Graças a Deus acabei me enfiando nos livros e neles encontrando o meu caminho profissional.
O mais gostoso de jogar futebol é conhecer pessoas e tornar-se próximas delas. Sendo tímido, sempre vi no futebol o principal meio de conhecer novas pessoas. 
Hoje, já na casa dos 35 anos, jogar futebol para mim é um grande desafio. Não me refiro a vencer; refiro-me a jogar. Devido ao joelho estourado, tenho medo até de chutar a bola e romper novamente os ligamentos. O corpo muda, a mente também tem que mudar pra aceitar suas limitações. Amadurecimento? Serenidade? Não. Coisa da idade mesmo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Duas Alices

São 7h da manhã. Estou no hospital desde as 5h40min. Débora está sendo preparada no centro cirúrgico para uma cirurgia cesariana, que trará às nossas vidas a pequena Alice. Enquanto aguardo ansioso na sala de espera, uma mulher aparentando entre 65 e 70 anos chega empurrando uma cadeira de rodas, nela trazendo um senhor com cabelos e sobrancelhas brancas. Ela o conduz a uma antessala para que o mesmo vista a roupa de cirurgia. Uma enfermeira tenta ajuda-lo. “Por favor, não pegue neste braço que ele sente dor”, avisa a senhora. Ela então passa o braço direito do senhor pelo seu pescoço e desaparecem sala adentro. Após alguns minutos, ele é novamente colocado em sua cadeira e conduzido para o centro cirúrgico. A senhor parece apreensiva.
- Do que ele vai operar? – pergunto eu, ao ver a expressão triste da senhora.
- De um tumor... – responde ela com expressão triste e desanimada.
Sem saber o que dizer, eu apenas levanto as sobrancelhas e demonstro compartilhar de sua tristeza. Ela então começa a contar sua história.
- Pra você ver: tive três filhos e meu marido morreu. Criei os três trabalhando no pau-de-arara. Mas eu era nova, tinha 32 anos. Então eu conheci ele e nos casamos e tivemos mais um filho. Ele é bem mais velho que eu. Agora sou eu que cuido dele. Sou sozinha, não posso contar com  ninguém.
Nesta hora, duas coisas me passam pela cabeça: 1) Quando os pais envelhecem, a maioria dos filhos lhes dão as costas; 2) Eu fiz certo em não perguntar se aquele senhor era pai dela...
- E você?, pergunta ela.
- Estou aguardando minha esposa. Ela está no centro cirúrgico, fez uma cesariana.
- Ah, que bom! Deus abençoe vocês!
Surge então uma enfermeira dizendo que o médico que ia operar aquele senhor quer falar com ela. Entra então na sala um médico jovem, que se senta ao lado dela pra explicar a situação. “Não dá pra operá-lo. Só vamos fazê-lo sofrer. Ele já está com 91 anos, é uma cirurgia de risco, e há grandes chances de não funcionar. O tumor é muito agressivo! Duas semanas atrás era apenas um versão; hoje há caroços por todo o lado esquerdo do corpo. Acho que se o operarmos, só vamos judiar dele. Vamos encaminha-lo para a radioterapia e tentar proporcionar o melhor fim possível a ele”, diz o médico nada otimista. A senhora respira, olha para o chão. Está claramente triste, porém aparentemente conformada. “O que se pode fazer, né doutor?”
O médico sai da sala e nos deixa a sós novamente. Minutos depois surge a enfermeira com a Alice nos braços. Eu me levanto rapidamente e a pego nos braços. Tem os olhos incrivelmente azuis! Quando olho para o lado, ali está a senhora, de pé ao meu lado, admirando a Alice.
- Que bebezinha mais lindinha! E como é grande! Olha que olhos lindos! Como é o nome dela?
- É Alice.
– Eu também me chamo Alice... – diz ela, com um sorriso no rosto.

Vejam como são as coisas. Duas Alices: uma acabando de chegar, trazendo alegria a todos, sem a menor ideia do que a espera; a outra, com tantos anos já vividos, atravessando um momento tão triste e sem muito que esperar dos anos que vida que restam. Inexplicavelmente, eu me transporto para aquela cadeira de rodas e me imagino velhinho, doente e sem forças. Desejo, então, não falhar com a educação da Alice, para que, caso eu precise, ela siga o exemplo da dona Alice e não me abandone.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Romantismo é coisa do passado

Um dos grandes desafios que surgem com o passar dos anos é a maneira como lidamos com as mudanças nos costumes da sociedade. Mudam-se as roupas, mudam-se os comportamentos, mudam-se as normas de conduta. Há, obviamente, muitas coisas que mudam para melhores, mas outras que, no meu entender, seguem na direção oposta. É o caso, por exemplo, dos relacionamentos.
Venho das saudosas décadas de 80 e 90 e hoje estou me aproximando dos 40 anos. Na minha época de adolescência, eu pensava para “namorar” uma mulher, era preciso namorá-la primeiro. Curiosamente, minha forma de pensar já era ultrapassada para aqueles tempos. Não por acaso os botões de rosa que eu colocava à noite nas portas das casas de minhas “paqueras”, sempre com um verso originalmente criado por mim e inspirado na pretendente da vez, nunca davam em nada. Isso, obviamente, quando alguma menos espirituosa não dizia que eu estava fazendo papel de bobo (o que equivale hoje à expressão “pagando mico”). Já naquela época as moças se sentiam mais atraídas pelos homens mais falantes – curiosamente, eram os que menos estudavam!!! – e mais bonitos. Mas e o romantismo? Será que as mulheres não gostavam mais de homens que abriam as portas, eram gentis e educados? Não, naquela época elas já não gostavam...
Certa vez uma colega da casa de pós-graduação me disse que para ser seu namorado, o homem devia enviar flores, abrir a porta do carro, escrever versos e tantas outras coisas mais que eu sempre achei que deviam ser feitas. Por fim, ela disse que preferia ficar solteira a namorar um homem que não tivesse essas qualidades. Eu endossei o discurso dela e teria me tornado um grande fã desta moça, não fosse pelo fato de ela, à noite, ter “enchido a cara”, tomado todas e, no fim da noite, ter transado com um colega nosso. Ora, imaginem como eu fiquei confuso... Afinal, pra ser namorado tem que ser romântico; pra transar, não?
De lá pra cá já se passou uma década. “Ficar”, hoje em dia, é quase sinônimo de ter relação sexual. O beijo tornou-se uma coisa banal: beija-se várias pessoas em uma única noite, sem haver qualquer compromisso entre os beijantes – muitas vezes, as pessoas que se beijam são completamente desconhecidas umas das outras. Que coragem! Ou seria irresponsabilidade?
Fico me perguntando onde vamos parar. Como serão os relacionamentos dos meus filhos? Daqui a uns 10 anos (ou não seriam tantos anos assim?) como estarão as relações humanas? Eu não faço a menor ideia. Apenas acho que houve um certo exagero na liberação da mulher, que hoje parece querer imitar o homem na sua promiscuidade afetiva. “Direitos iguais”, dizem elas com a devida razão. De qualquer forma, eu sinto falta de ver casais românticos, que namoram por anos e depois constroem famílias maravilhosas, como antigamente. Particularmente, tive a sorte de casar-me com uma mulher perfeita para mim. Mas e meus filhos? Será também o Miguel tachado de bobo (até lá acharão um outro sinônimo pra “bobo”) por ser romântico? Ou ele será como os outros? E a Alice? Como será a mulher moderna? Devo educa-la como na minha época ou isso só lhe traria sofrimento?

