quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Fragmentos de minha adolescência - parte 4

Maio de 1986. Tenho 10 anos. Estudo na Escola Estadual Manoel Gouveia de Lima. Estou na 4a série A, no período “da manhã”. Minha professora, a “tia” Dalva, que é minha professora desde a 3a série, também foi professora da mamãe. Sou um aluno muito comportado. Tenho boas notas, porém sou muito tímido. Quase não converso com os colegas. Acho que sou assim porque não quero tirar notas vermelhas. O papai disse que se aparecer mais notas “B” do que notas “A” no boletim, eu vou apanhar. Sendo assim, eu prefiro não conversar para prestar mais atenção na aula. Eu me sento na segunda fileira, contando da janela em direção à porta. Não gosto de me sentar lá na frente, porque eu acho que a professora poderá chamar minha atenção por mínimo que seja o deslize que eu cometer. Sendo assim, prefiro sentar mais para o fundo da classe. Por aqui há alguns alunos bem “bagunceiros”, alguns deles são até repetentes. Um deles tem um nome engraçado. Chama-se “Shershes” (nem a professora sabe escrever o nome dele direito!), mas a gente o chama pelo apelido: “Bill”. Ele é o aluno mais alto e mais velho da nossa turma. Deve ter uns 16 anos, mais ou menos. Tem cabelos loiros bem lisos, que chegam à altura dos ombros. Quando se senta e puxa a carteira em direção ao seu corpo, seus joelhos ficam mais altos do que o nível da mesa. Às vezes eu olho e fico rindo comigo mesmo, imaginando como alguém pode ser tão grande. Há também um aluno muito rebelde em nossa sala. O apelido dele é “Paçoca”. É um negro magro, com alguns dentes faltando e outros encavalados. Tem uma voz rouca e um cabelo de corte bem baixo. O “Paçoca” é o aluno mais brigão e encrenqueiro da sala. Confesso que tenho um certo medo dele, por isso prefiro ficar quieto no meu canto. Na verdade, não me lembro de ter falado com ele nenhuma vez. Prefiro assim, pois ele tem sido muito maldoso até mesmo com os colegas que conversam com ele. Embora eu tenha apenas 10 anos, eu sei dar bastante valor nas poucas coisas que eu tenho, a começar pelo material escolar. A mamãe comprou para mim um pequeno estojo de madeira, que tem mais ou menos uns 8 cm de largura por uns 20 cm de comprimento. A tampa é marrom, com algumas “rosas” estampadas. Embora eu não tenha gostado muito da tampa, por achar que aquelas rosas fossem motivo para alguém tirar o sarro, este estojo acabou se tornando a peça mais querida do meu material escolar. Em sua lateral, com todas as cores de minha “Bic 4 cores”, escrevi meu nome bem forte, para que ninguém tome o estojo de mim. Dentro do estojo eu guardo, com muito carinho, as minhas canetas duas "Bic Kilométricas", a azul e a vermelha, um lápis da Faber-Castell que contém tabuada, uma borracha “Mercuryo” e um apontador de metal. Quando estou com este estojo nas mãos, eu sinto como se eu e ele fôssemos um só.
