quinta-feira, 11 de abril de 2013

Anjo da guarda

     Terça-feira, 9 de abril. Estou na estrada que liga Franca a São Joaquim da Barra. Já é noite. O asfalto está ruim no trecho em que me encontro. O carro treme tanto que pareço estar passando por as famosas costelas-de-vaca que são comuns em estradas de terra. Como sempre, para evitar que o carro desmonte de tanto vibrar, piso no acelerador para que o carro ganhe velocidade e, assim, não trema tanto.
     De repente, sinto uma mão tocar no meu ombro direito. Não, eu não estou ficando louco. E sim, estou sozinho no quarto. Eu não me assusto. Muito pelo contrário: tomo aquele toque como um alerta. É como se o meu anjo de guarda quisesse avisar-me de algum perigo logo à frente. Por precaução, diiminuo a velocidade e sigo o caminho.
     Passados uns 2 km, avisto no meio da pista um brilho metálico, como se houvesse algo no meio da pista. Com a luz alta consigo ver o que se trata: uma Belina sem as luzes traseiras!!! Na velocidade em que eu costumo passar por aquele trecho, eu certamente não a teria visto em tempo de frear. Passo então ao lado do veículo, que conta apenas com fracas luzes dianteiras, e buzino, advertindo o motorista sobre as luzes. Talvez ele já saiba...
     Sigo então o resto de meu trajeto, meio em choque. Deus advertiu-me da presença daquele carro na pista. E deve tê-lo feito através de meu anjo de guarda, que tocou meu ombro naquele momento. É, eu sei... Muitos não acreditam em anjos de guarda. Pois bem: se aceitam um conselho, vocês deveriam começar a acreditar...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma carta para meus filhos


Meus queridos filhos,
Esta é a primeira carta que direciono a vocês dois. Conforme eu disse em algumas cartas anteriores, é possível que essas palavras soem extremamente “obsoletas” no mundo em que vocês estão crescendo, mas eu farei de tudo para que não sejam. Nesta carta, eu tentarei deixar algumas palavras para que vocês reflitam sobre a vida quando acharem que as coisas não vão bem.
A adolescência, meus queridos, é uma fase extremamente difícil na vida dos jovens. No entanto, como todo pai que ama seus filhos, eu nutro uma forte esperança de que vocês não serão mal-educados, mal-humorados nem depressivos como a maioria dos jovens que conheço. Tenho fé de que nós vamos sobreviver a esta fase. Digo nós porque eu e a mãe de vocês certamente sofreremos com os percalços da adolescência de vocês.
Quando eu era adolescente , na década de 80, eu via a maioria dos vizinhos lá de casa ganharem brinquedos caros que eu não podia ter. Os pais de alguns dos colegas da vizinhança onde cresci eram bancários e viajavam para a praia durante as férias, enquanto eu, sua tia Hérica e seus avós viajávamos para o sítio de sua bisavó Lourdes em Quirinópolis-GO. Enquanto eles se esbaldavam na areia e na água do mar, eu e seu avô trabalhávamos sob o sol quente em meio a barro ou a uma poeira infernal. Como se não bastasse, eu também não tive videogames ou videocassetes. Nem carrinho de controle remoto eu tive. Muitas vezes eu não tinha com quem brincar e sentia-me diferente e muito solitário. Quando comecei a sair à noite, eu ficava inconformado com o fato de as moças sempre se sentirem atraídas pelos mesmos rapazes, não raramente os mais bem vestidos e, pasmem, os que menos gostavam de estudar. Por vezes eu tentei mudar meu corte de cabelo. Eu nunca estava satisfeito com o meu cabelo. Em resumo, eu era extremamente preocupado com aquilo que eu não tinha e com o fato de não ser aquilo que eu queria.
Enquanto tudo isso acontecia, eu visitava muito pouco a casa de meus avós e de meus tios avós. Quando ia à casa da bisavó Maria, eu passava a maior parte do tempo brincando com os colegas em frente à casa dela. Embora eu sempre respeitado a ela e a seu bisavô Antônio, eu não dedicava a eles o tempo que eles mereciam.
Vocês devem estar se perguntando por que raios eu deixei essas palavras para vocês. Pois bem. Amando-os como eu os amo, quero que saibam que eu não desejo o sofrimento de vocês, mas infelizmente eu não terei como evita-lo, principalmente na adolescência. É justamente este sofrimento e esta luta de auto-aceitação que farão vocês amadurecerem. A falta de alguns bens materiais e o fato de vocês terem que abdicarem a algumas coisas para terem outras será um exercício e tanto pra vocês entenderem que não podemos ter tudo o que queremos, pelo menos não na adolescência. Se tudo tiverem, acharão que a vida é fácil e tornar-se-ão pessoas moles e fracas, acostumadas a terem tudo o que querem. Toda a privação que eu e sua mãe passamos – ela ainda mais que eu – nos tornou pessoas acostumadas a viver com pouco na adolescência. Fazer cara feia, ficar emburrado ou reclamar não eram atitudes aceitáveis por nossos pais naquela época. A adolescência também foi um período difícil pra nós dois, mas nós sobrevivemos. Por isso, entendam e aceitem que vocês não morrerão se não conseguirem quando quiserem a roupa tão desejada ou um celular novo. Vocês devem ser pessoas ponderadas e, ao olhar para o mundo, devem enxergar que milhões de pessoas vivem sem ter sequer o que comer. Além disso, tivemos autenticidade pra não abrir mão de quem nós éramos para ser aceitos pela "turma" - que, aliás, e graças a Deus, nós nunca tivemos. Por favor, não façam isso! O mundo não vai acabar se vocês não fizerem parte da turma ou se não forem a uma festa em que "todo mundo" foi. Vocês não precisam fazer coisas erradas e sair do caminho correto para serem aceitos. Sejam vocês mesmos!
Por fim, quero que vocês apenas se lembrem de que tudo o que fizermos nesta fase será pensando no bem de vocês. E acreditem: vocês ainda não sabem nada da vida e, por isso, ainda não sabem o que é melhor pra vocês. Por mais que considerem isso um absurdo, que isso é "arrogância" de nossa parte, convém lembrar-lhes que eu e sua mãe também achávamos o mesmo quando tínhamos a mesma idade que vocês. E como o tempo passa muito rápido, vocês mal fecharão os olhos e estarão escrevendo a mesma coisa para os filhos de vocês. Se isso acontecer, certamente vocês terão sobrevivido á adolescência e se tornado adultos do bem. E nós, claro, estaremos orgulhosos de vocês, estejamos onde estivermos.
Com todo o amor do mundo,
Papai