Ao final deste post, há uma única conclusão a que chego: estou ficando realmente mais velho a cada dia... Não apenas em corpo, mas também em espírito. E as coisas vão se tornando cada mais complicadas....

domingo, 8 de setembro de 2013

De volta - de novo!

Há meses este blog não recebia atualizações. De fato, minha vida nos últimos meses tem tido um ritmo diferente do que eu estava acostumado. Tenho procurado não acessar muito o computador aqui em casa (só o estou fazendo agora porque estão todos dormindo...). Desde que fui aprovado no concurso e iniciei minhas atividades no novo emprego, tenho procurado separar as coisas: trabalho deve ser feito no trabalho, não em casa. E acessar a internet em casa sempre acaba em algum trabalho...
Em março, pouco antes de deixar o antigo emprego, fiz uma nova cirurgia espiritual para curar os joelhos e o esporão no calcanhar esquerdo. Os resultados não poderiam ser melhores: voltei a correr e a jogar futebol. Algo que me deixou bastante feliz foi notar que estou jogando sem proteções (caneleiras, tornozeleiras, proteção para a coluna) e sem lentes de contato. Ou seja, estou praticamente mais saudável que há cinco anos, quando me casei.
No novo emprego as coisas vão indo bem. Aos poucos estou me sentindo mais “em casa”, embora não conheça a maioria das pessoas com quem trabalho. É bem diferente de onde eu trabalhava, onde todos se conheciam e sabiam da capacidade um do outro. Isso, pra ser sincero, não me chateia. Prefiro cada um na sua.

Estamos ansiosos pela chegada da Alice. Como disse na postagem anterior, ser pai de menina vai ser um grande aprendizado. Desde já nos sentimos abençoados pela oportunidade de termos um casal de filhos. Só espero que se dêem bem. Aliás, esperar é a coisa que a gente mais faz quando se tem filhos...

Carta ao meu segundo anjinho

Meu querido bebê,
Você está na barriga da sua mamãe há mais de 30 semanas. O corpo de sua mamãe tem reagido diferente da gravidez anterior. Não surgiram manchas na pele da sua mamãe, como ocorreu na gestação do seu irmãozinho Miguel. Você já parece reconhecer minha voz. Às vezes, quando falo próximo à barriga da sua mamãe, você se mexe e faz ondas na barriga da sua mamãe. Eu espero que você seja uma criança tranquila e educada, que nasça saudável e que nós consigamos dar uma boa educação a você. A esta altura, com a experiência que estamos adquirindo na educação do seu irmão, já posso dizer que será uma missão difícil, principalmente nos tempos atuais. As pessoas são, em sua maioria, egoístas, são mal-educadas e ríspidas. Por isso, se você souber dizer “desculpas”, “por favor” e “obrigado”, você será alguém que as pessoas gostarão de ter por perto. 
Outro dia sua mamãe foi comprar roupas para você. A princípio, nós não víamos problemas em você usar algumas roupinhas do seu irmão, mas você terá que ser suas próprias roupas também. Ao tocar neste assunto e ao mencionar seu ainda pequeno irmãozinho, sinto necessidade de deixar algumas palavras pra você ler daqui a alguns anos – não sei necessariamente a quantos, pois as crianças estão amadurecendo cada vez mais cedo...
Assim como ocorreu com sua tia Hérica, você virá ao mundo já tendo um irmão. E assim como eu, seu irmão Miguel é que estará aguardando sua vinda. Por ter sido o primeiro, ele tem tido até então a atenção de todos. Quando você nascer, as atenções se dividirão. Isso será um choque para ele, assim como foi para mim. Por outro lado, será um aprendizado para ele, pois ele terá que aprender a dividir o espaço, o amor e a atenção com você. Aliás, vocês terão que aprender a dividir as coisas e a se respeitarem. Eu espero, sinceramente, que vocês sejam os dois melhores irmãos do mundo e que sejam dois filhos maravilhosos. Quero que se dêem bem e que se amem um ao outro. Não quero que se prendam a coisas materiais, que disputem entre si pra ver quem tem mais brinquedos ou coisas do tipo. Pelo amor de Deus! Vocês são, sim, filhos dos mesmos pais e são sangue do meu sangue, mas desde a gestação são únicos. Haverá, obviamente, algumas características que eu gostaria que vocês tivessem em comum, como a educação, a vontade de estudar, o senso de responsabilidade, o respeito pelas pessoas e a aptidão por fazer atividades físicas. Isso, porém, é algo pelo qual eu posso apenas rezar, sem esperança de ser atendido. Afinal, a cada comparação que fizerem entre vocês, a tendência é que vocês, desnecessariamente, busquem fazer o contrário para reforçar que são diferentes. Eu não sei por que as pessoas tendem a se comparar umas às outras, em dizer quem é bom e quem é ruim. Essa classificação é, na maioria das vezes, tendenciosa e tem a intenção de colocar você e seu irmão um contra o outro. Não deem ouvidos a isso, por favor!. De qualquer forma, eu gostaria que você amasse muito o seu irmãozinho e que tivesse paciência com ele. Nós estamos conversando com ele e o estamos orientando a tratar você muito bem. Ele o fará, mas precisamos da sua colaboração pra que esse bom tratamento seja mútuo.
Quero terminar esta carta dizendo que você já é uma bênção em nossas vidas. Ser seu pai será uma grande honra, e por que não dizer, uma das maiores lições de minha vida. Estou muito ansioso e espero não cometer na sua educação os mesmos erros que seu avô cometeu na educação de sua tia. Por isso reforço que criar-te e educar-te será um grande aprendizado, pois não tenho muitos modelos a seguir. Só o tempo dirá se nós fomos bem-sucedidos.
Na época da gestação de seu irmão, a maioria de meus colegas na época dizia que ser pai de menina era melhor que ser pai de menino. Talvez dissessem isso porque fossem pais de meninas e, em razão disso, reforçavam os pontos positivos. Após o nascimento do seu irmão, eles continuavam dizendo a mesma coisa, principalmente reforçando que as meninas são mais carinhosas. Pois bem. Deus concedeu-me a bênção de ser agora seu pai, minha querida Alice. Você levará o nome de minha tia avó, uma pessoa muito amável e honesta, de quem nós sentimos muita saudade. Você atenderá o mesmo número de telefone que ela atendeu, que seu vovô herdou e me deu de presente. Espero não decepcioná-la como pai, e da mesma forma, espero que você não nos decepcione.
Nos falamos em breve, minha querida filhinha...
Nós te amamos muito, meu pequeno anjinho!
Com amor,
Papai