Acabo de copiar o ponto que a tia Dalva passou na lousa. Guardo então as canetas “kilométricas” azul e vermelha dentro do meu querido estojo e fecho o caderno. Agora é só aguardar bem quietinho a tia nos chamar lá na frente para dar visto no "ponto" de hoje. “Antônio Eduardo”, chama ela em voz alta, após alguns minutos. Abro então o caderno brochura pequeno e sigo cuidadosamente entre as carteiras. Meus passos são leves, para não fazer muito barulho quando meus pés tocam no assoalho de madeira. Mostro então o ponto para a tia Dalva. Ela analisa cuidadosamente, lançando sobre os óculos de armação preta um olhar quase clinico. “Muito bem”, diz ela, enquanto dá o visto e anota o ponto positivo na caderneta da classe. Com a timidez de sempre, pego o caderno nas mãos e sigo de volta para minha carteira. Quando lá chego, percebo que há algo de errado... Meu estojo não está lá! “Meu Deus do céu, onde foi parar o meu estojo?”, pergunto para mim mesmo. Ouço então uma gargalhada. É o Paçoca. Ao olhar para ele, percebo que ele esta com meu estojo nas mãos. Na outra mão ele tem uma caneta Bic, com a qual ele está riscando sobre o meu nome, com tanta forca que está perfurando a madeira do meu estojo tão estimado. Desesperado, eu me esqueço do medo que tenho dele e parto pra cima dele, na tentativa de tentar recuperar o meu estojo. “Fica frio, muleque. Tá com dó do estojo, é? Isso é porque você não viu o que eu fiz com o seu caderno! Hahaha” Ao ouvir isso, um frio me percorre a coluna. Corro então para a minha carteira, em busca dos meus outros cadernos que ali permaneceram enquanto eu fui levar o caderno para a tia Dalva dar o visto. Percebo então que todos os meus cadernos estão riscados, do começo ao fim! Neste momento sinto uma raiva que eu nunca havia sentido antes. Minha respiração começa a se acelerar. Lagrimas de ódio começam a escorrer pelo meu rosto. Olho para o Paçoca, ainda rabiscando o meu estojo, já todo estragado. Ele ainda está sorrindo. Aproximo-me dele e coloco as duas mãos no estojo, para tomá-lo de suas mãos. No momento em que ele tenta resistir, eu começo a chutar com força a canela dele com o bico do meu tênis Rainha. “Ai ai ai, seu filho da p...” Ao sentir a dor na canela, o Pacoca afrouxa o estojo e eu o tomo de suas mãos. No entanto, acho que minhas bicudas em sua canela o deixaram nervoso, e ele parte pra cima de mim com toda a fúria. Sem saber me defender, eu apenas protejo a cabeça próxima aos dois cotovelos, como se estivesse aguardando os murros que ele ia dar. No entanto, ouço a voz forte e lenta do Bill, que se levanta e fica entre mim e o Paçoca. “Paçoca, larga mão, vai. Você já estragou os cadernos e os estojos dele. Ele já tá chorando. Isso vai dar rolo”, diz o Bill. “Bill, sai da minha frente. Você viu ele me chutando! Eu vou quebrar a cara dele!” Ao ouvir a confusão no fundo da sala, a tia Dalva vem correndo verificar o que aconteceu. “O que e que está acontecendo aqui, hein? Alguém pode me explicar?” O Paçoca se antecipa: "Tia, ele chutou minha canela!" Ao ouvir isso, eu intensifico o choro, na tentativa de comover a Tia Dalva. “Tia, olha o que ele fez com o meu estojo e com os meus cadernos!”, digo-lhe, mostrando os estragos feitos pelo Paçoca. Irritada, a tia Dalva desfere uns 4 ou 5 tapas no ombro do Paçoca, pega-o pelo antebraço e segue com ele para a diretoria. Ainda chateado, com o estojo todo rabiscado nas mãos, eu olho para o Bill. Ele ri e diz: "Tonhão, você me deve uma esfirra lá na cantina do Seu Tavico, hein!" Eu retribuo o sorriso. “Pode deixar, Bill. Valeu!” Afinal, se não fosse o Bill, os meus dentes neste momento estariam mais estragados que os do Paçoca...
Outros Fragmentos de minha adolescência:

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma paixão chamada futebol


O futebol é, de longe, o esporte mais praticado no Brasil. É o chamado “esporte das massas” e requer apenas uma bola ou algo aproximadamente redondo que possa ser chutado. Em nosso país, uma criança descobre facilmente como chutar uma bola quando está caminhando e encontra uma à sua frente. O chute é quase uma extensão do movimento das pernas durante sua caminhada.
Minha história de futebol iniciou-se com meu avô Antônio Miller. Desde pequeno ele me presenteava com fardas de vários times. Não sei por que diabos acabei gostando da farda do São Paulo e o acabei escolhendo para meu time. O fato é que ele queria que eu fosse jogador de futebol. Claro que isso era uma vontade dele, e nada tinha a ver com minha habilidade. Eu me lembro de uma vez em que ele foi assistir a um jogo; nervoso, acabei fazendo um gol contra... Acho que minha avó Maria Olívia tinha estava mais certa ao querer que eu me tornasse padre que o meu avô ao querer que eu me tornasse jogador de futebol... Graças a Deus acabei me enfiando nos livros e neles encontrando o meu caminho profissional.
O mais gostoso de jogar futebol é conhecer pessoas e tornar-se próximas delas. Sendo tímido, sempre vi no futebol o principal meio de conhecer novas pessoas. 
Hoje, já na casa dos 35 anos, jogar futebol para mim é um grande desafio. Não me refiro a vencer; refiro-me a jogar. Devido ao joelho estourado, tenho medo até de chutar a bola e romper novamente os ligamentos. O corpo muda, a mente também tem que mudar pra aceitar suas limitações. Amadurecimento? Serenidade? Não. Coisa da idade mesmo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Duas Alices

São 7h da manhã. Estou no hospital desde as 5h40min. Débora está sendo preparada no centro cirúrgico para uma cirurgia cesariana, que trará às nossas vidas a pequena Alice. Enquanto aguardo ansioso na sala de espera, uma mulher aparentando entre 65 e 70 anos chega empurrando uma cadeira de rodas, nela trazendo um senhor com cabelos e sobrancelhas brancas. Ela o conduz a uma antessala para que o mesmo vista a roupa de cirurgia. Uma enfermeira tenta ajuda-lo. “Por favor, não pegue neste braço que ele sente dor”, avisa a senhora. Ela então passa o braço direito do senhor pelo seu pescoço e desaparecem sala adentro. Após alguns minutos, ele é novamente colocado em sua cadeira e conduzido para o centro cirúrgico. A senhor parece apreensiva.
- Do que ele vai operar? – pergunto eu, ao ver a expressão triste da senhora.
- De um tumor... – responde ela com expressão triste e desanimada.
Sem saber o que dizer, eu apenas levanto as sobrancelhas e demonstro compartilhar de sua tristeza. Ela então começa a contar sua história.
- Pra você ver: tive três filhos e meu marido morreu. Criei os três trabalhando no pau-de-arara. Mas eu era nova, tinha 32 anos. Então eu conheci ele e nos casamos e tivemos mais um filho. Ele é bem mais velho que eu. Agora sou eu que cuido dele. Sou sozinha, não posso contar com  ninguém.
Nesta hora, duas coisas me passam pela cabeça: 1) Quando os pais envelhecem, a maioria dos filhos lhes dão as costas; 2) Eu fiz certo em não perguntar se aquele senhor era pai dela...
- E você?, pergunta ela.
- Estou aguardando minha esposa. Ela está no centro cirúrgico, fez uma cesariana.
- Ah, que bom! Deus abençoe vocês!
Surge então uma enfermeira dizendo que o médico que ia operar aquele senhor quer falar com ela. Entra então na sala um médico jovem, que se senta ao lado dela pra explicar a situação. “Não dá pra operá-lo. Só vamos fazê-lo sofrer. Ele já está com 91 anos, é uma cirurgia de risco, e há grandes chances de não funcionar. O tumor é muito agressivo! Duas semanas atrás era apenas um versão; hoje há caroços por todo o lado esquerdo do corpo. Acho que se o operarmos, só vamos judiar dele. Vamos encaminha-lo para a radioterapia e tentar proporcionar o melhor fim possível a ele”, diz o médico nada otimista. A senhora respira, olha para o chão. Está claramente triste, porém aparentemente conformada. “O que se pode fazer, né doutor?”
O médico sai da sala e nos deixa a sós novamente. Minutos depois surge a enfermeira com a Alice nos braços. Eu me levanto rapidamente e a pego nos braços. Tem os olhos incrivelmente azuis! Quando olho para o lado, ali está a senhora, de pé ao meu lado, admirando a Alice.
- Que bebezinha mais lindinha! E como é grande! Olha que olhos lindos! Como é o nome dela?
- É Alice.
– Eu também me chamo Alice... – diz ela, com um sorriso no rosto.