O concurso - parte final

Quarta-feira, 20 de fevereiro. 9h30min. Entro na sala e me posiciono para a argüição. Para mim este é o momento mais difícil do concurso. Já passei por argüições nos dois concursos anteriores e não foram boas experiências. Os membros da banca fazem questões provocativas para verificar como o candidato se sai pra responder. É preciso ter jogo de cintura e tomar cuidado com o que se diz nessas horas.
Como eu previa, as perguntas que vão surgindo são contundentes. Em uma delas, conforme eu já esperava, um professor questiona o fato de eu não ter saído do país. Essa é a mais difícil de explicar, pois eu não posso falar a verdade. Nessas horas não é permitido culpar as condições econômicas de minha família, que não me permitiram cursar inglês na adolescência. Em uma banca não é permitido “fazer-se vítima da vida”. Minha resposta terá que girar em torno de “falta de oportunidade” ou coisas do tipo. O fato é que, caso eu seja aprovado, terei que passar um ano fora do país. É uma experiência que eu realmente sinto que falta, mas que envolverá grande sacrifício pessoal.
A argüição termina. Eu saio com a sensação de ter sido bombardeado. No final, os examinadores pedem que eu retire um tema para a aula de amanhã. Coloco a mão no saquinho e retiro um tema do qual já dou aulas faz tempo. Sigo então direto para casa. Serão mais 24h de tensão...
Quinta-feira, 10h30min. É minha vez de dar a aula. Preparei os slides até de madrugada, estou bastante cansado. E nervoso, obviamente... Aos poucos consigo ir dando seqüência à aula. Na sala, além dos examinadores, mais três pessoas – um professor e dois colegas. No final, saio com a sensação de dever cumprido. Agora está nas mãos de Deus – e, claro, dos examinadores.

15h30min. As notas começam a ser divulgadas. Aos poucos vou descobrinndo que minhas notas foram melhores que as da outra candidata. A cada nota minhas pernas vão bambeando. Estou cada vez mais próximo da vaga... Quando divulgam o resultado, fraco, fisicamente e psicologicamente. Não consigo comemorar... mas a vaga é minha!

sábado, 29 de junho de 2013

Isso sim é uma história triste...

Ontem participei de uma banca de defesa de doutorado na Universidade Federal de Uberlândia. A banca era às 14h. A secretária da pós-graduação ligou-me dizendo que um motorista viria buscar-me em casa por volta das 8h. Disse-me que o motorista seria o senhor Lázaro.
Às 8h15min ouvi um carro parando em frente ao portão. Peguei rapidamente a mochila com a tese de doutorado e corri em direção ao portão. Quando abri o portão dei de cara um homem sorridente, com a mão estendida. “Seu Lázaro?”, perguntei. “Carlos, professor. Muito prazer”.
Durante a viagem fomos conversando e o Carlos acabou contando-me um pouco de sua história, uma das mais tristes que já vi até hoje. Disse-me que seus pais, ele e seus três irmãos moravam na zona rural. Quando ele tinha seis anos, sua mãe abandonou a família e fugiu com outro homem. Desesperado, sem entender o que havia acontecido, ele muniu-se de um embornal, encheu-o de frutas e caminhou 40 km até a cidade mais próxima, em busca da mãe. Sem obter êxito, retornou para casa. Ainda teve a sanidade de conter seu pai e evitar que ele fosse atrás do homem matá-lo. Seu pai acabou falecendo 15 anos depois, ainda apaixonado pela mãe... Há quinze anos atrás, após a morte de seu companheiro, sua mãe retornou de mãos abanando e hoje mora com Carlos e sua família. Por tudo isso, Carlos demonstrou em nossa conversa uma profunda admiração pelo pai, que se manteve firme na criação dos filhos.

Histórias como a de Carlos são muito comuns e extremamente tristes. Ele tinha tudo para tornar-se uma pessoa envolvida com coisas ruins, mas ao invés disso tornou-se um pai de família. Pelas palavras que ouvi dele, seus filhos o adoram. No fim das contas, eu o agradeci muito pela viagem. Em um mundo em que todos desistem facilmente e se entregam ao álcool e às drogas, foi realmente um privilégio conhecer pessoas como o Carlos. Sua vida faz-nos refletir sobre as ocasiões em que pensamos em desistir e a não nos queixamos quando temos problemas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O concurso - parte 3

Terça-feira, 19 de fevereiro. 13h52min. Entrego a prova e deixo a sala. Estou exausto e faminto. Minha mão está com câimbras. Sigo em direção à cantina. Vou comer algo rapidinho, pois logo vai começar a leitura das provas. Escolho algumas folhas de alface e uns pedaços de salsicha. Sento-me com uma das candidatas e comentamos sobre  a prova. Ela se espanta com o número de páginas que escrevi. “Você já levou”, diz ela. Sempre contrário a este tipo de pensamento, eu a refuto imediatamente: “Não diga isso. Ninguém sabe o que pode acontecer. Nem sempre quantidade é sinônimo de qualidade.”
14h30min. É minha vez de ler a prova. Eu me sento, raspo a garganta e começo a leitura. Em pouco mais de 15 min eu termino as 20 páginas. Os membros da banca agradecem e pedem pra chamar o próximo candidato.
15h40min. Após uma longa espera, somos chamados para a divulgação das notas. Estou ansioso. Afinal, era um tema que eu não havia estudado em detalhes. Além disso, eu gostaria taaaanto de passar nesse concurso... Para mim seria um verdadeiro sonho!

As notas são divulgadas. Dentre os cinco candidatos, apenas uma candidata e eu somos selecionados. As demais candidatas se despedem e nos desejam boa sorte. Amanhã devemos retornar para arguição do memorial... Uma batalha já se foi, mas a guerra está longe de terminar..
(to be continued...).

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Amigos queridos que vão partindo


Meu pai sempre disse que a morte faz parte da vida. Por mais estranha que esta frase soasse, os anos foram me mostrando que esta frase faz sentido. Afinal, vários familiares, colegas e pessoas conhecidas foram partindo deste plano desde que me entendo por gente, deixando saudades e inúmeras boas lembranças.
Para os familiares, a dor sempre é presente nos momentos da partida. Não importa se quem parte tem quase 100 anos ou se é alguém que vinha sofrendo de uma doença grave e vinha se debilitando aos poucos; o choro e a dor são inevitáveis. Entretanto, as situações mais dolorosas – e, por que não dizer, incompreensíveis – são aquelas em que as pessoas que partem são jovens.
Na época de colégio, nosso colega Geraldo Menani Júnior veio a falecer de traumatismo craniano no meio de uma brincadeira: ao tentar subir no palanque onde a bandeira era hasteada, um dos colegas o empurrou e ele bateu com a cabeça. Tempos depois, um de nossos colegas conhecido por Alexandre “Capão” sofreu um acidente de moto na Via Anhanguera enquanto retornava embriagado de uma cidade vizinha e veio a falecer. Eram pessoas jovens, que tinham a vida toda pela frente.
Na minha vida adulta, uma das passagens mais dolorosas foi o falecimento de minha amiga Ana Cláudia Sacilotto. Tinha eu um carinho muito grande por ela, o que vocês podem comprovar através das postagens que dediquei a ela aqui neste blog. O que mais marcou foi o fato de ela ter partido aos 40 anos, sem ter cumprido a missão que começou: ela deixou uma filha com menos de um ano de idade, além de outra, que devia beirar os quatro anos. Percebi então que a dor é maior quando as pessoas que partem não são apenas jovens, mas que não tiveram a oportunidade de terminar o que começaram.
Hoje, 1º.de maio de 2013, tive durante a manhã a notícia de que dois colegas queridos partiram. Um deles, o Alexandre Dezem, era professor de Química na ETEC Pedro Badran. Ele era irmão de um colega de infância, o Frederico. Meu primeiro contato com ele foi durante as viagens à Franca, durante a graduação. Ele se sentava nos últimos bancos, ao lado da Laura, que viria a tornar-se sua esposa. Embora nos falássemos pouco, eu sabia que ele também cursava Química e que era o responsável pelo laboratório de controle de qualidade da então Carol. Em 1999, quando eu havia acabado de ingressar no mestrado, recebi uma ligação dele perguntando se eu não podia esclarecer-lhe algumas Naquela época ele havia começado sua carreira como professor de supletivo da escola Yara. As poucas noites em que nos encontramos para discutirmos alguns tópicos de Química foram suficientes para que surgisse entre nós uma amizade baseada em admiração e muito respeito. Para minha satisfação, nos anos seguintes ele viria a tornar-se um professor muito querido e reconhecido na cidade. Durante vários anos ele foi professor e coordenador do curso de técnico em Química da ETEC Pedro Badran, uma das melhores escolas aqui da cidade. Eu me lembro dele, inclusive, indicar-me algumas vezes para ministrar algumas aulas de substituição. O “Dezem”, como era conhecido e admirado, sofria nos últimos tempos com uma ou mais hérnias de disco e, por esta razão, teve que submeter-se a uma cirurgia. Um dos riscos era a embolia pulmonar, que uma semana após a cirurgia fê-lo sucumbir. Aos 41 anos de idade, Dezem deixa sua esposa e dois filhos para criar, missão que ele não terá oportunidade de concluir...
Outro colega que também faleceu foi o França. Nós jogamos futebol de salão juntos no início dos anos 2000 na quadra da Academia Verde Vida com o pessoal da Microbarra. Dotado de uma canhota muito habilidosa e de um chute preciso, o França era um ótimo companheiro de time: não era fominha e era fácil trocar passes com ele. Tempos depois eu o encontrei no ônibus, em uma das muitas viagens para Ribeirão Preto durante a pós-graduação. Ele me dissera que a loja onde ele trabalhava havia fechado, e pelo que me lembro, ele havia se transferido para outra cidade, agora na empresa de eletrodomésticos Colombo. Por essa razão, havia colocado sua casa à venda. Tempos depois, ele conseguira transferência para a unidade da Colombo aqui de São Joaquim da Barra. Certa vez ele deixara escapar que tinha sido premiado com uma viagem para o Nordeste por ser um dos melhores gerentes da região. E não era pra menos: ele sempre cobria os preços da concorrência. Certamente atingia todas as metas que lhe eram impostas. Talvez a pressão por atingir essas metas tenha sido a responsável pelo infarto fulminante que o separou de sua família. França, segundo dizem, morreu sentado, sem qualquer chance de sobreviver ao infarto, deixando para trás sua esposa e, até onde sei, dois filhos, cuja formatura ele não terá chance de assistir. Ele tinha menos de 45 anos.
A esta hora, Dezem e França devem sentados ao lado do Pai, contando um pouco de suas experiências aqui neste plano. Talvez Ele considere que os dois cumpriram exemplarmente os seus papéis aqui conosco, como filhos, pais, esposos e amigos, e que já haviam evoluído o suficiente em suas passagens nesta vida. Esta é a única explicação plausível que consigo encontrar para entender a partida de ambos e da Ana Cláudia. Que suas famílias também estejam com Deus neste momento tão difícil e doloros.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Anjo da guarda