Vejam como são as coisas. Duas Alices: uma acabando de chegar, trazendo alegria a todos, sem a menor ideia do que a espera; a outra, com tantos anos já vividos, atravessando um momento tão triste e sem muito que esperar dos anos que vida que restam. Inexplicavelmente, eu me transporto para aquela cadeira de rodas e me imagino velhinho, doente e sem forças. Desejo, então, não falhar com a educação da Alice, para que, caso eu precise, ela siga o exemplo da dona Alice e não me abandone.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Romantismo é coisa do passado

Um dos grandes desafios que surgem com o passar dos anos é a maneira como lidamos com as mudanças nos costumes da sociedade. Mudam-se as roupas, mudam-se os comportamentos, mudam-se as normas de conduta. Há, obviamente, muitas coisas que mudam para melhores, mas outras que, no meu entender, seguem na direção oposta. É o caso, por exemplo, dos relacionamentos.
Venho das saudosas décadas de 80 e 90 e hoje estou me aproximando dos 40 anos. Na minha época de adolescência, eu pensava para “namorar” uma mulher, era preciso namorá-la primeiro. Curiosamente, minha forma de pensar já era ultrapassada para aqueles tempos. Não por acaso os botões de rosa que eu colocava à noite nas portas das casas de minhas “paqueras”, sempre com um verso originalmente criado por mim e inspirado na pretendente da vez, nunca davam em nada. Isso, obviamente, quando alguma menos espirituosa não dizia que eu estava fazendo papel de bobo (o que equivale hoje à expressão “pagando mico”). Já naquela época as moças se sentiam mais atraídas pelos homens mais falantes – curiosamente, eram os que menos estudavam!!! – e mais bonitos. Mas e o romantismo? Será que as mulheres não gostavam mais de homens que abriam as portas, eram gentis e educados? Não, naquela época elas já não gostavam...
Certa vez uma colega da casa de pós-graduação me disse que para ser seu namorado, o homem devia enviar flores, abrir a porta do carro, escrever versos e tantas outras coisas mais que eu sempre achei que deviam ser feitas. Por fim, ela disse que preferia ficar solteira a namorar um homem que não tivesse essas qualidades. Eu endossei o discurso dela e teria me tornado um grande fã desta moça, não fosse pelo fato de ela, à noite, ter “enchido a cara”, tomado todas e, no fim da noite, ter transado com um colega nosso. Ora, imaginem como eu fiquei confuso... Afinal, pra ser namorado tem que ser romântico; pra transar, não?
De lá pra cá já se passou uma década. “Ficar”, hoje em dia, é quase sinônimo de ter relação sexual. O beijo tornou-se uma coisa banal: beija-se várias pessoas em uma única noite, sem haver qualquer compromisso entre os beijantes – muitas vezes, as pessoas que se beijam são completamente desconhecidas umas das outras. Que coragem! Ou seria irresponsabilidade?
Fico me perguntando onde vamos parar. Como serão os relacionamentos dos meus filhos? Daqui a uns 10 anos (ou não seriam tantos anos assim?) como estarão as relações humanas? Eu não faço a menor ideia. Apenas acho que houve um certo exagero na liberação da mulher, que hoje parece querer imitar o homem na sua promiscuidade afetiva. “Direitos iguais”, dizem elas com a devida razão. De qualquer forma, eu sinto falta de ver casais românticos, que namoram por anos e depois constroem famílias maravilhosas, como antigamente. Particularmente, tive a sorte de casar-me com uma mulher perfeita para mim. Mas e meus filhos? Será também o Miguel tachado de bobo (até lá acharão um outro sinônimo pra “bobo”) por ser romântico? Ou ele será como os outros? E a Alice? Como será a mulher moderna? Devo educa-la como na minha época ou isso só lhe traria sofrimento?

Ao final deste post, há uma única conclusão a que chego: estou ficando realmente mais velho a cada dia... Não apenas em corpo, mas também em espírito. E as coisas vão se tornando cada mais complicadas....