     Terça-feira, 9 de abril. Estou na estrada que liga Franca a São Joaquim da Barra. Já é noite. O asfalto está ruim no trecho em que me encontro. O carro treme tanto que pareço estar passando por as famosas costelas-de-vaca que são comuns em estradas de terra. Como sempre, para evitar que o carro desmonte de tanto vibrar, piso no acelerador para que o carro ganhe velocidade e, assim, não trema tanto.
     De repente, sinto uma mão tocar no meu ombro direito. Não, eu não estou ficando louco. E sim, estou sozinho no quarto. Eu não me assusto. Muito pelo contrário: tomo aquele toque como um alerta. É como se o meu anjo de guarda quisesse avisar-me de algum perigo logo à frente. Por precaução, diiminuo a velocidade e sigo o caminho.
     Passados uns 2 km, avisto no meio da pista um brilho metálico, como se houvesse algo no meio da pista. Com a luz alta consigo ver o que se trata: uma Belina sem as luzes traseiras!!! Na velocidade em que eu costumo passar por aquele trecho, eu certamente não a teria visto em tempo de frear. Passo então ao lado do veículo, que conta apenas com fracas luzes dianteiras, e buzino, advertindo o motorista sobre as luzes. Talvez ele já saiba...
     Sigo então o resto de meu trajeto, meio em choque. Deus advertiu-me da presença daquele carro na pista. E deve tê-lo feito através de meu anjo de guarda, que tocou meu ombro naquele momento. É, eu sei... Muitos não acreditam em anjos de guarda. Pois bem: se aceitam um conselho, vocês deveriam começar a acreditar...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma carta para meus filhos


Meus queridos filhos,
Esta é a primeira carta que direciono a vocês dois. Conforme eu disse em algumas cartas anteriores, é possível que essas palavras soem extremamente “obsoletas” no mundo em que vocês estão crescendo, mas eu farei de tudo para que não sejam. Nesta carta, eu tentarei deixar algumas palavras para que vocês reflitam sobre a vida quando acharem que as coisas não vão bem.
A adolescência, meus queridos, é uma fase extremamente difícil na vida dos jovens. No entanto, como todo pai que ama seus filhos, eu nutro uma forte esperança de que vocês não serão mal-educados, mal-humorados nem depressivos como a maioria dos jovens que conheço. Tenho fé de que nós vamos sobreviver a esta fase. Digo nós porque eu e a mãe de vocês certamente sofreremos com os percalços da adolescência de vocês.
Quando eu era adolescente , na década de 80, eu via a maioria dos vizinhos lá de casa ganharem brinquedos caros que eu não podia ter. Os pais de alguns dos colegas da vizinhança onde cresci eram bancários e viajavam para a praia durante as férias, enquanto eu, sua tia Hérica e seus avós viajávamos para o sítio de sua bisavó Lourdes em Quirinópolis-GO. Enquanto eles se esbaldavam na areia e na água do mar, eu e seu avô trabalhávamos sob o sol quente em meio a barro ou a uma poeira infernal. Como se não bastasse, eu também não tive videogames ou videocassetes. Nem carrinho de controle remoto eu tive. Muitas vezes eu não tinha com quem brincar e sentia-me diferente e muito solitário. Quando comecei a sair à noite, eu ficava inconformado com o fato de as moças sempre se sentirem atraídas pelos mesmos rapazes, não raramente os mais bem vestidos e, pasmem, os que menos gostavam de estudar. Por vezes eu tentei mudar meu corte de cabelo. Eu nunca estava satisfeito com o meu cabelo. Em resumo, eu era extremamente preocupado com aquilo que eu não tinha e com o fato de não ser aquilo que eu queria.
Enquanto tudo isso acontecia, eu visitava muito pouco a casa de meus avós e de meus tios avós. Quando ia à casa da bisavó Maria, eu passava a maior parte do tempo brincando com os colegas em frente à casa dela. Embora eu sempre respeitado a ela e a seu bisavô Antônio, eu não dedicava a eles o tempo que eles mereciam.
Vocês devem estar se perguntando por que raios eu deixei essas palavras para vocês. Pois bem. Amando-os como eu os amo, quero que saibam que eu não desejo o sofrimento de vocês, mas infelizmente eu não terei como evita-lo, principalmente na adolescência. É justamente este sofrimento e esta luta de auto-aceitação que farão vocês amadurecerem. A falta de alguns bens materiais e o fato de vocês terem que abdicarem a algumas coisas para terem outras será um exercício e tanto pra vocês entenderem que não podemos ter tudo o que queremos, pelo menos não na adolescência. Se tudo tiverem, acharão que a vida é fácil e tornar-se-ão pessoas moles e fracas, acostumadas a terem tudo o que querem. Toda a privação que eu e sua mãe passamos – ela ainda mais que eu – nos tornou pessoas acostumadas a viver com pouco na adolescência. Fazer cara feia, ficar emburrado ou reclamar não eram atitudes aceitáveis por nossos pais naquela época. A adolescência também foi um período difícil pra nós dois, mas nós sobrevivemos. Por isso, entendam e aceitem que vocês não morrerão se não conseguirem quando quiserem a roupa tão desejada ou um celular novo. Vocês devem ser pessoas ponderadas e, ao olhar para o mundo, devem enxergar que milhões de pessoas vivem sem ter sequer o que comer. Além disso, tivemos autenticidade pra não abrir mão de quem nós éramos para ser aceitos pela "turma" - que, aliás, e graças a Deus, nós nunca tivemos. Por favor, não façam isso! O mundo não vai acabar se vocês não fizerem parte da turma ou se não forem a uma festa em que "todo mundo" foi. Vocês não precisam fazer coisas erradas e sair do caminho correto para serem aceitos. Sejam vocês mesmos!
Por fim, quero que vocês apenas se lembrem de que tudo o que fizermos nesta fase será pensando no bem de vocês. E acreditem: vocês ainda não sabem nada da vida e, por isso, ainda não sabem o que é melhor pra vocês. Por mais que considerem isso um absurdo, que isso é "arrogância" de nossa parte, convém lembrar-lhes que eu e sua mãe também achávamos o mesmo quando tínhamos a mesma idade que vocês. E como o tempo passa muito rápido, vocês mal fecharão os olhos e estarão escrevendo a mesma coisa para os filhos de vocês. Se isso acontecer, certamente vocês terão sobrevivido á adolescência e se tornado adultos do bem. E nós, claro, estaremos orgulhosos de vocês, estejamos onde estivermos.
Com todo o amor do mundo,
Papai

sábado, 23 de março de 2013

O concurso - parte 2


Terça-feira, 19 de fevereiro. 3h da manhã. Estou exausto. Venho brigando com o sono há uns 20min. Não consigo mais manter os olhos abertos. Além de pesados, eles ardem. Não sei o que fazer, pois ainda não terminei de preparar o resumo sobre reações radicalares. Todos os outros estão prontos, mas eu lamento não ter me tocado para este. Foram praticamente seis meses de estudo... Como não fui me lembrar deste? De qualquer forma, agora não adianta lamentar o leite derramado. Além disso, há apenas 10% deste tópico ser escolhido. Por isso, considerando que para estar no local da prova no horário marcado eu precisarei acordar às 5h30min, pelo menos, vou desistir e ir para a cama. Preciso de pelo menos duas horas de sono pra manter-me de pé.
8h50min. Estamos na sala onde a prova teórica será realizada. Estamos todos tensos. Afinal, esta prova é eliminatória. Quem não conseguir nota 7,0 de pelo menos três membros da banca está eliminado das próximas fases do concurso. O presidente da banca irá sortear o conteúdo e pede pra alguém venha conferir se as dez pedrinhas estão corretas. Na tentativa de ser cavaleiro e poupar as demais candidatas de se levantarem, sigo em direção ao presidente e confiro rapidamente que todas as dez pedras estão lá. Quando vou me virando, o presidente pede pra que eu enfie a mão no saquinho e escolha uma pedra. Eu olho para as candidatas, tenso. “Gente, não me deixem fazer isso... Eu tenho azar nessas horas...” Todas riem. Eu enfio a mão e trago de volta o número 9. O presidente confere a lista para ver a qual tópico este número se refere. “Reações radicalares”. Eu fico inconformado. As demais candidatas também...
9h20min. Estou tentando anotar algumas informações do resumo que preparei, mas até isso é difícil. O assunto não me é muito familiar, então não me sinto muito seguro. Mas o tempo está passando, eu tenho apenas mais 30min pra poder anotar alguma coisa pra usar nas próximas 4 h de prova. Decido então passar o olho e selecionar algumas coisas importantes. É um momento de muita tensão.
13h50min. Sou o último candidato a entregar a prova. Escrevi 20 folhas. Considerando o meu conhecimento sobre o tema, estou até satisfeito com o resultado da prova, porém não sei como foram os outros candidatos. Existe também a possibilidade de ninguém ter sido aprovado. Mas não adianta especular. O que está feito, está feito. Agora que seja o que Deus quiser.
(to be continued...)

domingo, 3 de março de 2013

À espera de um anjo


Meu anjo,
Essa é a única palavra que me vem à mente neste momento para referir-me a você. É curioso como a gente se conhece há tantas vidas mas eu, por enquanto, ainda sei tão pouco sobre você. Mas eu não tenho pressa. Na verdade, eu soube da sua existência há apenas 10 dias. Desde aquele instante eu passei a amar-te incondicionalmente. Pra ser sincero, eu ainda estou em êxtase diante de tamanha felicidade. Há tempos eu pedi a Deus pra que a gente se encontrasse, e isso vai acontecer muito em breve. E você pode ter certeza de que vamos  ser muito felizes. Se eu tivesse pedido incansavelmente a Deus por um milagre, é pouco provável que ele viesse em um momento tão especial e, por que não dizer, inesperado.
Neste momento, o que eu mais faço é rezar por você. Rezo por sua saúde e para que Deus derrame em você todas as bênçãos possíveis. Estou ansioso para o momento de nos encontrarmos e de nos conhecermos melhor. Eu espero que nós tenhamos uma vida juntos, e que nossa convivência seja repleta de harmonia, paz, alegrias, amor e cumplicidade. Eu sei que ainda levará um tempo pra que você leia e entenda essas palavras, mas quero muito que você o faça algum dia. É preciso e necessário para que você entenda o quanto você é especial para mim.
Estou tentando preparar-me para o nosso encontro. E quando isso acontecer, daqui a mais ou menos nove meses, estarei disposto a doar a melhor parte de mim a você, assim como fiz com seu irmão. Estou ansioso para sentir a felicidade que você vai adicionar ao nosso lar com a sua presença.
Nós te amamos, meu pequeno anjo, e desde já estamos te dedicando muito amor e carinho para que você seja uma das crianças mais doces do mundo.
Com amor,
Papai

O concurso - parte 1


Segunda-feira, 5h da manhã. Quando o despertador toca, jogo-me rapidamente da cama. Estou exausto, por isso não posso me dar ao luxo de apertar o botão “soneca” e dormir mais uns minutinhos. Hoje é um dia muito importante: o primeiro dia do tão aguardado concurso para uma vaga para ser docente da USP. Meu coração já está com o ritmo alterado. Tenho esperado tanto por este dia e me dedicado tanto... Nesta noite, por exemplo, foram apenas três horas de sono... Sigo então para o banheiro pra tomar um banho quente pra espantar o sono.
6h. Arrumo a bolsa, pego alguns livros e levo para o carro. Devo estar lá por volta das 8h, mas quero chegar mais cedo. Nunca se sabe o que pode acontecer durante uma viagem de carro. Imagine se, por uma ironia do destino, o carro quebra na estrada e eu não consigo chegar na hora? Sempre alguma coisa pode dar errado. Eu espero que não hoje.
7h. Chego à USP. Os estacionamentos estão vazios. Um dos funcionários, com um jato de ar, remove as folhas das árvores que se espalham pelo chão. Avisto uma funcionária, talvez da limpeza. Pergunto a ela se estou no lugar certo e ela diz que sim. Trocamos então algumas palavras, digo algumas coisas que a fazem rir e, em seguida, volto para o carro. Agora devo aguardar.
7h20min. Uma das candidatas estaciona o carro. Passa por mim, olha e segue em direção à cantina, que ainda está fechada. Em pouco tempo volta, aparentemente desapontada. Eu tenho a impressão de que a conheço. Desço e sigo em direção a seu carro. “Você não é a...?” Ela sorri. “Miller! Eu sabia que estava te conhecendo de algum lugar!” Ela abre a porta e me abraça. Está muito mais magra que quando a conheci – na verdade, sua circunferência está quase a metade de quando a conheci. Começamos então a falar sobre concursos e sobre o rumo que seguiram alguns colegas de pós-graduação.
7h40min. Uma outra candidata, também conhecida, se aproxima. A conversa segue bem, mas meu pobre coração está disparado. Foram feitas 11 inscrições. Um dos candidatos não virá, pois antes de sair a data deste concurso, ele prestou um outro e foi aprovado. Sabemos que ele não virá. Restam 10...
7h55min. Seguimos para a sala onde será realizado o concurso. Estamos em apenas cinco candidatos; eu sou o único homem. Todos nos conhecemos, fomos alunos na mesma época de pós-graduação. De repente, surge um moço de óculos e costeletas longas, leva a folha com nossas assinaturas e afirma que somos em apenas cinco. Se chegar alguém agora, não pode mais participar.
8h45min. Surge, enfim, a banca. Eles nos cumprimentam rapidamente e apresentam uma lista com os pontos que devemos estudar para amanhã de manhã. Entre eles está um que eu não havia estudado. Assinamos e vamos para casa. Amanhã é dia de retornar. Passarei o meu dia estudando esse maldito tópico... Como pude esquecer-me dele????
(to be continued...)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Falta uma semana...

Uma semana. É esse o tempo que falta pra que eu tome conhecimento do que poderá ter sido minha maior decepção profissional ou o maior degrau que já alcancei em minha carreira. Eu não tenho a menor ideia de qual das duas coisas vai acontecer. Mas é certo que uma delas se tornará fato. Difícil dizer. Há outras pessoas que também almejam o mesmo que eu. Somente Deus pode dizer quem merece mais. Pode não ter chegado a minha hora ainda, ou pode ser esta a hora pela qual eu esperei por anos. O tamanho da incerteza só é superado pelo da ansiedade. Estou cansado, tenho dormido muito pouco nos últimos meses. A hora está chegando. O sono também. Mas preciso ser forte pra não lamentar depois, pra ter a certeza de que, se fracassei, pelo menos fiz o meu melhor. A pressão sobre mim é grande. Ela vem de fora e de dentro. Às vezes acho que vou explodir. A verdade é que eu realmente gostaria, daqui a uma semana, de explodir de felicidade por ter vencido. Mas só Deus tem a resposta. E eu não posso tê-la agora. O que posso fazer neste momento é estudar, enquanto todos aqui em casa dormem. Por enquanto, o que sei é que não posso dormir no ponto. Que Deu me ajude.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Meu querido filho - parte 6


Meu querido filho,
Cá estou novamente a escrever-te em mais uma tentativa de deixar para você o melhor de mim. Nos dias em que essas palavras estão sendo escritas, eu e sua mãe experimentamos os melhores dias de nossas vidas até então. Você é a mais doce criatura que nossos olhos viram até então. Muito bonzinho, educado, alegre. Sua rotina é descobrir coisas. Tenho levado você à casa de seus bisavós quase todos os dias. Eles amam você de uma forma que essas palavras não conseguirão te explicar. Eles já estão velhinhos, com mais de 80 anos. Você leva vida à casa deles. Seu bisavô enche os olhos de lágrimas todas as vezes que te vê. Ele não se cansa de elogiá-lo, acha que você é muito inteligente. Sua bisavó adora quando você a abraça. É uma pena que você não tenha ainda noção do quanto eles são importantes na sua vida. Pena maior ainda será quando você entender o que quero dizer, pois eles não estarão mais entre nós... Quando isso acontecer, não fique triste: você foi o melhor bisneto que você poderia ter sido.
Nos últimos meses tenho me dedicado muito a estudar para um concurso. Ao ler essas palavras daqui a alguns anos, você saberá se foi apenas mais um concurso em que eu me frustrei ou se foi o concurso que nos colocou onde estamos hoje. Muitas coisas poderão mudar após esse concurso. Ou não. A verdade, meu filho, é que seu pai tem passado madrugadas estudando. São poucas horas de sono por noite. Estou me acabando de estudar, mesmo sabendo que todo esse esforço pode dar em nada. Eu, seu pai, nunca me considerei um gênio, mas sim um cara mediano muito, muito esforçado. Foi desse esforço que vieram as vitórias. Alguns colegas mais brilhantes que eu não tiveram a mesma sorte por serem relapsos e preguiçosos, por não fazerem bom uso de suas capacidades. Em algum momento acharam que a vida tinha lhes sido muito generosa e se acomodaram. Vi isso acontecer muito ao longo da minha vida, meu filho. É realmente uma pena, mas às vezes as pessoas acham que estão bem como estão. Elas se acomodam e assim permanecem por um tempo, até que já não é mais possível voltar atrás e elas perdem o que possuem, inclusive perdem a si mesmas.
Certamente você deve estar se perguntando a razão de eu estar escrevendo essas palavras a você. Tentarei então ser mais direto: eu espero que você seja um homem de bem. Espero que se torne um homem de caráter, educado, honesto, inteligente e trabalhador. Não sei qual profissão você vai querer exercer, mas espero que escolha alguma. Cortaria meu coração saber que você, assim como outros filhos de sua geração, teimam em viver do que os pais conquistaram na geração anterior. Eu quero que você siga o seu destino, meu filho. Quero que seja independente, que tenha suas próprias conquistas. Não desejo que quando tornar-se um adulto você seja dependente de seu pai. Eu gostaria muito que você pudesse desbravar  seu próprio caminho. No fundo, acho que é o que todo pai espera do filho.
Infelizmente, meu filho, as coisas não saem como planejamos. Por isso, se você ler essas palavras quando tiver 30 anos e estiver morando aqui conosco, não pense que nós não te amamos ou que estamos decepcionados com você. As coisas infelizmente não saem como planejamos, e pode ser que isso aconteça com você. De qualquer forma, meu filho, quero que saiba que se isso acontecer, só estaremos realmente decepcionados com você se você for um homem preguiçoso e arrogante. A preguiça e a arrogância são foram a ruína de alguns grandes colegas que tive. Um homem preguiçoso e acomodado não conseguirá jamais sair do lugar. Se você achar que a vida lhe  é boa, agradeça a ela trabalhando. Não tenha preguiça, jamais! Eu espero não ter falhado com você neste sentido. Bons exemplos com relação a isso você teve: seu pai sempre deu o máximo de si mesmo , por você, seu irmão (ou irmã) – que ainda não sabemos se você terá. Nunca entrei em um jogo para perder. E mais que isso, nunca entrei despreparado. Perdi, sim, inúmeras vezes, mas sempre caí de pé. Sempre fiz o meu melhor. Às vezes nem sempre é fácil reconhecer que apesar de todo esforço, existe alguém que nos supera. Mas o importante, meu filho, é ir até o seu limite. É isso que difere os vencedores dos perdedores. Se você for um homem dedicado, esforçado e que gosta do que faz, ficar em segundo não importa, pois você será respeitado. E, claro, você precisa entender que em algumas ocasiões é preciso que você não seja o vencedor. As razões para isso você entenderá com o tempo.
Mas como ser vencedor e não ser arrogante? É simples: entenda que as vitórias são difíceis, mas que são fruto do seu esforço. Você precisará perder para poder valorizar suas vitórias. Se suas derrotas não te fizerem desistir, então você  certamente conquistará grandes vitórias em sua vida. Essas derrotas serão importantes pra que você seja humilde e entenda que nesta vida a maioria do que acontece é relativo. Tudo tem seu lado bom e seu lado ruim. Você mesmo, meu filho, terá suas qualidades e seus defeitos.
Bem, meu filho, vou parando por aqui. Agora são 2h36min. Sua mãe está dormindo. Você também está, atravessado em nossa cama... Enquanto isso, estou aqui estudando para mais um concurso, privando-me de horas de sono ao lado de vocês. E, meu filho, a vida não é fácil. Viver é um grande desafio, a que só os fortes estão dispostos a enfrentar. Seja forte, meu filho! Não me refiro a ter um tronco forte, e sim a ter um espírito forte! Em exemplo eu tenho certeza de que não falharei com você. Seu avô e sua mãe não falharam. 

Como amor,
Seu pai

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Atropelamento no parque


Quarta-feira, 16 de janeiro. Estamos no Parque do Gorilão, no Novo Shopping Ribeirão Preto. Miguel está andando de carrinho enquanto Débora o observa e tira fotos. Clara está brincando no escorregador, enquanto minha irmã a observa e também tira fotos. Enquanto isso, estou na barraca comprando algo para comermos. Olho para o céu e vejo nuvens carregadas. O vento úmido indica que a chuva virá em poucos minutos.
A fila anda e eu finalmente consigo comprar as fichas de que preciso. Peço um refrigerante, um prato de milho cozido e um pastel de queijo. Entrego uma nota de R$20,00 e a moça me devolve R$8,00 de troco. Sigo então para o balcão, pego uma lata de Kuat e me dirijo à banca para pegar o pastel e o prato de milho.
Estou com a lata de refrigerante debaixo do braço esquerdo, com o prato de milho na mão direita e o pastel na mão esquerda. Ouço então um barulho de pingos colidindo com as telhas. A chuva começou a cair. E com força! Vejo então um corre-corre de pessoas seguindo em busca de abrigo. Débora, Miguel, Clara e minha irmã seguem para uma outra barraca. Eu as vejo, mas elas não me vêem. Lembro-me então de a Débora ter dito que estava com fome. “Não posso demorar”, penso. Preparo-me então para seguir correndo para onde elas estão.
Começo então a correr, porém devagar. Não dá pra fazer muita coisa com as mãos cheias. De repente, um adolescente aparentando uns 17 ou 18 anos, com óculos escuros, boné e roupa escura surge em minha frente, correndo em direção à tenda de onde eu acabei de sair. Está rindo, ele e outros dois colegas. Estão correndo da chuva. Ele vem em alta velocidade. O chão está molhado. Ele não consegue parar. Para proteger-se, ele estica os dois braços. Suas mãos tocam meu peito. Já as minhas mãos, preocupadas em proteger a comida, não têm o que fazer. Sou projetado para trás, e com o chão molhado, meus pés deslizam e eu “prancho” no chão. Um ruído seco se faz quando meus joelhos e cotovelos colidem com o chão. Bato também o abdômen e as genitálias. Meus óculos voam longe. Tudo o que eu acabara de comprar também foi para o chão. Assim como caí, num piscar de olhos eu também me levanto e parto para cima do rapaz. “O que é isso, cara? Cê tá ficando louco?” Ele responde. “Eu tava correndo da chuva”, diz ele, aparentemente amedrontado. Eu subo o tom de voz, bastante irritado. “Olha aí o que você fez! Eu perdi tudo o que acabei de comprar... Você vai ter que pagar!” Ele então arranca duas notas de R$10,00 do bolso e pergunta quanto é. “R$12,00”. Ele então estica-me a mão com as duas notas e eu enfio a mão no bolso para devolver-lhe o troco que recebi há poucos minutos. Assim que ele recebe o dinheiro, ele e os dois colegas somem em meio à multidão, enquanto eu permaneço ali, com o dinheiro nas mãos, molhado, sujo e com minhas articulações inchadas.
Com o dinheiro nas mãos, sigo novamente para a fila. Débora e minha irmã perguntam porque estou sujo. Eu explico. Elas lançam-me um olhar de pena. Já não mais nervoso e com o sangue um pouco mais frio, começo a sentir dor. Após comprar um novo pastel, uma nova lata de refrigerante e um outro pastel, sento-me em um banco ao lado da barraca. Estou todo dolorido. Fui literalmente atropelado. “Mas ele era grande?” pergunta minha irmã. A única resposta que me vêm à boca: “Eu estava com as mãos ocupadas, não tive como me defender. Mas não foi por maldade, ele estava correndo da chuva também. E ainda foi gente boa, pois pagou tudo o que eu havia comprado”.
Em poucos minutos várias pessoas do parque vem até mim. “Moço, o senhor machucou?”, diz uma moça da banca. Um bombeiro insiste pra que eu vá fazer umcurativo. “Não se preocupem, estou bem,”, respondo. Enquanto isso, inconformada, minha irmã conversa com o responsável pelo parque. Em instantes ela volta rindo com dois bilhetes de cortesia. Se Deus quiser, amanhã será um novo dia no Parque do Gorilão. Sem chuva. E sem atropelamentos.